<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5083977141388149462</id><updated>2012-01-18T11:26:13.679-08:00</updated><title type='text'>LITERATURA – REVISTA DO ESCRITOR BRASILEIRO</title><subtitle type='html'>Todas as edições da Revista, desde o número inicial, de janeiro de 1992.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://literaturarevistadoescritor.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5083977141388149462/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturarevistadoescritor.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Literatura sem fronteiras – niltomaciel@uol.com.br</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02139040655064684179</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='29' src='http://2.bp.blogspot.com/_-DY4fAQtLiM/TOMWPRdzNeI/AAAAAAAABBU/IGhhAX5kHbU/S220/Apresentando%2Ba%2Bcolet%25C3%25A2nea%2BContos%2BCru%25C3%25A9is%252C%2Bem%2BFortaleza.bmp'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>35</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5083977141388149462.post-6997719616607657981</id><published>2008-10-28T13:14:00.001-07:00</published><updated>2008-10-28T13:45:23.133-07:00</updated><title type='text'>Número 35</title><content type='html'>Literatura - Revista do Escritor Brasileiro n° 35&lt;br /&gt;Ano XVII, setembro de 2008&lt;br /&gt;Iniciada em janeiro de 1992, em Brasília&lt;br /&gt;ISSN 1518-5109&lt;br /&gt;Editor/fundador: Nilto Maciel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE&lt;br /&gt;Capitu manda flores para Machado de Assis, cem anos depois de sua morte&lt;br /&gt;Dois trovadores: Hardi Filho/Chico Miguel (artigo de Rejane Machado)&lt;br /&gt;A cortina invisível (conto de Enéas Athanázio)&lt;br /&gt;Dizer o que de ti, Fortaleza? (depoimento de Caio Porfírio Carneiro)&lt;br /&gt;América do Sul (poema de Jorge Tufic)&lt;br /&gt;Minicontos de Clauder Arcanjo&lt;br /&gt;Cachorro sem dono (artigo de Paulo Krauss)&lt;br /&gt;As luzes da sombra (poema de Lina Tâmega Peixoto)&lt;br /&gt;Conto de Raymundo Netto&lt;br /&gt;A leste da morte (artigo de Dias da Silva)&lt;br /&gt;O punhal e a trama (poema de Claudio Sesín, traduzido por Anderson Braga Horta)&lt;br /&gt;O conto (conto de Cissa de Oliveira)&lt;br /&gt;Arquitetura do homem (artigo de Hilda Mendonça)&lt;br /&gt;Desterro (poema de António Salvado)&lt;br /&gt;A herdeira (conto de Batista de Lima)&lt;br /&gt;Mortos não jogam xadrez (artigo de Astrid Cabral)&lt;br /&gt;Tenho medo (conto de Hiirís Lassorian)&lt;br /&gt;Simetria (poema de Ana Maria Ramiro)&lt;br /&gt;Carnavalha: uma alegoria da loucura humana (artigo de Márcio Catunda)&lt;br /&gt;Tripé do tripúdio (conto de Glauco Mattoso)&lt;br /&gt;Explicações (poema de Teresinka Pereira)&lt;br /&gt;Assombroso mundo dos vivos (artigo de Batista de Lima)&lt;br /&gt;O boi santo (poema dramático de Nilto Maciel)&lt;br /&gt;Microcontos de Liana Aragão&lt;br /&gt;Banquete para Lobato (artigo de Enéas Athanázio)&lt;br /&gt;Caminhada (conto de Caio Porfírio Carneiro)&lt;br /&gt;O tempo e a hora/ Now ist the time; Se não fosse.../ Si rien n’avait èté (poemas de           Francisco Miguel de Moura e traduções de Teresinka Pereira e Jean Paul Mestas)&lt;br /&gt;Conversa decisiva (conto de Valéria Nogueira Eik)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capitu manda flores para Machado de Assis, cem anos depois de sua morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num desafio criativo sem precedentes, 40 autores brasileiros contemporâneos reescrevem contos famosos de Machado de Assis, recontando, à luz de hoje, histórias que o bruxo tornou eternas.&lt;br /&gt;No centenário da morte de Machado de Assis, a Geração Editorial lança uma coletânea audaciosa e sem precedentes: um grupo de 40 autores brasileiros de alto nível pratica o exercício original, estimulante e desafiador de recriar, a partir do tema, dez das melhores histórias do maior escritor brasileiro de todos os tempos. O livro - “Capitu mandou flores” (Geração Editorial, 528 págs., R$ 49,90) surgiu da idéia do premiado contista, doutor em Letras pela Unicamp e professor universitário Rinaldo de Fernandes, autor de antologias de sucesso como “Contos Cruéis” e “O Clarim e a Oração”, da mesma editora.&lt;br /&gt;Na década de 70, o escritor Osman Lins já havia proposto a cinco autores – Antonio Callado, Autran Dourado, Julieta de Godoy Ladeira, Lygia Fagundes Telles e Nélida Pinõn –, além dele próprio, recriar o lendário conto “Missa do Galo”, o que fizeram com grande maestria e resultou no livro Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema. Ninguém, até agora, havia proposto a empreitada de se recriar 10 histórias e publicá-las juntamente com as recriações.&lt;br /&gt;Na presente antologia, os dez contos reescritos são o próprio “Missa do Galo” e ainda “A Cartomante”, “O Espelho”, “Noite de Almirante”, “A causa secreta”, “Pai contra mãe”, “O Alienista”, “Uns braços”, “O Enfermeiro” e “Teoria do medalhão”. Para ampliar o projeto, alguns autores recriaram também trechos e situações do romance Dom Casmurro. Além dos contos originais de Machado de Assis – e um resumo de Dom Casmurro – o livro contém também cinco ensaios sobre a obra de Machado.&lt;br /&gt;Para que serve um livro como este? Em primeiro lugar, informa a editora, trata-se de um reencontro com a obra de Machado de Assis, nos cem anos de sua morte. Ler – para as novas gerações – ou reler 10 das melhores histórias de Machado é sem dúvida uma experiência literária e humana muito rica. Ler como autores consagrados, emergentes ou promissores recontaram as mesmas histórias é também exercício intelectual mais do que estimulante.&lt;br /&gt;Entre os autores, estão consagrados como Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Hélio Pólvora e outros, emergentes, como Daniel Piza, André Sant'Anna, Fernando Bonassi e Nelson de Oliveira. Veja aqui a lista completa, por ordem alfabética: Aldo Lopes de Araújo, Aleilton Fonseca, Amador Ribeiro Neto, André Luís Gomes, André Sant’Anna, Andréa del Fuego, Antonio Carlos Secchin, Bernardo Ajzenberg, Carlos Gildemar Pontes, Carlos Ribeiro, Cecília Prada, Daniel Piza, Deonísio da Silva, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Godofredo de Oliveira Neto, Hélio Pólvora, Ivana Arruda Leite, João Anzanello Carrascoza, Leila Guenther, Luiz Costa Lima, Lygia Fagundes Telles, Marcelo Coelho, Maria Alzira Brum Lemos, Maria Valéria Rezende, Marilia Arnaud, Mário Chamie, Moacyr Scliar, Nelson de Oliveira,  Nilto Maciel, Pedro Lyra, Raimundo Carrero, Regina Zilberman, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Cagiano, Sérgio Fantini, Silviano Santiago, Sônia Maria van Dijck Lima, Suênio Campos de Lucena, Tércia Montenegro, W. J. Solha.&lt;br /&gt;A Geração Editorial acredita que este livro ficará entre as obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Rejane Machado*&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;DOIS TROVADORES: HARDI FILHO/CHICO MIGUEL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 Dois amigos a realizar um jogo floral. Cerimônia das mais significativas nos albores de um século marcado por todos os tipos de experiências intelectuais. Originalíssima tertúlia. É significativo que este “desafio” tenha por formato o soneto, que tem pelo menos 500 anos de existência!&lt;br /&gt;                 Estamos lendo Tempo e Contra Tempo, gracioso livro escrito por dois gigantes da poesia piauiense, uma pequena amostra, melhor diríamos, uma síntese da sensibilidade de dois amigos, tão bom um como o outro, numa realização tão bonita, tão nobre, tão alta, que nos comove o coração. Ousamos dizer que há muito não se edita algo tão especial na sua delicadeza de conteúdo. Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura se mostram, nesse exercício, dois mestres do antigo ofício de porta-vozes do Olimpo. A partir de um retrato numa parede, questionado em sua fidelidade ao modelo: /“cujo semblante causa-me estranheza”/ um poeta, (Hardi) reflete com amargura: já não é a mesma pessoa. Aquele ser aprisionado na moldura é um estranho. E qual a razão da mudança? O tempo, ele conclui, Chico Miguel, o outro bardo, completa e enigmatiza: “tempo passante é sol, passado é lua/e o futuro? Nem Deus sabe de nada”/&lt;br /&gt;                  O homem é apenas um ser sujeito à temporalidade, e como tal mutável em sua forma. Mas o espírito! Este não é afetado por aquele fator. Apenas pelo seu aspecto metafísico concreto x abstrato. Em sua natureza o ser é uno, indivisível, sujeito, porém, a variações do seu psiquismo, este por sua vez dependente de fatores imponderáveis, que afetam tremendamente sua vida humana y compris suas disposições para o viver: a temporalidade é marca da condição humana.&lt;br /&gt;                   Impressiona-nos a qualidade deste jogo entre dois excelentes poetas. Eles manuseiam com grande naturalidade essa forma difícil que é o soneto, observando todas as regras do gênero, cultivando rimas, métrica, musicalidade nos versos, chaves de ouro e demais procedimentos indispensáveis ao bom desempenho da antiga e encantadora forma poética. Ressuma um ar de repentistas em sua dialética, e na técnica da execução, original forma de glosar um mote, tendo-se em vista o histórico da peleja bem esclarecida no excelente prefácio de Altevir Alencar, que nos apresenta as motivações dos dois poetas. Nada haveria mais a acrescentar, senão ressaltar a qualidade intelectual desses dois amigos que tão originalmente se digladiam em altíssimo nível ao redor deste tema: o tempo que passa e que a tudo consome, levando consigo todos os valores da juventude, mas deixando em contrapartida o valioso legado da experiência; reflexionando belamente sobre a categoria mais importante da vida humana a que todos estamos sujeitos, fazendo-nos títeres das injunções do Sein und Zeit. &lt;br /&gt;                   Poesia que a partir da visão de uma imagem alterada pelo tempo fará todo um questionamento sobre a vida humana, seus valores, sua duração, seu destino. E o resultado é um belíssimo estojo onde guardam as mais belas jóias: a poesia deste Tempo contra Tempo.&lt;br /&gt;                    Numa parede o retrato de um jovem. O que leva o poeta Hardi a sentimentos amargos, após compará-lo com o seu reflexo no espelho ao barbear-se. Sente-se ele, um anacrônico simulacro do que foi no passado. Constata a estranheza: não é ele, aquele jovem foi empolgado pelo tempo! E queixa-se disso ao amigo (FM) que o ouve e consola: talvez o poeta não tenha mudado tanto como pensa. À semelhança de algo que não foi bem olhado e pior visto, tal como uma moça malsentada (FM) de quem um olhar bem-educado evita a exposição direta – a moça mal vestida – é, entretanto, olhada ligeiramente, disfarçadamente, (como a reparou o solerte poeta FM) que acrescenta: “o tempo é assim, nem novo nem tão velho” e ela logo será esquecida, como visão fugidia que não marcou. Importante é o dado concreto que condiciona a vida humana e o poeta, insiste, não mudou, apenas se olhou mal, enfatiza: como se olha para uma moça “malsentada.”&lt;br /&gt;                    O primeiro retorna, compromete-se com a explicação do outro: /“É bem de ver que a “moça malsentada”, / referida em teu ótimo soneto,/ é uma visão que deve ser lembrada/   (...) / e com ela também me comprometo.”/&lt;br /&gt;                    Mas continua firme na observação que constata os estragos temporais. FM insiste, não houve, em essência, mudança. E aqui se inscreve a dialética que subjuga o homem: o ser / o parecer – o espaço é que mudou, é outro agora, conseqüência do olhar apressado, enviesado, como se olha rapidamente, olhando sem querer olhar, para aquela  moça descuidada, “malsentada”, a tentar proteger-se de olhares invasivos, curiosos, que pretendem ver mais do que o que em realidade  aparece.  E o olhar ali não se demora, porque não é de bom tom, é praticado de viés, ou melhor, de retroviés (FM) “como quem olha sem estar olhando” (ainda na pág. 8, HF).  Alegoria da mocidade que se foi, FM analisa o belo quadro: / “Tempo não morre e suicídio ignora. / Mas se acaso morrer renasce e enflora /  na imagem da moça malvestida.”&lt;br /&gt;                    Estivesse ela, a moça malsentada, bem-vestida, ou seja, com decoro e modéstia, não haveria perturbação. Mas o olhar passando sobre ela virá causar desordens, inaugurando um novo tempo, melhor, uma nova dimensão. Enquanto o olhar a percorre, se estende, se amplia, se transforma, ganhando um novo significado:  / “Pois viva a moça, o renascer da vida!”/  (FM, pg.11)&lt;br /&gt;                    É um original duelo, do qual não há vencedor nem vencido.  Ambos excelentes poetas, de altíssimo nível, elevando a poesia moderna a píncaros inusitados, nunca desprezando suas origens nobilíssimas, mas aproveitando-se de todo o contributo dos séculos, da tradição clássica. E muito mais significativo, quando se reflete no que a poesia foi modernamente transformada, nesta tão perversa atualidade medíocre, após tantas experiências infelizes, que alargaram desmesuradamente as suas fronteiras, fazendo em seu espaço sagrado penetrar quem dela não tem noção mínima; sacramentando o equívoco, pois o Modernismo não soube defini-la, permitindo que qualquer sandice escrita linha por linha receba o nome de Poesia, e de poetas os seus praticantes. Como resultado, imprimindo-se tanta nulidade sob a vetusta denominação.&lt;br /&gt;                       Há momentos em que a fina expressão de HF se restringe mais à norma culta, ao sentido nobre, ao tema elegante, enquanto F. Miguel prefere a palavra mais coloquial, o estilo mais descontraído, mais “moleque,” menos formal,  como quem brinca para diminuir a tensão. O que não é, de nenhum modo, demérito, ao contrário, senhor da palavra, ele pode se dar o luxo lexical. Até mesmo como quem se ri da desgraça para, nobremente, aliviar a angústia existencial do amigo, minimizá-la numa superioridade de propósitos, como se espera da verdadeira amizade – parecendo não dar tanta importância ao fato que amargura o outro, desvalorizando o inexorável, insustentável peso da realidade, antes a zombar dela, experiente, sabendo que é necessário um olhar mais profundo para alcançar, sob a forma externa, a autêntica verdade, o fundo verdadeiro, a essência, o ôntico.&lt;br /&gt;                       FM volta à carga: /“Quero insistir que a moça malsentada/ é o mais lindo dos quadros que conheço,/ e aquele vestir pouco não tem preço,/ faz a curva da idade abençoada/.”&lt;br /&gt;                      Enquanto que Hardi duvida que se possa ver o tempo da mesma maneira que à moça na calçada, entretanto se reanima, reconhece o papel do amor (pág. 12) em cuja mão é bem conduzida “a escrita do presente e do futuro”.&lt;br /&gt;                      O pragmático F. Miguel refuta a completude dos espelhos que “nesse particular tem meu respeito/ pois a mão que os produz, produz sonetos”. Nihil obstat – decreta: Viver o tempo, não considerar o trabalho, “como um deus?” /Viver em vez do dia, a noite e seu orvalho/ em vez da terra as luzes lá dos céus”/ – receita do poeta para o que não tem remédio. HF não acha possível definir o tempo em nível poético: se ele salva-nos da mesmice, tudo consome, entretanto, na sua caminhada inexorável. Mas FM contradiz: se nós passamos, ele também vai  se consumir, vai passar, “há de chegar ao fim”. A pergunta de Hardi, agora, é: o tempo existe? O peso dele é desumano e o poeta se acaba em dúvidas, concluindo: “tempo ganho é também tempo perdido”. A resposta vem, em forma de obra prima, com todas as antíteses possíveis de significado, em nuances várias, cheias de contradições, características do pensamento filosófico: “tempo é o que bate em nosso coração” ( Chico Miguel). (...) “um tempo amado e um tempo de canção” (...) “um tempo acumulado em tempo-sim” “e um tempo esvaziado em tempo-não”– magnífico fecho de magnífico  trovador.&lt;br /&gt;                     Procedimentos poéticos vários, dentro da estrita forma fixa, como movimento dialético, ocorrendo antíteses, veja-se “Acerto dos contrários”, pág. 40 (de Hardi), com sua magistral conclusão: o silêncio de luz do pensamento – construções circulares, leixa-pren (procedimento da poética medieval, no retomar de um verso ao final e elaborar a partir dele uma nova seqüência) ritmo regular e métrica rigorosa, a boa e ortodoxa técnica do alexandrino à pág. 53 a demonstrar a versatilidade de Chico Miguel, com bastante liberdade de expressão no uso das figuras de pensamento e de palavra e na escolha das camadas mórficas e sintáticas. Noto o bom uso das convenções literárias, o amor cortês, a delicadeza com que se aproximam do ideal, o carpe diem, ubi sunt, enfim, esses dois poetas brincam com as expressões, revirando-as pelo avesso, extraindo-lhes todas as possibilidades expressivas. Na pág. 51 note-se uma construção bilaqueana, a ocorrência de metalinguagem. E nas 54/55 voltam a brincar com o mote: do último FM para o primeiro de HF.&lt;br /&gt;                         Dissemos: mote glosado, em que um deles apresenta a idéia e o outro se apropria dela, numa ocorrência sutil dos verbos dicendi, quase à semelhança de um diálogo em que os dois terçam suas armaduras poéticas – e dissemos construção circular. Demos um exemplo à página 47, na qual F. Miguel termina sentenciando: “o tempo somos nós e o mundo inteiro”, que Hardi retoma e inicia à pág. 48: “O tempo somos nós e o mundo inteiro”.&lt;br /&gt;                        Voltemos também à graciosa imagem recorrente da moça malsentada em justa e curta saia que faz o versejador Hardi, em estado de sonetear, se sentir igual a ela, desconfortável, tentando proteger-se de olhares cúpidos, safados, mas “revejo a cena e nela me aconteço”, utilizando-se da expressão maravilha de visão – salvando-se do esperado naufrágio ao contrário, e gloriosamente atingindo “aquela nobre praia” com louvor. A distância enorme entre o retrato e o retratado provocando a angústia da constatação da corrosão a que tudo está sujeito fá-los concluir que “o tempo é um contratempo” e masoquísticamente chorando pitangas: “Que saudade de nós daquele tempo!” FM retoma este sentimento e HF aceita o irremediável, as escoriações que o tempo causou ao corpo afetando uma alma diamantina.&lt;br /&gt;            Concluem que o mais importante é a permanência da poesia e o maior valor a amizade que o tempo consolidou. Chico Miguel liga o carro da poesia. Sua visão pragmática conclui que não há despedida, que a gente volta sempre ao mesmo tempo, o que quer dizer: permanece a chama acesa da poesia, que consola, honra e preserva.&lt;br /&gt;                         Obra-prima de lavor e invenção, de inspiração superior, esse belíssimo livro, que mereceria figurar em todas as bancas e livrarias, fossem mais sensíveis ou inteligentes os responsáveis pela divulgação da boa literatura brasileira. De parabéns esse pequeno grande Estado (Piauí) que tão grandes poetas produz. De parabéns nós todos, brasileiros, por podermos contar com uma obra que honra nosso passado de excelentes escritores, de grandes artistas do verso, e que nos permite ter esperanças ao ler obras desse quilate, em meio  à enxurrada de  equívocos editados modernamente.&lt;br /&gt;______________&lt;br /&gt;*Rejane Machado, doutora em Letras, crítica literária, contista várias vezes premiada, seu inédito O outro lado das coisas está prometido para outubro/2008. Romancista: Informação a um desconhecido foi editado no Rio, em 2000. &lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas Athanázio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CORTINA INVISÍVEL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem os amigos mais chegados poderiam suspeitar. Era assunto situado numa região em que as confidências não chegavam e que ele defendia apenas para si. Na verdade, o próprio Janary Messias encarava aquilo com surpresa e sua alma de campeiro ficava um pouco escandalizada com o inusitado da situação. No seu íntimo se misturavam o receio do sacrílego e o prazer daquela sensação estranha.&lt;br /&gt;Aquilo começou há muito tempo e fora evoluindo devagar sem que ele percebesse. Desde mocinho o advogado cultivava com fervor aquela devoção e não foram poucas as situações difíceis em que apelou à Santa. Eram apelos silenciosos e secretos, na paz da igreja vazia (só assim a freqüentava), no movimento da rua, nas lutas dos tribunais. E tinha a convicção de que nem uma vez ficara ao desamparo.&lt;br /&gt;A Santinha era um ente familiar e com ela conversava sem rodeios ou formalidades, até mesmo reclamando quando tardava algum atendimento. Conhecia-lhe a vida e as virtudes, embora não fosse muita coisa, pois era pouco venerada na sua região. Conhecia as poucas imagens existentes por ali e não se cansava de admirar uma delas, de faces cândidas, e cujos olhos muito vivos pareciam brilhar de alegria quando ele se aproximava. Nas poucas visitas que fazia à mãe, na Fazenda do Umbu, a velha ficava admirada com o seu interesse por aquela Santa, quando conseguia arrastá-lo até a capela. Tinha o filho doutor como ateu incurável e Janary temia que ela desconfiasse de alguma coisa inconfessável.&lt;br /&gt;“Ora, mamãe! – replicava. – É curiosidade.” Explicava todo atrapalhado. &lt;br /&gt;Mas era na cidade, longe do olhar atento da coronela do Umbu, que ficava à vontade. Postava-se diante da estátua por longos minutos, como que decorando detalhes. Admirava a nobreza da testa, o brilho do olhar, a suavidade do queixo, as covinhas do rosto. “Que pessoa maravilhosa! – pensava. – Por que morrer tão jovem?” E dali, humilde e devoto, atirava-lhe pedidos e orações.&lt;br /&gt;As visitas espaçadas foram ficando mais seguidas e acabaram quase diárias. A um amigo e companheiro de viagens que notou aquilo, justificou com a arte da imagem, os dotes do escultor. O outro, caboclão sestroso para quem essas histórias de arte eram coisa de maricas, fez cara de gozo e largou uma gaitada.&lt;br /&gt;“Ué, gente! Ué, gente!”&lt;br /&gt;Mas Janary sentia que a coisa se agravava. Examinando processo ou estudando algum tratado, a imagem santificada se intrometia no vão das páginas e aquele rosto suave parecia colocar-se diante dele. Via com nitidez os olhos brilhantes e as covinhas das faces se movendo num sorriso que em outra pessoa, em outra mulher, ele diria... matreiro! Mas aquela idéia era um absurdo, uma barbaridade! Persignava-se, pedia perdão, caminhava horrorizado pelo escritório, esforçava-se para mudar de pensamentos.&lt;br /&gt;Às vezes acordava durante a noite. Ficava silencioso no quarto escuro, estirado na cama de solteirão. Não tardava e a Santinha assaltava sua imaginação. Imaginava-a vestida em roupas modernas, com os cabelos soltos, jóias, alguma pintura no rosto pálido. Como ficaria linda! Via-a sorrindo – pela primeira vez – com a dentadura alva e perfeita iluminando as faces. Era tão forte aquela fantasia que esticava os braços para fora das cobertas como se quisesse tocá-la. Mas o ar gelado da noite agredia-lhe as mãos e Janary recaía na realidade solitária. Levantava-se, caminhava pela casa, rezava. Tinha a sensação aguda de que fazia alguma coisa errada, apesar do lirismo e da pureza daquele sentimento que o abismava.&lt;br /&gt;Procurava distrair-se. Corria de carro a cidade e os arrabaldes, metia-se nas rodas do Café, permanecia muito tempo nos grupos do Fórum. Tentava interessar-se pelas coisas da política, sua velha cachaça.&lt;br /&gt;Tudo inútil.&lt;br /&gt;Mal sentava à mesa do escritório e a silhueta esguia começava a esboçar-se. A figura feminina ia se desenhando nos menores detalhes e ele via, ao alcance da mão, a mulher mais linda que poderia imaginar, beleza viva, colorida, brilhante, como se dela se desprendesse uma aura. E ela sorria com suavidade, os olhos cheios de ternura.&lt;br /&gt;A qualquer tentativa de aproximação, o quadro mudava, ia se desvanecendo, ia se apagando como se uma cortina invisível se colocasse entre os dois.&lt;br /&gt;Janary procurava conversar, mas suas palavras ecoavam sem resposta no escritório. O sorriso dela, no entanto, acentuava as covinhas e o brilho sem igual daqueles olhos.&lt;br /&gt;Vinha-lhe o impulso irresistível de ir à igreja e se postar diante da imagem. Tinha ímpetos de ir ao Umbu e aconselhar-se com a mãe; de procurar o padre Pedro. Mas recuava. Eles iriam imaginar que não estava bom da cabeça. E nunca estivera tão lúcido!&lt;br /&gt;O advogado procurava pensar, analisar as coisas com frieza, esquadrinhar tudo com a lógica que aplicava aos seus casos. Esquentava a cabeça e a nenhuma conclusão chegava, ou chegava sempre à única conclusão – estava apaixonado pela Santa! Uma paixão frenética e desesperada como a do colegial pela primeira namorada, uma  paixão avassaladora que absorvia o corpo e a mente, que roubava o sono e perturbava a paz.&lt;br /&gt;Sabia que era um amor irrealizável e um sentimento sacrílego que precisava combater. Mas seu esforço era vão. Quanto mais lutava mais se sentia dominado.&lt;br /&gt;Perplexo, impotente, desconcertado, resolveu deixar que o Tempo corresse.&lt;br /&gt;Tempo é remédio.&lt;br /&gt;__________________________&lt;br /&gt;E o Tempo passou.&lt;br /&gt;Passaram os dias, passaram os meses, passou o ano.&lt;br /&gt;Janary Messias estava feliz, vivia alegre e satisfeito. Incapaz de vencer aquele amor, a ele se entregou. Varreu da consciência os medos e os preconceitos, convencido de que a correspondência da Santa era prova de que não havia mal.&lt;br /&gt;Porque ela, a cada dia, chegava mais perto, sorridente e bela. Ainda havia a cortina invisível, separando, mas no futuro ela teria que desaparecer.&lt;br /&gt;Essa certeza enchia-lhe o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caio Porfírio Carneiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIZER O QUE DE TI, FORTALEZA?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Em 1997, o poeta Arthur Eduardo Benevides, presidente da Academia Cearense de Letras, promoveu uma bela sessão solene na Academia para homenagear uns cinco cearenses ilustres. E lá me meteu o grande poeta entre os ilustres. Fomos saudados pelo meu querido e saudoso amigo Dorian Sampaio. Cada um de nós recebeu um belo diploma. Ao chegar a minha vez, de improviso e para a minha própria surpresa, que não preparara nada, pronunciei as seguintes palavras: “Transferi-me para São Paulo há quarenta e dois anos. Creio que retornei ao Ceará, nesse espaço de tempo, umas sessenta vezes. Então não saí do Ceará. Apenas mudei a minha residência para um lugar mais distante.” Fosse hoje aquela generosa homenagem, eu alteraria o final do meu elíptico discurso: “Transferi-me para São Paulo há cinqüenta e três anos. Creio que retornei ao Ceará, neste espaço de tempo, umas oitenta vezes.”&lt;br /&gt;            Não é exagero. Retorno à minha querida cidade praticamente de seis em seis meses. Eis porque acompanhei o seu crescimento e acompanhei e acompanho a vida dos amigos da minha geração, muitos deles já em plagas desconhecidas. Fiz amigos novos, participo ou tomo conhecimento de perto da vida literária e cultural de Fortaleza e colaboro em suplementos e revista locais.&lt;br /&gt;            Por que este meu amor à cidade que me viu nascer, em 1928, dia 1º de julho, às onze horas da manhã, uma quinta-feira, na Rua 24 de Maio, entre as ruas Clarindo de Queirós e Antonio Pompeu, lado da sombra? Saudade da Praça São Sebastião, para onde me mudei aos seis anos de idade, e me deslumbrava com aquele areal enorme e aquelas mungubeiras farfalhantes, com desocupados dormindo à sombra delas? Saudade da minha religiosidade junto aos padres sacramentinos, da igreja de São Benedito? Saudade do meu tempo de liceísta e das aventuras amorosas? Saudade do meu ateísmo meio desvairado e dos vivas a Luís Carlos Prestes, que deixaram os padres sacramentados danados da vida? Saudade do meu tempo de jornalista d’O Democrata, do Partido Comunista? Saudade dos comícios lá para os lados dos bairros do Pici, do Cocorote e de Maraponga, em cima de um tamborete, sem um tostão no bolso, falando para meia dúzia de pessoas humildes e perplexas, procurando derrubar o imperialismo americano? Saudade dos cabarés baratos? Saudade das namoradas? Saudade das discussões sobre política e literatura, com os amigos da Faculdade de Filosofia, dos irmãos Maristas, período particularmente rico na minha vida? Saudade da Agência da Panair do Brasil (firma Celso Nunes), onde comecei no balcão, despachando encomendas, e três anos depois assumia a gerência do escritório, com bom ordenado, metido sempre no linho S-120 e na casimira inglesa? Saudade das serenatas à janela das Julietas? Saudade da efervescência literária da minha geração, que nos levava a ler e a admirar os maiorais da terra?&lt;br /&gt;            Uma vida que teve tudo para golpear estas saudades. Quando eu pensei que estava lá em cima, vim abaixo num escorregão só. Fiquei tuberculoso aos vinte e quatro anos de idade. Quatro meses no sanatório de Messejana e três anos em casa tomando pneumotórax. Fui jogado às traças. Todos tinham medo do contágio. A minha doença era uma AIDS na época. Poucos amigos me visitavam. Perdi o emprego, perdi namorada, tudo. Na Rua Princesa Isabel, onde eu residia, eu era quase um leproso para os moradores dela. Eu dava uma voltinha na Praça de Ferreira, centro da cidade, e voltava ligeiro, porque os conhecidos só me saudavam de longe.&lt;br /&gt;            Um irmão, bem situado no Sul, foi a Fortaleza e trouxe para São Paulo toda a família. Lembro-me bem que falei aos poucos amigos que não me abandonaram: “Nunca mais ponho os pés nesta cidade.”&lt;br /&gt;            Aqui na paulicéia, cercado pelos cuidados familiares, morreu o burocrata aeroviário de Fortaleza e nasceu o escritor. E veio de mansinho, nas noites frias paulistanas, uma inexplicável saudade de Fortaleza. Uma saudade diferente, que ia além de toda a minha vida vivida nela. Uma saudade da alma da cidade, que não tinha culpa das minhas vitórias e reveses. Então, com poucos meses aqui, falei para o mano que eu queria rever Fortaleza. Ele se espantou: “Já?!”&lt;br /&gt;            E voltei. Os amigos, e eram muitos, voltaram. A doença, que me abalou tanto, ficou esquecida no passado. O que me importou, na primeira volta, foi tomar uma cerveja e uma sopa de cabeça de peixe no Passeio Público.&lt;br /&gt;            E a ponte se fez, a lançadeira vai-e-volta continuou ininterrupta até hoje e irá em frente até não sei quando. Tal como afirmei no início: nestes cinqüenta e três anos de residência em São Paulo voltei a Fortaleza umas oitenta vezes.&lt;br /&gt;            Evoluí muito, ao correr dos anos, nas minhas produções literárias, para melhor ou para pior, não sei. Mas as minhas raízes perduram, como um contra-espelho, nas terras do meu sertão, lá para os lados de Santana do Acaraú, e em Fortaleza, cidade dos meus amores (um pouco de romantismo piegas até que é bom...).&lt;br /&gt;            É tão marcante essa presença que grande número de contos dos meus livros foram escritos em Fortaleza. Em Maiores e Menores (contos, 2002), publico, no final, uma “Oração a Mim Mesmo”, onde firmo, quase que numa prece, o tripé da minha vida: a fazenda, herança dos avós paternos, com muito da geografia e da alma do Trapiá, meu livro de estréia e do coração; Fortaleza, onde nasci e me fiz homem; São Paulo, onde resido desde o dia 17 de novembro de 1955. O segundo tripé, referente à Fortaleza, aqui vai: “Segundo Mistério”: “À cabeceira desta mesa, cercada de cadeiras silentes de encostos altos, deixo que os olhos vagueiem no trecho da cidade lá fora, carros deslizando no asfalto, lancetear de alucinações, espraiando e subindo aos céus dentro do tempo que avança. Do borralho do passado emerge o berço da infância entre ruas sonolentas, da Fortaleza dormitante e cochilante, no colchão quadriculado do areal que a cercava, pontilhado de casebres derreados, o mar quebrando mais distante.&lt;br /&gt;            E eu me vejo aqui, só aqui, que o passado é o passado, o presente uma abstração, e o futuro se encurta e se encolhe, que pouco para mim será.”&lt;br /&gt;            No meu livro Gramíneas, quase todo escrito em Fortaleza, publico um poema sobre a cidade. Não importa que Dante me amaldiçoe com as suas cinzas multi-seculares; não importa que Camões ordene que eu “cesse tudo”, que o valor dele mais alto se alevantou; não importa que o espírito de Drummond ponha pedras no meu caminho; não importa que todos os poetas da minha terra, dos maiores aos menores, do passado ao presente, gritem que poeta não sou.&lt;br /&gt;            Meu estro é quase nada, que as musas não me ajudam, mas o poema que me palpita no coração é enorme, em palavras mudas. Então esta mensagem (poesia?) fica aqui registrada. Minha homenagem (e quem sabe meu pedido de perdão por ser tão pequena e pálida) à Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fortaleza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De ti, o que dizer, Fortaleza?&lt;br /&gt;O que valem palavras?&lt;br /&gt;Tão nulas.&lt;br /&gt;Abri os olhos no teu seio,&lt;br /&gt;que acolheu o meu suspiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizer o que de ti,&lt;br /&gt;se te integraste à minh’alma,&lt;br /&gt;és essência de mim mesmo?&lt;br /&gt;Trocaríamos palavras nulas.&lt;br /&gt;O silêncio é a solução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos cantam sua terra...&lt;br /&gt;Como vou cantar a minha&lt;br /&gt;se eu cantaria a canção eterna&lt;br /&gt;que vive dentro de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não cantarei as raízes que vêem dos avós. Leiam o Trapiá. Ele, em prosa, dirá tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge Tufic*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AMÉRICA DO SUL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o boné de Pablo Neruda&lt;br /&gt;e a lágrima fluvial de Santos Chocano,&lt;br /&gt;e o grito de Allende&lt;br /&gt;(enquanto os fuzis do terror e do medo&lt;br /&gt;repetiam o massacre da liberdade),&lt;br /&gt;venham flocar este chão consagrado&lt;br /&gt;por tantos modos e cantos diferentes,&lt;br /&gt;oh América do Sul.&lt;br /&gt;Os cravos de tuas noites mergulham&lt;br /&gt;na plumagem das Cordilheiras,&lt;br /&gt;e os ramos da paz que te ilumina&lt;br /&gt;e o relincho das pedras que desenham&lt;br /&gt;bizontes e tempestades,&lt;br /&gt;pousam como fósseis alados&lt;br /&gt;em tuas crinas de esmeralda.&lt;br /&gt;De Santa Marta à Terra do Fogo&lt;br /&gt;tuas espigas rebentam colares de jade&lt;br /&gt;e cintilam nas máscaras de ouro&lt;br /&gt;roubadas aos templos do sol&lt;br /&gt;e às pirâmides da lua.&lt;br /&gt;E ao sopro nativo da flauta&lt;br /&gt;exilada entre colméias,&lt;br /&gt;um tesouro de vasos, borboletas&lt;br /&gt;e animais de uma fauna imaginária,&lt;br /&gt;sacode o pó da argila e do granito&lt;br /&gt;em suaves movimentos.&lt;br /&gt;Atlantes e Laoccontes&lt;br /&gt;vigiam tuas muralhas indormidas,&lt;br /&gt;mas deixam livres as fronteiras do sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a espada de Bolívar&lt;br /&gt;e a prosa rubra e latejante de Sarmiento;&lt;br /&gt;com as vestes de Antonio Conselheiro&lt;br /&gt;e a nervura semântica de Euclides da Cunha;&lt;br /&gt;com a suavidade de um verso de Lugones&lt;br /&gt;e os contos gauchescos de Simões Lopes Neto;&lt;br /&gt;com os arcos e flechas dos incas e aimarás&lt;br /&gt;e a clepsidra das ruínas de Zaculén;&lt;br /&gt;com as cinzas do uirapuru do Amazonas&lt;br /&gt;e os depurados muirakitãs do Espelho da Lua,&lt;br /&gt;eu te louvo, América do Sul,&lt;br /&gt;agora que revejo tua cerâmica do Marajó,&lt;br /&gt;tuas matas e teus rios,&lt;br /&gt;tuas cidades e tuas pontes,&lt;br /&gt;teus barcos possantes, tuas fábricas&lt;br /&gt;e tuas manchetes; e ouço a voz&lt;br /&gt;dos teus regatos, as canções de teus povos&lt;br /&gt;e vejo, deslumbrado,&lt;br /&gt;que uma ciranda feita de arrulhos e girassóis&lt;br /&gt;te enlaça, constantemente,&lt;br /&gt;do Atlântico semeado de praias&lt;br /&gt;ao Pacífico de pássaros&lt;br /&gt;e fontes azuladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos martírios e sucessos&lt;br /&gt;pontilham tuas manchas ocres&lt;br /&gt;em cada solo ferido ou conquistado!&lt;br /&gt;Lembras-te, por acaso, dos gestos em forma de dança&lt;br /&gt;de teus ancestrais caribenhos?&lt;br /&gt;Do milho cor de cereja dos Aruakes?&lt;br /&gt;Dos artefatos barrancoides dos Walpés?&lt;br /&gt;Dos dialetos tecidos com a envira do silêncio&lt;br /&gt;e a toada dos riachos deixados a caminho?&lt;br /&gt;Da antigüidade seletiva dos tucanos,&lt;br /&gt;muras e cambebas?&lt;br /&gt;Lembras-te, por acaso,&lt;br /&gt;da bola de sernambi que estes últimos&lt;br /&gt;te deram, ainda em pleno século XVII,&lt;br /&gt;e do jogo que eles jogavam&lt;br /&gt;num campo sem traves e sem torcidas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa rede de dormir&lt;br /&gt;os brancos degustam  teu massacre&lt;br /&gt;mas olvidam o teu legado,&lt;br /&gt;esse imenso legado que sucedera ao jugo,&lt;br /&gt;impiedoso e cruel,&lt;br /&gt;daqueles teus primeiros habitantes,&lt;br /&gt;plantadores de sombras,&lt;br /&gt;raízes da terra.&lt;br /&gt;Guitarras, malária, devastação e confisco,&lt;br /&gt;eles trouxeram de tudo.&lt;br /&gt;Mas tomam caxiri no delicado suporte&lt;br /&gt;de uma cuia rústica ou pitinga;&lt;br /&gt;alimentam-se de farinha de mandioca&lt;br /&gt;e têm muito de si no caboclo que se espreguiça&lt;br /&gt;para não ir ao trabalho;&lt;br /&gt;e têm muito de si na mestiça que se vende&lt;br /&gt;por las calles y los pueblos;&lt;br /&gt;e têm muito de si, também,&lt;br /&gt;nessa fusão de sons e melodias&lt;br /&gt;que fizeram do nheengatu das águas pretas&lt;br /&gt;a língua franca dos mitos&lt;br /&gt;e do lendário esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imitas um coração populoso e tranqüilo.&lt;br /&gt;Tens a forma de harpa ou alaúde&lt;br /&gt;com doze cordas festivas.&lt;br /&gt;E ainda podes ser vista como um rosto enigmático&lt;br /&gt;voltado para si mesmo.&lt;br /&gt;Desigualdades e semelhanças predominam,&lt;br /&gt;assim, de um lado e de outro,&lt;br /&gt;entre vales, planícies e altiplanos.&lt;br /&gt;Em qualquer Atlas se lê, por exemplo,&lt;br /&gt;que há fome na Bolívia,&lt;br /&gt;que há tango, festas e greves na Argentina,&lt;br /&gt;que o Chile exporta minérios e vinhos,&lt;br /&gt;que o Brasil é o maior destes países,&lt;br /&gt;que o Equador tem reservas de prata e ouro,&lt;br /&gt;que o Peru não se expande,&lt;br /&gt;que o Paraguai continua bloqueado&lt;br /&gt;sem saídas para o mar.&lt;br /&gt;Em teu próprio nome, oh América do Sul,&lt;br /&gt;e em nome da história que te deram,&lt;br /&gt;hás de entender, no entanto,&lt;br /&gt;que ninguém pode ser feliz&lt;br /&gt;quando está cercado pela miséria,&lt;br /&gt;seja a miséria do egoísmo,&lt;br /&gt;seja a miséria das guerras;&lt;br /&gt;que ninguém pode ter paz&lt;br /&gt;quando há golpes e matanças&lt;br /&gt;do outro lado de suas fronteiras.&lt;br /&gt;Hás de saber entrementes que,&lt;br /&gt;por cima da fala dos caudilhos,&lt;br /&gt;paira a linguagem fluida ou tormentosa&lt;br /&gt;daqueles que te celebram;&lt;br /&gt;inclusive daqueles que apodrecem em tuas mansardas&lt;br /&gt;ou se debruçam nas torres de vidro;&lt;br /&gt;ou daqueles, ainda, que se confundem &lt;br /&gt;com os traços das telas que azedam em teus sótãos&lt;br /&gt;e em tuas águas-furtadas.&lt;br /&gt;Estes homens de letras ou picassos anônimos&lt;br /&gt;entregues à corrosão que desfigura&lt;br /&gt;e ao abandono que mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos equívocos te cercam&lt;br /&gt;antes e após a descoberta, por ti,&lt;br /&gt;do torno do oleiro, da roda e do arado?&lt;br /&gt;Que simpáticas figuras transoceânicas&lt;br /&gt;poderiam ter-te doado,&lt;br /&gt;oh América do Sul,&lt;br /&gt;carrinhos votivos de cerâmica,&lt;br /&gt;travesseiros de barro&lt;br /&gt;e selos em forma de bujarronas?&lt;br /&gt;E as tuas escritas?&lt;br /&gt;Terão sido trazidas por quem&lt;br /&gt;– fenícios, gregos, romanos –&lt;br /&gt;se colocam na origem de teus índios?&lt;br /&gt;Fascina acreditar, em vez disso,&lt;br /&gt;que provenhas, isto sim,&lt;br /&gt;de alguma centelha que se fez Avalon,&lt;br /&gt;Atlântida ou Atlas,&lt;br /&gt;segundo escrevem as aves migratórias&lt;br /&gt;quando te buscam nos pélagos,&lt;br /&gt;e adivinham teus ecos profundos&lt;br /&gt;nas cavidades do espanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade perdida dos incas&lt;br /&gt;são tantas cidades quanto as portadas&lt;br /&gt;que levam à presença do sol;&lt;br /&gt;e dali ao rio de espelhos e cardumes intactos,&lt;br /&gt;e dali às cavernas talhadas a ouro,&lt;br /&gt;e dali aos túmulos daqueles que sucumbiram&lt;br /&gt;ao peso dos colossos que protegem a montanha&lt;br /&gt;das patas ecoantes de Espanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cada milímetro quadrado&lt;br /&gt;das alturas que saltaram de mares incalculáveis,&lt;br /&gt;Amarus confundem a inteligência&lt;br /&gt;dos homens de Pizarro.&lt;br /&gt;Labirintos ficaram, boiunas coleiam&lt;br /&gt;na ouriversaria das auroras.&lt;br /&gt;E ninguém poderá decifrá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Iucay se evadira Manco.&lt;br /&gt;E uma das primeiras guerrilhas da história&lt;br /&gt;consegue fazer das trilhas enganosas&lt;br /&gt;o desgastante baralho das Cordilheiras.&lt;br /&gt;A imagem de raios solares&lt;br /&gt;com mais de cem toneladas,&lt;br /&gt;em que leito de Vilcabamba&lt;br /&gt;terá se consumido em miríades de estrelas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Cajamarca, enfim, morrera Atahualpa.&lt;br /&gt;Em Viticos, chega a vez de Manco Inca.&lt;br /&gt;Sayri Tupã e Tito Cusi também foram imolados.&lt;br /&gt;Tupac Amaru expira em Cuzco&lt;br /&gt;levando no olhar a música do império.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande é o solar do tempo nesta aldeia&lt;br /&gt;onde um galope nunca se interrompe.&lt;br /&gt;Este chão de Pizarro em Guamachucho&lt;br /&gt;de lavas contraídas pelo medo.&lt;br /&gt;Escarpas traçam rápidas figuras,&lt;br /&gt;pousam brilhos de séculos vencidos.&lt;br /&gt;E um velho terremoto, agora fóssil,&lt;br /&gt;semelha um tigre às costas de um penedo.&lt;br /&gt;A noite é um vinho branco. Mas o sangue&lt;br /&gt;que transborda do lago, não descansa:&lt;br /&gt;quer vingar a cobiça, o fogo e a traição,&lt;br /&gt;estes três assassinos de Atahualpa,&lt;br /&gt;daquele em cujo peito o sol dos incas&lt;br /&gt;despedaça o seu último clarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos porões soterrados debaixo &lt;br /&gt;das cidades, deuses animais de terracota&lt;br /&gt;aparecem ao lado da serpente,&lt;br /&gt;e ao lado da serpente&lt;br /&gt;paradigmas antropomórficos.&lt;br /&gt;Foi assim que teus nativos,&lt;br /&gt;pescadores de Valdívia,&lt;br /&gt;dominaram os ornatos circulares:&lt;br /&gt;perfis abstratos,&lt;br /&gt;bizarras entidades híbridas&lt;br /&gt;sobressaem nos relevos celestes;&lt;br /&gt;e ao lado destes, ardósias cônicas,&lt;br /&gt;traçados olmecas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um portal contendo símbolos xamãs&lt;br /&gt;e sarcófagos dourados,&lt;br /&gt;exterioriza o silêncio dos mortos na estática&lt;br /&gt;de teus músculos altivos&lt;br /&gt;prateados de neve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Quinta Era, afirmam ali,&lt;br /&gt;pertence a Tonatiú, o deus Sol,&lt;br /&gt;habitante dos leques das palmeiras;&lt;br /&gt;e há de ser confirmada por graves,&lt;br /&gt;extensos abalos.&lt;br /&gt;Pumas alertam para as ameaças que sobem&lt;br /&gt;das Ilhas Arqueanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX      (a lição dos rios)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentando lavar este sangue&lt;br /&gt;inutilmente derramado,&lt;br /&gt;de cinco mil metros de altura despenca o Vilcanota;&lt;br /&gt;ele vai mudando de nomes&lt;br /&gt;até unir-se às águas revoltas&lt;br /&gt;do lendário Urubamba.&lt;br /&gt;Este, por sua vez, se socorre do Apurimac,&lt;br /&gt;quando formam, juntos,&lt;br /&gt;o Rio Amazonas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito tarde, porém.&lt;br /&gt;Um grande exemplo despercebido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses rumores até hoje incessantes,&lt;br /&gt;este chamado das vertentes comuns,&lt;br /&gt;somente os poetas o sabem distinguir&lt;br /&gt;na diversidade que amalgama&lt;br /&gt;e na dor que ensina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X     (balada enquanto seja)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário de outras águas,&lt;br /&gt;nosso rio é movimento,&lt;br /&gt;serpe andina em debandada&lt;br /&gt;vai ele em busca do mar;&lt;br /&gt;desde que nasce de um fio&lt;br /&gt;por ondas rola barrento,&lt;br /&gt;vem à tona e vira vento,&lt;br /&gt;é estirão que sai do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio de lendas ficou,&lt;br /&gt;matreiro, curvo e norato,&lt;br /&gt;seu berço de concha e lua,&lt;br /&gt;com três nomes de batismo,&lt;br /&gt;três caminhos sete bocas&lt;br /&gt;por onde bebe a tormenta;&lt;br /&gt;mas tem mágicas, puçangas,&lt;br /&gt;e a cada estória, se aumenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pântano cósmico, diz-se&lt;br /&gt;por quem o lê pelo avesso,&lt;br /&gt;por quem ouve a queixa inata,&lt;br /&gt;por quem adentra seus peixes,&lt;br /&gt;por quem taboca faz beiço&lt;br /&gt;e sopra o fogo da enchente,&lt;br /&gt;pois este rio é começo&lt;br /&gt;da febre que torra a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário de outras águas,&lt;br /&gt;o Amazonas, como um todo,&lt;br /&gt;pode tornar a seu fio&lt;br /&gt;como náufrago do lodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XI     (Thiago de Mello)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por caminhos de San Tiago,&lt;br /&gt;volta o poeta das angras&lt;br /&gt;a quem doara o seu canto&lt;br /&gt;pela causa dos humildes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levara o corpo sadio,&lt;br /&gt;como quem leva a esperança&lt;br /&gt;marcada a fogo no brigue&lt;br /&gt;que, novo, se lança ao mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Estatutos do Homem&lt;br /&gt;riscando o teto da noite&lt;br /&gt;com seus mastros decididos,&lt;br /&gt;quantos vilões não cegaram!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, igual à copa náutica&lt;br /&gt;das sapopemas gigantes,&lt;br /&gt;que pelas vias de Tiago&lt;br /&gt;desprendem flocos de sonho,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;retorna, depois da luta&lt;br /&gt;para o feno das raízes:&lt;br /&gt;a copa – rica de estrelas,&lt;br /&gt;o tronco – de cicatrizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XII   (a Pedra do Reino)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como então esquecer,&lt;br /&gt;neste painel de teus milagres,&lt;br /&gt;oh América do Sul,&lt;br /&gt;a oficina armorial desse múltiplo Ariano Suassuna,&lt;br /&gt;a poesia e a prosa que se deixam fundir&lt;br /&gt;em seu romance d’A Pedra do Reino?&lt;br /&gt;Assim também, igualmente,&lt;br /&gt;como esquecer os poemas de Carlos Newton Júnior,&lt;br /&gt;a cerâmica de Côca,&lt;br /&gt;as lâminas e os palimpsestos de Virgílio Maia&lt;br /&gt;ou a tenda  agreste, mística e versátil de Audifax Rios?&lt;br /&gt;E como esquecer as andanças dos ¨padeiros¨cearenses&lt;br /&gt;em busca das cacimbas,&lt;br /&gt;do aboio crepuscular,&lt;br /&gt;do alpendre de seus avós e da espada&lt;br /&gt;de algum rei com sua túnica de abelhas?&lt;br /&gt;Pois é das artes desse Ariano vulcânico&lt;br /&gt;e de seus valerosos cavaleiros,&lt;br /&gt;as surpreendentes iluminogravuras,&lt;br /&gt;diante das quais apenas o arco-íris, o novilúnio&lt;br /&gt;e as doze talhas apócrifas da Via Dolorosa,&lt;br /&gt;não são réplicas inúteis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIII     (entrefala e louvação)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixemos, portanto, as amoras,&lt;br /&gt;o etéreo veludo celeste, o filme vazio,&lt;br /&gt;a novela das oito&lt;br /&gt;e as ruas por onde não passaram&lt;br /&gt;bandeiras despedaçadas por um grito maior&lt;br /&gt;que a esperança dos mortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixemos de lado as violetas&lt;br /&gt;que ardem nos versos prematuros&lt;br /&gt;daqueles que nunca percebem o gemido&lt;br /&gt;das salamandras&lt;br /&gt;nem a fuga dos girassóis alucinados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixemos de lado o jarro de Matisse,&lt;br /&gt;a gôndola que imita o cisne de Isolda,&lt;br /&gt;as olheiras roxas das janelas caiadas&lt;br /&gt;pelo terror dos massacres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louvemos Neruda que, em sorvos miúdos,&lt;br /&gt;provara do vinho amassado com a terra,&lt;br /&gt;o suor e as lágrimas de quantos,&lt;br /&gt;no Chile, na Espanha e na Turquia,&lt;br /&gt;conseguiram, em seus momentos finais,&lt;br /&gt;erguer a face do entulho e da lama,&lt;br /&gt;cuspir na bota dos tiranos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louvemos Neruda pelos gestos perenes&lt;br /&gt;de salvar um carneiro da morte,&lt;br /&gt;uma rosa da escuridão e muitos,&lt;br /&gt;centenas de amigos,&lt;br /&gt;do cárcere infecto e da bofetada humilhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudemos Neruda&lt;br /&gt;com uma taça de beija-flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIV      (sursum corda habemus)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O giro vesperal das andorinhas&lt;br /&gt;sobrevoa os transcursos das cordilheiras;&lt;br /&gt;paira, depois, sobre os telhados gastos&lt;br /&gt;pelo mofo dos armários vazios&lt;br /&gt;e o esquecimento das chuvas.&lt;br /&gt;Elas tomam as sereias de tuas falanges,&lt;br /&gt;dedilham a ira dos terremotos.&lt;br /&gt;Mais do que nunca teu coração vacila,&lt;br /&gt;mas sente-se pleno em curtir a polêmica união&lt;br /&gt;entre o Ocidente dos filósofos&lt;br /&gt;e a pátria dos cardos ensolarados.&lt;br /&gt;Terá sido esta a pausa dos monumentos,&lt;br /&gt;o tremor que se estabiliza nos ossos,&lt;br /&gt;a reflexão que se deixou cair das pálpebras de água&lt;br /&gt;no enterro dos navios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma sombra te acompanha desde que nasceste,&lt;br /&gt;orográfico e triste,&lt;br /&gt;de pais que vestiam a paisagem dos trens de ferro&lt;br /&gt;com os andrajos da mulher de Bolívar,&lt;br /&gt;a insepulta de Paita.&lt;br /&gt;Teus versos são lições de uma geografia da alma,&lt;br /&gt;rochedos floridos de ternura.&lt;br /&gt;Soltos na madrugada,&lt;br /&gt;eles rastreiam  fragrâncias,  matizes,&lt;br /&gt;números e signos gravados na espuma&lt;br /&gt;e no cansaço das festas.&lt;br /&gt;São metáforas da hora incalculável,&lt;br /&gt;a incrível marca do passageiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois das estradas, Neruda,&lt;br /&gt;o amor te concedera  uma pausa,&lt;br /&gt;um silêncio neutro que irrompe dos tanques&lt;br /&gt;cobertos pelo trigo;&lt;br /&gt;uma pausa que pergunta a cada coisa&lt;br /&gt;se tem algo mais. E a cada palavra&lt;br /&gt;endereça uma rosa. Neruda épico, lírico,&lt;br /&gt;e que tampouco deixa de seguir os passos noturnos&lt;br /&gt;de Lautrèamont, de Pascal e dos Três Mosqueteiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teus cantos são cantarias de luar,&lt;br /&gt;pólens de ouro e neblina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh América do Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Jorge Tufic é poeta, preferindo ser apenas isto apesar de sua biografia eclética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(publicado no jornal O Pão de Fortaleza-CE, Ano V, nº. 36, em 13-12-1996). Atualizado em 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clauder Arcanjo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonata dos mortos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa, o véu dos antepassados. No quarto, o manto da dor. E, sobre a cama, o corpo.&lt;br /&gt;Na sala, a família. Extrema-unção. Entre a família, o recital do terço. E, pelo ritmo das contas, o sibilar da vingança. Sonata dos mortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piauí&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para H. Dobal&lt;br /&gt;(in memoriam)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dias que o carão não canta na croa da lagoa. “O que houve?”&lt;br /&gt;— ...&lt;br /&gt;Desde então, na caatinga, sacolejo de ossadas, redemoinhos de silêncio.&lt;br /&gt;Ontem, a coisa agravou-se: a coruja não piou, e o morcego não saiu.&lt;br /&gt;Brotos de marmeleiro secaram, e a abelha, no mandacaru, não zanzou.&lt;br /&gt;Alguns dizem, triste sina, que até a rasga-mortalha enviuvou.&lt;br /&gt;Lá, pelas bandas do Piauí, a má nova: “O Poeta encantou-se, Teresina!...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perau&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lá, fugido ao mundo,&lt;br /&gt;Sem glória, sem fé,&lt;br /&gt;No perau profundo&lt;br /&gt;E solitário, é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que soluças tu,&lt;br /&gt;Transido de frio,&lt;br /&gt;Sapo-cururu&lt;br /&gt;Da beira do rio...&lt;br /&gt;(Manuel Bandeira, no poema “Os sapos”)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Desceu a ribanceira, e, escondido, ficou a espiar a estrada. Léguas longe de casa, sem passado, com uma nesga de presente, e enorme pavor do futuro.&lt;br /&gt;No barranco, os olhos esbugalhados nos que passavam.&lt;br /&gt;De início, um homem cheio de certezas, de papo enfunado, passadas gordas, quase dono do mundo. Ao seu lado, no charco, o coaxar do sapo-boi.&lt;br /&gt;Pouco depois, um janota bem enfatiotado, a murmurar cantigas. “Frumento, sem joio”, a desfilar fidalguices, primo-irmão do engomado. Aos seus pés, agora, o coaxo do sapo-tanoeiro.&lt;br /&gt;Logo atrás, uma récua de seres esquálidos; errantes, famintos. Para o mundo, os sem valia. De repente, uma grita: na sombra imensa, os reclamos dos sapos-pipas.&lt;br /&gt;E assim passaram-se os dias. Morto de fome e de frio. “Sem glória, sem fé”. Sozinho, no perau mais profundo.&lt;br /&gt;Quando pôs o pé na estrada, uma certeza: era um homem-cururu, da beira da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma romântica!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou em casa, resolvera verificar pessoalmente. Uma vontade de desmascarar as fuxiqueiras do bairro. “Desocupadas! Mal-amadas! Sim, mal-amadas!”&lt;br /&gt;Abriu a porta da frente, e correu os olhos pela sala. Tudo no seu lugar: a poltrona recém-comprada, em doze prestações; a cristaleira ainda do casamento, presente da madrinha Maria das Neves; o tapete ao centro, e o televisor, onde ela assistia aos amores das oito. “Uma romântica!”&lt;br /&gt;Mais alguns passos, o corredor que levava aos quartos. Apenas o silêncio. Àquela hora, sabia-a na casa da mãe. Todas as manhãs, pontualmente, às nove, lá estava. Muitas vezes ficava para o almoço. Odiava a solidão, dizia-lhe.&lt;br /&gt;Quando abriu a porta do quarto de casal, um aperto no coração. A cama bem arrumada, os lençóis vermelhos, e o bicho de pelúcia junto aos travesseiros. “Uma romântica!”&lt;br /&gt;Sentou-se no banquinho junto ao espelho, deu por uns olhos fundos a espiá-lo. “Sou eu!?...” A cabeça tomada pelos comentários da rua. “Abra o olho, seu Domingos! Abra o olho, homem!...”&lt;br /&gt;Deitou-se na cama. De repente, as lágrimas, num choro convulso, enorme. Ao cheirar-lhe o baby-doll, o desabafo, em desespero:&lt;br /&gt;– Uma safada! Uma safada!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Antonio Clauder Alves Arcanjo (Clauder Arcanjo) é cronista semanal, resenhista literário – sob o heterônimo Carlos Meireles – e colaborador de sites, revistas e jornais de várias partes do País.&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:clauder@pedagogiadagestao.com.br"&gt;clauder@pedagogiadagestao.com.br&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo Krauss&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CACHORRO SEM DONO&lt;br /&gt;Em Carnavalha, Nilto Maciel passeia pelo fantástico, pelo regional, sempre com a mão firme na linguagem e no fôlego intenso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nilto Maciel é um cachorro sem dono. O homem escreve que é um cão. Ataca com ou sem fome, constrói frases com as quatro patas, limpa as palavras com o rabo, escreve bem o bichinho. Parou no poste, levantou a perninha e despejou Carnavalha. Trocinho bacana esse Carnavalha, meio desorganizado, mas trocinho bacana. Falemos bem primeiro, para dar de bonzinho.&lt;br /&gt;Niltinho vomita frases. O ritmo é forte demais. Tem que tampar o nariz e encarar, que vale a pena. O homem parece que incorpora o capetinha das letras. E a dança corre solta, o carnaval como pano de fundo em cima de sofá rasgado para dar cor e esconder o buraco.&lt;br /&gt;Zuza é o cara no book. Enquanto os outros vivem, pulam, dançam, bebem e trepam, Zuza observa, dorme no chão, no banco da praça, toma todas, é amigo da cachorrada da cidade de Palma. Zuza deu nome para os vira-latas: Alão, Brochote, Cafoto, Dentola, etc.&lt;br /&gt;Palma tem hotel Canuto, rua 7 de Setembro, praça da Matriz, praça de Santa Luzia, praça Waldemar Falcão. A cidade é uma festa, quase uma população inteira de foliões. Essa Palma, que saiu da cabeça do Nilto, não tem no mapa mas tem carnaval que recebe visitantes de Brasília (barnabés, é claro) e do Rio de Janeiro. Tem o bloco dos porcos ("Todos gordos, roliços, desajeitados, grunhiam obscenidades."); tem ratos saltitantes ("Enormes ratos. Todos fantasiados. Uns levavam fitinhas ao redor do pescoço. Faziam caretas para o público e abanavam os rabos.").&lt;br /&gt;Todos estavam na festa, fosse na rua ou em casa. Quem não estava pulando se dizia contra a bagunça e ia para a janela com a desculpa de que precisava rezar pelos pecadores. Queria mesmo era ver a folia e fazer fofoca: "Você se lembra de Nequinho? Pois ali vai Noé, irmão dele. Nequinho morreu tragicamente e o irmão dele aí comediante".&lt;br /&gt;Mas Carnavalha é bom porque não é sobre carnaval. Carnavalha é sobre gente. O carnaval é só uma data para juntar todo mundo. Fosse Natal também daria, mas Zuza teria que ser papai noel. No carnaval fica mais divertido, a gentarada se expõe, ainda mais gentarada de cidade pequena. Zuza observa a gente de Palma, e a gente observa Palma pelos olhos de Zuza. Os olhos de Zuza vêem o que Nilto Macielzinho quer nos mostrar. Nilto faz graça, cria tipos. Silveira tem como apelido Bafo de Onça e volta e meia é provocado na cidade, mas não entende por quê:&lt;br /&gt;Todo mundo tem mau hálito. Dente podre, estômago estragado. Todo mundo carrega merda no intestino. Todo mundo fede, até a mulher mais bonita.&lt;br /&gt;Depois de apresentar Palma e sua gentarada, Nilto resolve dar um nó na cabeça do leitor, enveredando para o fantástico. A cidade é invadida por animais de todos os tipos, não apenas os domésticos, mas também aranhas, cobras, lagartas, formigas. O sinal para a invasão foi dado pelo pio da coruja na torre da Matriz. Os foliões transformaram-se em caçadores e partiram para o contra-ataque, armados de facas, tesouras, navalhas, espetos e o que mais tivessem à mão. Os primeiros a sucumbir foram os vira-latas amigos de Zuza:&lt;br /&gt;Néo Bento agarrou Alão pelo pescoço, sujigou-o e, com um facão, decepou-lhe a cabeça. Zé Pinto enforcou Brochote com um cinto. Vicente enfiou um espeto na goela de Cafoto. Silveira sangrou Dentola, com uma navalha enorme.&lt;br /&gt;A guerra contra os bichos acaba com o carnaval, mas é uma grande fantasia. Os moradores transformam-se em exterminadores sanguinários: donas de casa torcem pescoços de galinhas pelas ruas; um casal derruba porcos a chutes; Adolfo Mendes monta bodes até cansá-los para dar uma machadada na nuca; Erisa coloca fogo na cauda dos animais; Carmelita cega os jumentos com uma tocha; e até um ritual macabro é feito na igreja com um novilho e dois carneiros.&lt;br /&gt;Da peleja com os animais só resta a coruja, que da torre da Matriz passa a voar pela cidade, pousando no telhado de cada casa. Por meio da espionagem da ave, Nilto Maciel se volta agora a contar as intimidades dos moradores de Palma. Casais são flagrados na cama, à mesa, na sala de estar.&lt;br /&gt;Na casa de Lauro e Mundinha, a coruja presencia o casal numa mesa cheia de dentaduras, feitas por Lauro. Entra Juarez com um saco cheio de dentes de gatos, mortos na batalha. Ele sugere que Lauro use os dentes para fazer dentaduras. "Dente de gato é mais afiado", defende-se Juarez.&lt;br /&gt;Na última parte do livro, Zuza retorna ao centro. Uma morte acontece e o livro termina numa grande investigação para se descobrir o assassino. Em Carnavalha, Nilto Maciel mostra que passeia com facilidade pelo fantástico, pelo regional, sempre com a mão firme na linguagem e no fôlego intenso parágrafo após parágrafo. Para quem já conhece esse cabra do Ceará, o novo livro é leitura fácil, um apanhado dos talentos múltiplos do autor. Quem desconhece Nilto vai desconhecer ainda mais em Carnavalha, vai mesmo é entrar em parafuso, que é isso que quer o sacana. Nilto coloca o leitor na montanha-russa e gira para lá e para cá, um susto atrás do outro, exagerando muitas vezes.&lt;br /&gt;Nilto é macaco velho. Tem mais de 30 anos de carreira, uma dúzia de prêmios, vinte e tantos livros, e parece não abrir mão de sua originalidade. Este é seu maior pecado. O que é original para o autor nem sempre é compreensível para o leitor, que quer uma boa história, e não apenas viajar nas pirações de quem escreve. Carnavalha não é romance, não é um livro de contos, não é novela. É boa literatura, mas amontoada de forma esquisita, sem continuidade, com pequenos erros de edição que atrapalham o conjunto. As citações de outros autores nos começos de dezenas de capítulos da parte da guerra dos bichos e da espionagem da coruja são irrelevantes. O anúncio da presença da coruja no telhado de cada casa espionada é enfadonho e desnecessário. Também são desnecessárias as doze páginas com o currículo de Nilto Maciel e as orelhas carregadas de elogios (livro bom mesmo traz a orelha em branco). Não que Carnavalha não seja bom, mas poderia ser melhor com uma edição mais cuidadosa, inclusive na revisão, que deixou passar erros básicos. É o mínimo que um autor com o currículo de Nilto Maciel merece. Do jeito que foi feito, Carnavalha esconde um excelente autor porque carece de um bom editor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TRECHO • Carnavalha&lt;br /&gt;Acuada, a ave corria, esperneava, tentava alçar vôo, bicava em todas as direções. Muitos homens caíam ensangüentados, vísceras de fora, crânios esmigalhados, em gritos de desespero. Tentavam laçar o pescoço da galinha, que se esquivava e feria outras pessoas. Márcia, então, se adiantou a todos e se pôs diante da grande ave: "Arredem, maricões; deixem essa avezinha por minha conta". E, de um salto, se escanchou na galinha, como se montasse cavalo ou égua. O bicho deu pinotes, quase levando ao chão a amazona. "Sossega, galinha idiota. Eu vou ensinar o povo com quantos paus se faz uma canoa". Como se estivesse sobre um animal de quatro patas, cutucou as ilhargas da ave, com os calcanhares. Porém em vez de caminhar ou trotar, o bicho se pôs a voar. Apalermados, os homens e as mulheres se calaram, olhos fitos no céu. A galinha fez vôos rasantes sobre a multidão, a velha cadeia pública, as casinholas e se dirigiu à igreja matriz. "Vamos, megalinha choca, para o galinheiro sagrado", gritava a estranha Márcia.&lt;br /&gt;(Publicado originalmente no jornal Rascunho, Curitiba, fevereiro de 2008)&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LINA TÂMEGA PEIXOTO*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS LUZES DA SOMBRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resfolhada com os rubores da rosa,&lt;br /&gt;a noite se aproxima da porta.&lt;br /&gt;Apalpa as manchas grisalhas da sala&lt;br /&gt;e, súbito, envelhece&lt;br /&gt;os pratos e os talheres sobre a mesa.&lt;br /&gt;Rasteja na fronteira do dia&lt;br /&gt;e veste a claridade que anda desnuda&lt;br /&gt;pelos corredores da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A melancolia das cores derrama-se&lt;br /&gt;nas negras olheiras do sol&lt;br /&gt;postas na jarra qual ramo de açucena.&lt;br /&gt;Para que a noite resista&lt;br /&gt;às rachaduras da escuridão&lt;br /&gt;acendem-se as luzes da sombra&lt;br /&gt;para que ela não durma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Autora de quatro volumes de poemas, entre eles Água Polida (Rio de Janeiro, Edições Galo Branco, 2007), do qual foi extraído o poema acima, Lina Tâmega Peixoto nasceu em Cataguases, MG, e reside em Brasília.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raymundo Netto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;in luto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela morreu. Ninguém mandou, mas mesmo assim, ela morreu.&lt;br /&gt;Rompeu a lógica num absurdo e abmudo processo.&lt;br /&gt;Caiu num abismo de incertezas e conflitos que, ninguém sabia, trazia entre os cabelos quase sempre desalinhados.&lt;br /&gt;Ela morreu. Difícil crer no vazio do seu quarto. É estranho poder agora ler as cartas recebidas, mexer nas caixas guardadas, em segredo, no armário, escolher suas roupas, separar o seu prato e copo, presentear seus livros, fotos e discos... Aliás, nada do que tanto amava levou consigo, nem a vida nem eu.&lt;br /&gt;Ela morreu. Olhava por aquela janela todos os dias. Parada, encostava a cabeça, segurava uma xícara de café e lançava o olhar, contornado pelo cansaço das noites indormidas, para adiante. Só o olhar, então, só o olhar.&lt;br /&gt;Mas ela morreu, não, não morreu, sim, foi-se.&lt;br /&gt;Nunca falou nada sobre isso. Por que não gritava, por que parecia que nada, absolutamente nada lhe pesava tanto? Precisava? Precisava?&lt;br /&gt;Não, ela falava sim, falava o tempo todo, eu podia ver na sua inquietude, no silêncio, nas mãos, no suor, no olhar... Ela estava lá, o tempo inteiro, naquele olhar.&lt;br /&gt;Ela morreu. A apoteose deu-se à calçada, sem flores nem jardim. O cinzento do céu combinava com o cimento da garagem. Tanto fazia o céu como o chão. Voar ou morrer. Ela morreu.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias da Silva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A LESTE DA MORTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            É um livro de contos do escritor Nilto Maciel. Cento e sessenta e uma páginas de contos. De contos curiosos. De contos feitos para releituras. Não lembro em que livro li que “o conto é uma peça nua. Este processo que se usa ainda de abrir espaços como divisão em capítulos é para novelas e romances. O conto é um tiro só: vupt e pronto. Tudo mais vai no implícito”. Os contos de Nilto Maciel são uma peça, como uma faísca, com rico conteúdo de coisas implícitas. De gente e de coisas que se vêem em frases simples; de realidade, absurdos e imagens surrealistas que terminam por arrumar um todo aceitável, realista, verossímil. Coisas irreais e absurdas que, no conjunto da leitura, vão se firmando no leitor como lógicas. O Autor vai levando-o à aceitação do personagem, da cena e do quadro como algo ordenado. Verossímil no mínimo.&lt;br /&gt;            Leia isto de Ronaldo Cagiano: “Com uma prosa calcada na versatilidade, sua linguagem e seus personagens transitam num mundo em que a realidade e a ficção parecem ombrear-se numa fantasia tênue”. Na plasticidade literária de Nilto Maciel ombreiam-se, sim, realidade e ficção, coisas curiosas e absurdas, atitudes e gestos esdrúxulos, desvios de personagens que o Autor consegue juntar numa peça nua e pronta, botando-lhes realismo e lógica. Afora três ou quatro contos mais lineares, nos demais, cada parágrafo é um absurdo que deixa de sê-lo, tanto embevecimento a leitura vai deixando no leitor. Vai-se lendo a história e se vai encontrando unidade e encadeamento de uma história linear.&lt;br /&gt;            Por exemplo: “Os Dez Dias de Raimundo”.&lt;br /&gt;            Lêem-se contos em que se tem a impressão de que se viu já aquilo de certa maneira. Assim: de outro jeito. Como se fosse um deslocamento de outra coisa já existente. Só impressão realmente. A Leste da Morte nem impressão, nem cenas, nem personagens, absurdo, gestos, detalhes, nada vem de alguma coisa preexistente. O leitor vai percebendo que o Autor cria tudo, na hora, inventa e vai formando estas faíscas que ficam queimando dento da gente. Tudo isso corroborado pelo encanto da prosa curta. É um estilo picado, cortado sem ser estanque. A prosa de Nilto Maciel vai deixando música e cadência. Há subjetividade de linguagem por isso há muita criação. Nilto Maciel é um criador verdadeiro nesse livro porque, para ele, “a sustentação de um clima e a configuração de uma atmosfera são mais importantes e necessárias do que o desenvolvimento lógico da descrição”. Os contos fazem ressoar a alma do leitor.&lt;br /&gt;            Além do clima de ilogicidade e de absurdidade (que se fazem unidade), para adensá-lo ainda mais, O Autor vai enchendo as páginas de indagações, deixando ao leitor a oportunidade de criar respostas. Não se sabe se é erro de revisão ou recurso intencional: ao invés do hífen na ênclise, tem-se o ponto de interrogação (?). Assim: ... encontra?se. Acredita-se haver sido intencional, pois, por quatro vezes, esse emprego se repete, o que aparece também em outro conto.&lt;br /&gt;            Em verdade Nilto Maciel improvisa sobre o nada e sobre situações inexistentes e existentes também.&lt;br /&gt;            Talvez ninguém consiga penetrar os mistérios do escritor. Os mistérios de seus contos não poderão ser esclarecidos. O absurdo de seus contos não terá compreensão objetiva. O leitor, porém, vai gostar de ler A Leste da Morte. Não pode deixar de ler. Porque cada conto de Nilto Maciel é novidade que permanece novidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Jornal Binóculo nº 63, Fortaleza, CE, agosto, 2006)&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CLAUDIO SESÍN&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PUNHAL E A TRAMA*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sergio De La Colina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordo essa alegria.&lt;br /&gt;Nas procissões do padroeiro&lt;br /&gt;ou nos topamientos do carnaval,&lt;br /&gt;fitinhas de cor e farinha,&lt;br /&gt;era quando os pumas davam sua voz aos cantadores.&lt;br /&gt;Profundos e profanos, roucos,&lt;br /&gt;o álcool e a coca se abandonavam por esses corpos&lt;br /&gt;que vivem com os sonhos no vento.&lt;br /&gt;Só por minha tristeza volto lá.&lt;br /&gt;A memória é punhal e me angustia.&lt;br /&gt;De quem será esta trama, minha mãe?&lt;br /&gt;Se não hei de ver Pomán,&lt;br /&gt;a sesta,&lt;br /&gt;sem seus duendes e seus frutos,&lt;br /&gt;dormir-se-á sem magia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Tradução de Anderson Braga Horta. Poema extraído de El libro de los poemas casuales/O livro dos poemas casuais (Editorial Dunken, Buenos Aires, 2008). No prólogo, Ronaldo Cagiano afirma: “Poeta da mesma linhagem de Jorge Luis Borges, Oliverio Girondo e Juan Gelman, porque transita entre o lirismo e o social, e do metafísico ao onírico, o catamarquenho Claudio Sesín, com O livro dos poemas casuais, assume definitivamente seu lugar na poesia contemporânea argentina”.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cissa de Oliveira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CONTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela escreveria um conto. Não, conto por conto isso ela sempre o fazia. Agora seria muito mais; escreveria aquele que seria “o conto”. Algo como “O Gato Preto” de Edgar Allan Poe – não que tivesse pretensões literárias voltadas para o misterioso, não! – e se fosse o caso da inspiração chegar sem trava, com facilidade tingiria de vermelho sangue as linhas do manuscrito fadado aos destinos mais inusitados. Nelson Rodrigues, se ainda pudesse, que se cuidasse!&lt;br /&gt;            Se depois o conto teria cara de manchete no Notícias Populares, se seria destaque badalado no Fantástico, ou mesmo se habitaria as profundezas das mais sombrias lixeiras, aí já era mistério demais. Depois desistia e tão facilmente como se sofresse de algum transtorno. Seria transtorno bipolar? Taí, talvez se ela soubesse criar uma personagem com uma dessas doenças antigas que ostentam nome moderno, ao menos teria uma boa desculpa para os vieses literários que lhe ocorriam enquanto pensava num passo à frente, mas dava dois pra trás porque logo mudava de tema e a confusão se instalava.&lt;br /&gt;            O barulho metálico vinha de fora e se misturava às buzinas dos carros. Era um barulho deveras incomum. Ô praga das bem grandes, até o desconhecido chegava para estrangular a sua veia artística?  Levantou-se. Nariz colado à vidraça e risada incontida, por alguns segundos ela se esqueceu do conto.&lt;br /&gt;            O homem que dirigia o cavalo... – por que não? Pois se ele não estava a cavalo em plena avenida central? – parecia atento, olhando ora para a esquerda, ora para a direita. Por fim os cascos do cavalo pararam, digo, estacionaram, bem em frente à casa dela. O homem fez menção de bater palmas, mas desistiu quando deu por ela na janela.&lt;br /&gt;– Me chama lá a Francisquinha!&lt;br /&gt;– Sujeito mal educado...&lt;br /&gt;– O que disse?&lt;br /&gt;– Disse que não há ninguém aqui com esse nome.&lt;br /&gt;– Olha lá que eu não tenho o dia todo!&lt;br /&gt;Era muita petulância, mesmo para um sujeito que até nem tinha jeito de poucos amigos, mas que pela grosseria parecia tão objetivo e certeiro quanto uma bala a menos de um metro do alvo.&lt;br /&gt;– Quem é o senhor?&lt;br /&gt;– Você sabe, pois se eu não venho do seu conto!?&lt;br /&gt;A Escritora (com letra maiúscula sim, porque depois do próximo conto que escreveria sabe-se lá quando, ela seria “A Escritora”), que até então se aventurara tão somente às colaborações para o jornal do bairro, esfregou os olhos já se sentindo culpada por tamanho estropício que engarrafava o trânsito da avenida onde ela morava e correu ao computador para verificar se já havia escrito algo naquela tarde.&lt;br /&gt;A tela só não estava mais branca do que a seu rosto carregado de surpresa e espanto. Com o coração acelerado, ela voltou à janela para constatar que, afinal, não havia cavalo, digo, homem nenhum à calçada. Só por vingança contra a imaginação, sim, porque aquilo era um truque da imaginação, ela se disse em alto e bom tom:&lt;br /&gt; – Imagina se eu escreveria um conto onde existisse um sujeito com um cavalo que, além de tudo, aumentaria a poluição sonora, olfativa e visual da cidade! Escreveria algo muito, mas muito mais grandioso. O seu sobrenome no pseudônimo literário ainda seria Dostoiévski! Pronto, estava decidido, pois se não foi o Fiódor Dostoiévski quem disse, “se Deus existe, então tudo é permitido”?&lt;br /&gt;            Teorias à parte, nem a da Criação insinuava que o mundo tivesse sido feito num estalar de dedos. Pensando assim, ela desligou o computador e, decidida a cuidar de outras coisas, como qualquer mulher normal, saiu de casa bem mais cedo para buscar o filho na escola.&lt;br /&gt;A primeira vontade dela foi a de parar na praça arborizada onde, provavelmente, ouviria o canto dos pássaros daquela ilha verde fincada no meio do caos citadino. Mas o calor sufocante e a proximidade ao shopping center a fizeram mudar de idéia: passaria por lá, nem que fosse apenas para caminhar e espairecer, enquanto apreciava o colorido das vitrines. Nem ia comprar nada, quando, por acaso, entrou numa loja. Como a vendedora não deixasse de rodeá-la, decidiu se informar sobre um produto que lhe chamou a atenção.&lt;br /&gt;            – Poderia me dizer o preço deste DVD?&lt;br /&gt;            – Oh, me desculpe, senhora, ele não está à venda.&lt;br /&gt;            – Curiosidade boba: por que ele está exposto, se não está à venda?&lt;br /&gt;            – Então a senhora não sabe?&lt;br /&gt;            – Não!&lt;br /&gt;            – Foi nele que foi exibido pela primeira vez o filme do seu conto!&lt;br /&gt;            – Brincadeira tem hora e por causa disso eu insisto em falar com o gerente; qual é o seu nome?&lt;br /&gt;            – Francisquinha, oras!&lt;br /&gt;           A imagem do homem a cavalo imediatamente lhe voltou à lembrança e ela respondeu com desdém: – Ah ah... e eu sou a Nikita Dostoiévski!&lt;br /&gt;           – Perfeitamente, eu a reconheci.&lt;br /&gt;           Como aquela situação lhe fizesse cócegas no humor que ainda restava, resolveu tratar a vendedora com mais cuidado e disse, enquanto alisava delicadamente o brilho prateado do aparelho eletrônico: – A propósito, um senhor que anda a cavalo em plena capital paulista me perguntou por uma Francisquinha, hoje.&lt;br /&gt;            – Oh, sim, como você sabe, ele é o meu marido – respondeu a vendedora num tom de quem diz coisas óbvias.  &lt;br /&gt;            – Mas o mais engraçado é que ele a procurava bem à minha janela!&lt;br /&gt;            – Isso eu posso explicar: é que ele me contrariou e eu o ameacei, dizendo que voltaria para dentro do conto.&lt;br /&gt;            – Que conto?&lt;br /&gt;            – O conto de onde nós dois viemos. Você o escreveu!&lt;br /&gt;            Como se acabasse de ouvir uma resposta do tipo “eu também acho que vai chover”, ou “eu estou bem, e você?”, ela simplesmente balbuciou um  e n t e n d o...  e se despediu, saindo pelos corredores do shopping sem entender nadica de nada, principalmente quando pessoas das quais ela não se recordava a cumprimentavam como se fosse uma velha conhecida. Aquilo de fato era muito curioso!&lt;br /&gt;             Estacionou em frente ao portão da escola. Não tardou a ouvir o sinal e o tagarelar das crianças que corriam espevitadas de encontro aos pais, às empregadas, aos carros e às calçadas, numa invasão tão repentina quanto a fúria da água da chuva quando cai impiedosa no meio de uma tarde de verão.&lt;br /&gt;            – Mãe! – Era o seu filho André quem chamava pela janela do carro com o vidro abaixado. Distraída que estava com os mais recentes acontecimentos, nem o percebera se aproximar. Logo ela que sempre o esperava, a postos, no portão? Por que aquele dia lhe parecia assim tão atípico? Mas minutos depois, olhando pelo espelho o filho que ia sentado no banco de trás, ela se esqueceu de todas as atribulações. Tudo o que sentia era um estar solta na felicidade, livre como o cabelo liso do filho que dançava ao vento que invadia o carro.&lt;br /&gt;             Foi no final daquele dia que a surpresa maior aconteceu. A família jantava quando o telefone tocou. Do outro lado alguém parecia muito apressado.&lt;br /&gt;            – Aqui é o representante da SCPFCND.        &lt;br /&gt;            – Quem?&lt;br /&gt;            – O representante da Sociedade Criada Pelos Filhos do Conto da Nikita Dostoiévski, lembra?&lt;br /&gt;            Ela bateu o telefone, e voltando à mesa disse ao marido com um ar de naturalidade que disfarçava a confusão que lhe varria a mente:&lt;br /&gt;             – Quem é Nikita Dostoiévski?&lt;br /&gt;            – É você, querida.&lt;br /&gt;            – Sei... e você é o...&lt;br /&gt;            – José da Silva, seu marido!&lt;br /&gt;            – Ah, claro... que bobagem a minha. Por que não temos o mesmo sobrenome?&lt;br /&gt;Iria começar a se abrir com a única pessoa em quem deveria poder confiar, mas uma algazarra na rua falou mais alto. O marido foi atender. Mal ele abriu o portão, uma pequena multidão invadiu a casa.&lt;br /&gt;            – Eu quero matar o meu vizinho!&lt;br /&gt;            – Eu quero ser loura natural!&lt;br /&gt;            – Eu preciso ganhar na loteria!&lt;br /&gt;            – Eu sinto falta de verde na cidade!&lt;br /&gt;           – E eu estou entediada demais com a minha vida...&lt;br /&gt;            – Por que você deu um amante moreno, alto e bonitão para a mulher do padeiro e pra mim um marido chato, feio e que fala em molho de macarrão às seis e dez da manhã? &lt;br /&gt;            – Eu quero uma arma com silenciador, ora pois pois...&lt;br /&gt;           – E eu sou o representante da SCPFCND, aquele que você bateu o telefone na cara. Em nome de todos, eu exijo que você reescreva o conto!&lt;br /&gt;Ah, é assim? Ela respondeu com pose de quem podia tudo, e que se quisesse mataria até o diabo. – Deixe-me ver se eu entendi: Euzinha da Silva, inventei vocês, certo!? E já que aquilo era uma história de louco (e ela a louca maior) acrescentou simplesmente, OK, façam uma lista das mudanças desejadas e parem de cacarejar. Mandou que se retirassem e bateu a porta. Naquele dia ela estava mesmo impossível. Ou seria a vida que estava insustentável?&lt;br /&gt;O marido, seu único ponto de referência presente, ostentava ares de quem achava aquilo tudo absolutamente natural. Por que ele agia assim? Panaca! Na outra encarnação ou até mesmo nessa, se sorte ela tivesse, ainda se casaria com um homem com sangue nas veias, e que, de quebra, tivesse o hábito de travar a porta do carro enquanto circulasse pelas ruas perigosas da cidade; quiçá, trouxesse flores de vez em quando.&lt;br /&gt;No meio da madrugada ela acordou com um sobressalto. As dores nas costas indicavam que, no dia anterior, ficara várias horas em frente ao computador.  Ainda meio zonza, foi ao escritório vasculhar as estantes dos livros, o bloco de notas e até os arquivos do computador que, misteriosamente, já estava ligado. Precisava achar o tal conto, talvez até mesmo destruí-lo. Não tendo encontrado nada parecido com uma história onde existissem Francisquinhas, padeiros corneados e representantes de sociedades, ela ia já se livrando de todos os arquivos, maneira prática de resolver o problema – por certo escrevera o tal conto! – quando um detalhe significativo a deteve: o filho.&lt;br /&gt;André. O filho que ela jamais tivera. Bom grado ela continuaria alimentando os contos, as fantasias, as mesquinharias e o barulho dos passos dos personagens pela cidade, as crônicas, tudo; se ele existisse de fato.&lt;br /&gt;Quanto às solicitações dos personagens, ela deu de ombros e decidiu apenas que a única colher que ousaria meter seria a de sobremesa, num Danoninho sabor morango, seu preferido. Talvez Deus existisse e Dostoiévski tivesse mesmo razão, então os personagens que crescessem por conta própria.&lt;br /&gt; *Cissa de Oliveira é bióloga, professora e escritora.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=663" target="_blank"&gt;http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=663&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hilda Mendonça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARQUITETURA DO HOMEM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem, “este artefato de músculos e sustos”, é o leitmotiv de João Carlos Taveira em Arquitetura do Homem, Thesaurus Editora, 2005, com 120 páginas, arte final de Flávio Lopes da Silva, revisão e comentários do grande poeta Anderson Braga Horta, prefácio de Ronaldo Costa Fernandes. Este é, sem dúvida, um dos grandes livros de Taveira, dividido em cinco partes que, distintas entre si, formam um todo coeso como estruturação do Homem que nos remete a Gregório de Matos, nestes versos: “O todo sem a parte não é todo / a parte sem o todo não é parte.” Assim é essa arquitetura elaborada por Taveira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira parte “Eterna Construção”, encontramos o poema que dá título ao livro, “Arquitetura do Homem”. Taveira traz aqui um poema duro, quase concreto, que nos remete a Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso” e nessa mesma linha segue com o corpo, “este artefato de músculos e sustos” construído; no entanto, este corpo ora rígido, é o invólucro de “A alma”, “chama que anima / irmã atenta e etérea”. Vem “O tempo”, “Voragem dos abismos / aliança de inefável labor / na construção da vida?” Nota-se que ele afirma, sem nenhuma certeza explícita, esta interrogação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma pausa em seu devaneio de construção para um fato corriqueiro (que não deveria ser, mas o é) estampado em “Notícia de jornal”, voltando às voragens dos sonhos e indagações em “Navio Fantasma” e “O argonauta”, e faz agora um “Autoconhecimento”, fechando a primeira parte com “A máquina”, volta ao concreto inicial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda parte, que Taveira sabiamente denominou de “Inútil Construção”, abre-a com uma “Profissão de fé”. Parece-nos que retoma o tema espiritual que propõe em “A alma” e é aí que traça “O esboço para um poema”. A seguir, o poema esboçado se impõe em “A imposição do poema” e o homem, quase um semideus, aparece na “Contemplação de Apolo” em que já se mostra inteiro; contudo, permanece a indagação. Vem a preocupação com o ambiente do Ser, arquiteto em sobreviver em “Proclamação da rosa” e diante da fragilidade da vida induz-nos, a nós, desprovidos de bens materiais, porém ricos de idéias, o “Testamento” e encerra com “Variações sobre um tema pouco original” a certeza de que, tal como Bach e Mozart tinham de que a música haveria de sobreviver a todo sofrimento humano, a poesia também sobreviverá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terceira parte são as “Imprecações”. Nelas, Taveira se põe diante do espelho e há indagação do Ser: Homem ou Demônio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Na quarta parte, a música dá a tônica em seus versos, mas não abandona a indagação. É interessante em “Toada” o verso “Minas resiste”; vemos que o Sentimento do Mundo, de Drummond, é muito mais uma raiz mineira que teima em resistir, pois o mineiro sai de Minas, mas Minas não lhe sai do sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta e última parte vêm os sonetos e os haicais. Ah, o soneto, tão bonito de se ler e ouvir, mas tão difícil de escrever! E Taveira, fugindo do modelo parnasiano das rimas e adotando o verso-livre, compõe com inovação e mestria sonetos lindíssimos, como “Soneto do amor ardente”. Contudo, em “Soneto de sedução”, “Soneto de aspiração”, “Soneto de arrependimento”, Soneto de insensatez” e “Soneto de desencanto” ele se rende à rima e o faz com a mesma perfeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O arremate do livro são os haicais, obedecendo ao tema e as estrofes como deve ser um verdadeiro haicai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Encerrei de alma leve a leitura desta que, espero, seja apenas uma das muitas obras que a verve deste grande mineiro de Caratinga continuará a nos brindar.&lt;br /&gt;Passos, 2 de julho de 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Hilda Mendonça é escritora e professora de literatura, aposentada. Morou durante vários anos em Brasília e hoje reside em Passos, Minas Gerais, sua terra natal.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO SALVADO*&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;DESTERRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O paraíso onde ficou? Além&lt;br /&gt;De todo o sonho percorrido, alheio&lt;br /&gt;À vontade tão forte e tão amena&lt;br /&gt;Que por ser sonho se perdeu: poeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no entanto uma lembrança veio&lt;br /&gt;Avivar-lhe os pacíficos momentos&lt;br /&gt;Em que os rios paravam   de surpresos&lt;br /&gt;E brisa alguma despertava o vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deserdado e febril e reprimido&lt;br /&gt;Pelo dobar dos anos a correrem,&lt;br /&gt;Deixa que uma ilusão anime em si&lt;br /&gt;Uma esp’rança    falaz e vã que seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Poeta português, autor de diversos livros, entre eles Afloramentos, do qual foi extraído o poema acima, e Ao Fundo da Página.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BATISTA DE LIMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A herdeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No intervalo de uma semana, Dona Maroca e o marido Zuza Macário bateram a passarinha e foram morar na mesma cova do campo santo de Sipaúbas. Major Apolônio pagou o coveiro e Pe. Otávio emprestou o caixão das almas. Ficou, no entanto, a herança.&lt;br /&gt;De descendência só Maria do Carmo, filha única e herdeira absoluta do espólio. Chegada da capital três dias depois, fez visita de cova, encomendou missa de sétimo dia e verteu uma lágrima quando ultrapassou os umbrais da tosca casa de taipa na capoeira do Major Prefeito. Ali, de caderneta espiral em punho e lápis umedecido na ponta da língua, começou a anotar os teres e haveres ficados para seu futuro de mulher separada, após casada com Sargento Gustinho quando serviu em Sipaúbas.&lt;br /&gt;Estavam ali para seu deleite uma bicicleta quatro-espelhos, um isqueiro sete-lapadas, uma faca de oito polegadas sem bainha, um pote grande, uma quartinha, um pilão de aroeira, um moinho jacaré, três panelas de barro e uma de alumínio, uma cuia de milho, uma mala de rapadura, saca e meia de arroz, uma cama de vara, uma rede remendada e um penico de porcelana. Havia um baú de roupas de baixo, um cabide com roupas de cima, um lençol de tear, uma espingarda socadeira, um frasco de Biotônico Fontoura com um resto de mel de jati, uma manta de cebo de carneiro capado para o reumatismo da dona da casa.  Na sala da frente havia um São Sebastião atravessado de setas, uma enxada encabada, uma foice e um martelo, uma sela e uma cangalha e um buraco no chão onde um cachorro dormia.&lt;br /&gt;Depois de muito anotar, Do Carmo encontrou uma caixinha de pequenas coisas de mulher usar em dia de festa. Havia um par de brincos, um anel falsificado, uns santinhos de olhar mortiço e, no fundo da caixinha, uma gravura em cores de Santa Luzia com uma bandeja na mão, com os dois olhos que lhe arrancaram. No fundo da caixinha uma imagem de Santa Margarida Maria com um pequeno letreiro no verso onde se lia mensagem de mãe para filha desde sua mais antiga ancestral. “Minha filha, tudo que lhe deixo é meu exemplo de mãe, guarde até seus últimos dias, pois o resto que deixei não irá com você nessa última viagem”. Verteu a filha a última lágrima, lacrou as portas com travas em forma de cruz e retirou-se sem levar nada.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Astrid Cabral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Mortos não jogam xadrez&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;            Eis o instigante título do último dos muitos livros publicados pelo grande poeta cearense Francisco Carvalho. Em sua leitura nos deparamos com lances da vida e os conflitos da condição humana que nos desafiam ao longo do percurso terrestre. Afinal, como se declara no poema “Biografia de todos”, somos criaturas que viajamos no cavalo de Tróia das falsas ilusões e carregamos, tal qual Sísifo, inúteis pedras que se despencam das montanhas em vez de servirem a construções perenes. &lt;br /&gt;            A percepção da fragilidade dos homens, manifesta em cruciais imperfeições, pode ser rastreada em “Folha Corrida”. Temos aí vergonhoso elenco de crimes ambientais perpetrados por nós e que a consciência ecológica do autor recrimina: a poluição das águas, o desflorestamento, o extermínio dos pássaros.&lt;br /&gt;            No tabuleiro de xadrez do mundo, podemos vislumbrar o jogo entre duas forças que se opõem e dialogam. A poesia de Francisco Carvalho expressa com dramaticidade a gangorra existencial entre natureza e cultura. Sua temática poética oscila entre esses pólos antagônicos.&lt;br /&gt;             De um lado ocorre a poderosa presença do elemento terra, visibilíssima em certos poemas como “Paisagem de luto”, onde com insistência anafórica ele proclama: “Eu sou a paisagem/trespassada pelos/ espinhos dos cactos.// Eu sou a paisagem/que muda a pele de cobra/ em memória do vento.//Eu sou a paisagem/ onde os regatos tocam/ flauta pelos afogados.” Dentro dessa vertente naturalista se desenvolvem os poemas celebratórios de animais, ventos, campos, bem como dois extraordinários, intitulados ambos “Nuvens já foram dragões”, em que  tais elementos surrealisticamente se misturam.&lt;br /&gt;            Por outro lado o poeta paga seu tributo ao mundo da cultura. Lembre-se a emblemática estrofe de “Falcões em chama”, onde F.C. nos diz: “Sou da porta de cedro/ do arado e da foice/ da hipotenusa e da esfera”. Aí estão, portanto, todos os símbolos da cultura humana, seja a do concreto e rústico espaço agrícola, seja a do abstrato conhecimento da geometria euclidiana.&lt;br /&gt;             O mundo da cultura vai comparecer no livro através das recordações literárias e míticas que lhe povoam as páginas. Assim sendo, no rastro camoniano, Inês de Castro ressurge em “Soneto para uma rainha” e aparecem os poemas inspirados na imortal criação cervantina: “Canção para um fidalgo”, “ Canção para um escudeiro” e  “Sancho e a máquina do mundo”, nos quais F.C. não esconde seu respeito e simpatia pelo popular Sancho, filho da terra para quem “o pão saído do forno/ é o mais dourado dos sonhos”. Inúmeras são as alusões de caráter mítico que se sucedem pelas páginas do livro, os gregos Sísifo, Medéia e centauros, a bíblica serpente responsável pela queda nos jardins do Éden.&lt;br /&gt;            Entre os elementos pertinentes à cultura, avulta em Os mortos não jogam xadrez o tema da palavra. Várias são as composições em que o autor se demora na reflexão da inestimável conquista cultural que constitui a linguagem: “Elogio da palavra”, “Palavras amoladas”, “A palavra e seus gumes”, “Drummond revisitado”. Nelas o poeta externa aspectos do convívio com seu instrumento de trabalho, sua busca “na infância dos olhos,/ nas rugas das pálpebras/ e nos paradoxos.”; “nas enciclopédias,/ nas lombadas de ouro, /dos gregos e astecas ” até à sábia conclusão: “Palavra é pêssego maduro/ no vértice do galho mais alto”  &lt;br /&gt;            Por esses versos já se pode ver como a natureza e a cultura se associam no imaginário do poeta: a palavra é buscada no corpo e na mente, nos livros e também na imagem do fruto na árvore. Existe, pois, notável convergência do mundo herdado dos deuses com aquele construído pelo homem agente da história. Os poemas “Blue bird”, “Poema amarelo” e “Uma cabeça de vaca” exemplificam  a contaminação das distintas esferas.&lt;br /&gt;            A parte final do livro se notabiliza pela adoção do épico, de certo modo anunciado nos precedentes poemas “Notícias de Canudos” e “Elegias de Canudos”. Aí o autor exuma com nostalgia um dos mais tristes episódios de nosso Brasil, cindido entre o arcaico e o moderno, sertão e litoral, impotência e abuso de poder. A elegia se encerra com decassílabos de contundente ironia: “Uma salva de tiros à República/ em louvor dos heróis e seus cavalos.” Sem perder o lirismo, porém adotando uma dicção mais pragmática, Francisco Carvalho mergulha na história do país, apoiado na certidão de nascimento lavrada por Pero Vaz de Caminha, ou dando asas à imaginação em visita a Ouro Preto. Também passeia pelas águas e controvérsias do Velho Chico e pelo Nordeste dos engenhos, onde, ao se referir à escravatura abolida, comenta ironicamente: “Agora, em vez dos negros,/ somos todos escravos.”&lt;br /&gt;            Como em obras anteriores, o poeta se notabiliza pelo desdobramento metafórico à procura de indefiníveis definições. “O tempo é uma girafa/ ruminando os brolhos/ da última árvore” Momento altíssimo de vertiginosa mestria verbal é o poema “A Fernando Mendes Viana”, onde o tempo é ferozmente esquadrinhado em tropel de belíssimas imagens. Persistem, no livro em foco, a habitual e intensa musicalidade estruturada à base da isometria, as estruturas paralelas, o uso de rimas e de indefectíveis anáforas.&lt;br /&gt;            Pessoalmente, o que mais me comove e arrebata são os poemas de profunda reflexão existencial, aqueles que lançam perguntas sem resposta como: “Quem pode medir o tempo?” “Em que voragens da terra/ o mito da liberdade/ rasteja numa caverna?”, expõem conclusões sapienciais: “A vida é só uma/ em qualquer lugar do mundo// Todas as filosofias/ nos apunhalam pelas costas.”, ou falam da morte feito personagem de gravura medieval: “Dona Morte vem de Marte/ em seu cavalo de espuma”.&lt;br /&gt;            Depois de tantos textos de requintada fantasia e rara elevação, em que o poeta fala de si de maneira genérica e pouco confessional, o “Poema de Aniversário”,  escrito aos oitenta anos, declara: “Estou numa faixa/ etária em que as pessoas/ costumam morrer”.O leitor é profundamente abalado por conta do total despojamento e da extrema simplicidade desses versos. E mais, que dizer da pungente coragem expressa sem rodeios: “Velho otimista/ não passa de uma fraude.”?&lt;br /&gt;            Mortos não jogam xadrez é eloqüente jogada poética de quem está vivo, vivíssimo, mas não fecha os olhos à precariedade da efêmera condição humana.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hiirís Lassorian&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TENHO MEDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                           Ele quer ser diferente, senhor, mudar a ordem do caos, entrar em veredas que não lhe dizem respeito, criar um grande oásis e habitar nele como um deus. Um pássaro emplumado, grasnando pra lá e pra cá. Ridículo esse comportamento efêmero, o senhor não acha? Aonde pode levar tudo isso? Somente ao nada. E quando o nada se interpõe entre nós e a eternidade, poucos vestígios restam para contar a história, nem elogios ou condecorações por um suspiro senil.&lt;br /&gt;                           Caminha como um mendigo, em frangalhos, torpe, embalsamado, uma múmia egípcia. Olha para o céu, pede água, comida, reza de joelhos, e nada lhe cai, nem sequer a mínima esperança de um lugar na sociedade dos seres sem coração. Desgrenha os cabelos, pululam em sua boca todos os tipos de palavrões insensatos. Raros são aqueles que se dignam a ouvi-lo. Ignoram essa existência sem nome, semelhante aos seres que rastejam e não são percebidos: uma formiga ou um inseto qualquer. Pequeninos, tão pequeninos para olhos que só enxergam ao longe. Galinhas que ciscam ao redor de seus umbigos. Uma lástima!&lt;br /&gt;                           Não reclama da falta de tempo nem do cansaço social. “Onde estão as flores, o mar, a terra, o céu, a floresta e o ar que respiramos?” É o que ele rumina incessantemente. Ouvimos sem acreditar. Um louco. Palavras que iluminam as entranhas de nossa atual condição de miserabilidade. A tirania do egoísmo está em toda parte, senhor. A falsidade e a hipocrisia comandam esse mundo dilacerado pelo juízo fatal de que nada dura para sempre. Puro engano! Estou convencido de que não há esperança possível... Oh, desculpe-me, senhor! Não sei ao certo o que me levou a dizer tudo isso. Devo estar impregnado por alguma razão doentia que não posso controlar e que involuntariamente se apossa de mim. Tenho medo, senhor, muito medo. Esse episódio fez lembrar-me daquele conto assombroso de Poe: “A Máscara da Morte Rubra”. Chego a ficar arrepiado só em pensar nesta possibilidade. Esqueçamos tudo o que eu disse, por favor. Passemos às histórias alegres.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANA MARIA RAMIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SIMETRIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leve folha toca o solo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Intento homólogo. Do céu,&lt;br /&gt;icto raio ilumina o branco,&lt;br /&gt;extrai uma labareda, risca&lt;br /&gt;uma chama incontroversa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Forjar o signo&lt;br /&gt;um vórtice no cálice&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leve folha toca o solo&lt;br /&gt;e o dizer destilado escorre&lt;br /&gt;do relicário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Língua,&lt;br /&gt;frágil elo&lt;br /&gt;entre nave e pássaro.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Márcio Catunda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARNAVALHA, UMA ALEGORIA DA LOUCURA HUMANA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Carnavalha, romance de Nilto Maciel, autor de vasta obra literária e de reconhecida experiência na arte da narrativa, despertou-me imenso deleite intelectual. Não se trata somente de um livro bem escrito, mas de uma estória insólita, uma sátira com densidade expressiva e dramaticidade humana que me recordaram a ficção de grandes escritores da estirpe de Cervantes, Gogol, Voltaire, Petrônio, Quevedo, Erasmo de Roterdam e Osman Lins. Disse-me, certa ocasião, o autor de Carnavalha: «quem sabe eu ainda escreverei um livro fundamental?». Tenho a satisfação de dizer hoje a Nilto Maciel: acho que você conseguiu. «Exageras», contesta o ficcionista. Reitero a tese: Que paroxismo de imaginação! Que personagens mais doidamente geniais! Esse bando de malucos delirantes é a caricatura mais exata da humanidade e especialmente do Brasil, ou ainda mais particularmente, o Nordeste brasileiro. Trata-se de um Carnaval estudado em seus aspectos mais estapafúrdios. Mas, sobretudo, um Carnaval que simboliza o atual grau de evolução da humanidade, com suas taras e manias, suas fraquezas e vicissitudes. O êxito mais extraordinário do escritor cearense foi, a meu ver, retratar, a partir do microcosmo da provinciana cidade de Palma, o drama humano universal. E tudo fundado nos dois elementos com os quais os contadores de casos tornam imortais os episódios das suas estórias – o estilo e prospecção da alma humana.&lt;br /&gt;          No estilo, a técnica amadurecida no labor das experiências verbais de livros anteriores. Na prospecção da alma, o desvelar das profundezas do espírito humano, a interpretação das suas fraquezas e vicissitudes, proeza que os grandes estudiosos desenvolvem através da arte da reflexão e da expressão verbal. Com estas duas chaves que abrem muitas portas, Nilto Maciel desvendou um universo fabuloso, no sentido amplo do termo. O estilo sintético e a transliteração da ironia em alegoria plasmaram, com virtuosismo estético, a exata representação do imaginário.   &lt;br /&gt;          A virtude da síntese, que o aproxima da literatura objetiva de Graciliano Ramos, associa-se ao domínio da técnica cinematográfica, para tornar o discurso atraente e dinâmico. A simultaneidade dos fatos, a sucessão das imagens instantâneas no processo narrativo e os diálogos jocosos, zombeteiros, suscitam no leitor um interesse adicional pelo desdobramento da trama. De súbito, surgem animais, aparecem objetos de relance e ouvem-se sons inesperados, pronunciam-se frases estapafúrdias que rompem o convencionalismo e enriquecem a obra de originalidade. &lt;br /&gt;           Os personagens são sempre a riqueza de toda trama narrativa. E os de Carnavalha representam os mais extraordinários tipos da fauna social. O dissoluto Zuza, com a sua embriaguês onipresente; o velho Quincas, protótipo do avarento misantropo; Neo Bento, o atrevido maledicente; um bando de jovens desnorteados, irreverentes, sem senso de limite.  Silveira, o bafo de onça, sempre enfezado com a meninada. O motorista da eternidade, de cuja viagem o passageiro jamais regressa.    &lt;br /&gt;         Por meio desses tipos, percebe-se o quanto de humanidade sofre das faculdades mentais. A caricatura perpetrada no contexto do romance escancara uma psicose coletiva.&lt;br /&gt;          Outro recurso magistral de que se vale Nilto Maciel em sua fábula satírica é a linguagem do absurdo. As visões alucinantes dos personagens mostram a falta de racionalidade que caracteriza as criaturas humanas. O enredo de Carnavalha tem o estigma dos pesadelos. É onírico, na concepção das aberrações do surrealismo. O delírio é metáfora onipresente que denuncia a mente enferma dos personagens. As metamorfoses representam as atitudes de seres dionisíacos, dissolutos, cujas maluquices mal disfarçam o próprio desespero. Homens e animais se confundem numa grotesca caricatura. A matança dos bichos intensifica a atmosfera caótica do contexto narrativo: dromedários agonizantes, pessoas que vomitam sapos, ratos e baratas. Ratos que já foram pessoas. Gente que se transforma em diferentes animais. Galinhas que comem dentes de gente. Gatos transformados em onça. Muriçocas convertidas em morcegos. Uma coruja de mau agouro, pousando nas casas para desgraçar a vida de todos.&lt;br /&gt;          É curioso observar ainda o recurso à dispersão ou fragmentação da narrativa, no quarto e quinto capítulos, em que as digressões de episódios centrípetos não cortam o fio da meada. A unidade se mantém na teia em que animais e pessoas se associam. Na urdidura da trama, a coruja que sobrevoa a intimidade dos personagens é um recurso eficaz.&lt;br /&gt;         Nos capítulos finais, o contexto volta a ser o Carnaval. Reaparecem os personagens iniciais, os jovens dissolutos, o bêbado Zuza, proferindo impropérios, até o desfecho em que todos se reúnem com seus trejeitos e manias no interrogatório, bordado com as iluminuras dos aforismos do delegado Cabral. O desfecho é «sui generis», com um delírio vocabular que reflete a algaravia dissoluta de todo o sentido da obra. &lt;br /&gt;           Outro elemento criativo digno de nota: as epígrafes com versos de diferentes poetas, com que o autor adornou de frisos metafóricos o seu monumento literário.&lt;br /&gt;           Com diversos romances e livros de contos publicados, celebrado por inúmeros ensaístas, Nilto Maciel já conquistou um lugar de destaque nas letras nacionais. A sua obra deveria aparecer nas estantes das principais livrarias do Brasil. Até quando a empresa cultural brasileira falhará por insuficiência? Não importa. Nilto brilha mais alto que a mediocridade travestida de celebridade. É um mestre na tessitura da palavra e na intuição ficcional. Conjuga com destreza o fulcro da imaginação e o artesanato verbal.&lt;br /&gt;          Por dever de justiça, sinto impelido a afirmar que nele a humildade é proporcional à grandeza. Na dedicatória com que me honrou com um exemplar de Carnavalha, o autor se intitula um «escrevinhador». Mas escrever tal como esse livro foi escrito é inscrever-se entre os grandes nomes da arte narrativa de língua portuguesa.       &lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GLAUCO MATTOSO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TRIPÉ DO TRIPÚDIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SONETO 569&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há cena mais forte (ou humilhante)&lt;br /&gt;que um pênis penetrando a boca esquiva&lt;br /&gt;em barba emoldurada, antes altiva,&lt;br /&gt;agora coagida ao coito. Diante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dos lábios bigodudos é gigante&lt;br /&gt;o membro do invasor! Não há saliva&lt;br /&gt;capaz de umedecer uma lasciva&lt;br /&gt;maçã que contra a língua se levante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boca se deforma, se arredonda;&lt;br /&gt;o rosto os traços crispa, os olhos cerra;&lt;br /&gt;da barba escorre a baba, a náusea ronda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o fundo da garganta, onde se enterra&lt;br /&gt;a glande! E sem dar chance que responda,&lt;br /&gt;gargalha orgasmo quem ganhou a guerra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O soneto acima me veio por antecipação da ofensiva de Bush no Iraque, sendo a imagem do bigode obviamente alusiva a Saddam Hussein, extensiva a qualquer iraquiano à mercê do exército vencedor – cena que se confirmou, depois dos episódios verificados na prisão de Abu Ghraib, bem mais explicitamente do que eu podia prefigurar no momento de compor os versos.&lt;br /&gt;Mas a barba me remete, inevitavelmente, à fisionomia que durante anos mantive enquanto enxergava. Estávamos na década da redemocratização, quando as diversas "especificidades" reivindicavam espaço: mulheres, negros, homossexuais, deficientes... e todos estes componentes integram o flagrante autobiográfico aqui resgatado. Minha deficiência visual ainda não era impeditiva das atividades literárias, ao passo que minha homossexualidade foi determinante num caso envolvendo um negro e uma mulher, completando-se destarte o quadro "pluralista" típico daqueles anos.&lt;br /&gt;Foi assim: junto a um grupo de poetas "marginais", participava eu dum evento performático no Bixiga. O bar era freqüentado pelos carnavalescos da escola cuja quadra ficava na mesma rua. A batucada rolava ali como num ensaio rotineiro, e os poetas aproveitavam os intervalos para improvisar seu recital no mais espontâneo estilo "coloquialista". Tendo concluído meu número, tomei lugar numa das mesas vagas, para molhar a garganta e acompanhar o samba. Um colega de caneta veio se sentarcomigo, mas logo saiu para conversar com alguma poetisa, que então gostava de ser qualificada como "uma poeta". Voltei a ficar na minha, atento aos batuqueiros e ao som, quando me toquei que uma das mulatas da platéia não tirava os olhos (e que olhos!) de cima de mim. No ato passei mentalmente em revista a cara que meu espelho tinha registrado na hora de sair de casa: barba e cabelo cheios, óculos minúsculos de armaçãoquadradinha, camisa vermelha xadrez e corrente no pescoço – assim era aefígie sob a qual apareço nas fotos daquela época, em que a moda entre intelectuais se identificava com o perfil dum urbanizado ex-guerrilheiro que, por sua vez, podia ser confundido com um politizado ex-hippie.&lt;br /&gt;Se à noite todos os gatos são pardos, ali a maioria era parda no duro, inclusive as gatas. E se eu não seria o único branco, talvez fosse o mais longilíneo e hirsuto. O fato é que a mulatona me olhava e sorria (e que boca!): sorri de volta, gentilmente, e, tão logo outro amigo ocupou e desocupou a cadeira à minha frente, ela veio puxar papo.&lt;br /&gt;– Posso sentar aqui?&lt;br /&gt;– À vontade!&lt;br /&gt;– Você declamou bem! Esses livros são seus? Posso ver?&lt;br /&gt;Ao dar com o desenho fálico numa das capas, ela se assanhou.&lt;br /&gt;– Nem li e já gostei! (acho que era uma antropófaga oswaldiana) Queriaconhecer melhor. A obra e o autor.&lt;br /&gt;– Mas é bom não misturar as duas coisas.&lt;br /&gt;– Onde tem mais sacanagem? No livro ou no poeta?&lt;br /&gt;– O livro é mais sacana, mas o poeta é mais gay.&lt;br /&gt;– Ah, é? (como se dissesse: "Que pena!")&lt;br /&gt;Não reparei que, de longe, um crioulo de cara fechada e lábios grossíssimos nos observava; nem deu para concluir se a mulata sabia que o rapaz estava de olho.&lt;br /&gt;– Você tá vendendo o livro? Eu queria um...&lt;br /&gt;– Não, eu trouxe poucos. Mas pode ficar com esse.&lt;br /&gt;– Presente? Oba! Posso pagar com um beijo?&lt;br /&gt;Sem esperar que eu aceitasse, ela se levantou, beijou-me quase na boca e se despediu, saindo rápido ao encontro dum grupinho que se dirigia para a quadra. O crioulo não teve dúvidas: chegou, abancou-se quase pulando na cadeira e foi direto ao ponto.&lt;br /&gt;– Aquela que tava sentada aqui é namorada minha, sabia?&lt;br /&gt;Senti o bafo e o drama, mas meu trunfo estava no papo, valendo o trocadilho. Confiei no astral e arrisquei as fichas.&lt;br /&gt;– Se você pensou que eu tava paquerando ela, se enganou.&lt;br /&gt;– Não, eu sei que ela é que tava paquerando. Toda vez que a gente briga ela faz assim, pra me deixar com raiva. Como você não é daqui (entendi que dizia: "Você não tem nossa cor!") é bom ficar esperto, cara.&lt;br /&gt;– Pode ficar descansado. Comigo você não tem motivo pra se preocupar. Eu sou gay.&lt;br /&gt;– Tá me gozando? Você não tem jeito de gay...&lt;br /&gt;– Falo sério. Sou tão franco que, pra abrir o jogo duma vez, confesso que queria estar no lugar dela pra poder chupar seu pau.&lt;br /&gt;O negão me encarou como se fosse me esmurrar, mas sua corda vaidosa vibrou com tanta intensidade que ele não pôde conter um risinho de orgulho. Ainda quis confirmar minha sinceridade na inveja:&lt;br /&gt;– Se você estiver de gozação vai se arrepender, cara!&lt;br /&gt;– Pode acreditar! Eu chuparia seu pau agora, se você quisesse! E digo mais: seria a chupeta mais caprichada que eu faria na vida!&lt;br /&gt;Eu praticamente cochichava, mas minhas palavras pareciam gritar no ouvido do rapagão. Ele custava a crer que um branco literato se dispusesse a pagar tal tributo à sua masculinidade ofendida.&lt;br /&gt;– Agora você me provocou. E se eu quiser que você chupe mesmo?&lt;br /&gt;– A hora que você quiser. Eu estou à sua disposição.&lt;br /&gt;Só então me dei conta de que o pau dele podia estar tão duro quanto o meu. Ele parecia decidido:&lt;br /&gt;– Moro aqui do lado. Vamos pra lá... (a reticência tanto podia ser uma interrogação como uma exclamação imperativa)&lt;br /&gt;– Tudo bem. Só vou avisar uns amigos que volto logo. Já venho.&lt;br /&gt;Deixei o recado e acompanhei o crioulo até o cortiço vizinho, onde ele tinha um quarto. Até que não era tão precário aquele alojamento: além da cama desarrumada e do guarda-roupa velho e pesadão, sobrava espaço para um banco de carro à guisa de sofá e para umas prateleiras onde se amontoavam tralhas de tudo quanto era tipo, exceto livros. Mal entrei, e meu nariz tentou distinguir algum chulé no ar abafado, mas outros cheiros se fundiam, frustrando minha expectativa. Mesmo assim não me escapou à vista o par de tênis, junto com os chinelos, piscando para mim debaixo da cama.&lt;br /&gt;Antes de chegarmos ao quarto, passamos pelo banheiro coletivo, onde ele teve que parar para aliviar a bexiga. Ficou meio sem graça por não ter conseguido segurar o aperto, talvez achando que eu pudesse ter algum nojo, mas tratei de tranqüilizá-lo:&lt;br /&gt;– Não precisa nem balançar. Deixa que eu limpo o resto.&lt;br /&gt;Ele caiu na gargalhada, descontraído e definitivamente triunfante. Dali para diante ficou bem à vontade. Fez questão de permanecer em pé, para que eu tivesse de ajoelhar, e nem se deu ao trabalho de baixar as calças. O cacete que saía pela braguilha desabotoada já era suficientemente longo e grosso para que minha língua tivesse bastante trabalho, sem ter que cuidar do saco e das virilhas.&lt;br /&gt;Concentrei-me, então, em mostrar ao machão ciumento que minha palavra dehomem valia alguma coisa. Segurei naquele lingüição torto com respeitosa delicadeza. Fui arregaçando a cabeçorra e me assustei com a quantidade de esmegma que dormia sob o prepúcio. Seria possível que uma tal mulata assanhada se sujeitasse a lamber aquilo? Só se ela fosse tão masoca quanto eu me sentia na cena! Ele só esperava para ver se eu assumiria a responsabilidade da tarefa. Quando sentiu que minha língua aparava as últimas gotas de urina e começava a remover a crosta de sebo, soltou um "Ah!" bem fundo e passou a verbalizar abusos que eram música aos meus ouvidos ávidos:&lt;br /&gt;– Aê, seu trouxa! E agora? Tá sentindo o gosto? Agora vai ter que dar conta! Tá pensando o quê? Mulher minha não sai por aí beijando macho, não! Ela tá pensando que beija e fica por isso mesmo? Agora você é que vai beijar no biquinho, seu trouxa! Ainda faço aquela cadela chupar sem reclamar! Vai, chupa, quero ver seu capricho agora!&lt;br /&gt;Vendo que seria impossível satisfazer-lhe o anseio de penetrar como numa vagina ou num reto, já que minha boca só comportava a grande glande, recorri a um estratagema que, calculei por intuição, a mulata não praticava, pois provavelmente chupava com sofreguidão: mamei com a maior suavidade, esfregando de leve os lábios e passando a língua debaixo do meato a cada movimento de vai-vem, salivando abundantemente a fim de amaciar ao máximo a sucção. O resultado foi automático: nem bem ele gemeu mais acelerado, tirei o pau da boca e conservei os lábios abertos, fazendo com a língua uma ponte sob a glande, para que ele pudesse contemplar as golfadas saindo da uretra e entrando na garganta, o jato formando compridos canudinhos brancos que desapareciam dentro da cavidade oral. Aquilo deve ter sido um espetáculo que o crioulo jamais esquecerá. No final ainda limpei tudo com a língua e terminei de secar a poder de beijos na volta toda da chapeleta. O rapaz ainda resfolegava entre risos convulsos quando me abaixei e depositei-lhe um último beijo no bico do sapato. Voltei à posição genuflexa e ergui o olhar até seu rosto radiante e triunfal. Ele me contemplou de cima e tripudiou:&lt;br /&gt;– Viu só? Agora você sabe por que a Zoraide não me troca por ninguém! Ela briga mas volta!&lt;br /&gt;Voltamos ao bar, onde meus amigos me aguardavam para a saideira do sarau. Já na porta, na hora em que nos preparávamos para deixar o local, avistei o crioulo contando vantagem para um dos batuqueiros junto ao balcão, e fui ter com ele a fim de oferecer um exemplar do outro livro, não daquele com que a Zoraide havia sido brindada. Meio surpreso, o rapaz se disse muito agradecido e, depois que eu já tinha virado as costas, veio atrás de mim e bateu-me no ombro apenas para dizer:&lt;br /&gt;– Ah, só mais uma coisa: gostei daquele beijo que você deu no meu pé!&lt;br /&gt;Nunca mais tive oportunidade de render a outro crioulo a homenagem que com tamanha desinibição dediquei àquele enciumado caralho, mas em compensação não costuma ser tão raro que um invasor seja rechaçado numa guerra de conquista. Estão lá o Iraque e o Vietnam para me respaldar...&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERESINKA PEREIRA*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EXPLICACÕES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém se arrepende&lt;br /&gt;do que é.&lt;br /&gt;O brincar com as ilusões&lt;br /&gt;de tempo e de sonhos&lt;br /&gt;não conserta planos perdidos&lt;br /&gt;nem explica a falta de garra&lt;br /&gt;em um momentâneo céu.&lt;br /&gt;Para isso existe a crueldade&lt;br /&gt;e a covardia dos deuses&lt;br /&gt;e daqueles que de joelhos&lt;br /&gt;morrem por um perdão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Teresinka Pereira é Presidente da Associação Internacional de Escritores e Artistas.&lt;br /&gt;P.O. BOX 352048  /  TOLEDO, OHIO 43635-2048  /  USA&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Batista de Lima&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assombroso mundo dos vivos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo em que tínhamos medo dos mortos. As almas penadas viviam zanzando à noite nas encruzilhadas, nas portas dos cemitérios, nas casas velhas e em qualquer lugar onde a escuridão trevasse. Quem não tinha medo dessas almas é porque estava armado com as famosas palavras: “Quem pode mais que Deus?” Isso era o bastante para a alma responder: “Ninguém!”. Muitas vezes esse era o começo de um diálogo que terminava com o pedido da alma para o desenterro de uma botija, ou o paga de uma promessa não cumprida. Hoje o medo das pessoas não é mais dos mortos, e sim dos vivos. Hoje se vive preso por conta dos vivos que andam soltos.&lt;br /&gt;Atento a esse fenômeno, Carlos Roberto Vazconcelos intitulou seu livro de contos de Mundo dos Vivos, já que suas narrativas giram em torno de peripécias periculosas praticadas por aqueles que nos circundam. A publicação é da Expressão Gráfica e Editora, neste 2008, que em 115 páginas deixa escorrer 32 histórias curtas que trazem à tona mistérios e escombros deste nosso mundo dos vivos.&lt;br /&gt;Dos escombros desse mundo depauperado emergem “seres aflitos, vivendo a sensação da impossibilidade, no limite extremo e terrível entre o chão e o pulo”, conforme afirma Juarez Leitão, nas orelhas do livro. Já no prefácio, o saudoso Alcides Pinto prospecta nos contos “um sensualismo por vezes mórbido, por vezes dramático a percorrer a epiderme das personagens”. Não foi pois sem razão que essa coletânea de narrativas de Carlos Roberto ganhou o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, em 2007. Esse, no entanto, não é o primeiro prêmio literário ganho pelo autor. Afinal, desde o tempo de estudante, em sua terra natal, Tianguá, que ele vem ganhando certames literários, com suas narrativas que já pontificaram publicadas em antologias, revistas e jornais de nossa terra.&lt;br /&gt;As narrativas desse primeiro livro de Carlos Alberto Vazconcelos são curtas, à moda Dalton Trevisan, mas carregadas de momentos inusitados, como armadilhas, tocaias e demais surpresas que surpreendem o leitor, como inclusive seu próprio sobrenome que é um “Vazconcelos” com “Z” e não com “S”. Das tocaias da escritura às da pistolagem explícita dos nossos sertões, o autor trafega sem tropeços, mostrando seu conhecimento da arte de narrar em sintonia com os conheceres do grande sertão que nunca desgruda dos costados de quem nele nasceu.&lt;br /&gt;Interessante é a epígrafe do livro, retirada de Máximo Gorki, que fiz: “O que é pena é a vida mostrar-se pelo pior lado”. Coerentes com esse dizer, os contos vão mostrando do que são capazes certos viventes que nos cercam e que maculam muitas vezes o que há de belo e romântico em nossas vidas. Vivemos hoje sitiados nesse mundo dos vivos onde a inocência se enclausura em verdadeiras trincheiras para sobreviver à maledicência que impera nas ruas. Carlos Roberto atento a esse paradoxo mostra as entranhas de um cotidiano submerso em violências.&lt;br /&gt;Esse cotidiano de violência possui razões sociais como a má distribuição da renda, mas há também razões familiares, desajustes que começam na falta de convívio harmonioso entre casais. Em “Perdas e danos” está uma das razões: “Meu pai nunca fumou. Um belo dia, saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou”. Esse é o primeiro episódio de que se lembra o personagem que termina por se tornar um frio matador. Mata as pessoas com uma frieza que cresce à proporção que vai fazendo vítimas. Lá pelas tantas, no entanto, ele conclui: “... em minha vida tudo foi sempre tarde demais. Tarde demais para ser criança, tarde demais para ser família”.&lt;br /&gt;Outros tipos de violência vão sendo tratados no livro. Assim é o caso de “Em nome do Pai... e do Coronel”. O pistoleiro é instado a fazer sua última missão, e vacila. A serenidade da idade madura é o que move o interesse do pistoleiro aposentado a uma tentativa de não se envolver mais com tocaias. Essa violência é a mesma que leva o marido a sacrificar a esposa quando descobre que ela está grávida, mesmo sendo ele um homem estéril. E assim vão desfilando histórias sempre marcadas pela presença de tânatos, como a do personagem descrevendo sua própria morte em “A inescrutável face da morte”.&lt;br /&gt;Essa morte é “um escorregão idiota num dia de sol”. Essa morte está sempre se contrapondo a uma vida que teima em vingar. É um jogo de contrastes que se torna uma das marcas do estilo do autor. Por exemplo: “Nunca me senti tão pequeno. Jamais chorei tão grande (...) Saí do sono como quem entra num pesadelo”. “Minha mãe perdia peso e eu ganhava nome (...) Perdi também um irmãozinho antes mesmo de ganhá-lo”.&lt;br /&gt;Com relação ao perfil de seus personagens, Carlos Roberto sempre os surpreende em seus momentos culminantes. São criaturas que estão com um pé no abismo. Ou pelo envelhecimento, ou pelo risco de vida que a situação impõe. Quando não é essa culminância, é uma situação inusitada que põe o personagem num patamar diferente do senso comum. É o caso do escrevinhador que escreve cartas para si próprio. “Não vejo a hora de postar esta carta e voltar imediatamente para recebê-la”. Ou ainda o personagem que emagrece ao ler Dom Quixote. Então a mãe começa por esconder livros grandes para preservar a saúde do filho. Essa situação nos remete ao próprio Dom Quixote, no episódio em que os delírios do cavaleiro da triste figura são atribuídos às suas leituras. Então queimam-lhe os livros.&lt;br /&gt;Por fim chega-se ao final do livro de Carlos Roberto com aquela vontade de encontrar outras histórias a mais. O bom narrador tem essa característica, despertar no receptor a fome de mais querer histórias. Daí que fica o pedido para saciar essa ânsia, que venha logo o próximo livro.&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:jbatista@unifor.br"&gt;jbatista@unifor.br&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NILTO MACIEL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O BOI SANTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.ª PARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ (falando a outros romeiros):&lt;br /&gt;Meus amigos, vejam só&lt;br /&gt;que belo novilho vem&lt;br /&gt;se aproximando de nós,&lt;br /&gt;com jeito de boi mansinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve ser propriedade&lt;br /&gt;do Coronel Costa Lobo,&lt;br /&gt;se não vier do curral&lt;br /&gt;do padre velho do Crato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reparem bem nos seus chifres,&lt;br /&gt;como se fossem adornos&lt;br /&gt;em sua cabeça postos&lt;br /&gt;por mãos de mulher bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu couro parece feito&lt;br /&gt;de pano muito bordado,&lt;br /&gt;com paciência de mãe,&lt;br /&gt;esmero de bordadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus amigos, vejam só&lt;br /&gt;como ele é diferente&lt;br /&gt;de quantos se vêem cá,&lt;br /&gt;nas terras de minha gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É manso, de paz, ordeiro,&lt;br /&gt;como boi de manjedoura,&lt;br /&gt;e até parece um cordeiro&lt;br /&gt;que comesse em nossas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(O boi aproxima-se mais dos romeiros.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que queres aqui, garrote,&lt;br /&gt;a rondar os nossos ranchos?&lt;br /&gt;Por que te chegas a nós,&lt;br /&gt;comes de nossas migalhas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por acaso somos bois,&lt;br /&gt;a ruminar como tu?&lt;br /&gt;Por acaso és humano&lt;br /&gt;e foges da solidão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No lombo não trazes marca,&lt;br /&gt;não sabemos de quem és.&lt;br /&gt;Ninguém te reclama o couro,&lt;br /&gt;nem o berro, bem a baba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terás nascido de um touro&lt;br /&gt;e de uma vaca perdidos,&lt;br /&gt;desses que andam ao léu,&lt;br /&gt;cujo dono nunca os vê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou teu dono é doutras terras,&lt;br /&gt;de reinos desconhecidos&lt;br /&gt;e não sabe que estás&lt;br /&gt;no país do Juazeiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este boi é diferente&lt;br /&gt;de todos quantos já vimos,&lt;br /&gt;não quer comida bovina,&lt;br /&gt;de bicho de quatro pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só come batata doce,&lt;br /&gt;jerimum e macaxeira,&lt;br /&gt;tudo cozido e salgado,&lt;br /&gt;como se fosse cristão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terá sempre ele comido&lt;br /&gt;alimento de cozinha?&lt;br /&gt;Por acaso desconhece&lt;br /&gt;o capim dos seus iguais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este boi é diferente&lt;br /&gt;de todos quantos já vimos,&lt;br /&gt;pois não tem medo dos homens,&lt;br /&gt;antes nos tem amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMEIROS (em coro):&lt;br /&gt;Nosso Senhor Jesus Cristo,&lt;br /&gt;afastai deste recinto&lt;br /&gt;este boi aparecido&lt;br /&gt;por acaso e maldição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheia de graça Maria,&lt;br /&gt;protegei o nosso povo&lt;br /&gt;deste garrote sem dono&lt;br /&gt;que come do nosso pão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ:&lt;br /&gt;Não adianta rezar,&lt;br /&gt;que castigo Deus dará;&lt;br /&gt;vejam como se comporta&lt;br /&gt;o danado do novilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal começamos a reza,&lt;br /&gt;nem bem as mãos levantamos,&lt;br /&gt;ele mesmo ajoelhou&lt;br /&gt;aos pés de Nosso Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMEIROS:&lt;br /&gt;Te esconjuro, boi perdido,&lt;br /&gt;de Satanás enviado,&lt;br /&gt;vai embora para longe,&lt;br /&gt;para o inferno regressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afasta-te deste chão&lt;br /&gt;de sofrimento e milagre,&lt;br /&gt;deixa as terras do Padrinho,&lt;br /&gt;vai em busca do teu Cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ:&lt;br /&gt;Calem todos suas bocas,&lt;br /&gt;acabem com os esconjuros,&lt;br /&gt;este boi não tem maldade&lt;br /&gt;nem nos chifres, nem nas patas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já seja ele acredito&lt;br /&gt;do Divino um enviado,&lt;br /&gt;pra dizer que até os bichos&lt;br /&gt;no Padre Ciço têm fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PADRE CÍCERO (chegando):&lt;br /&gt;Que se passa aqui, romeiros,&lt;br /&gt;que tanta zoada fazem?&lt;br /&gt;Mais parece feira livre,&lt;br /&gt;onde todo mundo grita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem mais vendeu e ganhou,&lt;br /&gt;quem mais comprou e perdeu?&lt;br /&gt;Quem vendeu este boizinho,&lt;br /&gt;quem ganhou este garrote?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ:&lt;br /&gt;Meu Padrinho, meu Padrinho,&lt;br /&gt;“eu não sei mais o que faça!&lt;br /&gt;Quero a vossa proteção&lt;br /&gt;com sua divina graça!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trago aqui este garrote,&lt;br /&gt;sem marca, sem dono certo,&lt;br /&gt;que talvez queira falar&lt;br /&gt;em nome do Criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peço perdão se blasfemo,&lt;br /&gt;se digo alguma heresia:&lt;br /&gt;ocorre que esta pessoa&lt;br /&gt;parece vinda do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, sendo boi, se alimenta&lt;br /&gt;da mesma comida nossa&lt;br /&gt;e rezou ainda há pouco&lt;br /&gt;junto com vossos devotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PADRE CÍCERO:&lt;br /&gt;Meu bom beato Lourenço,&lt;br /&gt;este aqui é um boi manso,&lt;br /&gt;ainda sem nome dado,&lt;br /&gt;pertencente ao meu rebanho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuide dele como cuida&lt;br /&gt;das almas dos sertanejos,&lt;br /&gt;não o deixe escapulir&lt;br /&gt;das terras de nosso reino.&lt;br /&gt;(Retira-se)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BEATO LOURENÇO:&lt;br /&gt;Este boi abençoado&lt;br /&gt;por nosso Padrinho Ciço&lt;br /&gt;eu não sei se faz milagre,&lt;br /&gt;que é tarefa só de santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus irmãos, eu vos garanto&lt;br /&gt;que este boi é diferente&lt;br /&gt;de boi de pasto e repasto,&lt;br /&gt;daquele de matadouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MANUEL:&lt;br /&gt;Eu lhe faço, meu boizinho,&lt;br /&gt;um pedido nunca feito:&lt;br /&gt;interceda junto ao Padre&lt;br /&gt;para graça eu alcançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você me atender,&lt;br /&gt;eu prometo e até juro&lt;br /&gt;dar-lhe um feixe de capim&lt;br /&gt;do melhor que aqui houver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BEATO LOURENÇO:&lt;br /&gt;Preciso logo levar&lt;br /&gt;o bichinho pro curral,&lt;br /&gt;um lugar especial,&lt;br /&gt;distante dos outros bois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vosmicês fiquem rezando&lt;br /&gt;e fazendo penitências,&lt;br /&gt;que o pecado anda solto&lt;br /&gt;pelo mundo de meu Deus.&lt;br /&gt;(Retira-se, conduzindo o boi. No meio do caminho, encontram Padre Cícero.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BOI:&lt;br /&gt;Meu protetor e meu santo,&lt;br /&gt;venho aqui interceder&lt;br /&gt;por um pobre penitente&lt;br /&gt;precisado de favores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que deseja o coitado&lt;br /&gt;é coisa de pouca monta&lt;br /&gt;e nem milagre precisa&lt;br /&gt;ser feito agora ou depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PADRE CÍCERO:&lt;br /&gt;Eu já lhe disse, beato,&lt;br /&gt;que este boi é um animal,&lt;br /&gt;muito embora bem mais manso&lt;br /&gt;do que muito ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuide dele como cuida&lt;br /&gt;do rebanho falador.&lt;br /&gt;Dê-lhe pasto, sombra e água&lt;br /&gt;para a ceia do Senhor.&lt;br /&gt;(Lourenço conduz o boi ao curral.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MANUEL:&lt;br /&gt;Muito obrigado, garrote,&lt;br /&gt;pela graça que obtive,&lt;br /&gt;eis seu feixe de capim,&lt;br /&gt;conforme lhe prometi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode comer à vontade,&lt;br /&gt;matar a fome que exista&lt;br /&gt;em sua barriga santa,&lt;br /&gt;sem qualquer constrangimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não aceita o pagamento?&lt;br /&gt;Vire esse olhar para longe,&lt;br /&gt;pare de tanto mugir,&lt;br /&gt;como se me acusasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ:&lt;br /&gt;Cabra de peia, safado,&lt;br /&gt;se o boi não quer teu capim&lt;br /&gt;é porque sabe decerto&lt;br /&gt;do roubo que praticaste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora pede perdão&lt;br /&gt;do pecado cometido,&lt;br /&gt;ajoelha-te aos pés&lt;br /&gt;do garrote justiceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MANUEL:&lt;br /&gt;Eu me ajoelho a teus pés,&lt;br /&gt;teus pés de santo bezerro,&lt;br /&gt;para pedir teu perdão&lt;br /&gt;por roubo que cometi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BEATO LOURENÇO:&lt;br /&gt;Agora pega o chicote&lt;br /&gt;e açoita teu corpo sujo,&lt;br /&gt;derrama teu sangue imundo,&lt;br /&gt;paga com dor teu pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ:&lt;br /&gt;Milagroso e santo boi,&lt;br /&gt;mostre-me cá seu pescoço:&lt;br /&gt;com uma guirlanda de flores&lt;br /&gt;queremos ornamentá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nos seus chifres pequenos,&lt;br /&gt;flores dos nossos sertões,&lt;br /&gt;fitas as mais coloridas,&lt;br /&gt;mil beijos dos penitentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim me dai o amor&lt;br /&gt;da cabocla Bastiana,&lt;br /&gt;um jumento ensinado&lt;br /&gt;e terra para plantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRIMEIRO ROMEIRO:&lt;br /&gt;Quero uma cama de pau,&lt;br /&gt;forrada de algodão,&lt;br /&gt;e as noites todas do mundo,&lt;br /&gt;repletas de quatro pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO ROMEIRO:&lt;br /&gt;Como não tenho coragem&lt;br /&gt;de pedir ao Padre Ciço&lt;br /&gt;a cabra que nos dá leite,&lt;br /&gt;socorro-me do senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERCEIRO ROMEIRO:&lt;br /&gt;Dou minha filha Vicença&lt;br /&gt;a vosmicê, se a quiser,&lt;br /&gt;caso a graça alcance&lt;br /&gt;de ter a mulher de Pedro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.ª PARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LOURENÇO (com outros beatos, à certa distância do boi.)&lt;br /&gt;Meus irmãos, me escutem cá&lt;br /&gt;o que tenho pra dizer:&lt;br /&gt;uma semana não faz&lt;br /&gt;que o Boi Santo apareceu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e centenas de milagres&lt;br /&gt;por aqui se deram já.&lt;br /&gt;E eu não sei o que fazer&lt;br /&gt;diante das novidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita gente me pediu&lt;br /&gt;um pouquinho da urina&lt;br /&gt;do nosso garrote santo,&lt;br /&gt;para evitar a cegueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra gente me rogou&lt;br /&gt;uma raspinha do casco&lt;br /&gt;do novilho milagroso,&lt;br /&gt;pra se livrar de quebranto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu não sei onde arranjar&lt;br /&gt;tanto mijo e tanto chifre,&lt;br /&gt;tanto casco e tanto boi,&lt;br /&gt;pra tanta meizinha dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRIMEIRO BEATO:&lt;br /&gt;É preciso controlar&lt;br /&gt;a ganância desta gente,&lt;br /&gt;pois nem todos são doentes:&lt;br /&gt;tem mais cego do que olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO BEATO:&lt;br /&gt;É preciso vigiar&lt;br /&gt;o sossego do garrote&lt;br /&gt;e evitar que todo mundo&lt;br /&gt;retire um pedaço dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERCEIRO BEATO:&lt;br /&gt;Pela minha sugestão,&lt;br /&gt;nós devemos recolher&lt;br /&gt;tudo o que dele vier,&lt;br /&gt;seja mijo, seja bosta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois distribuir,&lt;br /&gt;conforme as necessidades&lt;br /&gt;dos doentes, aleijados,&lt;br /&gt;e também conforme a fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Os quatro aproximam-se do boi e dos romeiros.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PADRE CÍCERO (chegando, às escondidas, e falando para si mesmo):&lt;br /&gt;Esse boi que acolhi&lt;br /&gt;já não quer mais macaxeira,&lt;br /&gt;agora só come papa,&lt;br /&gt;bolo de milho e mingau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quer comida salgada,&lt;br /&gt;como se fosse cristão&lt;br /&gt;e soubesse ser o sal&lt;br /&gt;a marca de nossa crença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os romeiros nem sequer&lt;br /&gt;vêm beijar a minha mão;&lt;br /&gt;só me saúdam de longe,&lt;br /&gt;sedentos de ver o boi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correm todos para o pasto,&lt;br /&gt;do animal adoradores.&lt;br /&gt;Comida farta lhe dão,&lt;br /&gt;pagamento de promessas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da sapiranga se curam,&lt;br /&gt;do tracoma e outros males&lt;br /&gt;com o mijo do danado&lt;br /&gt;– água benta e milagrosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se vê mais com quebranto,&lt;br /&gt;bouba ou espinhela ninguém&lt;br /&gt;– salva-os pedaços dos chifres&lt;br /&gt;e dos cascos desse boi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Retira-se.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRIMEIRO ROMEIRO:&lt;br /&gt;Não se aflija, meu garrote,&lt;br /&gt;que seu mijo não tem fim,&lt;br /&gt;nem seus chifres vão morrer,&lt;br /&gt;nem seus cascos se acabar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO ROMEIRO:&lt;br /&gt;Por mais cegos que tenhamos,&lt;br /&gt;por mais fracos que aqui venham,&lt;br /&gt;nem um dia sem milagres&lt;br /&gt;o senhor há de passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ:&lt;br /&gt;Este boi que aqui chegou&lt;br /&gt;vem fugido do Sertão,&lt;br /&gt;espantado pelo índio,&lt;br /&gt;qual se fora assombração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desgarrado da boiada,&lt;br /&gt;se perdeu na caatinga,&lt;br /&gt;quebrou a peia que o tinha&lt;br /&gt;amarrado ao capelão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio ter aos pés do povo&lt;br /&gt;que acredita em salvação,&lt;br /&gt;mas, não sendo São Garrote,&lt;br /&gt;faz de conta que é Boi Santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMEIROS (ajoelhados diante do boi, cantam, em coro):&lt;br /&gt;Divino e sagrado boi,&lt;br /&gt;nós te rogamos, contritos,&lt;br /&gt;um milagre no Sertão:&lt;br /&gt;água, comida e sossego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em troca te oferecemos&lt;br /&gt;nossas rezas mais compridas,&lt;br /&gt;nossa fé mais arraigada,&lt;br /&gt;todas nossas penitências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santo, santo, santo boi,&lt;br /&gt;irmão de Cristo Jesus,&lt;br /&gt;do Divino Esprito Santo,&lt;br /&gt;do Padre Ciço Romão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu és a Quinta pessoa&lt;br /&gt;da Santíssima Trindade,&lt;br /&gt;filho bendito de Deus,&lt;br /&gt;Boi da Terra, Boi do Céu.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liana Aragão*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tyna&lt;br /&gt;Tyna era chocha; incapaz de raspar, em dia, as axilas e as virilhas. Tinha pernas finas e gostava de sapatos coloridos. Acreditava em anjos e gnomos, mas não tinha vida espiritual. Gustavo a amava. Inteiramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobrancelhas&lt;br /&gt;Edson julgou que todas as mulçumanas tivessem olhos exuberantes. Lamentou encontrar a freguesa libanesa. Olhos feios, sobrancelhas entroncadas, tortas e sem vida. E a moça, apaixonada pelo brasileiro vendedor de tapioca, fedia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lusa Cássia Mara&lt;br /&gt;Todas as terças, Edésio se recusava a transar com Cássia Mara. Mas pagava, em euros, para cheirar os sovacos da rapariga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;Trabalhava em banco, entendia de fundos de investimentos e tinha expertise para comparar tarifas e patrimônios líquidos: sabia escolher onde aplicar melhor dinheiro, jóias e outros bens. Tinha dúvidas sobre a existência de deus, mas certeza absoluta de que poemas de amor já não agradavam. Em situação alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filho da puta&lt;br /&gt;Abandonaria o Direito. Em vez de juiz, seria árbitro e sua mãe continuaria sempre a mesma mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louros&lt;br /&gt;Na aula de contabilidade, os pensamentos de Petrus transitavam entre índices de solvabilidade e a alternância gostosa da buceta de Lídia e do cu de Gilberto. Ambos tão louros quanto o professor que tagarelava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colo&lt;br /&gt;O celular de Silvana tocou e ela lamentou, chorosa. Teve certeza de que quem a olhasse enxergaria uma mulher madura e mal comida, frustrada e carente. Desejou estar no colo de sua mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fátima&lt;br /&gt;Fátima urrava de ódio por Marcelo tê-la deixado e por enxergar, enfim, o saldo da briga derradeira: uma unha quebrada e algumas falhas no aplique dos cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem real&lt;br /&gt;Amaro era homem de verdade: por debaixo da nuvem de perfume e dos ternos italianos, alguns quilos de músculos bem trabalhados. E espinhas nas costas, manchas de desodorante, unhas mal cuidadas. Na cabeça, caspas. Os peidos eram eventuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;Ubirajara pensava que ter uma camisa Lacoste faria com que seus colegas do treino de tênis olhassem seu corpo e sua alma de modo diferente. Lamentava não ter dinheiro suficiente, mas agradecia a Santo Expedito por ter Pipo, o poodle, para os carinhos noturnos e sinceros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;Os cabelos de Eli despertaram em Viriato a vontade de acariciar o pênis. Eram feitos de nuvem ou ao menos lembravam a maciez dos pêlos de um angorá. Eli, concentrada nas explicações bem indexadas sobre lógica de programação, fez um movimento brusco para estralar o pescoço e os cabelos balançaram. A turma ouviu incomodada o suspiro doce e disfarçado de Viriato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;Não se pode fazer um omelete sem quebrar alguns testículos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guia e cega&lt;br /&gt;Pode ser que se chamasse André, Pedro, Paulo, Marcos, Antônio, Valdir. O atleta não fazia a menor idéia. E o menino seguia, com a mãe ou avó; guia e cega. Cuidadoso, informava sem nada dizer: buraco, batente, desvio (e a bengala, inútil, pendia suspensa pela bolsa). Mas, no asfalto, aproveitava a cegueira da velha para correr, mesmo que não viesse carro. E o atleta vigiava, extasiado, a cega feliz que, sem saber, participava da brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O clã&lt;br /&gt;Só ontem me vi enfiada no clã. Até o pescoço. Eu era também mais uma das pessoas que sempre odiei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Listras&lt;br /&gt;Lerda é Iara, minha irmã. Eu sou outra coisa muito pior. E se dizem que xadrez me cai bem, são as listras que vou usar. Sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Liana Aragão nasceu em Fortaleza em 1979 e vive em Brasília desde 1996. É mãe do Bernardo, contista, jornalista, bancária e mestre em Literatura pela Universidade de Brasília.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas Athanázio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BANQUETE PARA LOBATO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peter Pan, o menino que não queria crescer, personagem do escritor escocês J. M. Barrie (*), e que encantou gerações de leitores, volta à tona através da reedição de livros e de numerosas matérias na mídia mundial. É um esforço para despertar na garotada de hoje o interesse por heróis que não matam, não brigam, não usam armas, agem no campo poético da fantasia e da imaginação. É difícil prever se dará bom resultado, mas a tentativa é meritória e corajosa porque implica em considerável investimento dos editores na publicação e divulgação. Interessante observar, porém, que nessa investida publicitária surge o nome de um brasileiro como pioneiro na tradução e adaptação das histórias envolvendo o célebre personagem para as crianças das línguas portuguesa e espanhola: Monteiro Lobato (1882/1948). Além de muito escrever sobre ele, Lobato o encaixou na saga do Sítio do Picapau Amarelo e lhe dedicou todo um volume da obra infanto-juvenil onde Dona Benta narra ao pessoalzinho de casa o rol das aventuras do curioso menino que “morava na rua das casas, número das portas” (**)&lt;br /&gt;Coincidem essas notícias com a chegada de uma raridade sobre Lobato que me foi oferecida pelo dedicado lobatiano paulista Trajano Pereira da Silva. Trata-se do discurso proferido pelo Prof. Bernardino Querido, educador, escritor, poeta, nome de rua e patrono de escola da cidade de Taubaté, terra natal de Lobato, para festejar o lançamento do livro “Urupês”, publicado no ano anterior. O banquete, oferecido pelos amigos, aconteceu na noite de 9 de julho de 1919, no salão do Hotel Lino que “apresentava-se garridamente ornamentado.” Bernardino Querido é autor da frase insculpida numa placa do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, nestes termos: “Quando Santos Dumont contornou a Torre Eiffel, o nome do Brasil fez a volta ao mundo.”&lt;br /&gt;Segundo a reportagem do jornal “O Norte”, de 11 de julho de 1919, viam-se nos cardápios “figuras alegóricas aos personagens criados pela pessoa fulgurante de Monteiro Lobato trabalhadas pelo espirituoso pincel do Dr. Severiano de Miranda.” Por coincidência, festejava-se o aniversário da esposa do homenageado, D. Purezinha, que foi saudada pelo Dr. Granadeiro Filho “com frases de muita inspiração. Dr. Miranda esteve também em seu dia e fez uma chispa de que as gentis senhoritas o incumbiram.”&lt;br /&gt;“Tomaram assento à mesa, em forma de U, além do homenageado, – prossegue o jornal – as Exmas. Sras. Pureza Lobato, Zenaide Rams, Maria de Lourdes, Constancia Quadros, Aracy Monteiro, Alice Natividade, Thereza Varella, Noemia Euthalia, Alayde Valentino Vieira, Helena Natividade e os Srs. Braga Jr., Cesar Costa, Granadeiro Guimarães, Severiano de Miranda, Renato Granadeiro, Adolfo Leonardo, Bernardino Querido, Granadeiro Jr., Carvalho Viana, Luiz Guimarães Vieira, João Victor, José Benedicto Malhado, Paulo Costa, Felix Guisard Filho, Crescencio Costa, Antenor Leite e Francisco de Barros, fazendo-se ouvir durante o banquete uma orquestra regida pelo Prof. Jovino de Barros.” A reportagem vaticinava que “muito breve a Academia Brasileira lhe abrirá suas portas”, o que, na verdade, nunca aconteceu. A relação de Lobato com a Academia foi sempre de desconfiado distanciamento, apesar de ter se candidatado duas vezes, sendo derrotado na primeira e tendo desistido na segunda sem concorrer.&lt;br /&gt;Como se vê, a homenagem foi preparada com esmero em todos os detalhes, valorizando o escritor conterrâneo que tinha a centelha do gênio e que bem souberam avaliar. Estiveram presentes as figuras mais expressivas da cidade. Eram tempos em que a sociedade prestigiava os escritores e reconhecia de público seus méritos.&lt;br /&gt;Tudo indica que Lobato foi apanhado mais ou menos de surpresa, só tomando conhecimento com a antecedência suficiente para rabiscar as palavras de agradecimento. Na única carta escrita de Taubaté que aparece no segundo volume de “A Barca de Gleyre” (***), enviada ao “amigo escrito” Godofredo Rangel (como observou Trajano), Monteiro Lobato não faz qualquer menção ao banquete. Datada em 25 de junho de 1919, portanto poucos dias antes, ele se mostra mais interessado na planejada mudança para o Rio de Janeiro e nas pescarias no rio Paraíba. Declara-se feliz com o silêncio da terra natal, um silêncio que pode ser ouvido, e que “parece a zoada de milhões de grilinhos microscópicos que nos envolvem de todos os lados – e isso opera como eliminador das toxinas urbanas. Não fazer nada... Comer, dormir, não ler, viver como um pé de abóbora: não há melhor Urodonal.” Mais adiante: “A solução da vida está no alternarmos coisas inversas – rumor e paz do silêncio, pasmaceira e tumulto, capital e cidadinha do interior.” Aproveita para mais um dos múltiplos conselhos que dava ao amigo mineiro: “Deves organizar tua vida de modo a teres pelo menos cinco ou seis semanas de capital por ano. Estás há tanto tempo amachadado, assilvestrado, santarritado, estrelado...” (p. 200). Referia-se a Machado, Silvestre Ferraz, Santa Rita do Sapucaí e Estrela, comarcas onde Rangel exerceu a judicatura. Nessa época Lobato residia em São Paulo e sua editora progredia a passos largos.&lt;br /&gt;Voltando, porém, à noite do banquete, vejamos como o orador da solenidade alimentou o verbo para saudar o escritor vitorioso. Segundo o jornal, “ao champagne  o Sr. Bernardino Querido dirigiu ao Sr. Monteiro Lobato a seguinte saudação:&lt;br /&gt;“Minhas senhoras! Desta festa, o encanto na música repousa, em vós, nas flores! Erguendo-me, eu saúdo-vos num canto!&lt;br /&gt;Caríssimas senhoras!&lt;br /&gt;Meus senhores!&lt;br /&gt;Meu caro Juca Lobato!&lt;br /&gt;Perdoa-me se desacato, neste solene momento, o nome dessa pessoa, que em todo o Brasil reboa, com meu rudo tratamento.&lt;br /&gt;Quando a voz da multidão quer dar mais força e razão a um nome que ela reclama, usa logo a parcimonia; põe de lado a cerimonia, que não faz liga com a fama. E o Zé-Povo quando quer, a seu eleito fazer ficar em franca evidência, o doutor fica esquecido; joga o título ao olvido e põe de parte o Excia. E assim longe de insultos trata o povo os grandes vultos, como quem fala a um vizinho! Mas confessemos, Lobato; há nos modos desse trato, muita coisa de carinho...&lt;br /&gt;Vamos adiante! Os amigos (não só do tempo dos figos) deram-me a dura prebenda de ofertar-te este jantar. Aceitas? Vamos gozar as delícias... de uma lenda. Mas pra sair dessa entala preciso deitar a fala com que a musa pára estática. Mas é preciso, obedeço, e de tudo o mais esqueço, só lembrando a pragmática.&lt;br /&gt;Seria indelicadeza, se em torno desta mesa, só nós apenas sentados estivéssemos, já quando eu sei que fora, esperando, existem mais convidados. É feio e mesmo não presta que os que motivaram a festa, não estejam cá presentes.&lt;br /&gt;Não sejamos egoístas: em vez de uma, duas listas, por não haver descontentes. Uma é a nossa – a de homenagem ao portador de bagagem tão rica de verve... a graça. Noutra – os nomes eu coloco dessa gente posta em foco pelo autor que vence... e passa.&lt;br /&gt;Mas porque tenham receio, e não queiram neste meio vir não sendo acompanhados, proponho que cada um, de nós sem faltar nenhum, vá buscá-los bem cuidados.&lt;br /&gt;É fácil que alguém não goste, da posição de preboste a procurar desertores: mas também (o mas é tudo!) quero crer que um não tão rudo não nos trará dissabores.&lt;br /&gt;Crescencio, fica incumbido de trazer o divertido e bom Saci-Pererê; este grande personagem não pode ficar à margem, pois que também é Urupê!!! Não querendo que se escape quem vem das bandas de Iguape, fica o Paulo por seu mal encarregado inda agora de nos trazer sem demora, esse Problema Vital.&lt;br /&gt;Concretiza estas visões, que vivem pelos sertões e dá-lhes banho... de luz! Como juiz dá-lhes conselho, e mostra da vida o espelho no progresso que seduz!&lt;br /&gt;O Braga, ao certo que traz, pela gola esse rapaz, a quem matou Jerebita – gozo de fama: é o Cabrea, que tanto perturba a idéia de D. Maria Rita.&lt;br /&gt;Granadeiro, que é mais moço, arrasta pelo pescoço aquele pobre coitado. É o Pontes – não tenhas medo; que mesmo morto, o segredo do riso tem bem guardado. Fôra um bom; fizera rir, somente por divertir sem mal fazer, como vês: numa ceroula enforcado, lá fica dependurado, nas folhas dos... Urupês.&lt;br /&gt;Tu, Miranda, junto a nós, traze também esse algoz dessa velhinha louçã. Quem sabe lá se ele inspira, com o rosto de mau caipira, Meu conto de Maupassant?&lt;br /&gt;Tu Renato, que aprecias as belezas e alegrias, que a natureza reparte, traze conosco essa gente, da Bucólica inocente e dá-lhe um lugar à parte. Sinh’Ana e Maria Veva; Pedro Suã, que se atreva; o Chico...quem mais sei seu? Por todos, enfim te empenhas! O Luís, a Ignácia, que venha! Aninha, não! que morreu!&lt;br /&gt;E o Barros sorri. Pois bem: Irás tu buscar alguém, que talvez esteja à espera, Sinh’Ana Rosa e Joaquim e aquela ingênua menina, que vive lá na tapera. Tu também és beletrista; segue pressa, põe-te à pista, vence as veredas e atalhos, e traze sem dor nem mágoa, esse terno Pingo d’Água... numa colcha de retalhos.&lt;br /&gt;Pernambi deseja entrar. Tem fome. Pode passar por Felizinho trazido. Recende a cachaça e a fumo, mas é por fim um resumo do caboclo divertido. Conserva-o sempre no colo, porque não vá no monjolo de seu pai, buscar a morte. Aquele Chooo-pan! do Nunes, como assassinos impunes, é Barzabu de má sorte.&lt;br /&gt;João Victor vai a Itaoca, e mostra a Pata Choca, que é a D. Joaquininha; mas não te esqueças do Gama, coronel de grande fama, cujo valor se adivinha. Filhos não, são dezesseis; só em contá-los vai-se um mês. Somente o doutor virá: chama-se Inácio o tratante; se queres vê-lo num instante, dize que Yvone está cá!&lt;br /&gt;Carvalho, por ser Carvalho, cuja fama eu mesmo espalho, vai ao Sítio do Elesbão, na serra do Palmital e de lá traz o casal dos Pocas; e ocasião não pode ser mais talhada; traze – Rosa – a enamorada! Mas cautela, seu Viana, não traga o Ruço mau, que a modos do Mata-Pau possui uma alma tirana!...&lt;br /&gt;Malhado, que é farmaceutico, sabe o meio terapeutico de curar certa doença; por isso fica incumbido de, sem bulha nem ruído, ir buscar, sem mais detença, esse enfermo da moral, ao banquete social, trazê-lo, mas só à porta. Fica aí preso ao remorso, té que num lance de esforço se arrependa – é o Bocatorta.&lt;br /&gt;Lulu, conhece o Moreira? Corta em sua dianteira e trá-lo aqui pela mão, prega-lhe um susto gostoso, dizendo que um tal Fragoso quer lhe comprar o Espigão. Chama Zilda, esse demônio, que se agrega a Santo Antônio, por vontade de casar, e a D. Isaura desvenda, que o Comprador de Fazenda vem seus bolinhos filar.&lt;br /&gt;Tu, Cesar, que está de riba, olha os modos do Biriba, que em ti põe toda a esperança. Vê se arranjas c’o partido, um jeito de ser servido também Rufino e sua pança. A este que cá não veio dá-lhe a Agência do Correio, que tem trabalhos do Inferno; ao Biriba mais chereta, dá-lhe o lugar de estafeta, como Um suplício moderno.&lt;br /&gt;Adolfinho, não conheces, o Fausto, que tantas preces fizera, no altar do amor?  E seu filho, aquele estigma, que é um libelo esmagador? Conhece-os. Pois são convivas, aquelas almas esquivas, imersas numa tristeza. Vai tu depressa buscá-las e aqui procura senta-las ao redor de nossa mesa.&lt;br /&gt;Agora meu Granadeiro vai ser o grande escudeiro de quem ali se acocora. Pede vênia a Rui Barbosa que o ligara à sua prosa e arrasta sem demora. Cuidado que ele é manhoso: crê em Deus e no Tinhoso; vive triste e é jururu mas conhece seu direito em tudo que diz respeito a ele, Jeca Tatu. Vês seu nome que fulgura, ligado à candidatura à curul da presidência? Não é um Jeca sem glória; quem passa aos fastos da História, lembrado na conferência!&lt;br /&gt;Descende o Jeca, dos grandes que levaram para os Andes a linha de Tordesilhas!&lt;br /&gt;- É filho dos Bandeirantes, daqueles homens possantes que ao progresso abriram trilhas.&lt;br /&gt;Se alguma coisa o estraga, não passa da Velha Praga, que o Antenor traz pela mão. Vê que é um velho personagem, mas que traz nova roupagem, numa segunda edição.&lt;br /&gt;Eu, eu trago mas a quem?&lt;br /&gt;Preciso trazer alguém, comigo como o fizestes! Lembra agora o pobrezinho, maltratado cachorrinho, do qual ao certo esquecestes. Quem nos dirá que nesta hora, faminto não vive agora, esse triste animalzinho?&lt;br /&gt;Já não será mais frasqueiro aquele bom companheiro.&lt;br /&gt;Que acode ao nome: Brinquinho.&lt;br /&gt;Na mesa dos gênios, Goethe, seria feliz se um croquete pode fazer da migalha; imaginemos Brinquinho se alcança com seu focinho os restos desta toalha.&lt;br /&gt;E agora que ninguém falta, há o prazer que nos assalta; duplo prazer como vês: o que faz ponto a esta história, e o que nos vem pela glória, do autor de Urupês.” (****)&lt;br /&gt;Embora em linguagem antiga e arrevesada, usando palavras hoje esquecidas, o orador revela grande criatividade, senso de humor e conhecimento perfeito da obra de Lobato. É escrito numa espécie de prosa rimada, segundo precisa observação de Trajano. O discurso desvenda um bocado do mundo de personagens, figuras e situações que habitam os Urupês. Os amigos dos tempos dos figos a que se refere o orador seriam aqueles dos dias de riqueza e opulência e que desaparecem nas situações difíceis; falsos e bajuladores. Trajano fez a propósito boa pesquisa, inclusive em João Ribeiro, em cuja obra encontrou vários exemplos.&lt;br /&gt;Mesmo avesso a esse tipo de homenagens, Lobato compareceu, ouviu de pé firme os discursos e agradeceu numa peça que é um modelo típico de seu estilo. “Discurso de Agradecimento” foi publicado em obra póstuma, com certeza organizada pelo incansável Edgard Cavalheiro, embora essa informação não conste do volume. Vale a pena transcrevê-lo na íntegra: &lt;br /&gt;“Já houve um moço de Taubaté, pessoa aliás distintíssima, embora pouco favorecida de dotes oratórios, que se viu forçado a usar da palavra num jantar de gala. Como era de prever, foi logo empolgado pela odiosa encrenca glótica que se chama o caroço. E como encaroçou, e é isto mal sem remédio previsto no Chernoviz (*****), a única saída que lhe ocorreu de momento foi meter-se debaixo da mesa e fugir de gatinhas, a sete pés. Receando que comigo sucedesse coisa parecida, com grave dano para o brilho desta festa, tomei a prudente deliberação de trazer escrito o meu improviso. Assim, agarrado às tiras como o mau cavaleiro ao santo-antônio da sela, poderei dizer, a seguro, as três palavras que as circunstâncias me impõem. Três somente. Primeiro, porque não quero desfazer no espírito dos presentes, o encanto da formosa saudação, com que Bernardino Querido, um querido que o é, sem favor, das musas da poesia e da eloqüência, houve por bem falar dum livro modesto, caído, não sei porque, no gosto do público. Segundo, porque tenho o fôlego curto e muito dó dos pacientes.&lt;br /&gt;Snrs.! Sinceramente confesso que há nesta festa um clamoroso erro de proporções. O livro e o seu autor não merecem a honraria. Que vêm a ser afinal os tais Urupês se não humílimas orelhas de pau colhidas no mato e cozidas num tapuru de pedra, com os coentros, alfavacas e mais temperozinhos caseiros? Eles não passam disso. Entretanto, como o paladar do público anda sovado pelas comidas francesas cozinhadas pelo tio João do Rio, e saturado de coisas faisandés, maioneses requentadas e todo o cardápio do Binóculo, o quitute soube bem, pelo muito que lisonjeia as nossas congênitas predileções gustativas. Daí o fato de ler-se o livro em escala maior que a comum e falar-se dele com certo carinho. Não que ele em si valha alguma coisa; qualquer dos presentes o faria melhor se lhe desse na veneta malucar a pena sobre o papel em dia de bom humor.&lt;br /&gt;Bernardino, Cesar Costa, Granadeiro (Filho), Miranda (Severiano de), João Victor, no alcance de cada um destes está a construção de obra de muito maior valia. Mas está escrito no livro do destino que o Jeca Tatu há de civilizar-se à força.&lt;br /&gt;Já uma vez na Paulicéia, obrigaram-me a sair da toca, e, deixando os meus hábitos de porco-espinho, vir comer em boa companhia no Parque Jabaquara. Foi o primeiro passo, mas, num bosque, para que se não espantasse o ouriço.&lt;br /&gt;Repete-se hoje o fato com uma volta a mais na cravelha civilizatória: em sala, com obrigação de falar, forçando-o à quebra de um precioso silêncio de longos anos.&lt;br /&gt;Neste andar Jeca – porque sem farsa o confesso, Jeca sou eu – neste andar Jeca inda acabará, florzinha no peito, conferenciando em sala pública, sobre a influência da gravata na marcha da civilização. E estareis vós entre os maiores culpados! Quieto estava ele, em férias, escondido num recanto da cidade, engordando e pescando. Pernóstico ei-lo aqui, a mascar-vos discurseira insulsa... Mas fiquem em paz Jeca e suas orelhas de pau. O que cumpre agora é tão-somente agradecer aos amigos esta homenagem frisando inda uma vez o imerecido dela e a sua desproporção. Se há leitão e peru para os Urupês, que reservareis para quem salvar a pátria?&lt;br /&gt;No capítulo dos agradecimentos vá um em separado para Bernardino Querido, o poeta de finíssimos quilates, todo arte e coração, que tirou de si, o que disse de mim. Mas, modéstia à parte, esperdiçou flores. Só as merecem neste recinto as suas irmãs humanas, estas formosas criaturas que sorriem e gracejam, polvilhando de beleza e graça o nosso ambiente. A elas, pois, em retribuição, todos os adjetivos do dia.” (******)&lt;br /&gt;Como de costume, neste discurso Lobato minimiza o valor da própria obra, fato tantas vezes observado pela crítica. E na acesa polêmica sobre o Jeca Tatu, assume a identidade do próprio personagem, o que nada tem de real. Registram os biógrafos que essa não foi a única homenagem a Lobato pelo lançamento do livro de estréia, destacando-se a realizada no Parque Jabaquara, referida por ele, uma das célebres jabaquaradas.&lt;br /&gt;__________________________________&lt;br /&gt;Notas:&lt;br /&gt;(*) “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, Editora Globo, 12a. ed., 1971, Vol. II.&lt;br /&gt;(**) “Peter Pan”, Monteiro Lobato, S. Paulo, Editora Brasiliense, 12a. ed., 1964.&lt;br /&gt;(***) “A Barca de Gleyre”, Monteiro Lobato, S. Paulo, Editora Brasiliense, 9a. ed., 1959, Vol. II, pág. 199.&lt;br /&gt;(****) Copiado por Trajano Pereira da Silva do jornal “O Norte”, em 17 de julho de 1998, no Museu de Taubaté.&lt;br /&gt; (*****) Tratado de medicina popular muito usado na época, de autoria do médico polonês, naturalizado brasileiro, Pedro Luís Napoleão Chernoviz (1813/1881). A obra, muito citada por Lobato, assumiu o nome do autor – “o” Chernoviz. “Enciclopédia Brasileira Globo”, cit., Vol. IV.&lt;br /&gt;(******) “Conferências, artigos e crônicas”, Monteiro Lobato, S. Paulo, Editora Brasiliense, 1a. ed., 1959, págs. 87/91.&lt;br /&gt;__________________________________________________&lt;br /&gt;Enéas Athanázio é Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Sócio efetivo do IHGSC. Reside em Balneário Camboriú.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caio Porfírio Carneiro&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Caminhada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Aqui no meu gabinete, meus livros, minhas lembranças, alegrias, tristezas e sustos. Aqui sozinho e o sol lá fora. E ela surge, pouco mais que a sombra dela. Postou-se junto à porta e esperou.&lt;br /&gt;            Então pigarreei, saí dos devaneios como de um mergulho, tomei-a pela mão, descemos para a rua e para o dia bonito. Poucas pessoas transitavam no jardim. Os mesmos bancos. Dentre eles o nosso. E o velho bar na esquina, tão velho que parecia mais encolhido.&lt;br /&gt;            Sentamo-nos e ficamos calados, olhando, olhando o que olhávamos sempre.&lt;br /&gt;            Estirei as pernas cansadas, relaxei, os cotovelos apoiados no encosto do banco. E o céu, azul, azul. E aquele pássaro que voou da árvore antiga para a outra antiga. E o bar, lá na esquina, silencioso, cansado, mesas e cadeiras desocupadas na calçada.&lt;br /&gt;            Ela ficou passando a mão nos meus cabelos ralos:&lt;br /&gt;- Você precisa mudar essa camisa.&lt;br /&gt;Suspirei com a carícia leve dos dedos nos meus cabelos:&lt;br /&gt;-          Você me disse isto no dia em que nos conhecemos, há sessenta anos, quando&lt;br /&gt; passou, pela primeira vez, a mão nos meus cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SP, 17/01/2008&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRANCISCO MIGUEL DE MOURA*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O TEMPO E A HORA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo é a hora&lt;br /&gt;da verdade – dura:&lt;br /&gt;Cavalo de pau.&lt;br /&gt;Não há pergunta,&lt;br /&gt;nem “não sei”,&lt;br /&gt;esconder.&lt;br /&gt;É esperar o rouco canto&lt;br /&gt;do galo, ou o freio brusco.&lt;br /&gt;Não olhe pra ninguém,&lt;br /&gt;é o seu.&lt;br /&gt;Não adiante contestar&lt;br /&gt;nem desdizer,&lt;br /&gt;nem fingir o que vê.&lt;br /&gt;O tempo e a hora,&lt;br /&gt;todos adivinham.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esperança não vem perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOW IST THE TIME**&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Now is the time&lt;br /&gt;of truth – hard:&lt;br /&gt;stud horse.&lt;br /&gt;No question,&lt;br /&gt;not even “I don’t  know”,     &lt;br /&gt;hiding.&lt;br /&gt;Just wait for for the horse singing&lt;br /&gt;of  the rooster, or the sudden break.&lt;br /&gt;Don’t look to others,&lt;br /&gt;because it is yours.&lt;br /&gt;Don’t discuss it&lt;br /&gt;don’t even deny it&lt;br /&gt;or pretend you did not see it.&lt;br /&gt;Time is hear,&lt;br /&gt;we all guessed it.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hope is not near.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______________________&lt;br /&gt;**Translated by: Teresinka Pereira, poetisa brasileira contemporânea, mora nos Estados Unidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SE NÃO FOSSE...&lt;br /&gt;                                              &lt;br /&gt;Deus foi quem fez do nada&lt;br /&gt;                                          o nado&lt;br /&gt;que despreza – águas do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, nado no nada onde me afogo,&lt;br /&gt;um líquido sem peso nem cor,&lt;br /&gt;dura consolação  sem suspiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vomito palavras,&lt;br /&gt;perpetro saudades do que não quero&lt;br /&gt;e arrumo queixas no vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde andava a onda de Deus&lt;br /&gt;antes do tempo, antes do nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bendito nada, onde estaria Deus,&lt;br /&gt;de onde eu nasci, e meu poema!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______________________&lt;br /&gt;*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro contemporâneo, mora em Teresina, Piauí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SI RIEN N’AVAIT  ÈTÉ***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Si rien n’avait èté&lt;br /&gt;Dieu fût celui qui du néant&lt;br /&gt;      fait  le levant&lt;br /&gt;qui dédaigne – les eaux du temps.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moi, né dans le rien où  je me noie,&lt;br /&gt;un liquide sans poids ni couleur,&lt;br /&gt;dure consolation sans soupirs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Je vomis des mots,&lt;br /&gt;je fais durer des nostalgies dont je ne veux&lt;br /&gt;et j’arrime des plaintes dans le vide.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Où allait l’onde de Dieu&lt;br /&gt;avant le temps, avant le néant?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Béni rien, où était Dieu,&lt;br /&gt;d’oú je naquis et mon poème!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______________&lt;br /&gt;***Tradução de Jean-Paul Mestas, poeta francês contemporâneo.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valéria Nogueira Eik*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversa decisiva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto luxuosamente decorado abrigava o homem à beira da morte. Ele estava quieto como um defunto, olhos pregados no lustre suntuoso e as mãos cruzadas no peito. A sua respiração, no entanto, denunciava ainda um resto de vida, e o ventre volumoso parecia singrar um mar ondulado, ora subindo, ora sumindo.&lt;br /&gt;Deu pela presença da moça e olhou-a de alto a baixo, avaliando se era realmente a pessoa certa. Balançou a cabeça numa negativa resignada. Fez sinal para que o enfermeiro deixasse o aposento. “Estafermo! Não me dá sossego. Mede a temperatura e a pressão várias vezes por dia. Insiste em me fazer tomar os remédios nas horas certas, como se isso fosse importante no ponto em que estou”. Parou de falar mediante um terrível acesso de tosse. Permaneceu com os olhos fechados, as lágrimas escorrendo pelo rosto contorcido, completamente abandonado sobre o leito. Parecia não querer falar. Estava exausto. Voltou à vida uma vez mais. “Está com pena? Não tenha! Tive uma boa vida. E o caminho para a morte tem sido confortável, dentro do possível. Construí um grande império, você sabe. Tanto sabe que está aqui. Se eu fosse um pobre coitado sem vintém, quem se interessaria em contar a minha história?” Riu com o canto da boca, num cinismo assustador. “Está chocada com as palavras ácidas de um velho moribundo? Não, não fique escandalizada. Estou com os pés na cova, e, portanto, tenho o direito de insultar, zombar e pisar em todos os idiotas que se aproximam de mim, sempre visando algum interesse. Tenho o direito de pelo menos morrer em paz, não acha?”&lt;br /&gt;O suor empapava o pijama. Não, ele não queria interromper a conversa. Queria ir até o final.&lt;br /&gt;“Nasci em berço muito pobre, moça. Não sou o filho mais velho, nem o mais novo. Estava entre os muitos da ninhada. História comum. Pais analfabetos. Moradia? Um barraco caindo de podre, onde dormíamos amontoados em colchões encontrados no lixo. Vida dura, moça. Muito cedo caí de boca na rua. Esmolava. E, quando tive idade para trabalhar, agarrei o primeiro serviço com unhas e dentes. Abandonei a família. Ninguém se preocupou. Uma boca a menos para alimentar. Solução inteligente e sensata. A dona do estabelecimento, viúva sem filhos, tomou-se de amores por mim. Daí pra frente a vida abriu as suas grandes pernas e eu não me fiz de rogado. Trabalhei duro. Estudei. E fiz a viúva feliz. Tão feliz que morreu no meio de um entre tantos gozos que lhe dei. Assumi o mercado. Ampliei os negócios. Sim. Construí um grande império”.&lt;br /&gt;A moça escutava as palavras do velho com certo ar de enfado. Realmente, a história era banal. Mas prosseguiu com as perguntas. E esperava ouvir respostas picantes que lhe rendessem uma matéria sensacionalista na primeira página do jornal.&lt;br /&gt;“Honestidade? Não posso dizer que fui honesto. Nem posso dizer que fui um bom homem. Mas usei a inteligência que me foi dada por Deus ou pelo Diabo, quem sabe! E fiz fortuna. Tenho certeza de que um deles ficará satisfeito com os resultados. Afinal, não enterrei meus talentos. Multipliquei-os. Roubar? E quem não roubou nessa vida? Não faça cara de inocente, por favor. Tenho certeza de que você roubou muitas coisas. Não? Pense! Um chocolate no supermercado? Um livro na biblioteca? O namorado da sua irmã? Ou quem sabe um banco! Existem várias maneiras de roubar. Nem por isso deixa de ser roubo”.&lt;br /&gt;A moça ficou muito pálida e teve dificuldade em fazer novas perguntas. O velho abriu um sorriso sarcástico e sorveu, deliciado, a sensação de aniquilar tão facilmente mais um ser humano. Deixou que outra torrente de palavras ásperas inundasse o ambiente. “Matar? E quem não matou nessa vida? Moça, entenda bem: de uma forma ou outra, matamos pessoas. Pode ser tiro, facada, excesso de velocidade, negligência. Aposto que sua cama é macia e que sua mesa é farta. No entanto, você ignorou estômagos famintos, feridas purulentas e carências afetivas. Você passou por mendigos e os deixou nas calçadas, tiritando de frio, jogados à própria falta de sorte. Existem inúmeras maneiras de matar. E não acredito que você não tenha matado pelo menos uma vez. Não? Ora, pense bem! Se ainda não matou, vai matar. Acredite!”&lt;br /&gt;Ela estava visivelmente perturbada com a conversa e queria fugir daquele homem que não poderia ser um filho de Deus. Ele era mau. Era cínico. Era cruel. Seria sugado para o fogo eterno em pouco tempo. Que Deus fizesse justiça!&lt;br /&gt;“Não. Não sou pior que você. A única diferença entre nós é que fui mais ousado e não tive medo. Não sou uma boa criatura, não tenho boa moral, mas possuo duas qualidades positivas. Sou justo. Quem me serviu pode dizer. Premiei e castiguei conforme o merecimento de cada um. A outra virtude? Sou absolutamente franco comigo mesmo. Meus pensamentos são lineares. Não contêm adornos. Sou como sou. Não justifico minhas atitudes”.&lt;br /&gt;A moça, cada vez mais agitada, debatia-se em pensamentos confusos. Começava a assumir culpas. Sabia que depois daquela conversa absurda nunca mais teria sossego. Velho nojento! O hímen da sua falsa ingenuidade fora rompido violentamente por aquele homem maldito.&lt;br /&gt;Ele estava calado. Estaria pensando na morte? Talvez estivesse apenas esperando que os pensamentos dela se acomodassem. Talvez.&lt;br /&gt;“Sinto muito estar no fim da vida. Eu poderia lhe ensinar tantas coisas! O toque de Midas, por exemplo. Ou, então, a verdadeira sedução. Mas não há tempo para isso. Sim. Você aprenderia rapidamente. E seria exatamente como eu sou. Não duvide!”&lt;br /&gt;Com o olhar pregado nos sapatos, faltava-lhe coragem para enfrentar o rosto do velho. E do fundo daquele silêncio perturbador ela sussurrou outra pergunta. “Deus? Não tenho certeza, se Deus existe. É possível. Também não sei se existe vida após a morte. Ninguém sabe. Mas, creia-me: não importa se estou indo até Deus ou até o Diabo, ou mesmo para lugar nenhum. Assim que eu botar meus pés em algum desses reinos, eles jamais serão os mesmos! Construirei novo império. Seja onde for. Em meio ao tudo. Em meio ao nada”.&lt;br /&gt;O homem riu e seu riso já não era tão cruel. Era somente um gracejo irônico. Ria de si mesmo, do mundo e da moça.&lt;br /&gt;“Ora, veja! Você deseja me matar. Faça. Uns dias a mais ou a menos, que diferença fará? Provei que a semente do mal está em todas as pessoas. Não, mocinha. Não me acuse de ter matado a sua inocência. Você nunca foi inocente. Chegou aqui para me roubar. Sim, moça. Queria roubar segredos escandalosos para a sua mísera matéria de jornal. Queria uma promoção às custas do meu nome. No entanto, vai levar coisa muito melhor que bobagens sensacionalistas. Estou lhe dando a essência do equilíbrio. Sim. Quando assimilar a nossa conversa, vai ver que lhe mostrei a única maneira de encontrar a paz. Vá embora. Não tenho mais nada a lhe dizer”.&lt;br /&gt;“Moça! Um obséquio, por favor! Diga ao estafermo que está escutando a conversa atrás da porta que ele está atrasado para medir a minha pressão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Valéria Nogueira Eik: Fotografias, histórias infantis, crônicas, poemas e contos publicados em vários sites literários. Editora da revista de literatura e arte Conexão Maringá. &lt;a href="http://www.conexaomaringa.com/"&gt;http://www.conexaomaringa.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:contato@conexaomaringa.com"&gt;contato@conexaomaringa.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:valerianogueira@hotmail.com"&gt;valerianogueira@hotmail.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Blog: &lt;a href="http://valeriaeik.blogspot.com/%20"&gt;http://valeriaeik.blogspot.com/ &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RESENHAS:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM BRASILEIRO MUITO ESPECIAL&lt;br /&gt;Com este título, cinqüenta jornalistas, escritores, políticos homenagearam o jornalista Lucio Brasileiro, capitaneados por Lustosa da Costa. Na apresentação da obra, Lustosa afirma: “Pretendo que este livro não constitua apenas homenagem a Lúcio Brasileiro mas que retrate sua época, o tempo em que exerceu jornalismo e fotografou a sociedade e a política cearenses.” Os depoimentos, as memórias e histórias contadas no livro são mesmo um retrato do profissional LB, mas também um painel da sociedade cearense da segunda metade do século XX até hoje. Um Brasileiro Muito Especial é de agradável leitura, além de ser um repositório de informações para quem gosta de pesquisar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARQUEOLHAR DE ALEXANDRE MARINO&lt;br /&gt;Em 2005 Alexandre Marino publicou o volume de poemas Arqueolhar. Antecederam-no outros. Em 2007 saiu Poemas por amor. As abas daquele são de Sérgio de Sá, que escreveu: “O ‘arqueolhar’ de Marino mira o corpo mais íntimo e lança em ficção a memória da infância – sem se perder, contudo, em qualquer tipo de tentativa tola de balbuciar o passado com a poesia da busca, da recuperação do ‘eu’, tão comum e tão banal”. Maria Esther Maciel, num prefácio-conversa dividido com Floriano Martins, acrescenta: “Nos 40 poemas que o integram o presente se espacializa em um ‘mundo inóspito’, em escombros, que é revolvido, ‘escavado’, pelo poeta que acaba por ‘desenterrar’ dessa desolada paisagem os traços, imagens, sensações, experiências de uma infância perdida mas que, reimaginada, se justapõe ao mundo presente, transfigurando-o”.&lt;br /&gt;  Contato: alexandre@marino.jor.br&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMANCE DE MANUEL DE JESUS LIMA&lt;br /&gt;Com o romance A Guerra de Juquinha e Outras Guerras (Ed. Itatiaia, Belo Horizonte, MG, 2007), Manuel de Jesus Lima conquistou o Prêmio Cora Coralina. Livro de 420 páginas, traz apresentação de Ronaldo Cagiano, que afirma: “O prazer estético de A Guerra de Juquinha e Outras Guerras não se esgota na leitura, porque sendo um livro de fôlego, bem costurado estilisticamente, remete-nos a novas leituras e, nesses novos mergulhos, vamos descobrindo que o autor realizou uma metáfora da própria vida, ao fundir em sua narrativa elementos da vida urbana e rural, provando seu ecletismo no uso da linguagem”. E completa: “(...) é um mosaico de tipos e acontecimentos de nosso Brasil, literariamente bem explorados (...), transitando com versatilidade entre o erudito e o coloquial.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA BIOGRAFIA DE LUSTOSA DA COSTA&lt;br /&gt;Cherlanyo Barros escreveu Lustosa da Costa, Uma Biografia (Ed. Livro Técnico, Fortaleza, CE, 2008). O livro é dividido em pequenos capítulos, como “Difíceis amores”, “Juventude dourada”, “Aventuras políticas”, “O escritor”, antecedidos de uma “Introdução” e seguidos de quatro anexos: fotos, página do diário do Lustosa, fortuna crítica e correspondências. No final, referências bibliográficas e bibliografia do Lustosa. O autor da biografia publicou Dulcinéia em Hollywood, contos, em 2006. Nascido em Itapiúna, Ceará, em 1982, foi o vencedor do IV Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, 2007, na categoria romance inédito, com Inventário das Sombras.&lt;br /&gt;Contado: cherlanyobc@yahoo.com.br&lt;br /&gt;                                     &lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE TRÁGICO&lt;br /&gt;É este o título do livro de crônicas, contos e minicontos de Hélio Rubens Batista Ribeiro Costa (Ed. Scortecci, São Paulo, 2008), com prefácio de Caio Porfírio Carneiro. Que argumenta: “O autor capta tudo com uma destreza tamanha que leva o leitor quase à perplexidade. E tudo conta como quem narra um fato qualquer, despretensiosamente”. E acrescenta: “Então, em todo este colar pequenas peças literárias límpidas fulguram com intensidade, porque nasceram de um ficcionista brilhante”. E arremata: “Obra multifacetada dentro da ficção moderna, onde se treliçam, como espírito de novela, bela abertura narrativa ou descritiva, o conto, o miniconto e o microconto”.&lt;br /&gt;Contato: hrubens@lodovicoecosta.com.br&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ARANHA PUNK&lt;br /&gt;De Glauco Mattoso, “um dos mais radicais representantes da ficção erótica e da poesia fescenina em língua portuguesa”, chegou A Aranha Punk (São Paulo, Annablume, 2007). “Este volume, o segundo da série “Mattosiana”, compreende quatro ciclos de sonetos temáticos, girando em torno de dois ícones que se aproximam pela simbologia agressiva, repulsiva e transgressiva: o aracnídeo e o punk, objetos, respectivamente, dos ciclos “O gênero e as espécies” e “O gênero e os tipos”. No terceiro ciclo, “O punk e a gorda”, narra-se um caso de amor entre dois personagens anticonvencionais. No quarto ciclo, “Tiradas das tiras”, o poeta homenageia o quadrinhista Fernando Gonsales e seu personagem mais punk, o rato Níquel Náusea”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TROVAS DE SILMAR BOHRER&lt;br /&gt;Depois de publicar quatro volumes de trovas, sonetos e outros tipos de composição versificada, Silmar Bohrer divulga o volume Trovas (Edição do autor, Caçador, SC, 2007). Nas abas, palavras de Enéas Athanázio, Celestino Sachet e Silvério da Costa. Referindo-se a um dos livros, o primeiro afirma: “A Gamela de Versos é rica em conteúdo poético, revelando a sensibilidade de um poeta para quem a poesia é vital e está em todos os lugares, desde que o vate esteja antenado para captá-la e transfundi-la em versos”. Eis uma trova do novo livro: “Tenho andado esquecido / tão esquecido estou / que esqueço se tenho ido / se estou vindo ou se vou”.&lt;br /&gt;Contato: silmarbohrer@yntato: silmarbohrerque esqueço se tenho ido / se estou vindo ou se vou"ahoo.com.br&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POESIA NO PORTA-RETRATO&lt;br /&gt;Antonio Miranda publicou Poesia no Porta-Retrato (Brasília, Ed. Thesaurus, 2007). Num estudo amplo que abre o volume, Elga Pérez-Laborde, Doutora em Teoria Literária e professora da Universidade de Brasília, afirma: “O leitor pode experimentar múltiplas reações diante de sua antipoesia: assombro, mal-estar, desconcerto, riso. O humor negro não pode fugir dessa tendência própria da sátira, cuja intenção busca quase sempre corrigir a sociedade fustigando seus vícios, limitações e defeitos. Ainda que essa não seja com freqüência uma vontade consciente do poeta, há uma pressão interna que o leva em busca da verdade, como uma forma de oxigenar a existência.” Miranda escreveu também novelas e peças para teatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; ANTOLOGIA PESSOAL DE ASTRID CABRAL&lt;br /&gt;Com poemas e prosas de vários de seus livros, Astrid Cabral apresentou ao público sua Antologia Pessoal (Brasília, Ed. Thsaurus, 2008). Na “Introdução”, faz uma breve rememoração de sua vida (Manaus, a casa da infância, familiares, colégios, os primeiros versos, etc). Os poemas foram extraídos de Ponto de Cruz (1979), Torna-Viagem (1981), Visgo da Terra (1986), Lição de Alice (1986), Rês Desgarrada (1994), Intramuros (1998), Rasos d’água (2003), Jaula (2006) e Ante-sala (2007). As três prosas saíram de Alameda (1963). A fortuna crítica de Astrid é vasta. No final do livro há ainda um belo registro iconográfico, com fotos antigas (ainda bebê, com os pais; num parquinho; com o marido, o poeta Afonso Félix de Sousa) e mais recentes (em Chicago; em Copacabana, com Afonso; no Rio de Janeiro, em lançamento de seu livro Jaula; com uma filha e uma neta). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÁGUA POLIDA&lt;br /&gt;Com Água Polida (Rio de Janeiro, Edições Galo Branco, 2007), Lina Tâmega Peixoto apresenta seu quarto volume de poemas. Na apresentação, Igor Fagundes enuncia: “Dizer que Água Polida veste-se em nós como um vivaz oceano de memórias é absolutamente diferente de julgá-lo acuado entre as margens da lembrança, tal um lago circunscrito pelo tédio ou à semelhança de um mar morto, finito e nostálgico, estático e estéril de rumos e errâncias. (...) Em Lina Tâmega Peixoto, memória e poesia reencontram-se nestes fios de água salgada e doce. Salobra. Por vezes, amarga. Nunca insípida”. Lina estreou em 1953, com Algum Dia e trinta anos depois publicou o segundo livro, Entretempo. Passaram-se mais de vinte anos e saiu o terceiro, Dialeto do corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;50 POEMAS ESCOLHIDOS DE LINHARES FILHO&lt;br /&gt;Saiu por Edições Galo Branco, 2008, Rio de Janeiro, 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, de Linhares Filho. São poemas dos seguintes livros: Sumos do Tempo (1968), Voz das Coisas (1979), Frutos da Noite de Trégua (1983), Tempo de Colheita (1987), Andanças e Marinhagens (1993), Rebuscas e Reencontros (1996), Cantos de Fuga e Ancoragem (2007). Linhares Filho, um dos nomes mais prestigiados da Literatura Cearense, é poeta e ensaísta. “Sua poesia se apresenta, em quase todos os momentos, em roupagem tradicional, sendo, porém, uma obra talhada na modernidade”, comenta-se nas abas do volume. No final, além da bibliografia do poeta, há diversos trechos de comentários à sua obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS SOB SUSPEITA&lt;br /&gt;De P. J. Ribeiro se editou Contos Sob Suspeita (Cataguases, MG, Totem Edições, 2008). Joaquim Branco, nas orelhas do livro, se refere ao contista como “exímio criador de peças curtas de ficção”. E explica por que: “Em seu laboratório, constrói um mundo de estilhaços cortantes de vida e morte, lama e alma, corrosões e êxtases. (...) Feito de um imaginário com telhados de vidros, balés africanos, mundos melados, urina na calçada, lanças encravadas na cabeça – seu texto, às vezes curto, ora curtíssimo, aponta para um humor ácido que corrói até a última entranha, à procura de saída para o entendimento humano”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTOLOGIA DE POETAS LONDRINENSES&lt;br /&gt;Em 2000 se publicou em Londrina, Paraná, por Atrito Art Editorial, a 12ª Antologia de Poetas Londrinenses. Com prefácio de Ricardo Corona, apresenta poemas de Ademir Assunção, Augusto Silva, Bernardo Pellegrini, Carlos Ribeiro, Karen Debértolis, Márcio Américo, Marcos Losnak, Mário Bortolotto, Maurício Arruda Mendonça, Nelson Capucho, Neuza Pinheiro e Rodrigo Garcia Lopes. O prefaciador diz: “Neste 12, os poetas não se rendem ao discurso de esgotamento da criatividade e imaginação. Ao contrário, estão abertos para o mundo, e, ao invés de evitarem o seu tempo escondendo-se atrás da linguagem, nela incorporam suas contradições e conflitos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRONTEIRAS, DE CIDA SEPULVEDA&lt;br /&gt;Pontes Editores (Campinas, SP, 2008) publicaram o livro de poemas Fronteiras, de Cida Sepulveda. Na apresentação, Álvaro Alves de Faria comenta: “O nome de Cida Sepulveda foi o que de melhor ocorreu na literatura brasileira nos últimos tempos. Deu alento a uma paisagem tantas vezes árida. (...) Uma literatura que não dá margem a qualquer dúvida: estamos diante de uma escritora na mais absoluta e correta acepção da palavra. Este Fronteiras mostra a poesia em sua grandeza”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEMPO DE LIBERDADE&lt;br /&gt;De Pedro de Araújo Bezerra publicou a Expressão Gráfica, de Fortaleza, Ceará, em 2006, o poema Tempo de Liberdade. Sânzio de Azevedo, na apresentação do livro, informa: “Agora ressurge-nos o poeta com um novo livro, o sétimo, que é todo um poema: Tempo de Liberdade. Aqui o lírico cede lugar ao épico, não evidentemente à procura dos mitos cosmogônicos, mas com o objetivo de arrancar do passado histórico os feitos memoráveis dos bravos que, um dia, ousaram afrontar a arrogância e a autoridade do Rei”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTOLOGIA DE LUÍS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS&lt;br /&gt;Sob o título Mais que sempre, a editora 7Letras (Rio de Janeiro, 2007) publicou uma antologia poética de Cajazeira. Em nota, o poeta informa: “celebro com esta antologia meus 50 anos de idade. Trago 24 poemas inéditos e alguns recolhidos dos livros anteriores, sob a auto-imposição de selecionar poucos, o viés do olhar autoral e a irresistível certeza do desacerto. Saio doído da escolha – é duro eleger uns poemas e abrir mão dos demais, quando se gosta paternalmente de todos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESCULPINDO SONHOS&lt;br /&gt;Tenini (Teresinha Miracy Canini Ávila) publicou o livro Esculpindo Sonhos (Porto Alegre, RS, Editora Alcance, 2006). São poemas e crônicas ilustrados pela própria artista. O editor Rossyr Berny, nas abas, assegura: “Não bastasse seu brilho de pintora, artista plástica singular, dando vida a seus quadros, em cores ou preto e branco – a poeta em prosa e verso se mostra inteira, desnuda-se com sobrado requinte poético e plástico”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS HOMENS DO MUNDAÚ&lt;br /&gt;De Valter Pedrosa de Amorim é a 2ª edição do romance Os Homens do Mundaú (Roteiro Editorial, Brasília, 2008). Trata-se do 19º livro do escritor alagoano. A estréia se deu em 1976, com o volume de contos Uma Questão de Consciência. Seguiram-se os romances Pau-de-arara (1978) e Maremoto em Jaraguá (1979). Depois deste, vieram mais contos, e crônicas e ensaios. Em 1984 saiu a primeira edição de Os Homens do Mundaú. Nos anos seguintes, publicou mais crônicas, ensaios e depoimentos, até que em 1998 se editou outro romance: Capitão Belo, premiado na Bolsa Brasília de Produção Literária do ano anterior. E outros e outros livros vieram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RESPINGOS DE UMA VIAGEM&lt;br /&gt;Com este título, Caio Porfírio Carneiro publicou, em 2008, um pequeno livro (32 páginas), com o apoio cultural de Amigos do Livro. São 25 deliciosos contos curtos. O contista explica a origem deles: “Estas historinhas ligeiras foram escritas, uma por dia, durante umas férias. Respingos literários? Não sei. Relendo-as, resolvi tira-las do anonimato do meu arquivo – provavelmente o mais desorganizado do mundo – e dá-las de presente aos amigos. Como tudo me nasceu do coração, espero que não considerem um presente de grego”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FORTUNA CRÍTICA DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA&lt;br /&gt;Inicia-se o livro com uma biografia: a vida de funcionário do Banco do Brasil, focalizado especialmente sua vida literária e a obra resultante – trabalho de pesquisa que José Maria de Aguiar Ramos (Bahia) empreendeu. No final do volume de 306 páginas, uma entrevista publicada no Jornal de Picos, e o depoimento “Como e por que sou escritor”, publicado na revista Literatura, junho de 1994. Salvo três ou quatro ensaios e artigos que saíram depois, o livro estava pronto e formatado desde 2005. Teria sido a primeira obra do gênero publicada no Piauí, sobre autor vivo. As orelhas foram escritas por Hardi Filho. A capa é uma caricatura de Miguel de Moura, traço de Paulo Guy, sobre um “tangram” chinês, montagem de Franklin Moura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PÓ DA ESTRADA&lt;br /&gt;De Enéas Athanázio é O pó da estrada (Balneário Camboriú, SC, Ed. Minarete, 2008). Composto de artigos, o livro está dividido em duas partes. Na primeira, intitulada “O Brasil brasileiro”, quatro artigos; na segunda, “Redescobrindo Santa Catarina”, sete. Inicia-se com “Sob as ordens de mamãe – excursão ao coração do Brasil (I, II, III)”. Seguem-se “Dunas e Seridó”, “O chamado do Meio-Norte” e “Carrancas e esqueletos”. São relatos de viagens ao Centro Oeste, ao Nordeste e a Minas Gerais. Todos ilustrados com fotografias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEMORIAL DO MEDO&lt;br /&gt;Sob este título, Brasigóis Felício apresenta mais uma obra. Com apoio da Prefeitura de Goiânia, a Editora da Universidade Católica de Goiás e a Editora Renascer editaram o livro. Na capa está escrito “novela”. Na ficha catalográfica lê-se “Literaturas brasileira – crítica e interpretação”. O poeta, nas abas, observa: “Escrever é uma maldade de que dificilmente se recupera. Até porque nos libera do assédio interno de nossos medos. Sobretudo, a verdadeira arte há de trazer, inteira, a marca da nossa mais antiga maldade: enchemos o palco de nossos livros de personagens monstruosos, para esconder dos leitores que somos pessoas pérfidas, maldosas e atrozes”.&lt;br /&gt;/////&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5083977141388149462-6997719616607657981?l=literaturarevistadoescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturarevistadoescritor.blogspot.com/feeds/6997719616607657981/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5083977141388149462&amp;postID=6997719616607657981&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5083977141388149462/posts/default/6997719616607657981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5083977141388149462/posts/default/6997719616607657981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturarevistadoescritor.blogspot.com/2008/10/nmero-35.html' title='Número 35'/><author><name>Literatura sem fronteiras – niltomaciel@uol.com.br</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02139040655064684179</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='29' src='http://2.bp.blogspot.com/_-DY4fAQtLiM/TOMWPRdzNeI/AAAAAAAABBU/IGhhAX5kHbU/S220/Apresentando%2Ba%2Bcolet%25C3%25A2nea%2BContos%2BCru%25C3%25A9is%252C%2Bem%2BFortaleza.bmp'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5083977141388149462.post-7970548816943976493</id><published>2008-10-19T09:51:00.000-07:00</published><updated>2008-10-19T10:47:44.622-07:00</updated><title type='text'>Número 34</title><content type='html'>LITERATURA - REVISTA DO ESCRITOR BRSILEIRO Nº 34&lt;br /&gt;Ano XVII, fevereiro de 2008&lt;br /&gt;Iniciada em janeiro de 1992, em Brasília&lt;br /&gt;ISSN 1518-5109&lt;br /&gt;Editor/fundador: Nilto Maciel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE&lt;br /&gt;Antonio Miranda – Poemas secretos de Kaváfis&lt;br /&gt;Antonio Miranda – Monastir; Eu, Konstantinos Kaváfis&lt;br /&gt;de Alexandria (I e X) e Fotomontagens (poemas)&lt;br /&gt;Liana Aragão – Lisa (conto)&lt;br /&gt;Henrique Marques Samyn – &lt;a href="http://littere.blogspot.com/2007/10/nilto-maciel-mais-do-que-escritor-um.html"&gt;Literatura e desvario&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Enéas Athanázio – O vagonete (conto)&lt;br /&gt;Nelson de Oliveira – O triunfo do sagrado&lt;br /&gt;Hiirís Lassorian – Confissão (conto)    &lt;br /&gt;Carmélia Aragão  – Nilto Maciel: Próximo da carne&lt;br /&gt;Caio Porfírio Carneiro – A procura (conto)&lt;br /&gt;Cunha de Leiradella – Dulcinéia em Hollywood&lt;br /&gt;Henrique Marques Samyn – Dois pierrôs (conto)&lt;br /&gt;Batista de Lima – A pastoral poética de Francisco Carvalho&lt;br /&gt;Nirton Venâncio – Unidade (poema)&lt;br /&gt;Aíla Sampaio – “Carnavalha”: Surrealismo e carnavalização&lt;br /&gt;Rinaldo de Fernandes – Carpinteira; O farol (contos)&lt;br /&gt;Francisco Miguel de Moura – Quem tem medo de Ascendino Leite?&lt;br /&gt;Pedro Salgueiro – Prisioneiros (conto)&lt;br /&gt;Soares Feitosa – José Alcides Pinto, de coração pendido&lt;br /&gt;Diego Tardivo – Soneto aos velhos amores de um cego&lt;br /&gt;Francisco Carvalho – Carnavalha: Novo Romance de Nilto Maciel&lt;br /&gt;Jorge Pieiro – Buraco negro; Cogito, sum (contos)&lt;br /&gt;Enéas Athanázio – A ação de Farquhar em Santa Catarina&lt;br /&gt;Batista de Lima – O velho (conto)&lt;br /&gt;Aíla Sampaio – A Leste da Morte: veredas diversas e apurado trabalho de linguagem&lt;br /&gt;Nelson Hoffmann – Rancor; Epitáfio (poemas)&lt;br /&gt;Herculano Moraes – Antologia: Poemas escolhidos pelo autor&lt;br /&gt;Jair Humberto Rosa – A mulher invisível (conto)&lt;br /&gt;Antonia Torreão Herrera – A poética de José Inácio Vieira de Melo&lt;br /&gt;Clauder Arcanjo – Herança; Nada de defesa (poemas)&lt;br /&gt;Astrid Cabral – Carnavalha, algumas impressões&lt;br /&gt;Wilson Gorj – Pista; Calhambaque; Fígaro; Lançado; Em busca do amor perdido; Jesus na terra dos hipócritas (micronarrativas)&lt;br /&gt;Manoel Hygino – O mistério no oceano&lt;br /&gt;Inês Hoffmann – Brincar de viver; Resignatio (poemas)&lt;br /&gt;Luiz Otávio Oliani – Resgate; Território; Herança; Partilha; Labuta (poemas)&lt;br /&gt;Izacyl Guimarães Ferreira – Órbitas&lt;br /&gt;Glauco Mattoso – O quichute do quíchua (conto)&lt;br /&gt;Caio Porfírio Carneiro – Estrias da alma         &lt;br /&gt;Francisco Miguel de Moura – Rio da vida; Velhas praias; Contra a teoria (poemas)&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:trovares@yahoo.com.br"&gt;Henrique Marques Samyn&lt;/a&gt; – Os Corvos de Alumínio de Francisco Carvalho&lt;br /&gt;Ary Albuquerque – A dama de preto (conto)&lt;br /&gt;Rodolfo Alonso – Sombras frias; Contra a morte; O jovem freixo diz (poemas)&lt;br /&gt;Resenhas&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antonio Miranda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS POEMAS SECRETOS DE KAVÁFIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A propósito de KAVÁFIS, Konstantinos P. Kpymmena – Segredos. Tradução: M. Sulis, M. Jolkelsky, A. Nicolacópulos. Florianópolis: Plaquetas Nephelibatas, 2006. 36 p&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“Havia uma barreira que transformava minhas ações e meu modo de vida.” &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Konstantinos P. Kaváfis&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;               Konstantinos P. Kaváfis (1863-1933) viveu fora de seu tempo, em um tempo futuro. Clandestinamente. No início do século -, viveu duas vidas paralelas, uma velada e outra para os outros. Mas ele antecipava tempos de liberdade, sem hipocrisia:&lt;br /&gt;“No futuro – uma sociedade mais perfeita – algum outro talhado como eu decerto aparecerá e livremente fará.”               &lt;br /&gt;Kaváfis nasceu em Alexandria, no Egito, numa comunidade grega. Vivia por antecipação o livre gozo de sua excepcionalidade, situação que deve ter permanecido imutável – se não piorou – desde o início do século passado, por causa dos preconceitos e valores religiosos contrastantes com sua helenidade, em que não separava o material do espiritual, como partes de uma mesma vivência.&lt;br /&gt;“Criamos um prazer&lt;br /&gt;de uma impressão quase que material.”&lt;br /&gt;Tal hedonismo feria os costumes de sua época ou, melhor explicando, de seu lugar e situação.&lt;br /&gt;“era preciso que teu corpo estivesse próximo.”&lt;br /&gt;“mais verdadeiro e palpável”&lt;br /&gt;               Dionisíaco, arremata: “meu corpo e mente emocionam-se”. No Egito ocupado pelos ingleses, teve o alívio da tolerância formal, enviesada do moralismo vitoriano, estrangeiro em sua própria terra. Vida escondida, expressa em versos pungentes: “Fui aos quartos ocultos / e toquei e deitei em seus leitos.”               &lt;br /&gt;Tais versos de despistamentos não fazem parte de sua obra dita “canônica”. Kaváfis deixou poemas inéditos por vontade própria que só recentemente vêm sendo levados a público. No conjunto estão poemas renegados e outros ditos “velados” ou esquecidos, recuperados entre seus pertences ou em casa de amigos. É desse lote que os tradutores M. Sulis, M. Jolkesky e A. Nicolacópulos se serviram para montar a plaqueta “Kpymmena – Segredos”, em edição bilíngüe de uma editora de Desterro, na ilha de Santa Catarina, digna de reconhecimento por sua revelação e exclusividade. Até aqui apenas circulavam os versos “autorizados” do poeta em versões inglesas, francesas, espanholas e as brasileiras, entre estas as que nos deixou o poeta José Paulo Paes, para nossa felicidade. Uma dúzia de poemas líricos, sensuais, confessionais, plenos de humanidade e ânsias de viver. Os “segredos” do grande poeta que, não obstante, avisa: “De tudo o que fiz e tudo que disse / não procurem descobrir quem fui.” Sabia-se isolado, camuflado, despistando contra as citadas “barreiras” que o apartavam do mundo.               &lt;br /&gt;É frustrante não poder ler e ouvir o poeta em seu idioma original. Contentemo-nos com as preciosas traduções que chegam até nós. Meus estudos de grego clássico na juventude são de pouca ou nenhuma valia para aproximar-me deste poeta anti-metafísico, carnal: “... eu gostava de ver o sangue. Coisa/ do meu amor aquele sangue era.” Mais direto, impossível: “Nossos corpos sentiram e buscaram-se; nosso sangue e pele perceberam.” Para a linguagem da época, ainda mergulhada em simbolismos e circunlóquios, certamente chocaria, não obstante já existirem os versos malditos de Rimbaud, às vésperas dos arroubos escandalosos dos surrealistas em terras mais tolerantes...               &lt;br /&gt;Afortunado me sinto ao receber dos autores a preciosa edição que, sendo alternativa, deve chegar a poucos privilegiados. Não resisto ao prazer de compartilhar um dos poemas com os nossos leitores, na certeza de que revelam uma alma iluminada pelo prazer mais secreto e autêntico: O CHAMADO DE EROS&lt;br /&gt;Ao ouvir o vigoroso Eros treme e emociona-te como um esteta. Contudo, feliz, lembra-te de quanto tua fantasia para ti criou; disto primeiro; e depois do resto – menor – que em tua vida passaste e desfrutaste, mais verdadeiro e palpável. - De tais amores não foste privado.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTONIO MIRANDA*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EM MONASTIR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das muralhas de Monastir&lt;br /&gt;percebo séculos de enfrentamentos&lt;br /&gt;vastidões sem fim&lt;br /&gt;e nenhuma remissão.&lt;br /&gt;Muçulmanos e cristãos&lt;br /&gt;numa investida sem concertação&lt;br /&gt;até os confins da terra&lt;br /&gt;até os fins dos tempos.&lt;br /&gt;Estão filmando O Nazareno&lt;br /&gt;e figurantes árabes se vestem como judeus&lt;br /&gt;e açoitam o divino descendente.&lt;br /&gt;O produtor inglês, depois, entrega cheques à multidão&lt;br /&gt;que invade o supermercado&lt;br /&gt;no milagre da multiplicação dos pães.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS&lt;br /&gt;DE ALEXANDRIA&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“Pouco me importa que ninguém&lt;br /&gt;Concorde comigo.”&lt;br /&gt; Konstantinos Kaváfis, 9/11/1902&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Se concordassem, me importaria,&lt;br /&gt;estaria duvidando de minha singularidade.&lt;br /&gt;Assumo minha diferença&lt;br /&gt;e nela me refugio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, protegido de mim e dos demais,&lt;br /&gt;sei o que significa preconceito:&lt;br /&gt;sou um grego de Alexandria,&lt;br /&gt;estrangeiro em minha própria terra,&lt;br /&gt;por onde passaram povos conquistadores,&lt;br /&gt;agora sirvo à coroa britânica&lt;br /&gt;por urnas poucas libras&lt;br /&gt;que me garantem&lt;br /&gt;vícios e virtudes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Desprezo os ingleses&lt;br /&gt;mas sem eles seria pior.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Apaixonado pela vida&lt;br /&gt;—ainda que seja apenas uma ruela esquiva —&lt;br /&gt;e por um corpo furtivo,&lt;br /&gt;a ruminar meu gozo à distância,&lt;br /&gt;a contemplar-me com medo e fascínio,&lt;br /&gt;a converter em palavras meu delírio&lt;br /&gt;sem culpa, mas com medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Extraído da obra EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS DE ALEXANDRIA. Brasília: Thesaurus, 2007)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS&lt;br /&gt;DE ALEXANDRIA&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Morreste aos dezessete anos, de prazer."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou livre, contigo, meu entranhado amigo,&lt;br /&gt;livre de convenções comezinhas, moralistas:&lt;br /&gt;contemplo teu rosto pálido, imberbe,&lt;br /&gt;entre flores brancas; lívido me encontro&lt;br /&gt;e te resgato, sem nenhum recato,&lt;br /&gt;para meu deleite e encanto, póstero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comovido, sem o alarde do pranto,&lt;br /&gt;com o entusiasmo contido, suspenso,&lt;br /&gt;pois o entusiasmo em excesso encandila&lt;br /&gt;e, se falta, aniquila, é marasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Te beijo na despedida, sem que me vejam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nem te conhecia, mas teu corpo&lt;br /&gt;agora me pertence, mesmo ido, sempiterno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Extraído da obra EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS DE ALEXANDRIA. Brasília: Thesaurus, 2007)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FOTOMONTAGENS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A taça Jules Rimet, roubada, depositada no altar da Basílica de Aparecida.&lt;br /&gt;O corpo nu de Gisele Bünchen plantada na Ceia de Cristo do Michelangelo&lt;br /&gt;                                                                        como pão em oferenda.&lt;br /&gt;O Good Save the Queen colado na bandeira talibã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carne de porco devorada pelas tropas israelenses na fronteira&lt;br /&gt;e o festim dos urubus no banquete das Nações Unidas.&lt;br /&gt;Contemplo a explosão da Casa Branca no filme recente do 007&lt;br /&gt;e o entrelaçamento dos mistérios do Alcorão, da Bíblia e dos Vedas&lt;br /&gt;desvendados por um código ou teorema ou simulador de vôos&lt;br /&gt;— ORIGEM COMUM DA HUMANIDADE, documentário veloz,&lt;br /&gt;DNA primevo arrancado do Paraíso Terrenal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enxergo tudo e não vejo nada!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou aturdido, como num caleidoscópio, num videoclip,&lt;br /&gt;compondo paisagens instantâneas, descartáveis,&lt;br /&gt;renováveis, que se vão recompondo, em colagens,&lt;br /&gt;alternando posições e sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fragmentos de mim, de ti, de todos&lt;br /&gt;assim expostos, estertores,  recompostos numa holografia de surrealidades,&lt;br /&gt;hagiografia dos horrores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Navegações planetárias, siderais, ciberespaciais enquanto&lt;br /&gt;migro dos dedos de câimbra para os comandos cerebrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo que é sólido se desfaz, ensina Marx em sua visão totalitária&lt;br /&gt;e fugaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a paz: nunca mais!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realidades instantâneas, simultâneas, em sua contemporaneidade:&lt;br /&gt;O FUTURO JÁ ERA&lt;br /&gt;na era da informação&lt;br /&gt;— passado e futuro no presente&lt;br /&gt;passa&lt;br /&gt;           diço&lt;br /&gt;                    e mutante&lt;br /&gt;                                      — volátil&lt;br /&gt;                                                     idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOZES FUTURAS VÊEM DO PASSADO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos arquivos estão os vivos e os mortos em macabra coetaneidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tal virtualidade, entro na igreja de São Francisco em Ouro Preto,&lt;br /&gt;percorro absorto as galerias do Louvre,&lt;br /&gt;durmo nas alcovas de El Escorial,&lt;br /&gt;saio pela arcadas triunfais do Partenon&lt;br /&gt;e desço as ladeiras infernais da Favela da Rocinha&lt;br /&gt;                                               à realidade mais banal e cruel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Brasília, 11/6/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Antonio Lisboa Carvalho de Miranda é maranhense nascido em 5 de agosto de 1940. Professor e coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília, Brasil, ministra aulas e cursos por todo o Brasil e países ibero-americanos. Doutor em Ciência da Comunicação (Universidade de São Paulo, 1987), fez mestrado em Biblioteconomia na Loughborough University of Technology, LUT, Inglaterra, 1975. Sua formação em Bibliotecologia é da Universidad Central de Venezuela, UCV, Venezuela, 1970. Publicou romances, poesias e peças para teatro (gênero pelo qual é conhecido lá fora) em vários países.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LIANA ARAGÃO*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisa tinha dezessete quando tomou seu primeiro porre. Um fim de semana de festas: dois churrascos no sábado, mais dois no domingo e o aniversário do Sávio à noite. Sávio era um amigo do terceiro ano. A menina emendou uma coisa na outra e quando se deu conta estava no hospital, tomando glicose na veia. Sávio com ela. Preocupado. Hoje lembro de tudo com muita graça, mas estive bem aflita por aqueles dias. Cheguei a achar que minha filha poderia se tornar uma alcoólatra precoce.&lt;br /&gt;            Ainda atordoada com a história do porre, fui até o trabalho de ônibus (porque esqueci a chave do carro em casa, junto com bolsa, carteira, óculos) e, quase chorando, pedi que o Alceu me liberasse. Ainda me lembro do nome daquele rapazinho que me arrumaram pra chefe. Alceu. Inexperiente ainda, mas um bom rapaz. Deve ter aprendido o bastante agora e acredito que seja até um ótimo gestor, mas na época era um garoto. Um bom garoto. Pediu que me acalmasse e voltasse para casa. Ou para o hospital.&lt;br /&gt;O engraçado é que as ligações começaram ainda pela manhã. Várias das minhas colegas ligaram para saber o que estava acontecendo. Alceu só sabia que eu estava muito nervosa. Expliquei a cada uma pacientemente. A Fran me disse que relaxasse, aquilo era coisa de adolescente. E emendou uma conversa que começou com uma bebedeira do filho e acabou com a morte da manicure, espancada pelo marido.&lt;br /&gt;No fim da tarde, quando voltamos para casa, o pai de Lisa telefonou. Tive que contar o que aconteceu, sem entrar em detalhes. Ele pareceu compreender, no início. Depois me culpou. Um canalha, como qualquer ex-marido. O que ele podia saber de Lisa? Só recebia boas notícias, uma menina boa, estudiosa, querida pelos amigos. Uma vez que acontece algo fora do que ele julga ser o curso normal das coisas, o escândalo. Ah, que se fudesse. Desliguei e fui cuidar da menina. Ainda abatida, ela me pediu perdão. Sorri. Mas ali eu ainda não sabia que essa história de filho pedir perdão ao pai é algo esquisito. Perdão por quê? Uma menina meiga, doce, companheira.&lt;br /&gt;Naquela noite, depois de uma sopinha, nos divertimos vendo álbuns de quando ela era um bebê. Rimos com as diversas fotos tiradas no parquinho do prédio, aquelas com os primos, que registravam um banho de mangueira na casa da avó, duas tiradas ainda na maternidade e ela um embrulho branco com bochechas rosadas.&lt;br /&gt;Foi um período maravilhoso a adolescência de minha filha. Soube do primeiro beijo, da primeira transa. Íamos ao cinema e às vezes ao clube nos fins de semana. Eu não poderia ser considerada uma mãe liberada, uma ex-hippie irresponsável, mas era até bem tolerante. E o porre da menina aos dezessete foi prova disso. Imagine, cinco festas. Nem dormiu, a pobrezinha. E eu ali, preocupada.&lt;br /&gt;No mesmo ano, esquecido o episódio do porre, trouxe um rapaz chamado Alessandro pra eu conhecer. Fez questão de dizer que não era namorado. É meu amigo, mãe, meu melhor amigo, contou na frente dele. Tomamos suco, comemos bolachas e conversamos. Gostei do rapaz: inteligente, estudioso. Não me lembro se nesses dias já fazia faculdade. Acho que não. Devia estar terminando o segundo grau, como a Lisa. Aliás, nem me lembro como minha filha conheceu o Alessandro. O fato é que os dois ficaram muito íntimos e ele passou a freqüentar a minha casa.&lt;br /&gt;Hoje, alguns anos e vários porres depois, recebo esta carta de Lisa. Está em Paris há alguns meses. Bolsa de uma empresa multinacional. Terminou o curso de desenho industrial e estuda uma espécie de especialização em design na França. O pai morreu há dois anos. Teria sido um empecilho para a ida da menina? Talvez não. Talvez sim: um ex-marido típico. Minha princesa mandou uma foto, um postal e duas folhas de carta. A letra redondinha me disse que está adorando a cidade.&lt;br /&gt;Vou responder que tenho saudades, que espero que volte logo e que consiga se empregar em sua área. No Brasil, as coisas não estão fáceis para os recém-formados. Brasília anda fria, alguns dias chuvosos, acinzentados. Pensei, com a caneta fazendo piruetas em minha mão, que talvez fosse agradável lembrar o dia do porre. Terá tomado outros? Vinhos e champanhes franceses? Acho que não. Nenhuma menção dessas aventuras nas cartas ou nos raros telefonemas. Posso perguntar por algum novo amor, mas não posso ser insistente. E também comentar as boas notas no curso de francês, que ela toca em paralelo. Sou uma mãe orgulhosa e amiga e tenho certeza de que ela me ama e me respeita. Mas me sinto mais aflita do que naquele dia. Do que qualquer dia da adolescência de Lisa. Talvez não deva lembrar do pai morto. Encher a carta de alguma lembrança, mesmo boa, pode não ser agradável para minha princesa. Postarei com certeza uma foto de sua fase mais peralta, com seis sete anos. Ela vai rir e mostrar para os amigos. Talvez não seja hora de dizer que tia Vilma está adoentada. Mas talvez mencione que Paola, amiga de infância dela, ligou pedindo notícias. Sim, contarei sobre Paola.&lt;br /&gt;Perguntou por Alessandro.&lt;br /&gt;Talvez omita que se mudou pra cá desde que ela partiu. Talvez não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Liana Aragão nasceu em Fortaleza em 1979 e vive em Brasília desde 1996. É mãe do Bernardo, contista, jornalista, bancária e mestre em Literatura pela Universidade de Brasília.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Henrique Marques Samyn*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://littere.blogspot.com/2007/10/nilto-maciel-mais-do-que-escritor-um.html"&gt;Literatura e desvario&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;                                        &lt;br /&gt;   Nilto Maciel é, mais do que escritor, um guerreiro das letras. Mantém heroicamente, desde 1991, a revista Literatura, uma das poucas publicações brasileiras dedicadas exclusivamente às letras; paralelamente, constrói uma premiada obra como romancista e contista, além de assinar artigos, ensaios e poesias.&lt;br /&gt;   Carnavalha (Bestiário, 2007), sua obra mais recente, é uma espécie de romance em retalhos, construído por meio de uma laboriosa montagem de narrativas. O tênue fio que as une, o próprio motivo carnavalesco, dá azo ao vertiginoso desfile de cenas que se desenrola em torno de Zuza, bêbado e gauche, centro deste universo em que tudo tende ao desvario. O texto de Nilto comumente habita a fronteira entre o real e o fantástico, limite que também Carnavalha, com freqüência, desconhece; assim é que a narrativa entrelaça passagens em torno das mais prosaicas situações com textos de evidente carga simbólica. Carnaval, mundo feito máscara: nada é o que parece ser.&lt;br /&gt;   Se rótulos fossem necessários, talvez fosse possível qualificar Carnavalha como um romance etnográfico; categorizações, todavia, pouco importam no tocante à literatura, e mais vale observar que Nilto Maciel mergulha no universo carnavalesco para extrair dele a matéria-prima de sua criação literária – um romance em que a essência do carnaval mescla-se com a própria marcha da existência. Nas narrativas de Carnavalha, o que há é um desfile de efêmeras criaturas cujas vidas, árduas e dolorosas, sôfregas e retortas, só encontram algum sentido nos delírios dos que as vivem. Ainda assim, somos capazes de sentir, por esses miseráveis seres, alguma empatia – talvez por nos semelharmos mais a eles do que gostaríamos de crer. A navalha de Nilto Maciel fere, afinal, nossa própria carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Henrique Marques Samyn: escritor, tradutor e pesquisador acadêmico, vive no Rio de Janeiro. Autor de &lt;a href="http://poemariododesterro.blogspot.com/" target="_blank"&gt;Poemário do desterro &lt;/a&gt;e de diversos &lt;a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4774855H9&amp;amp;dataRevisao=null" target="_blank"&gt;artigos acadêmicos&lt;/a&gt;. Sua obra literária já foi publicada em periódicos brasileiros, na Venezuela e na Espanha. Cursa doutorado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com tese sobre poesia medieval.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas Athanázio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O VAGONETE&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;               Espremida pelos morros de um lado e outro, entre eles se destacando a Pirambeira, com seu cume empinado e coberta de mata misteriosa, a Vila se estendia ao longo da estrada de ferro que corria seus trilhos pelo vale. Para a esquerda, além do pátio da estação, erguiam-se as construções melhores, casas pintadas e envidraçadas, alguns sobradões de madeira de lei com chalés de pequenas janelas que espiavam com desconfiança para fora, o escritório da Companhia Americana, instalado na “casa verde” da esquina, local das decisões importantes, e lá no alto, no tope do coxilhão, a igrejinha de torre única, cujas portas só se abriam nas festas religiosas e visitas do padre. A estação ferroviária centralizava a vida pouca do lugar. Construída em tábuas de imbuia maciça, tinha o telhado largo para a frente e os fundos, cobrindo a plataforma de pedra-ferro onde encostavam os trens, perambulavam passageiros, ferroviários e curiosos, chegavam e saíam encomendas e despachos. Duas vezes por dia, pelas dez e dezenove horas, o movimento redobrava com a passagem do trem misto do norte e do sul, levando e trazendo gente e objetos de cidades mais próximas. Era o momento do encontro de amigos, compadres e namorados, todos curiosos para observar os passageiros, comprar revistas e jornais no jornaleiro, cigarros e doces no “buffet”, encontrando às vezes algum conhecido que trouxesse as novas do mundo lá de fora. Despachados os trens pelo agente, a estação se esvaziava, ficando apenas uns desocupados que enchiam as horas contando lorotas e piadas velhas e chochas. As composições de tiro longo, inclusive o direto para São Paulo e o internacional que vinha da Argentina, esses cruzavam na calada da noite e em geral nem se davam o luxo de parar, limitando-se a reduzir a marcha no quadro para receber o “pode” entregue pelo agente de boné vermelho. Os raros freqüentadores da plataforma nessas horas vãs só tinham que se contentar com relances iluminados do que acontecia lá dentro e, tendo sorte, com a imagem fugaz de alguma castelhana morena instalada no aconchego do luxuoso vagão de aço.&lt;br /&gt;               No lado oposto da ferrovia, depois do chapadão pelado onde se erguera, nos tempos de dantes, a serraria queimada na Revolta dos Jagunços, alinhavam-se as moradas dos operários e empregados. Casas toscas, com paredes de tábuas de terceira, retamadas de nós, se alinhavam entre dois tanques e a estradinha que penetrava fundo nos matos fechados. Mais adiante, em desalinho, espalhavam-se no meio do vassoural ranchos feios e escuros onde moravam biscateiros e trabalhadores justos para qualquer serviço, sem nenhuma ligação com a Americana. Dali para a frente, furando capoeiras e capões de mato, serpenteando entre lançantes e topes, estendia-se a estradinha que conduzia à serraria  que devorava, dia e noite, os pinhais e madeiras de lei que se estendiam a perder de vista, sombreando as campinas e abrigando bichos sem conta. Todos os dias, do nascer ao pôr do sol, os caminhões de reboque, carregados de tábuas, caibros, pranchões e fueiros, percorriam a estrada desde a serraria até a Vila, retornando vazios em busca de nova carga. O leito de chão assim batido se tornava brilhante à luz do dia e dois trilhos paralelos se fixavam como desenhados por mão segura. Só nas chuvaradas, com o leito liso, os caminhões descansavam no pátio da indústria.&lt;br /&gt;               Toda a madeira serrada ficava em imensos barracões construídos ao longo da linha secundária da estrada de ferro. Ali aguardava a chegada de vagões-plataforma em que as pilhas se erguiam com meticulosa precisão, transportadas por carregadores de grande prática. Os mais rápidos e experientes se tornavam falados, merecendo os gabos e a geral admiração. Nas horas de carregamento a Vila se enchia daquele som típico e ritmado das tábuas lançadas umas sobre as outras. Moradores atentos identificavam os carregadores pelo tempo entre as batidas e até mesmo pela aparência da carga, depois de pronta. Engatados às locomotivas, esses vagões rumavam para misteriosos destinos.&lt;br /&gt;               Correndo ao lado desses barracões, em toda sua extensão, existiam trilhos para os vagonetes usados pelos operários no manuseio do madeirame, para cima e para baixo, conforme a necessidade. Esses vagonetes, ah! esses vagonetes! Eles constituíam o terror e o tormento das mães da Vila, pobres ou ricas, de um ou de outro lado da ferrovia. &lt;br /&gt;               Em virtude do desnível do terreno, foram os barracões construídos na altura de uns três metros do chão, o que acontecia também com os trilhos dos vagonetes. Eles terminavam de repente, não havendo nada que impedisse a queda lá de cima quando não paravam a tempo. Não existiam os chamados gigantes que se colocavam nos finais de linhas para evitar o descarrilamento. Como esses veículos não tinham freio, só podiam ser parados à força, segurando ou enfiando fueiros por baixo das rodas metálicas. Empurrados no início dos trilhos, embalavam logo e a piazada malandra saltava sobre eles, só os segurando quando se aproximavam do final da linha. Mas isso nem sempre acontecia e muitas vezes os veículos pesadões avançavam além do limite e se projetavam no ar, fazendo um barulho chocho quando encontravam o chão úmido pela falta de sol. Nessas quedas violentas, não foram poucos os feridos, e até uma morte aconteceu. Simão Ruivo, filho do guarda-chaves, menino de uns dez anos, não conseguiu saltar no momento certo. Despencou com o vagonete e foi esmagado por ele. Grande tristeza invadiu a Vila porque o guarda-chaves, além de boa pessoa, era estimado por todos. Durante algum tempo a piazada, ressabiada e ameaçada de chicote, deixou de lado as corridas, mas com o correr dos dias o acidente caiu no esquecimento e as aventuras recomeçaram.&lt;br /&gt;               A preferência dos malandros ia para o vagonete da Americana. Seu trajeto tinha boa extensão e corria em parte entre dois barracões, colocando-o a salvo de olhares atentos de mães temerosas. Por ser novo, pegava grande embalo e deslizava veloz, com as rodas chiando nos trilhos brilhantes. Em compensação, estava ainda mais alto do chão que os demais. Apesar da proibição do Administrador e dos pais, invocando sempre o infeliz Simão Ruivo, a piazada se juntava para as arriscadas corridas. Duas polaquinhas das redondezas costumavam se juntar ao bando. Estanislava e Nastasia, muito altas e de cabelos cor-de-milho, arregaçavam as saias e participavam das corridas com grande coragem. Quando pilhadas pelos pais, levavam severas sovas, exibindo mais tarde as pernas brancas marcadas de vergões das varas de marmeleiro, como se fossem cicatrizes de combate.&lt;br /&gt;               A farra era grande.&lt;br /&gt;               Apontando por ali algum pai ou funcionário, desapareciam por baixo dos barracões, como se evaporassem, conhecedores de todos aqueles meandros obscuros.&lt;br /&gt;               Embora tivesse de tudo – bicicleta, cavalo, fartura em casa e viagens de férias, – Gabriel, o filho único do Capataz, mais conhecido como Gab, gostava mesmo das correrias dos vagonetes. Deixava tudo de lado, ao menor descuido da mãe, e para lá se dirigia, juntando-se ao grupo mais assíduo. Aquelas corridas perigosas mexiam com ele, fazendo-o sentir-se um herói ou aventureiro, mesmo com o risco de ser esmagado como acontecera com Simão Ruivo. Não adiantavam os conselhos da mãe, recordando o menino morto, estirado num caixão e com a cabeça enfaixada porque havia perdido a forma, ou as ameaças do pai. Gab vibrava ao “arrostar o perigo”, como os personagens dos gibis, e inventava fórmulas ainda mais excitantes. Ficava em pé sobre o vagonete desabalado, equilibrando-se, com os cabelos esvoaçantes, ou se deitava sobre ele, só saltando no último segundo, apenas com tempo para lançar os fueiros, deixados em local estratégico, sob as rodas. Fundou mesmo o “Grupo dos Voadores”, dele se tornando o líder por todos reconhecido. Sua coragem arrepiava os companheiros.&lt;br /&gt;               Em algumas ocasiões levou grandes sustos. Numa delas, errando nos cálculos, saltou para fora da plataforma dos trilhos, estatelando-se no chão, lá em baixo. Por sorte havia chovido, o solo estava molhado e caiu de lado, enquanto o vagonete descambava pelo final dos trilhos. Destroncou o pé, teve que andar com ele enfaixado por vários dias, e o Administrador, muito zangado, passou uma descompostura no Capataz, chamando-o de frouxo e sem autoridade sobre o filho. Gab esteve proibido de sair, a não ser para as aulas, mas não se incomodou muito porque com o pé inchado daquele jeito não poderia voltar às corridas. Em outro dia, deitado sobre o vagonete que corria, sua camisa se prendeu numa fenda da madeira no momento de saltar. Teve um instante de pânico, mas forçou o salto e a camisa se rasgou, ficando o pedaço preso na maldita fenda. Foi um custo explicar à mãe o que havia acontecido com sua camisa. Mais tarde ele recuperou aquele pedaço e guardou como troféu. Foram, porém, situações passadas e esquecidas; não tardou sua volta à liderança do “Grupo.”&lt;br /&gt;               Novos acidentes aconteceram com outros aventureiros. Pés e braços quebrados, feios cortes, luxações, batidas. Um deles perdeu o dedão do pé, decepado pela roda. A mãe de Gab, desesperada, declarava aos berros que não suportava mais aquilo. E foi assim que, numa tarde fria de julho, ela e o marido decidiram enviar o menino para o internato numa cidade próxima, afastando-o daquelas tentações. Lá ele permaneceu por vários anos, só retornando nas férias, quando ficava sob rigorosa vigilância paterna.&lt;br /&gt;               Passados os tempos, os pinhais e madeiras de lei foram devorados pelas serras inclementes e o “material” acabou. As serrarias encerraram as atividades, a Companhia Americana desapareceu. Os barracões e seus vagonetes se tornaram lembranças esmaecidas. Até mesmo a estrada de ferro, obra monumental que dera vida à região, acabou desativada, restando apenas os trilhos enferrujados e a velha estação em ruínas, transformada em lúgubre cortiço. Onde se erguiam as imensas pilhas de madeira crescem viçosos vassourais.&lt;br /&gt;               Sentado num banco desconjuntado na plataforma de pedra-ferro, Gab contempla aquele vazio com o coração pesado de uma saudade carregada de melancolia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Enéas Athanázio é Promotor de Justiça aposentado e escritor. Tem 34 livros e 13 opúsculos publicados e edita o tablóide literário Jornal do Enéas.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nelson de Oliveira*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O triunfo do sagrado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Os deuses são criações humanas projetadas para explicar certos fenômenos naturais intrigantes. A literatura também. Estudos sobre o comportamento do homo sapiens, baseados na teoria da evolução de Darwin, atestam que a religião é um dos componentes universais de nossa estrutura psíquica. Esses estudos apresentam o ser humano, do mais primitivo ao mais civilizado, como universalmente propenso à criação de deuses, mitos, sacrifícios, rituais e experiências místicas. Projetar dimensões paralelas regidas por leis naturais fisicamente impossíveis é uma de nossas necessidades simbólicas primárias.&lt;br /&gt;               Do caos ao cosmo, o ser humano se interroga constantemente sobre a origem de tudo, inclusive do bem e do mal, sobre o fundamento e o sentido de suas ações, sobre a possibilidade ou não de vida após a morte. Para superar as barreiras do tempo e do espaço, para ultrapassar os condicionamentos e as contingências, temos forjado há milênios as entidades sobrenaturais que estão na origem e na base de tudo o que existe. Por meio de símbolos, fórmulas, encantamentos, profecias e orações – ou seja, por meio da poesia – forçamos o contato com as realidades invisíveis idealizadas para dar sentido a nossa vida profana. Na origem de nossa raça já havia poesia na magia e na religião, já havia magia e religião na poesia. Essa simbiose super-resistente ao tempo só veio a ser ameaçada recentemente, pelos primeiros urros da eficiente máquina a vapor e pelo bafo quente das chaminés industriais. A técnica pôs sob suspeita o sentido e a função tradicionais da religião: a salvação espiritual dos homens.&lt;br /&gt;               A paixão mais perversa dos tempos modernos nasceu do encontro da organização racional na rotina religiosa com a divisão do trabalho na produção capitalista. Como resultado desse encontro, o sagrado perdeu sua esfericidade no momento em que suas articulações foram desmontadas pela produção em massa de ídolos concretos e abstratos (desmanche que sofreu novo impulso com a tevê e a internet). A epifania, desarticulada e replicada ad infinitum nas linhas de montagem, perdeu suas dimensões flexíveis tanto para o homem comum quanto para o sacerdote e, é claro, para a elite esclarecida que este sempre serviu com extrema dedicação. A produção em larga escala de objetos e idéias padronizados, derivados dos mitos e das revelações arcaicos – produção levada a cabo por meio das linhas de montagem –, massificou e achatou a delicada esfera do sagrado. O fordismo e o taylorismo enrijeceram mais ainda os tendões que ligam os seres humanos à experiência mística, tendões que, no Ocidente, nunca tiveram muita flexibilidade sob as cúpulas do Vaticano.&lt;br /&gt;               Essa seqüência de eventos veio confirmar o que todo poeta e todo artista já sabiam: que a experiência do sagrado foi, é e sempre será da esfera dos fenômenos domésticos, artesanais e subjetivos, jamais da esfera das relações públicas e dos sistemas de produção em massa. A rotina industrial, ao invadir e conquistar as catedrais, as sinagogas, as mesquitas, os templos e os santuários, espantou a poesia da religião. Mas não espantou a religião da poesia. Nem poderia.&lt;br /&gt;Para as pessoas educadas na tradição iluminista e indiferentes à moral cristã e à retórica das religiões instituídas, a poesia é o último reduto do sagrado. Desde que o método científico, a revolução industrial e a filosofia existencialista puseram abaixo qualquer possibilidade de existência de Deus ou de deuses, a poesia, para o indivíduo culto, transformou-se na única fonte aceitável do gozo místico. Mesmo o mais racional e materialista dos homens não se satisfaz apenas com a existência profana. Resistente à hipocrisia dos sacerdotes profissionais e à manipulação da fé, a necessidade de se vincular a algo maior e mais profundo faz com que esse homem se volte para a arte.&lt;br /&gt;Por meio da poesia (axis mundi virtual) o mistério da criação do cosmo e dos seres vivos é constantemente representado e reapresentado. Quer se manifeste nas artes plásticas, na música ou na literatura, para o indivíduo cético e materialista da era tecnológica só a poesia é capaz de proporcionar as indescritíveis epifanias até há pouco exclusivas do fenômeno religioso. O sagrado, nas mãos totalitárias da Igreja e de outras instituições que banalizam o sobrenatural, tornou-se algo anódino e burocrático. O sagrado, nos templos do mundo capitalista, não passa de uma mercadoria como outra qualquer. Tornou-se pura racionalidade comercial.&lt;br /&gt;As religiões institucionalizadas, com seus códigos e hierarquias rígidos, são a maior defesa contra a verdadeira experiência religiosa, sempre maleável e individual, incompatível com a linha de montagem que é a vida pública nos centros do poder. São a parte mais resistente – os tijolos – do muro altíssimo que as escrituras enrijecidas e os sermões ao vivo ou pela tevê juram que se romperá no momento de nossa morte. Para os leitores dos mestres da suspeita – Marx, Darwin, Nietzsche e Freud –, as religiões institucionalizadas assassinam o sagrado não só no templo, mas também na praça pública, na sala de jantar, no quarto do casal, no quarto das crianças, no ateliê do artista, na mesa do escritor, ou seja, onde quer que esse sentimento ameace se manifestar.&lt;br /&gt;Mas no âmbito da literatura o poeta de hoje é o xamã da era industrial, é o único indivíduo capaz de revelar aos poucos iniciados o sagrado da poesia e a poesia do sagrado. Revelação que, para acontecer, precisa ser intermediada por sacerdotes céticos, por criadores conscientes de que suas verdades são todas provisórias e seu altar não é de mármore e ouro, mas de ritmo, imagens, correspondências e subdivisões prismáticas de idéias.&lt;br /&gt;Os grandes poemas, mesmo quando tratam apenas dos fatos do cotidiano, revelam que os fatos da poesia não são os mesmos da experiência cotidiana. Também revelam, por meio de símbolos, fórmulas, encantamentos, profecias e orações, que agora, com a falência das religiões instituídas, a integração do indivíduo com a totalidade do mundo só pode acontecer com o auxílio da linguagem poética. Dupla jornada de trabalho: os poemas agora têm de tratar das antigas questões da poesia e, de quebra, discorrer sobre a origem de tudo, inclusive do bem e do mal, sobre o fundamento e o sentido das ações humanas, sobre a possibilidade ou não de vida após a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Nelson de Oliveira (Guaíra/SP, 1966), Mestre em Letras pela &lt;a title="Universidade de São Paulo" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_de_S%C3%A3o_Paulo"&gt;Universidade de São Paulo&lt;/a&gt; (USP), publicou, entre outros títulos, Naquela época tínhamos um gato (1998), Treze (1999), Subsolo infinito (2000), O filho do crucificado (2001) e A maldição do macho (2002). Organizou duas antologias de contos da Geração 90: Manuscritos de computador (2001) e Os transgressores (2003).&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hiirís Lassorian&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                            CONFISSÃO     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                 Ainda hoje pude dar o meu verdadeiro testemunho. Fiquei muito frágil diante do juiz. Ele amaldiçoou-me com um olhar severo. Eu não tinha por que mentir. Mas foram poucos que acreditaram realmente no que eu havia confessado.&lt;br /&gt;                                Naquela noite, assim que peguei no sono, tive um sonho esquisito: estava sentado numa cadeira com um livro nas mãos lendo alguma coisa que eu nem me recordo direito. Só me lembro de uma passagem muito estranha: algumas pessoas comentavam um acontecimento banal do dia-a-dia. Uma briga por ciúmes, resultando num homicídio. Achei o livro bastante chato e logo fechei suas páginas. Não sei por que, acordei assustado, suando frio, numa tremedeira danada. O quarto ainda estava escuro. Devia ser tarde da noite. Virei para o lado e tentei dormir. Não tinha jeito. Não conseguia pregar os olhos. Na pensão, pelo que pude ouvir, todos dormiam feito anjos. Apenas eu me encontrava naquela situação desagradável. Resolvi me levantar e ir até a cozinha tomar uma água. Saí do quarto e fui pelo mesmo corredor de sempre. Abri a geladeira como de costume, mas a encontrei vazia. Nem água nem nada. Achei bastante estranho o episódio, mas não quis me preocupar à-toa. A torneira da cozinha estava a minha disposição e logo pude tomar o gole d’água tão desejado. Voltei para o meu quarto bocejando. O sono parecia ter voltado. Antes de chegar nele, quando virei à direita no corredor, observei uma sombra muito esquisita saindo de seu interior. Parecia uma pessoa, não sei. A luz muito fraca do corredor e a presença benfazeja do sono não me deixaram ver direito. Fiquei um pouco assustado e me dirigi às pressas para o quarto. A porta estava entreaberta, e para o meu espanto e surpresa não havia mais nenhuma cama no lugar nem qualquer coisa que me pertencesse. Na parede, apenas um retrato muito simples de um homem e uma mulher discutindo. Logo lembrei-me do sonho que havia tido e não acreditei. O quarto não parecia ser o mesmo. Tudo havia mudado. A pintura era outra e só havia uma janela. Tentei abri-la às pressas e ela cedeu sem maiores dificuldades. Quando botei minha cabeça pra fora, me deparei com uma pequena casa em toda sua extensão, onde eu mesmo me encontrava naquele exato momento, um céu estrelado, algumas árvores aqui e acolá e uma grama doentia e sem vida. Não era mais uma pensão. Fiquei absolutamente pasmo. Meu coração batia aceleradamente. Voltei meu olhar para dentro do quarto e fui na direção da porta que dava para o corredor. Não havia mais corredor, mas uma outra repartição. Tinha jeito de uma sala, a luz do teto era muito fosca, mas deu para divisar uma cama em seu interior. Nela estava sentada uma pessoa que eu não conhecia. Quando cheguei mais perto, pude ver que se tratava de uma bela mulher. Estava seminua. Olhava para mim sem dizer palavra e me chamava com os seus braços nus e insinuantes. Tive medo de arriscar uma investida e apenas perguntei o que estava acontecendo e quem era ela. Os seus lábios se entreabriram sensualmente e deles pude ouvir as seguintes palavras: “Fui eu que matei o meu marido. Agora eu sou inteiramente sua, só sua. Venha para os meus braços. Venha, meu amor, minha vida”. Suas breves palavras me deixaram estarrecido, sem ação, entregue a um pesadelo de proporções inimagináveis, e quando dei por mim já estava inteiramente em seus braços. Transamos insaciavelmente, rolando pelo chão, naquele abismo de lábios seduzidos por uma paixão devastadora de língua, sexo, pênis e buceta. Eu estava perdido, sem palavras, e emudecido por um acontecimento incompreensível. A loucura desse amor inusitado me deixou absolutamente alucinado. Enquanto estava mergulhado no seu corpo, nenhuma pergunta brotou de meus lábios. Eu a desejava loucamente, tão loucamente que nada mais interessava pra mim.&lt;br /&gt;                                 Minha prisão definitiva foi decretada no dia seguinte. Fui condenado à morte sem qualquer tipo de apelação. Meu crime: ter transado com uma mulher improvável.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carmélia Aragão&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5083977141388149462#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nilto Maciel: Próximo da Carne&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ítalo Calvino, profundo conhecedor de “cidades invisíveis”, diz que as cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa. Dessa forma, Nilto Maciel também edificou Palma no interior do Brasil. Já retratada em diversos contos e romances do autor, como Os varões de Palma (romance, 1994), A Rosa Gótica (romance, 1997), A última noite de Helena (romance, 2003), A leste da morte (contos, 2006) e Os luzeiros do mundo (romance, 2005), a cidade reaparece, nesse ano de 2007, no romance louco e lúcido, Carnavalha.&lt;br /&gt;Agora é carnaval em Palma. A festa pagã, cujo sentido primeiro, após ser resgatada pelos cristãos na Antiguidade, significava carne levare, “afastar da carne”, porque então começava a quaresma, está impregnada na vida e na alma dos habitantes de Palma, unindo a carne e seus prazeres, sendo, ao mesmo tempo, protagonista e antagonista da narrativa, o ponto de convergência entre as histórias que se cruzarão ao longo das oito partes que compõem o romance.&lt;br /&gt;Na primeira parte, intitulada, Palma Gira, o autor nos apresenta Zuza, o bêbado da cidade, que, no entanto, parece ser aquele que tem a visão mais lúcida do efeito da festa sobre as pessoas. “Tudo girava ao redor de Zuza: vira-latas, pessoas, casas, carros, carroças, árvores, passarinhos, nuvens, o Sol, as estrelas”. Os outros personagens se apresentarão na segunda parte, O Desfile, título que não reporta apenas ao desfile carnavalesco, mas também à vitrine de uma gama de tipos e personalidades que se mostrarão na trama como as irmãs Maroca e Alzira, o médico Juarez e sua esposa Jacinta, Noé, Tavinho, Néo Bento, Rocilda e o marido traído, Viriato. Alguns querem fugir, como a condenar a festa, o comportamento apoteótico das pessoas, porém, ao colocarem suas cadeiras na calçada, ao abrirem as portas ou janelas de suas casas, já não estão mais a salvo do efeito “destrutivo” do carnaval.&lt;br /&gt;A realidade de Palma é descrita em uma linguagem realista, crua, sem pudores: “Enquanto Dalva arrumava a cama, Néo Bento se dirigiu ao banheiro. Entrou, fechou a porta, deixou os chinelos ao pé dela [....] uma barata passeava ao redor dos chinelos... [depois] puxou a cordilha da bomba. A descarga de água provocou um redemoinho de fezes.” Mais adiante, a narrativa atinge um tom apocalíptico, no entanto, as palavras proféticas saem da boca dos animais como nas fábulas. Vale ressaltar que a fabulação faz parte de uma das principais características do absurdo utilizado por Nilto: “Súbito o barrão ergueu as patas dianteiras e se pôs a falar: ‘nada mais sujo do que o mais limpo, nada mais limpo do que o mais sujo’ E, voltando-se para Silveira, sorriu”.&lt;br /&gt;Os paradoxos, como o sagrado e o profano, parecem unir-se em Carnavalha. São claras as intertextualidades bíblicas: a destruição de Sodoma e Gomorra, a tentação de Cristo, as trombetas do Apocalipse. Mas, afinal, as visões de Zuza seriam os prenúncios da desgraça, de sua própria desgraça? Seria um profeta ou um simples bêbado? “Zuza arregalou os olhos. Na torre, a coruja piava [....] corriam e zanzavam cachorros, gatos, galinhas, porcos, bodes... Uma profusão de animais nunca vista [....] e de todos os lados surgiram homens, mulheres e crianças,... furiosos, aos gritos, partiram contra os animais”.&lt;br /&gt;Na contramão desse discurso alucinante, temos um escritor fiel às nossas raízes, fiel às descrições peculiares e psicológicas de uma cidadezinha do interior e seus tipos, assim afirmou Manoel Hygino sobre o universo de Nilto Maciel em seu artigo “Rebelião em Palma”, de dezembro de 2005, em Belo Horizonte: “O mundo imaginário de Nilto Maciel é rico em figuras raras, mas no fundo, localizadas e identificadas aí pelos sertões. É gente como qualquer outra, com as idéias mais comuns ou raras, claras ou birutas”.&lt;br /&gt;Vale destacar que, da quarta à sexta parte, na forma dos antigos romances de fragmentos do século XVIII, o autor passou a colocar sob os títulos epígrafes de outros autores, porém, privilegiando os cearenses como: Francisco Carvalho, Moreira Campos, Carlos Augusto Viana, Dimas Macedo, Sânzio de Azevedo, Juarez Leitão, Natalício Barroso, Adriano Espínola, Batista de Lima, Márcio Catunda, Alcides Pinto, Virgílio Maia, Floriano Martins, Linhares Filho, Pedro Henrique Saraiva Leão e outros.&lt;br /&gt;É importante ressaltar que Nilto Maciel detém uma vasta obra literária e que, há anos, é um dos principais divulgadores de nossa produção por todo o país com a revista Literatura, a revista do escritor brasileiro. Carnavalha, seu novo romance, demonstra também sua visão ácida sobre a nossa realidade, diríamos até, uma visão pessimista, mas que, ao mesmo tempo, retrata nossa essência festeira, como diria Zuza: “Podia ser carnavalma”.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caio Porfírio Carneiro*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Procura&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;               Foi até a esquina, olhou para lá, olhou para cá, indiferente aos carros que chispavam para lá e para cá, ao povo que passava apressado para lá e para cá, coçou o queixo e voltou.&lt;br /&gt;               Assim passou toda a manhã, mãos nos bolsos, arrastando os chinelos, camisa puída e meio desabotoada. Até a esquina. Para lá e para cá.&lt;br /&gt;               Cansado, suado, sentou-se no degrau de entrada do edifício onde morava. Cotovelos nos joelhos, punhos nas bochechas magras e espinhentas da barba por fazer, olhos no chão, indiferente aos que entravam e saíam. E aos cumprimentos.&lt;br /&gt;               As formiguinhas, em fila, coleavam no cimento falho da calçada. E entre elas, por trás delas, surgia, imprecisamente, a figura dela. Corporificou-se um pouco. Chegou a ver-lhe o rosto por inteiro, os olhos negros e cansados, os cabelos compridos, lisos e negros, a gola negra do vestido. Mas foi se diluindo, evaporando-se, ficando só o colar de formiguinhas procurando transpor a falha do cimento da calçada.&lt;br /&gt;               Suspirou. Precisava encontrá-la. Não para preencher-lhe os dias, que estes podiam caminhar que pouco lhe importava. As noites podiam se suceder, como se sucediam, que era o destino delas. O sono podia alcançá-lo na cama com o gemido das suas molas, a mesa podia continuar sem alimentos, que isto não o preocupava. Os vizinhos podiam sussurrar, o zelador podia continuar a dirigir-lhe a palavra, que tudo isto era passado.&lt;br /&gt;               O que importava era encontrá-la. Necessário e indispensável encontrá-la. Tivesse forças e correria o mundo. Mas com a respiração mais e mais cansada, sua fraqueza física sempre a tolher-lhe os passos, só lhe sobrava ânimo de ir até a esquina.&lt;br /&gt;               Levantou-se do degrau. Tudo flutuava. A esquina fugia muito longe. O zelador veio segurar-lhe o braço. Livrou-se dele. Quem era ele para impedi-lo de procurá-la? O zelador chamou outras pessoas. Mãos o seguraram pelo braço.&lt;br /&gt;               Ele parou, encarou um, outro, outro, mais outro. O olhar de ódio correu em torno, as mãos trêmulas crisparam-se:&lt;br /&gt;               – Não vêem que preciso pedir-lhe perdão? Não vêem? Não vêem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Caio Porfírio Carneiro nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1928. Desde 1963 é secretário administrativo da União Brasileira de Escritores de São Paulo. Ganhou vários prêmios literários, como o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e o Pen Clube de São Paulo, e contos seus estão incluídos em duas dezenas de antologias do gênero e traduzidos para o espanhol, italiano, alemão e inglês. Publicou livros de contos, romances, novelas, literatura juvenil, poesia, reminiscências, perfis e memórias.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Cunha de Leiradella&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dulcinéia em Hollywood&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Não existem boas nem más estórias. Existem apenas estórias. Que podem ser bem ou mal contadas. Há mil e uma formas de contar uma estória. Mas só uma (e apenas uma) é a forma certa de a contar. E é, justamente, essa forma que faz a diferença. Que mostra o abismo entre um bom e um mau escritor. Entre o escritor que sabe trilhar o seu caminho e o escritor que, sem procurar sequer encontrar o seu caminho, apenas segue o rastro dos outros, e o que é pior ainda, sem saber como nem para quê.&lt;br /&gt;               Cherlanyo Barros não é desses. É daqueles. Daqueles que sabem trilhar o seu caminho. Os contos de Dulcinéia em Hollywood poderiam ter sido escritos de mil e uma formas. Mas Cherlanyo Barros soube escolher a forma certa. Mostrou-nos a essência dos seus personagens como ela deve ser mostrada. Todos os seres humanos se parecem nas suas contradições.&lt;br /&gt;               E o autor, ser humano que é, não escapa das suas próprias contradições. Não existem contos perfeitos no livro de Cherlanyo Barros. Existem apenas estórias bem contadas. E é esta aparente contradição que deixa no leitor a satisfação de ter feito uma boa leitura. Ser ou não ser é apenas uma questão. E o importante não é a questão, é a postura, poder ser. E a forma como Cherlanyo Barros conta as estórias de Dulcinéia em Hollywood dá ao leitor a condição dessa possibilidade. Poder ser.&lt;br /&gt;               Está nascendo no Ceará um excelente contista. Escutem-no. Ele tem algo a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Casa das Leiras&lt;br /&gt;   Portugal&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Henrique Marques Samyn&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois pierrôs&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“Respeite minha dor&lt;br /&gt;não cante agora&lt;br /&gt;perdi meu grande amor”&lt;br /&gt;Nelson Cavaquinho&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;               Chegam pela noite, os dois ao mesmo tempo: os passos e o silêncio. Olham-se um ao outro: o encontro é inesperado, mas guardam a surpresa – não querem nos semblantes demonstrar perturbação, sinal de uma fraqueza, receio, talvez medo. Chegam pela noite e seguem, lado a lado: os passos são iguais, os gestos são iguais. Não se ouve palavra: só os pés roçando a terra. Seguem a mesma trilha, fazem a mesma curva; súbito páram, juntos, diante da caixa de mármore.&lt;br /&gt;               Fitam, os olhos aos pares, a pedra lisa e negra. Cada um leva uma rosa – uma branca, uma vermelha, ambas nas mãos esquerdas – que ambos tentam esconder, por instinto ou por razão. Nas mãos, as duas rosas cujas pétalas tremem, leves – e desvelam, no tremor, o que os dois, com zelo, ocultam. Rígidos como a pedra, os olhos, retesados, obrigam-se a não ver mais que as letras escavadas – como se não vissem ao lado a sombra gêmea: frieza calculada, guardada no silêncio.&lt;br /&gt;               Na mão a rosa branca –&lt;br /&gt;               branco era o sorriso daquela em que agora pensam: ela, ninfa morena, longos cabelos negros, pele esculpida em bronze. Os dois a haviam visto no meio da larga avenida: qual sílfide sambava, enlaçada em serpentinas, confetes pelo corpo recendente a adolescência; sambava e não os via – nada via, olhos cerrados, entregue a todo o enlevo que a arrastava na catarse. Mas eles, longe, a viam, entre as sombras mascarados – as lágrimas pintadas sobre a face entristecida. Quando veio a madrugada, os dois, na avenida vazia, enfim se aproximaram, idênticos nos passos – e ela, desvairada, sambando solitária, não os viu tirando as máscaras; nem viu quando seus lábios se arrastaram para um beijo – e aos braços entregou-se, num arroubo: Colombina.&lt;br /&gt;               Na mão a rosa vermelha –&lt;br /&gt;               e os lábios separados pela lâmina da faca. Foi ela quem caiu – ela, adolescente, sem grito e sem gemido: leve, lívida sílfide, silêncio e madrugada. E os dois que se entreolhavam, as mãos manchadas de sangue, calando o peito o pranto no mais vão dos fingimentos. O beijo interrompido secava nos seus lábios: nasceu de início a fúria – o corpo, no chão, sangrava; a lâmina vibrava, cobiçosa da vingança; mas era quarta-feira. Então se ajoelharam ao seu lado e a contemplaram: os dois que não puderam conhecê-la, Colombina, e agora nada tinham mais que o corpo fenecente.&lt;br /&gt;               E enfim a possuíram – – –&lt;br /&gt;               os olhos se encontraram, as mãos acharam as máscaras:&lt;br /&gt;               negras lágrimas retintas cobriram os rostos pálidos. Deram-se então as costas e afastaram-se, calados, outra vez iguais nos passos, no chão deixando o corpo que outra vez não sambaria.&lt;br /&gt;               Fremem, nas mãos esquerdas, as rosas desalentadas. Lentas são entregues à pedra dura e fria, as pétalas pousando sobre o nome ali gravado, que os dois, num só sussurro, soturnos pronunciam. E aos poucos dão-se as costas outra vez, e enfim se afastam, sem fitar-se, austeros e hirtos – os pés roçando a terra, o luto em meio à noite, vão deixando longe a lápide coberta pelas rosas – rosa branca, rosa vermelha sob a chuva que, leve, cai, numa noite de quarta-feira. E ela não mais samba: no túmulo adormecida, revive na quarta-feira – fim de festa, amor e cinzas:&lt;br /&gt;               na pedra, as letras cravadas, o nome de Colombina.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Batista de Lima*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Pastoral Poética de Francisco Carvalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;               Francisco Carvalho tornou-se uma unanimidade acintosa. É aquele velho campeão que a torcida vibra mais pela derrapada do que pelo erguer da taça. Melhor poeta em atividade na Língua Portuguesa, é mais vítima do rótulo do que da idade. Aos setenta e sete anos o vate lança Memórias do Espantalho – poemas escolhidos (Imprensa Universitária da UFC, 2004).&lt;br /&gt;               É uma seleta dos seus melhores poemas presentes nos dezenove livros publicados a partir de Os mortos azuis, de 1971. Das quinhentas e duas páginas que compõem o livro, cento e quarenta e quatro são preenchidas com sua fortuna crítica. Então se apresentam críticos de renome e também professores universitários que o estudaram em dissertações de pós-graduação. São quarenta estudiosos de sua obra que desfilam em ordem alfabética, com as descobertas mais variadas sobre a sua poética.&lt;br /&gt;               São, pois muitos os ensaístas que estudam Francisco Carvalho e descobrem em sua escritura, algo que não encontraram em outras estudadas. Por exemplo, quando se lê o texto de Gilberto Mendonça Teles (1998), espera-se encontrar na sua análise, alguma referência às repetições em Francisco Carvalho, uma Estilística da Repetição como ele faz tão bem com Drummond e que é farta em Carvalho. Mas não há nenhuma referência às repetições e sim à descoberta de uma "religiosidade literária" neste poeta cearense. "Deus" está presente constantemente nos poemas de Carvalho e a análise de Gilberto Mendonça Teles é em torno desse fenômeno.&lt;br /&gt;               Há um detalhe técnico na confecção do livro que poderia facilitar a procura de certos poemas antológicos do poeta. É que não deveria aparecer no sumário, apenas o título do livro, mas também o título de cada poema presente na antologia com sua respectiva página. Outro detalhe que chama a atenção é que certos poemas não estão completos. Exemplo: "Ode visionária", só está presente no seu canto XII. Esse poema, juntamente com "A máquina do mundo", de Drummond, são os dois melhores poemas produzidos no século vinte no Brasil.&lt;br /&gt;               Isto posto, podemos dizer ainda que o primeiro poema a aparecer no livro é o Sumário. Cada título de livro de Francisco Carvalho é uma metáfora. Alinhados esses títulos ter-se-á um poema que trará a temática principal da poesia do autor: "Pastoral dos dias maduros". Nessa pastoral há, pois, certo "preciosismo barroco... de gosto cultista", como afirma Domingos Carvalho da Silva (1983) que também não esquece de citar as anáforas quase que em excesso.&lt;br /&gt;               Sua mitologia poética constrói, pois, um monumento que podemos chamar de Pastoral dos dias maduros. Carvalho elabora em toda a sua obra uma poética da maturidade. Mesmo nas suas primeiras publicações, a partir de 1956, já se instaura essa terceira idade poética. É algo "sazonado", uma permanente "solidão" incrustada em nuvens, pássaros, sonatas, mortos, visões, exílios, centauros, raízes e paisagens ceifadas. É um poeta maduro em permanente exílio até de si próprio. Há poemas em que se detecta até uma poética do pessimismo, da depressão e do desencanto. Francisco Carvalho é um poeta elegíaco. Mas canta tudo isso de forma humanizadora.&lt;br /&gt;               Se se quiser uma história de vida de Francisco Carvalho basta se seguir o conselho de Luciano Maia quando lhe dirige a palavra: "a biografia de um poeta são seus versos". (MAIA, 1995) Quando se lê essa pastoral das nuvens, dos pássaros e dos dias maduros, Russas aparece como que destino de quem busca um cordão umbilical que lá ficou perdido. Essa prospecção de um latifúndio memorialista vem banhada pelas águas de março do rio Jaguaribe, outras vezes ressequida pelas areias quentes do maior rio seco do mundo na combustão de setembro, outubro e novembro. As águas cortam no rio da terra, mas são perenes na memória do poeta que nascem da lágrima da chuva, do mar da saudade que canta em elegia.&lt;br /&gt;               Nessa antologia, primeiro aparece Os mortos azuis, de 1971. Não é seu primeiro livro, porque antes já haviam aparecido Cristal de memória, de 1955, e depois Dimensão das coisas, de 1966, e Memorial de Orfeu, de 1969. Acontece que é nesse livro onde aparece um grande paradoxo do poeta, e isso, no melhor poema desse seu terceiro livro. Chama-se esse poema antológico "Canção dos deserdados". Não é pelas metáforas que já dão o tom do estilo do autor em livros futuros, tipo: "sol de úlceras", "musculatura de estrelas", "esqueleto dos caminhos", "pesadelo de Deus", "cinzas de vértebras". Não, não é isso. É que nesse poema de apenas vinte versos, ainda aparece sua profissão de fé: "o verso é um braço impotente/para ajudar os aflitos". É uma incoerência do poeta ao longo de sua trajetória. Ele é casado, amante e namorado da poesia. Vive com essa Beatriz, em todos os momentos da existência e ainda fala mal da coitada. Enfeita-lhe das melhores vestimentas (metáforas), cuida dela com mimos e ainda a exibe ao público. Só pode amá-la. Mas é aquele amante que tanto ama que fala mal da amada para afastá-la do assédio dos invejosos. Francisco Carvalho, mesmo em conversas informais, não põe esperança na poesia. Mas vive dela. É ela a razão do seu existir. É um poeta enclausurado nos braços desse fio de vida que ele vive a negar.&lt;br /&gt;               Oscilando, de início, entre um neo-parnasianismo latente e um neo-modernismo aliciante, conforme afirma Artur Eduardo Benevides (pág. 403), é a partir de Pastoral dos dias maduros, que o poeta cristaliza seu estilo nesse livro que ao lado de As verdes léguas, alcança seus dois momentos de culminância na elaboração poética. Pastoral dos dias maduros é o livro de uma maturidade que se instaura em toda sua trajetória literária e que leva toda a sua obra a se enquadrar perfeitamente nesse tema título. A impressão que se tem é de que o poeta já nasceu maduro, que é maduro nas raízes, na germinação. Maduro mesmo antes de ser concebido.&lt;br /&gt;               É a partir desse livro que o arcabouço mítico da sua escritura se define. É nesse momento de amadurecimento pleno que seu estilo alcança o patamar definitivo. E pode-se então delinear características permanentes em sua obra como: "as precariedades da vida e das coisas vivamente presentes diante da morte", como afirma Caio Porfírio Carneiro (1992:14) Ao flagrar esse efêmero, ele o eterniza através de uma epifania humanizadora. De um objeto aparentemente simples como um pote, ele consegue uma iluminação, uma transfiguração, que o pote passa a ser um ente sensável e sensível.&lt;br /&gt;               Essa transfiguração opera o milagre de, iluminado o ser, poder-se ver dele dimensões invisíveis. Daí que o poeta em certa oportunidade, falando de sua amada poesia, chega a pregar: "A medida da poesia é a totalidade do ser". Essa busca da totalidade alcança sua culminância em Pastoral dos dias maduros (1977). Nesse livro, Adriano Espínola (2000) rastreia as características que permeiam a obra inteira do poeta: "a memória da terra (...) o cultivo dos mortos (...) a noite (...) a sensualidade latente". Há noite na superfície de um mar de subjetividades poéticas onde através do mergulho da prospecção pode-se resgatar a noturnidade poética permanente de Carvalho.&lt;br /&gt;               Mesmo com certa sisudez com que se apresenta em toda a sua obra, há em Francisco Carvalho um humor que vez por outra vem à tona em forma de ironia. Exemplo: "Mulheres são animais lindos / (...) / cavalgam nossos sonhos / e nossos desatinos. / Esvaziam nosso bolsos / e enchem a casa de meninos". (pág. 411)&lt;br /&gt;               Esses momentos álacres não tiram, no entanto o compromisso do poeta com a condição humana dos povos oprimidos da América. No livro Crônica das raízes, esses momentos se encontram e convivem com harmonia e grandeza. O apelo social quando transparece não contamina negativamente outras características.&lt;br /&gt;               Foi essa grandeza poética que fez o júri nacional do Prêmio Nestlê de Literatura atribuir-lhe em 1982, entre sete mil candidatos, o primeiro lugar ao livro Quadrante Solar.&lt;br /&gt;               Voltando ainda a Pastoral dos Dias Maduros, é com surpresa que constatamos a não inclusão entre os poemas selecionados para essa seleta, seu primoroso "O rio da minha aldeia" (A modo de Alberto Caeiro), metapoema que merece figurar em qualquer antologia de Francisco Carvalho. As intertextualidades presentes nesse poema fazem com que o Tejo do poema pessoano seja descontextualizado e destronado de sua significação inicial. À proporção que o poema pessoano é desconstruído, Carvalho vai utilizando os materiais para soerguer a estrutura do seu poema.&lt;br /&gt;               Outro senão dessa antologia de Francisco Carvalho responde pelo fato de não terem sido contemplados os poemas dos seus três primeiros livros: Cristal da memória, 1955, Dimensão das coisas, 1966, e Memorial de Orfeu, 1969. Sabe-se de certo desamor do poeta pelo seu primeiro livro, o qual nem figura na Bibliografia do autor (pág. 499). Acontece que o leitor fica privado de ter uma visão global de sua obra e de se deparar com preciosidades omitidas dessa coletânea, como o soneto "O casarão", de Memorial de Orfeu:&lt;br /&gt;               Onde "Rugas feudais espreitam nos alpendres/ o inverno prometido que não veio./ Um vento esguio nos cristais ressoa./ Erram nos quartos vultos de alfazema/ E um cheiro milenar de palha e seio".&lt;br /&gt;               A presença desses versos comprova a necessidade de incluí-lo em qualquer coletânea de poemas do poeta. A ancestralidade transborda dos versos. Os cheiros da memória sinestesicamente afloram e aguçam os sentidos do leitor, principalmente daqueles que tiveram origem rural.&lt;br /&gt;               Ao se analisar essa antologia de Francisco Carvalho, corre-se o risco de falar do que não está na antologia: Cristal da memória, Canção Atrás da Esfinge, Dimensão das coisas, Memorial de Orfeu. Na Bibliografia do autor, página 499, esses dois últimos livros, mesmo não sendo contemplados na coletânea, são pelo menos citados. Os dois primeiros, no entanto, nem figuram como produção literária do autor. O leitor fica como que compungido diante do ostracismo a que são colocados esses dois rebentos do autor. Não fosse a mão estirada do crítico Teoberto Landim, esse primogênito e seu irmão segundo se afogariam nas águas do esquecimento. E não precisa se fazer exame de DNA para se constatar que neles circula o mesmo plasma que pereniza o restante da sua produção. O citado crítico chega a falar claramente da condição bastarda a que esses dois livros são conduzidos ao afirmar: "Francisco Carvalho confessa que não gostaria que seus dois primeiros livros fossem levados em conta no cômputo geral de sua produção poética, pois os considera como simples experiências de um período de transição do seu aprendizado literário". (pág. 492) Méritos para Teoberto Landim, que foi estudar a obra do autor nos seus alicerces, na sua gênese. E aí se constata que os caracteres contatados pelo crítico coincidem com os que nos detêm nas obras recentes: o indefinível como desolução do real, o céu da dimensão das coisas, a fragmentação do mundo a serviço do encantamento.&lt;br /&gt;               Esse retorno aos primeiros tempos do escritor nos liga a sua terra, a uma busca do seu cordão umbilical que ficou enterrado no município de Russas, nos idos de 1927, no vale do Rio Jaguaribe, "artéria por onde se esvai o sangue do Ceará", no dizer de Demócrito Rocha. Feitos os estudos iniciais no Ateneu são Bernardo, de Russas, Carvalho veio apontar na Capital do Estado onde sentou poeira, após se abancar como funcionário da Universidade Federal do Ceará, útero onde germinou o CLÃ, o grupo literário mais duradouro e mais frutífero da Literatura Cearense. Ermitão da poesia, sempre achou que "poetas e escritores, de um modo geral, não passam de narcisos que se contemplam pateticamente no espelho trincado da própria subjetividade" (pág. 498). Após 39 anos de clausura funcional em um dos departamentos da Universidade Federal do Ceará aposentaram-no. E ele se vingou tentando aposentar a poesia em si próprio ao escrever que: "com esta edição de poemas escolhidos, que não são necessariamente os melhores, pretende encerrar sua obscura carreira literária de poeta assumidamente municipal". (pág. 499)&lt;br /&gt;               Essa tentativa de se ludibriar e de escamotear uma relação íntima com a poesia não convence o leitor atento. Primeiro porque o poema nunca deixa de ser escrito. Cada leitor novo que aparecer pegará da pena de Carvalho e continuará essa escritura interminável. Mesmo que esse filho de Russas pregue que seus poemas são menores e que todos morrerão consigo, não será morte com enterro final. Cada leitor disputará a alça desse esquife em busca de um sepultamento que nunca ocorrerá. Daí que a tentativa de epitáfio que se concentra permanentemente em sua obra cai no desuso devido às Verdes Léguas e às botas de sete léguas de que cada leitor se reveste na jornada.&lt;br /&gt;               Francisco Carvalho é o poeta da repetição. Repete para ecoar.  Cada metáfora repetida é um degrau construído na ligação com o leitor. Essa escada de Jacó em busca de um quinto império poético é interminável e desmente o autor, afinal seus versos não são inúteis como não foi inútil o sacrifício de D. Sebastião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bibliografia&lt;br /&gt;CARNEIRO, Caio Porfírio. "O Tecedor de Poesia". In CARVALHO, Francisco, O Tecedor e sua Trama. João Scortecci Editora, São Paulo: 1992.&lt;br /&gt;ESPINOLA, Adriano. "Em louvor ao poeta Francisco Carvalho". In Revista Literatura, n. 19, Brasília: dez., 2000.&lt;br /&gt;MAIA, Luciano. "Francisco Carvalho" In Textos e contextos. UFC/CJA. Fortaleza: 1995&lt;br /&gt;SILVA, Domingos Carvalho da. "Espelhos da Metáfora". In Jornal do Brasil, Rio: 1983.&lt;br /&gt;TELES, Gilberto Mendonça. "A poesia de Francisco Carvalho". In CARVALHO, Francisco. Romance da Nuvem Pássaro. UFC/Programa Editorial da Casa de José de Alencar, Fortaleza: 1998.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Batista de Lima, nascido em Lavras da Mangabeira, Ceará (1949), formou-se em Letras e Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Especializou-se em Teoria da Linguagem na Universidade de Fortaleza. Cursou o mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará. Participou ativamente dos grupos Siriará, Arsenal, Catolé e Plural. De poesia publicou os livros Miranças (1977), Os Viventes da Serra Negra (1981), Engenho (1984) e Janeiro da Encarnação (1995). Na área do ensaio literário apresentou, em 1993, Os Vazios Repletos e Moreira Campos: A Escritura da Ordem e da Desordem, e, em 2000, O Fio e a Meada – Ensaios de Literatura Cearense. De contos, O Pescador da Tabocal (1997) e Janeiro é Um Mês Que Não Sossega (2002)&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nirton Venancio*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UNIDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada dia&lt;br /&gt;tem sua porção de vida&lt;br /&gt;tem sua imensidão de luz&lt;br /&gt;tem sua solidão de gente&lt;br /&gt;cada dia&lt;br /&gt;cabe em si mesmo&lt;br /&gt;como cabem na terra&lt;br /&gt;a colheita e a semente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada dia&lt;br /&gt;tem seu ontem e amanhã&lt;br /&gt;tem seu silêncio de espera&lt;br /&gt;tem sua largura de saudade&lt;br /&gt;cada dia&lt;br /&gt;cabe em si mesmo&lt;br /&gt;como cabem no continente&lt;br /&gt;a distância e a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada dia&lt;br /&gt;tem seu mar e os peixes&lt;br /&gt;tem seus barcos e as viagens&lt;br /&gt;tem seus remos e mãos fortes&lt;br /&gt;cada dia&lt;br /&gt;cabe em si mesmo&lt;br /&gt;como cabe no porto&lt;br /&gt;o rumo do sul e do norte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(do livro "Poesia provisória")&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Nirton Venancio nasceu em Crateús, Ceará, em 1955. Formou-se em Letras pela Universidade Estadual do Ceará. Vencedor do 1º Prêmio Filgueiras Lima de Poesia, com Roteiro dos pássaros. Seu segundo livro, Cumplicidade poética, saiu em 1984. É roteirista e diretor de filmes. Dois de seus curtas-metragens receberam prêmios principais em festivais nacionais.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aíla Sampaio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Carnavalha”: Surrealismo e Carnavalização&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   “Carnavalha” é o 7º romance de Nilto Maciel, recém lançado pela editora Bestiário (Porto Alegre, 2007). O romance agrada o leitor a partir do trabalho gráfico apurado (o mesmo do livro anterior, a coletânea de contos “A leste da morte” (2006)) até a extensão dos capítulos, sempre curtos e nominados. A história se passa na cidade de Palma, no Ceará, espaço (imaginário) recorrente em livros anteriores, e o leitor fica suspenso no questionamento: a rotina foi modificada pela festa momina ou a cidade é um antro de loucos, que vivem o ‘carnaval’ permanentemente? Afinal, como diz o Zuza: “A cidade é cheia da fantasias. O Carnaval é o cotidiano” (p.147).&lt;br /&gt;   A narração faz desfilar uma galeria de personagens que surgem, desaparecem e ressurgem como num desfile de carnaval; o ritmo constante e denso dá a impressão da passagem ‘tumultuada’ de blocos carnavalescos, que é o que constitui, de certa forma, cada capítulo. O discurso do narrador, em 3ª pessoa, predominantemente no pretérito imperfeito do indicativo, um tempo que expressa um fato passado contínuo, coloca o leitor diante de acontecimentos passados, mas de incerta localização no tempo: tudo se passou e parece estar ainda se passando. A idéia de simultaneidade está presente, sobretudo, na quinta parte, quando os capítulos enfocam especialmente um personagem (ou um par), o que é reiterado pela alternância de vozes: o narrador fala e faz ecoar a voz dos personagens, por meio da mistura contínua dos discursos indireto e indireto livre.&lt;br /&gt;   Embora o Zuza apareça no início e no desfecho da narrativa, o enredo não tem personagem central – todos estão inseridos no mesmo enfoque delirante do narrador onisciente – a protagonista da obra é a própria vida. Os personagens aparecem invariavelmente submetidos a situações que transpõem a racionalidade, imersos num mundo surreal, que tem a sua própria lei: a do absurdo. Não há nenhum questionamento por parte deles sobre o delírio em que vivem; a transgressão da normalidade aparece como natural. Os acontecimentos que fazem o enredo estão, pois, libertos das exigências da &lt;a title="Lógica" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%B3gica"&gt;lógica&lt;/a&gt; e da &lt;a title="Razão" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Raz%C3%A3o"&gt;razão&lt;/a&gt;, vão além da &lt;a title="Consciência" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Consci%C3%AAncia"&gt;consciência&lt;/a&gt; cotidiana e se expressam através do desvario: “Montado num dromedário, Aluísio passeava pelas ruas de Palma. Seguiam-nos outros dromendários, cavalgados por seus amigos de Brasília. Iam pela Avenida Dom Bosco, no rumo da matriz /.../ Súbito os animais se punham a correr pelas ruas, em desabalada carreira. “Sou Lawrence da Arábia. Vocês não me acham parecido com Omar Sharif?”. Aos gritos uma multidão de meninos corria atrás da caravana.” (p.125). &lt;br /&gt;   De fato, exatamente como preceitua o manifesto surrealista, “Carnavalha” rejeita “a chamada ditadura da razão e os valores burgueses. Humor, sonho e  contra-lógica são recursos a serem utilizados para libertar o homem da existência utilitária. Segundo a nova ordem, as idéias de bom gosto e decoro devem ser subvertidas”. Essa filiação não está apenas no conteúdo, mas na própria forma: percebe-se que “o impulso criativo artístico se dá através do fluxo de consciência despejado sobre a obra”. Há uma ‘avalanche’ de situações que se sucedem, literalmente regurgitadas pelo narrador, e nenhuma obedece à lógica referencial. Vejamos outra passagem, quando o sagrado e o profano se colocam lado a lado: “Foliões invadiam a igreja, escancarando as portas laterais e da frente. Fantasiados, de roupas coloridas, pintados e seminus, gritavam, cantavam e pulavam. Maroca leva as mãos à boca horrorizada:”Padre, padre, veja que profanação!”. Porém os fiéis se misturavam aos carnavalescos e se punham a dançar, pular e cantar /.../ E então o pároco, acolitado ainda por Alzira, surgia às suas costas, não mais de batina, porém vestido de uma capa preta, chifres enormes, um rabo a balouçar, língua de fora /.../ Encapetado, o padre buscava Maroca e a encontrava ao lado do altar. Agarrava-a por trás e fazia menção de violentá-la” (pp.100-101).&lt;br /&gt;   Na sexta parte, os fatos surreais são interrompidos, e o bêbado Zuza volta às atenções ao perturbar, com a inconveniência e a sinceridade dos ébrios, conterrâneos e visitantes que brincam o carnaval. Durante o tão esperado baile no balneário, seu corpo aparece boiando na piscina. No capítulo “As Cinzas”, simbólico porque marca o fim do carnaval e o fim também do carnavalesco Zuza, todos são interrogados pelo delegado Pedro Cabral. O romance termina com a descrição do baile e a fala do Zuza, em cima do palco: “canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma, carvalha, canavialha, carnavialma, bando de canalhas, macacos, cambada de farsantes” (p.173). A orquestra pára, as luzes apagam e sons conexos e desconexos ressoam na multidão. Como no capítulo anterior sabe-se que o Zuza morreu, supõe-se que tenha sido esse o seu momento final. Nenhuma elucidação do crime, entretanto, é dada ao leitor: suicídio? Assassinato? O romance termina.&lt;br /&gt;   Além do imenso elenco de personagens, há uma infinidade de bichos e insetos que pululam o universo delirante de Palma: cachorros, dromedários, cavalos, onças, gatos, galinhas, baratas, aranhas, corujas, ratos, abelhas, todos nivelados ao homem na mesma aparente naturalização do irracional: “O gato miava, agigantava-se, fazia-se onça e saltava ao pescoço do estranho” (p.74) ”/.../ “Eu não entendo como pode um homem se entender tão bem com um cão e deixar de lado a cadela”. A da casa brincava: “Você não queria dizer a cadele?"Vicente se levantava e saía para a rua. Guiomar ia a seu encalço. A mulher corria à porta e se punha a imitar latidos" (p.78). /.../ “O cachorro se punha a latir e caminhava em direção à dona da casa, dentes à mostra. “Ou a senhora fica com ele, ou eu o mando morder as suas nádegas”” (p.85). Um mundo fantasioso se instaura e nada é o que aparenta ser.&lt;br /&gt;   Muitos intertextos permeiam a voz do narrador e dos personagens. São passagens de obras ou referência à Bíblia sagrada, a Sheakespeare, Hamlet, Dante Alighieri, Cervantes, letras de música, à carta de Pero Vaz de Caminha: “Alguns homens traziam os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau. Entre eles, cinco ou seis moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas. Traziam suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que mais pareciam meninas” (p.75). Aliás, a Carta está em todo o capítulo “As cinzas”. O nome do delegado é Pedro Cabral e o escrivão, ao datilografar os depoimentos, mantém uma cópia ao lado e fica a repetir passagens. O delegado, ironicamente, vive consultando um “Livro de ditados” e a cada depoimento desfere um como uma verdade irrefutável.&lt;br /&gt;   Fora das fronteiras do Fantástico, gênero tão bem exercitado em obras anteriores, “Carnavalha” é um romance ousado, subversivo da ordem e dos cânones tradicionais. O irônico se mistura ao trágico e ao cômico e cria um universo simbólico pleno de representações. Nilto Maciel demonstra total domínio do texto ficcional, autonomia e capacidade de brincar com as coisas sérias. Daí ser impossível ler “Carnavalha” e não referir, também, Bakhtin e sua teoria sobre a ‘carnavalização’ na obra literária. Embora na obra do Nilto o cômico esteja ligado ao trágico – há muito sofrimento, num desmascaramento das agruras da própria existência – nela o carnaval representa a festa dos loucos (festum stultorum) e predomina o realismo grotesco de que fala Bakhtin; há muitas imagens deformadas e exagero, há confusão e dissolução de identidades e a total liberdade de transgredir, inclusive a lógica.  Entre o Surrealismo e a Carnavalização, Nilto Maciel escreveu um dos romances mais interessantes que li nos últimos tempos. Vale a pena conferir!&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RINALDO DE FERNANDES*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carpinteira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Transborda o berço, o sono do meu filho no quarto. Os pingos no metal da pia – marteladas no meu crânio. Vou à cozinha, aperto bem a torneira. Antigamente, tudo limpo, polido. Agora, o pó cobrindo a geladeira. Na sala, despenco o corpo na poltrona.&lt;br /&gt;               A TV fora do ar, meus dedos tamborilam no nada. Minha vida, a esse tempo, embrulhada em quatro paredes. Olho-me no grande espelho. Em carne viva, a mordida que os dias me arrancaram.&lt;br /&gt;               Olho a cinza de cigarro que, antes de sair, meu marido quebrou no tapete. Alta madrugada, bêbado, ele chega atropelando o sono do menino e o meu. Em nossas discussões borrifa-me o rosto com o rum do ódio.&lt;br /&gt;               Mas, carpinteira, construo um barco com as tranças nuas de cebola. É nele que, próximo temporal, ganharei as águas que, eu sei, sempre estouram da biqueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O farol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para Moacyr Scliar, que gosta deste conto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               As luzes de todos os bares da orla, de repente, no fim de tarde, jorram nas calçadas, nas mesas e cadeiras brancas. Quando acende o hotel, eu lembro de ti. Olho, na outra ponta da praia, o farol. O farol precisa de você – e eu dele. O farol precisa de você porque você conseguiu aí o emprego de alumiá-lo nas noites, de mantê-lo. E eu preciso dele porque ele te acende. O pingo de luz rodando no alto do morro, certo, fixo, eu sei que é você.&lt;br /&gt;               Quando o hotel se ilumina, eu lembro de ti porque antes você era dele. Do hotel. Agora você se elevou. É do farol. No fim de tarde, você segue para o emprego de, a noite toda, virar uma estrela amarela no topo do morro. Estrela que, da janela de minha quitinete, às vezes com o violão nas mãos, eu fico vigiando. Sei que aquele comando apodrecido, enquanto não chega o novo, precisa de alguém perto dele. Se você sai de perto daquele comando comido pela ferrugem, aí não há farol. E quando o farol apaga, tremo – onde você se enfiou? Quando o farol apaga, caço em todas as estrelas o feixe amarelo. Ou então vou pra porta do hotel (de onde já fui funcionário, antes de me tornar músico). Porque acho que você, de repente, pode querer de novo se largar pra ele. Pro hotel. Mas, aí, vendo bem por ali, não distingo a tua luz entre tantas, mortiças, azuladas. Procuro nas ruas, nos arredores do porto. És o abajur baixo daquele quarto? A lâmpada triste daquele corredor? Neste momento, onde jorra você?&lt;br /&gt;               Ainda bem que, vai partindo a madrugada, no alto do morro você volta a acender. De novo, você guia os navios. Enquanto em volta, já o sangue da aurora, vão secando as outras estrelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Rinaldo de Fernandes é contista premiado (obteve, com o conto inédito “Beleza”, que integrará o seu próximo livro, o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos do Paraná de 2006). Autor dos livros de contos O Caçador (1997) e O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005). Organizador das antologias Contos cruéis (São Paulo: Geração Editorial, 2006) e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Rio de Janeiro: Garamond, 2006). E-mail: &lt;a href="mailto:rinaldofernandes@uol.com.br"&gt;rinaldofernandes@uol.com.br&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Miguel de Moura*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM TEM MEDO DE ASCENDINO LEITE?&lt;br /&gt;                                                                         &lt;br /&gt;               Poesia de um tempo sem tempo, tempo de Deus e do Demo, do sensual e do áspero, embora lírico, poesia de um mundo do mercado e da mercadoria, quando as almas se refugiam nas nuvens ou nos jardins (os eternos) que os poetas fabricamos para as nossas delícias. É a poesia maiúscula refugiada em alguns poetas e poucos livros como esta reunião de Ascendino Leite, denominada Poesia ou Morte, Edições Idéia, João Pessoa, 2006, com 671 páginas. Não sei se é toda a poesia do poeta, romancista, memorialista, cronista, dono do melhor estilo de língua portuguesa nos dias atuais, no Brasil, que eu conheço, rivalizando apenas com O.G. Rego de Carvalho que se diz influenciado pela leitura de seus romances – bela ficção, tão profunda quanto poética, tão lírica quanto dramática. Não falo sobre a língua em Portugal, nas Áfricas, Ásias e Oceanias, pela distância, pelo meu desconhecimento do muito que lá se escreve. “Visões do Vale” e “O Nariz de Cíntia”, para meu gosto especial, são apaixonantes. Mas seu “Jardim Marítimo”, com o qual inicia o volume em comentário, é de uma singularidade tão feliz que certamente agradará a todos os espíritos sem correntes, sem peias, sem traves.&lt;br /&gt;               Por quê? A terra é dura e produz frutos estranhos, espinhosos (podem ser até suculentos); a terra esconde-se como um grão num porto ou num navio ancorado na escuridão. É preciso visitá-los com paciência e amor, com luz e também sofreguidão. Ler suas sementes, ler sua colheita de grãos alimentadores. Ascendino Leite é da Paraíba, trabalhou como jornalista no Rio por muitos anos e depois voltou para sua João Pessoa, no tempo da aposentadoria. Uma volta, um encontro com suas raízes. Esse encontro está na sua poesia não apenas como matéria, mas como forma e estilo.&lt;br /&gt;               Por quê? “As coisas delicadas não se perdem”. São flor e som, eterna luz. “A palavras, em geral, são exigentes, nunca possessivas, ou inúteis”. Mas “de nada servem em tom de culpa, queixa, ou para alimentar uma ambição”, Ascendino Leite completaria, no mesmo poema. Noutro, oferecido a uma senhora de suas relações (ou é ficção?), ele casa tempo e destino, traz todo o seu afeto de ardente contemporaneidade. Que casamento mais concorde com toda a sua poética!&lt;br /&gt;               Poeta fortíssimo, ninguém vai jamais imitá-lo nem corrompê-lo, graças ao seu equilibrado lirismo/dramático/trágico, no grande sentido, cheio de orgasmos da razão, da vida, do saber, do cheiro e do sabor do ver e do ouvir. O ritmo e a música são próprios da alma da poesia escrita, nunca lembrando canções populares, que afinal de contas se servem tanto dos lugares comuns não recriados – digo as letras das canções. Ficará aquela que é boa música também.&lt;br /&gt;               Por que falar das emoções onde sobram, derretem-se, penetram, petrificam-se em estátuas como obras perpétuas dos melhores artistas universais? Aqui arte e artista se confundem, numa nova ordem de lídimo construtor nordestino, brasileiro, universal. Não há, por outro lado, como individuar poemas, dentro de uma seara tão fecunda. É um rio de poesia. Um de mar de sargaços, recifes e correntezas frias ou quentes, que vão dos pólos ao equador, e se corporificam num verso ou num nome para a lembrança do que foi comovidamente vivido em sonho e imaginação. Imagens inusitadas como aquela que dá título a “Nariz de Cíntia”. Para tanta poesia, um nome tão apoético – nariz, atrelado a um nome de mulher tão belo – Cíntia. O que esconde e o que mais mostra essa figura? A obra inteira é um granito que há de durar e resistir ao vento que fustiga os mares e as montanhas, os vales e os campos gerais, nos verões de sol e calor do nordeste, nas geadas e minuanas do sul Nas esperanças da ressurreição do homem.&lt;br /&gt;               O poeta mais singular que conheço, Ascendino Leite, pode ficar tranqüilo quanto ao silêncio da crítica. Eles não no entendem, têm medo. Os poetas também. Não sei por quê.  Destino e tempo de uma lírica enganosa de sentimentalidade, quando no fundo é anti e contra o que não corta, o que não pensa, o que não decanta. E, sobretudo a favor da sensualidade que nós carregamos sem saber como todos os vivos do universo. Sensualidade que é alma, pensamento, razão e luz, liberdade e amor.  Sensualidade consentida pelo poeta das desmedidas paixões, mas poeta do esplendor duma beleza ática, na expressão mais legítima da palavra.&lt;br /&gt;____________________&lt;br /&gt;*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina – Piauí.  franciscomigueldemoura@superig.com.br&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PEDRO SALGUEIRO*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRISIONEIROS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Os vagabundos que foram presos nos arredores da cidade não tiveram muita sorte em escolher aquela época do ano para virem pedir esmolas em nossas ruas. No começo eu também achava que eles eram espiões de nossos aguardados invasores, mas, com o tempo, fui me convencendo de que não passavam de uns pobres coitados cujas culpas não iam além de algum furto de galinha ou roupa em qualquer quintal. Nunca os perigosos inimigos mandariam batedores tão idiotas e sem nenhum disfarce. Cheguei a estas conclusões depois de rever meus apontamentos sobre os muitos suspeitos que estive a investigar durante quase toda a minha vida. Não possuíam nada que lembrasse o povo que um dia cheguei a visitar sem querer; nada do olhar perdido, melancólico... e, além do mais, aqueles que acabavam de ser presos eram suspeitos demais para a especial missão de nossos invasores: porque sempre imaginei os inimigos como superiores a nós em físico e inteligência, portanto nunca poderiam ser aqueles miseráveis os culpados por uma rede sofisticada de espionagem.&lt;br /&gt;               Parecia tarde para convencer nossos habitantes do seu equívoco em prender os coitados: eles já estavam amarrados com uma corda única pelos braços e pés, encangados como se fossem animais em parelha, atrás uns dos outros; também rasparam suas cabeças descuidadamente (deixando à mostra alguns tufos de cabelo pregados nos crânios) e vinham percorrendo rua a rua, beco a beco de nossos povoados. Os mais exaltados à frente, fazendo discursos, e os outros seguiam atrás se revezando nos açoites com galhos de urtiga cansanção e nos cutucões com pontas de vara. Os forasteiros iam salpicados de sangue nas costas e braços, e os vergalhões das urtigas queimavam-lhes o pescoço e a barriga. A meninada se divertia correndo ao redor, gritando muito e vez por outra atirando pedras com estilingues, tudo isso em meio a uma grande alegria (eram os únicos que aparentavam não compreender a gravidade da situação e apenas se divertiam). Quase tinham percorrido todos os vilarejos, quando foram perceber que os prisioneiros não agüentariam por muito tempo; foi aí então que me aproveitei (visto que eu jamais convenceria meus companheiros da inocência dos mendigos) e lancei a idéia de os manter vivos, para que pudéssemos interrogá-los quando eles se recuperassem. Apesar de alguns terem sido contra, a maioria achou lúcida minha proposta e me delegou a tarefa de ir diariamente à cadeia investigar suas verdadeiras intenções em ultrapassar os nossos limites territoriais.&lt;br /&gt;               Por várias semanas estive a cuidar deles com presteza (as feridas já cicatrizavam, e aos poucos conseguiam se manter de pé). Nada falavam, pois o medo continuava estampado em seus olhos. Durante este tempo, organizei minuciosamente a fuga, de maneira que não levantasse a mínima suspeita sobre mim. Um belo dia (uma bela manhã, para bem dizer) fui acordado com o alarido nas ruas e, através dos gritos, fiquei sabendo que os prisioneiros haviam fugido.&lt;br /&gt;               Nunca conseguiram provar nada contra mim, e as únicas lembranças que trago daqueles dias são estas marcas no meu corpo... decorrência das muitas pedras que alguns ainda teimam em me atirar todas as vezes em que eu insisto em sair às ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Pedro Salgueiro nasceu no Ceará (Tamboril, 1964), tem editados os livros de contos O Peso do Morto, O Espantalho, Brincar Com Armas, Dos Valores Do Inimigo e Inimigos, o mais recente, além de Fortaleza Voadora, de crônicas. Premiado diversas vezes. Tem contos em antologias e revistas. Edita, com Jorge Pieiro, a revista Caos Portátil: Um Almanaque de Contos.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soares Feitosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Alcides Pinto, de coração pendido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Depois de longa volta, um belo dia, procurei meu velho companheiro de jornal, o César Coelho. Não foi fácil achar-lhe o endereço, que ele, também "sumido", ninguém sabia dele. A festa! A surpresa dele em me saber, assim de susto, metido com poesia, que poeta era ele, eu não. Fôramos, de jovens, companheiros de jornal, Gazeta de Notícias, Fortaleza, Ceará, 1961. Eu, 17, ainda de-menor; César, uns dois ou três a mais; Tarcísio Holanda, nosso chefe de reportagem, e amigo, já de cabelos poucos, menos de trinta. Morávamos, os três, ali para os lados do Colégio Militar, Ruas Dona Leopoldina e Costa Barros. Naquele ancestral costume de andar a pé, zarpávamos os três de lá até a Clarindo de Queiroz, o jornal, praça da Faculdade Direito, póco, póco, póco, e tome assunto! E, quando os deuses permitiam, de nossos bolsos magros, um pega-pinto, bem gelado, no calorão da Praça do Ferreira, no caminho. Leitor, amanhã, prometo-lhe, contarei a pé quantos quarteirões, andando, a pé, de lá e cá. Direi também se ainda tem pega-pinto, um refresco de uma raiz selvagem.&lt;br /&gt;               Sumíramos. Tarcísio Holanda mudou-se para Brasília. César continuou nas letras, aqui, jornais. Escapuli-me eu noutras paragens, Recife, Bahia, auditor de profissão, açougueiro também, cousas de pouco a ter com poesia. Ou, quem é que sabe?! — de muito a ter. Trinta e muitos anos, notícia nenhuma.&lt;br /&gt;               — César, sou eu!&lt;br /&gt;               — Feitosinha! — assim me tratava ele, embora triplo de pescoço e bucho imenso, este aqui, sob um diminutivo injusto. Até que... o meu amigo, inesperada a ceifeira, inesperado o telefonema do poeta Artur Eduardo Benevides, eu, lá na Bahia, a notícia, o engasgo de que ele, César...!&lt;br /&gt;               Pois se as letras não me garantirem prazer algum — digo-o apenas por dizer, que os prazeres têm-me sido intensos —, guardarei este: o reencontro com o meu velho amigo César Coelho. E mais este outro: conhecer, através do meu amigo, este novo amigo, José Alcides Pinto, poeta.&lt;br /&gt;               — Poeta César, onde é o poeta Alcides?&lt;br /&gt;               César falou-me de uma certa Vila Cordeiro, nº 8, muito admirado não conhecesse eu o outro, Alcides, o poeta. Arrastamos para lá.&lt;br /&gt;               Leitor, sabe você o que é ser bem recebido, à altura daquela palavra sertaneja e bíblica, chamada hospitalidade? Mais que festa! As coisas mínimas, mas o coração pendido, fendido. Um coração fêmeo, como fêmea há de ser a hospitalidade. Uma braçada de livros, os livros dele, deu-mos; e, ali mesmo, um a um, em cima da perna, a dedicatória, cada qual diferente da anterior. Para mais!&lt;br /&gt;               Leu um "papé", dos meus, que os levei, nem lembro quais, que nem vem ao caso, porque o falado aqui é o Alcides, não eu. Contudo, a lhe desdobrar a generosidade, Alcides pegou poema meu, leu bem rápido, juntou com os outros, chutou-os para cima, batendo-os na luz-lâmpada, pra lá e pra cá o abajur, apaga não apaga. Depois os catamos, papéis, poemas, o chão nos olhos à luz que não apagara. Ele pediu para reler. Fez questão de reler. Pediu-os para ficar. Eu disse que sim. E a despedida. De dentro de casa até do lado de fora. Do lado de fora, calçadinha da Vila Cordeiro, nº 8, até do outro lado da rua. Até o carro, o riso amplo. Até sumirem carro, pessoas, coisas.&lt;br /&gt;               Vivo dizendo-me pessoa de sorte. A estranha sorte de abrir livro entre livros. A fabulosa sorte de abrir página por entre páginas. O livro, dentre os muitos, João Pinto de Maria, Biografia de um Louco, de Alcides Pinto. A página, por entre páginas, Projeto Rural, um poema, também de Alcides. Li-os, no mesmo trom, assim que cheguei em casa. Liguei, ainda na mesma noite, para o César Coelho. Ele cobrou-me tão-só do proverbial «Eu não lhe disse?!». Sim, dissera-o, a caminho. Na ida e na volta. Repito-o agora, por ele, que já não diz mais; di-lo-ei eu enquanto for servido, Ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I – PROJETO RURAL&lt;br /&gt;               Tomo-me de absoluta ternura pelo poema de que me consigo chamar para dentro. Como se fosse o poeta, o ator, o autor, eu, sei lá quem, tal se aquelas coisas ditas pelo outro, eu as dissesse, que, quanto mais me for impossível dizê-las, mais bonitas me dizem. De pura inveja, talvez! Projeto Rural, poema de Alcides, é destes: leio-me, lendo-me nele, sem o talento porém.&lt;br /&gt;               Cuida o Projeto Rural de uma hipotética viagem do poeta Artur Eduardo Benevides à fazenda Equinócio, à época de propriedade do José Alcides Pinto. Sim, o poeta não há de viajar sozinho. Mas em que transporte? De trem, de ônibus, de automóvel? Segundo Alcides, tão amoroso empreendimento há de ser realizado em carruagem — cavalos, cocheiro, noite, pernoite, portinholas, seio arfante, harpias, Orfeu, cantos e canções da noite. Alcides adverte: Sob hipótese alguma poderá o cocheiro esquadrinhar o interior da viatura.&lt;br /&gt;               A amada do poeta, nem poderia ser diferente, de elegância plena. Há uma cena de embriaguez, não de álcoois, mas de amor, Ela. Descrever-lhe a beleza? Uma perda de tempo! Trata-se da amada; isto basta. Viajam.&lt;br /&gt;               Enquanto a viagem prossegue, mais nos céus que nas estradas do sertão seco e luminoso de Irauçuba, o proprietário rural (Alcides) aguarda os viajantes. Ele e seus criados enlouquecidos de velhice, Aprígio e Quitéria, ainda do tempo de Sinhá, morta há quase século, a falarem de novenas, quermesses, santas missões, trens e procissões. Como seria possível concluir, em ponto de partida e de chegada? De pura magia, é claro:&lt;br /&gt;               O que mais o preocupa é a data da chegada do amigo, pois está de todo esquecido. Mal acaba de pensar, vê a diligência entrar nos limites das terras da fazenda. A carruagem vem solta, sem comando, trazida apenas pelos animais. O cocheiro está morto ou está dormindo. E não há ninguém no interior do coche. As portinholas batem. O vento as atravessa como um gemido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Mas quem disse?! Serei eu louco para tentar contar como foi?! Cumpre-me aqui apenas o silêncio — selah! Porei minha mão sobre a boca, disse Jó (40, 4). Vá você, meu caro leitor: está o Projeto Rural intacto no seu Jornal de Poesia! O resto é de sua conta. Por seu favor, leia-o, diga-mo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II – João Pinto de Maria,&lt;br /&gt;Biografia de um Louco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               É um livro quase magro, pouco mais de cem páginas, se tanto, bom de abrir, melhor de ler. João Pinto de Maria, proprietário rural, o armazém de cera de carnaúba, a usina de algodão, a máquina a vapor, da fábrica, polmando fumaça, apitos, correias e transmissões, vide Ode Triunfal, de Fernando Pessoa. Inclusive o acidente (falta de rezas) com o braço do operário. Tudo superlativo. João Pinto é o progresso em pessoa, mas, ao mesmo tempo, a sovinice em grau absoluto. De louco, assim me parece, João Pinto não tinha nada. De tão sábio, isto sim, todos tinham-no por louco.&lt;br /&gt;               Não me atrevo a dizer que João Pinto fosse sovina. Andava maltrapilho apesar de rico? Qual é o problema? Vá ver, não gostava de vaidades, roupas, carros, grifes, França e Bahia. Ainda que maltrapilho e comendo pobremente seu feijão com toicinho, João Pinto de Maria, em suas fazendas os bodes apodreciam os chifres de tão velhos. Em vez de vendê-los e, argentário, entesoirar ouro e prata, preferia-os velhos, caducos, esquecidos das cabras e do aprisco. Assim os bois, assim os homens de João Pinto, assim as coisas de João Pinto, assim o próprio João Pinto... envelhecendo... imperturbável e calmamente.&lt;br /&gt;               Um destaque à cena de João Pinto ainda menino, a compra na feira de meio cento de laranjas, a partir dela, a construção de um interior inabalável. Alcides conta que João Pinto conseguira surrupiar seis laranjas enquanto o feirante virava-se em direção contrária. Em casa, ao contá-las, constatou que, em vez de 56 laranjas, continha o cesto apenas 50. Bom, fecho e desfecho, por favor, meu caro leitor, desta e de muitas outras, tenha-os você mesmo. João Pinto de Maria, Biografia de um Louco, em edição primorosa (Topbooks), faz parte da Trilogia da Maldição, nas melhores casas do ramo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III – José Alcides Pinto,&lt;br /&gt;a pessoa física,&lt;br /&gt;magro e alto  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Contaram-me as histórias de Alcides Pinto. Mais pelo prosaico, o anedótico, do que pelo criativo de sua poesia altíssima. A tal maldição, a maldita ênfase a uma suposta maldição, que nunca vi em Alcides. O poeta escreveu um livro de demônios? Sim, mas nada a ver com demônios! Pelo contrário, o demônio ali é só moldura, vide Jornal de Poesia, entrevista a três poetas goianos em que comento tema semelhante, o mal como ornato do bem, em Eça de Queiroz, em O Crime do Padre Amaro. Em Cantos de Lúcifer, Alcides Pinto dá uma surra que não tem tamanho no demônio: Pobre satanás! Pertenço ao reino de Cristo. Perdeste uma grande alma, apesar de toda a tua prudência. &lt;br /&gt;               Poeta maldito? Tenho, com todo respeito, que isto de ver maldição em Alcides é não estar à altura do escrito de Alcides Pinto. Pelo contrário, Alcides é místico, mítico, sertanejo. Em João Pinto de Maria perpassam nossas lendas (Ibéria, África e pré-Brasil) intactas. Também as pragas do clero, as temidas Santas Missões, contra os amancebados. Ah, poeta Alcides, uma mancebia...! Nada contra, por seu favor.&lt;br /&gt;               Dia destes, fui à casa do poeta. Jamaica, a filha, me disse: «Foi ao São Benedito». Perguntei quando voltava, imaginando a cidade de São Benedito, mais de cinqüenta léguas, na Serra Grande, fronteira com o Piauí. Ela disse: «Não! É aqui, na outra rua, a igreja de São Benedito». Alcides, maldito? Pois estava ele, de pleno fervor, na adoração perpétua do Santíssimo Sacramento que até poucos dias, 24 horas do dia, noite e dia, chuva e sol, todos os dias, naquela igreja. Era a farra dos assaltantes... os fiéis orando... Não resistais ao perverso. Fechou.&lt;br /&gt;               Há o lance de uma fase frade, o hábito marrom, de frei franciscano, do Canindé. Durante bem uns três anos, Alcides trajou-se de frade, cordão e alpercatas. Ninguém acreditou em devoção. Primo meu, poeta e também amigo dele, Juarez Leitão, conta histórias safadíssimas daquele monge, o Alcides. Mas isto é assunto para outra cerveja.&lt;br /&gt;               Contaram-me da demissão do poeta do cargo de professor universitário. Indaguei se por conta de alguma subversão. Não! Nada a ver. Melhor que fosse. Tal como o Cony, estaria milionário, agora. Pois o poeta, um belo dia, compareceu ao Senhor Chefe e disse:&lt;br /&gt;               — Pronto, chefe. Vim-me demitir. Vou criar bodes!&lt;br /&gt;               — Criar bodes?&lt;br /&gt;               — Sim, bodes! A poesia. Lá no sertão.&lt;br /&gt;               — Ah, bom. Assine aqui.&lt;br /&gt;               Assinou. Era de brincadeira. Um desvario. Os poetas têm o coração frouxo, ainda mais frouxa a separação do dia para a noite, da noite para o dia. Do contrário não seriam poetas. O chefe, chefe. Racional. Chefe! Assine aqui! Era amigo. Amigo?! De brincadeira.&lt;br /&gt;               Deveria ter recebido o papel assinado. Para dentro da gaveta. Hoje seria só relíquia, guardado. Mas é pesadelo. Mínimos. Demitido. E ausência. Mínguas. O olho da rua. Professor universitário. Concursado. Fiz, em 4.4.1996, poema engolido a seco. Rasguei. Guardei este pedaço (6.4.2005):&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ilmo. Sr. Diretor:&lt;br /&gt;José Alcides Pinto,&lt;br /&gt;vem requerer, &lt;br /&gt;no uso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(não estava no uso,&lt;br /&gt;claro que não!)&lt;br /&gt;e foi &lt;br /&gt;e foi-se,&lt;br /&gt;José Alcides Pinto pediu demissão&lt;br /&gt;da posição demarcada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terias sido preso&lt;br /&gt;e amarrado,&lt;br /&gt;longas tiras, tranças e bainhas;&lt;br /&gt;os amigos eram fracos,&lt;br /&gt;nem João te amarrava as sandálias, &lt;br /&gt;e uma cabeça foi vendida, Mateus,&lt;br /&gt;numa bandeja de lata,&lt;br /&gt;nas feiras ribeirinhas&lt;br /&gt;de um pobre rio seco,&lt;br /&gt;entre rolinhas e avoantes —&lt;br /&gt;as cangalhas vazias&lt;br /&gt;de suas carnes&lt;br /&gt;rubras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre soubeste, Alcides, &lt;br /&gt;viajar na mesma carruagem do poeta,&lt;br /&gt;que destinaste a Artur,&lt;br /&gt;para o vôo ao Equinócio,&lt;br /&gt;e uma pistola de prata,&lt;br /&gt;sob a lua das pedras de Irauçuba,&lt;br /&gt;onde as cascavéis cantam o cio da vida,&lt;br /&gt;por elas trafegas, &lt;br /&gt;por entre as cobras,&lt;br /&gt;tu,&lt;br /&gt;pássaro de fogo:&lt;br /&gt;— Seu Alcides, &lt;br /&gt;é maio,&lt;br /&gt;mês de rezas &lt;br /&gt;e de novenas,&lt;br /&gt;frei Álvaro talvez venha,&lt;br /&gt;vamos rezar! &lt;br /&gt;rezemos,&lt;br /&gt;caiamos sobre nossos chapéus de palha&lt;br /&gt;das canaubeiras daquela várzea amarela,&lt;br /&gt;João Pinto de Maria, biografia de um louco,&lt;br /&gt;e o rio, este rio de brasas;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;benzo-me de rezas, Alcides,&lt;br /&gt;confiteor,&lt;br /&gt;confitemus,&lt;br /&gt;que os abutres do desterro hão de ser&lt;br /&gt;pássaro e lírio&lt;br /&gt;no último dia&lt;br /&gt;do teu cargo expulso:&lt;br /&gt;             José Alcides Pinto,&lt;br /&gt;biografia de um santo.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diego Tardivo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SONETO AOS VELHOS AMORES DE UM CEGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles que outrora, vendo, amaste,&lt;br /&gt;Partiram sem deixar míngua de amor;&lt;br /&gt;Se doces tempos idos adoraste&lt;br /&gt;Lhe resta hoje a insônia, no estupor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos sonhos que acordado engendraste&lt;br /&gt;A fim de abonançar da alma a dor –&lt;br /&gt;Mas basta! Pois a quem tu te entregaste&lt;br /&gt;Inda vê e terá sempre seu esplendor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois de entre tantas lágrimas ecoa&lt;br /&gt;Um coro de fantasmas – que lhe doa&lt;br /&gt;O que eles conquistaram e tu perdeste!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdido apalparás a escuridão&lt;br /&gt;À busca dos que possam dar-te, ou não,&lt;br /&gt;A última carícia a que tendeste.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Carvalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnavalha: Novo Romance de Nilto Maciel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   De 1974 até agora, Nilto Maciel publicou dezenove livros de ficção e apenas um de poemas. O romance e o conto, conforme se pode observar, evidenciam as predileções do Autor, em seu longo itinerário de 33 anos nos domínios da literatura. Quem já leu seus livros de ficção terá notado, certamente, o cuidado do ficcionista na escolha dos nomes de seus personagens. Não seria nenhum despropósito pensar na elaboração de uma nomenclatura para todos esses figurantes que trafegam nas páginas de seus romances e histórias curtas. Zuza, Pedro Cabral, Eurico, Jesonias, Otávio, Noé, Alessandra, Cátia, Márcia, Aluísio, Orlando, Joice, Cida, Eleide, Cynthia, Ocelo e tantos e tantos outros que despertam a atenção do leitor para esse aspecto importante da carpintaria dos romances. Até os cachorros de Palma foram homenageados com apelidos que se destacam pelo seu ineditismo e originalidade: Alão, Brochote, Cafoto, Dentola etc.&lt;br /&gt;   O livro começa com a notícia da chegada de alguns rapazes e moças procedentes de Brasília. Eram funcionários públicos que vinham para as festas carnavalescas de Palma, cidade utópica criada pela imaginação de Nilto Maciel para o desenrolar dos acontecimentos do seu universo ficcional. Palma não deixa de evocar a legendária Macondo, palco das histórias fantásticas de Gabriel Garcia Márquez, em seu caudaloso romance Cem Anos de Solidão. Na página 15, o inusitado mostra o seu feitiço: “O galo cantou estridentemente. As galinhas correram, espantadas. Uma revoada de andorinhas encheu o céu dos quintais”. Só faltou acrescentar que ventos diluviais arrebataram crianças que sonhavam com os anjos enquanto dormiam.&lt;br /&gt;   A ficção de Nilto Maciel nos coloca no centro de uma realidade fantástica, que nos leva às portas do surreal. Uma atmosfera de sonhos e pesadelos permeia as narrativas do romance. Seus capítulos, predominantemente curtos, exploram os conteúdos, sob perspectivas oníricas, das temáticas desenvolvidas no livro. Numerosos personagens contribuem com depoimentos pessoais para o desfecho das narrativas. Mas essa contribuição, eivada de contradições enigmáticas, paradoxalmente só fazem aprofundar ainda mais os mistérios em torno dos acontecimentos. A cidade e seus habitantes passam a impressão de atores de um filme de mistério conduzido por um diretor voluntarioso, que parece se divertir com seu elenco de fantoches.&lt;br /&gt;   Na página 96, uma sucessão de fatos provoca calafrios no leitor. Um dos gatos que farejam pássaros numa árvore começa, de repente, a crescer aos olhos de Jacinta. Enquanto outros felinos fugiam daquela visão aterradora, o gato assumia as proporções de um tigre, “abria a boca e avançava lentamente, ameaçador”. Juarez, marido de Jacinta, tentou dar cabo do animal, mas “a fera estraçalhava Juarez”. Como se observa, a leitura dessa narrativa exige do leitor um mínimo de conhecimento acerca do simbolismo de que se revestem certos aspectos do cotidiano. Pode-se afirmar, sem risco de equívoco, que o simbolismo está presente em grande parte da expressão literária do todos os tempos. E até mesmo nos atos mais rotineiros da vida das pessoas, sem que elas se dêem conta desse fato.&lt;br /&gt;   Em “Rodopio de moedas” (p. 97), Nilto Maciel volta a usar das mesmas estratégias insólitas para despertar a imaginação do leitor. A conhecida frase de Shakespeare (“Há muita coisa entre o céu e a terra a que não chega a nossa vã filosofia”) nunca foi tão justificada como nas páginas desse romance do escritor cearense. Suas narrativas são vertentes de onde jorram mistérios e enigmas da raiz das palavras. Bastou que uma ave fincasse “as unhas no telhado da casa de Quincas” para que fatos estranhos à lógica do senso comum começassem a acontecer entre Juarez e sua mulher. Moedas e cédulas, sacudidas por ventos misteriosos, vindos não se sabe de onde, caíam da mesa e espalhavam-se pelo chão. Tentavam alcançá-las, mas não o conseguiam. Como se mãos invisíveis os impedissem de tocá-las. Algo parecido com as artimanhas do diabo. Na tentativa de recuperar as moedas e cédulas, “Quincas estatelava-se feito um jarro de porcelana”.&lt;br /&gt;   A narrativa da página 27 evoca certas estratégias de Kafka. Da troca de palavras entre Gilberto, Jesonias, Aluísio e Orlando, fica-se com a impressão de que os personagens viajam no porão de um navio que fosse para a Atlântida ou, talvez, para a eternidade. A mesma densidade impenetrável envolve os diálogos obscuros. Lá pelas tantas, Gilberto produz esta frase de significado ambíguo: “Estou com viagem marcada para lá, numa expedição de alto risco”. Aluísio vomitava. “De sua boca saíam pequenos sapos, ratos, baratas. Gilberto se apavorava e também ia ao solo” (128).&lt;br /&gt;   Carnavalha não é, seguramente, livro de estrutura linear. Precisa ser lido com o faro de quem procura fragmentos de ouro numa peneira de cascalho. Todas as narrativas exigem leituras plurais, precisam atingir a profundidade das camadas estilísticas onde se encontram os veios simbólicos. A realidade desses escritos de Nilto Maciel é de outra índole. São realidades submersas que não se acham à flor da pele nem tampouco na superfície das palavras. Palma é uma cidade utópica onde criaturas utópicas fingem ter os mesmos defeitos e virtudes das pessoas de carne e osso. Ao leitor cabe decifrar os códigos desta linguagem que nos fala de um mundo possível para os que já nasceram condenados à morte. Ou por imprudência ou por todos os males a que estamos sujeitos. A única expectativa que nos acena é a certeza de que “Não se pode morrer na metade do quinto ato” de alguma peça de Ibsen.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Francisco Carvalho, poeta e crítico literário.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JORGE PIEIRO*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buraco negro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“Por onde caminho, não há caminho”&lt;br /&gt;(Shoetsu Oe, que nunca existiu)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;            Ele chegou muito assustado e me disse novamente:&lt;br /&gt;            – O bicho, não se sabe o que era o bicho, o bicho era o olho apenas, o olho de serpente, serpente de repente, não ela surgida, mas apenas o olho, que do bicho que era o olho apenas surgia.&lt;br /&gt;             A parede amarela, moldura do bicho que era apenas o olho e o traço da inexistência do outro olho, vestia-se em nadas, silêncios e nadas. Ninguém via o que se via de bicho, apenas o olho. Ninguém via, e o que havia era quase o que existia.&lt;br /&gt;                                                  ***&lt;br /&gt;            O que eu sei, mas calei:&lt;br /&gt;            – Só existia o furo naquele instante. Meus olhos atravessando o poste, repetindo o milagre da retina, preenchendo-a. Era escuridão através daquele signo. Do outro lado, o que se pudesse imaginar. E eu imaginei.&lt;br /&gt;               Era o breu no copo do cosmo esperando para que eu o bebesse com olhos de stevie, de ray, de borges, de glaucomattoso. Só chamei aquilo de tensão, porque entrei no labirinto. Aquela cicuta negra me invalidaria, incendiaria as entranhas. Deixei-me sugar pelo buraco negro. Não fui mais nada.&lt;br /&gt;                                                  * * *&lt;br /&gt;               Há pouco, descobri que a vida não me quis.                                                   &lt;br /&gt;cogito, sum&lt;br /&gt;               Eu ainda não tinha vértebras para poder sentar, firme. Naquele canto da casa, por isso, sempre imaginei, minha mãe do lado, me indagando: – Por que esperas vértebras? Não és humano!? E quem disse que só humanos precisam de vértebras? Sabes para que servem as vértebras? – eu diria como resposta.&lt;br /&gt;               Não fui expulso de casa. Mas não poderia morrer ali para sempre. Foi que duvidei se realmente seria filho daquela mãe. Sempre pensei que havia algo estranho em nossa relação, mesmo reconhecendo a importância da parte que fui ou imaginei.&lt;br /&gt;               Ontem, no entanto, pus um braço entre a coxa e o queixo e não pude mais me mexer. Vi, então, e que primeira vez! – não era de vértebras o que eu precisava! – o homem com um cinzel. Ele gritava: Fala! Fala! E minha mãe, ao lado, uma pedra de granito, apenas olhava para mim, como se trouxesse uns olhos petrificados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; *Jorge Pieiro nasceu em Limoeiro do Norte, Ceará, em 1961. É mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará. Publicou Ofícios de desdita (1987); Fragmentos de Panaplo (1989); O tange/dor (1991); Galeria de murmúrios ( 1995); Neverness (1996); Caos portátil (1999); Os sonhos de Josafá (2006) e Bolha de Osso (2007). Tem contos nas coletâneas Almanaque de Contos Cearenses (1997), Geração 90 – Manuscritos de computador (2001), Geração 90 – os transgressores (2003) e Os cem menores contos brasileiros do século (2005). Co-edita – juntamente com Pedro Salgueiro – a revista Caos Portátil – um almanaque de contos.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas Athanázio*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A AÇÃO DE FARQUHAR EM SANTA CATARINA&lt;br /&gt;                                                                 &lt;br /&gt;               Caminho longo e tortuoso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Embora publicado em 1964 nos Estados Unidos, depois de mais de quatro décadas de marchas e contramarchas, saiu no Brasil, em tradução de Eliana Nogueira do Vale, o livro “Farquhar, o último titã”, de autoria do historiador e brasilianista avant la lettre norte-americano Charles Anderson Gauld (1911/1977). Trata-se, segundo a crítica, da mais longa e minuciosa biografia do empreendedor norte-americano, nascido em York, Percival Farquhar (1864/1953), cuja vida está estreitamente ligada ao Brasil em geral e ao nosso Estado em particular, onde sua ação teve sérias conseqüências, até hoje sentidas em algumas regiões. O volume tem mais de 500 páginas, custou ao autor ingentes esforços e se fundamenta em bibliografia imensa, como costuma acontecer com ensaios biográficos americanos que esmiúçam o tema até o limite. Para chegar às mãos dos leitores brasileiros o livro percorreu longo e tortuoso caminho, merecedor de explicações minuciosas da editora e da tradutora. Publicado pela Editora de Cultura (S. Paulo – 2006), o livro contém interessantes fotografias e vários anexos que o atualizam e trazem novas informações sobre fatos posteriores, além de colocar um ponto final em algumas dúvidas existentes. Ainda que o autor não veja com simpatia nosso País, antes pelo contrário, é incrível que um livro dessa importância para nossa história só agora seja acessível ao pesquisador nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Visão e coragem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Percival Farquhar foi um empreendedor de acurada visão futura e invulgar coragem. Depois de realizações em Cuba e na Guatemala, voltou-se para a América do Sul e o Brasil, ponto de partida para o império que sonhou edificar, conhecido como Sindicato Farquhar. Seus negócios incluíam portos, como os de Belém e de Rio Grande, exploração de minérios e madeira, frigoríficos, gado, colonização, terras, energia elétrica, carvão e outros, avultando seu interesse pelas ferrovias, planejando implantar uma rede transcontinental de trilhos que cobririam o Brasil, o Paraguai, a Bolívia, o Uruguai, a Argentina e o Chile. Sem dúvida, um empreendimento para mais de uma vida, ainda que ele tivesse vivido até os 89 anos. Encarado por muitos brasileiros como um aventureiro, Farquhar encontrou renhidos adversários, em especial entre os nacionalistas, como Monteiro Lobato, que o denunciou em carta ao então presidente Getúlio Vargas. É curioso notar que mais tarde o criador do Sítio do Picapau Amarelo deu início a uma biografia de Farquhar, com o consentimento deste, projeto que não se concretizou em virtude da proibição da censura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Trilhos e serrarias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Entre as realizações de Farquhar no ramo dos transportes, avultam a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a lendária “ferrovia do diabo”, ligando Porto Velho a Guajará-Mirim (RO), visando desviar as violentas corredeiras daquele rio e ligando por terra a Bolívia ao Atlântico. A outra foi a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, interligando todo o sul do Brasil e cortando o Vale do Rio do Peixe, entre Porto União, em Santa Catarina, e Marcelino Ramos (RS). Sobre o rio Iguaçu, em Porto União, foi construída uma ponte com 427m de extensão, a maior do País, na época, ainda hoje existente. Também construiu o ramal de São Francisco do Sul e adquiriu a Estrada de Ferro Teresa Cristina, ambas em nosso território. Com o término do trecho Porto União-Marcelino, deu início à serragem de madeiras (araucárias e madeiras de lei) na serraria construída em Calmon através da afiliada “Southern Brazil Lumber &amp;amp; Colonization Corporation”, de sua propriedade. A derrubada das matas, inclusive das erveiras (erva-mate), e a expulsão dos posseiros contribuíram para fomentar a violenta Guerra do Contestado (1912/1916), fatos que são reconhecidos pelo biógrafo. Não parece, porém, que Farquhar tenha dado maior importância a esses acontecimentos e tudo indica que jamais esteve em Calmon, embora se referisse “à minha Lumber.” Existe aí, parece-me, pequeno engano do autor ao dizer que Calmon era a antiga São Roque, quando, na verdade, esta localidade fica mais ao norte e Calmon se chamava antes Osman Medeiros. O empreendedor investiu grandes capitais sacados em bancos europeus, americanos e canadenses, razão pela qual – acredito – seu sindicato era às vezes designado como “polvo canadense.” Era a “dança dos milhões da Brazil Railway, que faziam de Farquhar a figura econômica mais poderosa do Brasil” – afirma o autor. Tanto a serraria como a estação de Calmon seriam queimadas mais tarde pelos revoltosos. Em território catarinense o empreendedor criou várias colônias, à margem da ferrovia, entre elas Legru, Rio das Antas e Nova Galícia. Esta última chegou a receber a visita do ex-presidente Theodore Roosevelt, em 1913. A grande serraria do grupo, no entanto, estava em Três Barras, com instalações modernas e maquinário poderoso que dela fizeram a maior indústria do gênero em toda a América do Sul.&lt;br /&gt;A Lumber foi fundada em 1908/1909, com base no Decreto 7426, de 3 de junho deste ano, mais tarde alterado. No ano seguinte se concluiria a primeira serraria, em Calmon, e os trilhos da ferrovia chegariam ao rio Uruguai, divisa com o Rio Grande do Sul, em cuja margem oposta fica Marcelino Ramos. Neste ano Miguel Calmon du Pin e Almeida, que deu nome à estação, já havia deixado o Ministério da Viação, de forma que por ocasião da conclusão da estrada não era mais ministro de Afonso Pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               O grande desafio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Farquhar considerava a construção do trecho catarinense da ferrovia um grande desafio. Em direção ao porto de São Francisco havia a Serra do Mar a vencer. O Vale do Rio do Peixe, por sua vez, é irregular, com serras íngremes, exigindo técnicas especiais de construção, uma vez que seriam usadas locomotivas leves. Suas inúmeras curvas, túneis e obras de arte levaram alguns críticos a considerar a ferrovia inviável desde a inauguração, demorando e encarecendo o transporte das mercadorias. Por outro lado, o fato de usar lenha como combustível contribuiu para o rápido desmatamento nativo da região. Mas, para compensar, o clima da região era de boa qualidade, as terras férteis e quase desabitadas. O empreendedor, porém, não contava com a decidida oposição dos posseiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Os entraves&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               O autor do livro, às vezes afinado com o biografado, não poupa o País. O atraso, a politicalha, a corrupção, a burocracia, o preconceito contra os negros e os estrangeiros – tudo encarecia sobremaneira qualquer realização. Exasperava-se ao verificar que os imigrantes se amoldavam aos usos locais, absorvendo os hábitos que considerava maus, “acaboclando-se.” Mas ele vislumbrava para Santa Catarina e o Paraná um futuro brilhante na federação, ainda que a corrupção também funcionasse em Florianópolis e Curitiba. “Custou caro aos cofres da Brazil Railway subornar tantos brasileiros para que agissem em benefício do Brasil” – escreveu Olivo Gomes, entusiasta das iniciativas do norte-americano. Nem mesmo Miguel Calmon e Paulo de Frontin ficaram isentos das suspeitas de suborno. “Mas os amigos de Farquhar sentiram que os dois políticos (acima referidos) estavam mais interessados em propina do que em beneficiar o Brasil” – afirmou Gauld. Segundo ele, o austero presidente Afonso Pena sofreu um trauma moral que o levou à morte precoce, aos 60 anos, quando descobriu o lodaçal que havia no Ministério da Viação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                O império ruiu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               O império de Percival Farquhar ruiu. Depois de serrarem milhões de árvores, suas serrarias, afiliadas e sucessoras desapareceram sem deixar vestígio e a riqueza produzida escoou pelos vãos dos dedos para outras regiões. Entregue ao descaso e à corrupção, o trecho da ferrovia entre Porto União e Marcelino Ramos acabou desativado e hoje se transformou em sucata. A região ficou empobrecida e jamais se refez por completo. Os ramais remanescentes funcionam em condições precárias, mal conservados e carecendo de investimentos urgentes para que não tenham idêntico destino. Em suma: nada ou bem pouco restou dos “milhões de Farquhar” em terras catarinenses.             &lt;br /&gt;               São algumas observações a respeito de um livro às vezes amargo mas que precisa ser conhecido pelos catarinenses em geral. Querendo ou não, Percival Farquhar é personagem de nossa história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Enéas Athanázio, contista, crítico, biógrafo com extensa bibliografia, é um dos escritores mais publicados e conhecidos de Santa Catarina. Reside em Balneário Camboriú. No gênero conto tem editados O Peão Negro (1973), O Azul da Montanha (1976), Meu Chão (1980), Tapete Verde (1983), Erva-mãe (1986), Tempo Frio (1988), O Aparecido de Ituy (1991), Rosilho Velho (1994), A Gripe de Barreira (1999), O Cavalo Inveja e a Mula Manca (2001) e muitos outros, além de novelas, ensaios, artigos, biografias. Um dos fundadores de Literatura – Revista do Escritor Brasileiro, na qual tem colaborado assiduamente.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BATISTA DE LIMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Gerôncio escapou da morte. Ficou vítima da vida. Não morreu. Chegou aos cem anos e foi festejado pela idade. Todos lhe prestaram honras. Mas depois a morte não veio e as pessoas não gostaram muito disso, nem o próprio Gerôncio. É tanto que ele se recolheu como um eremita num socavão de serra para esperar a morte na placidez da velhice. Mas a morte não veio.&lt;br /&gt;               Pensou em suicidar-se, mas a religião que ganhara se seus pais dizia que só Deus que dá, pode tirar a vida, ninguém mais. E ali estava ele abandonado por Deus. Como seria feliz se tivesse morrido mais aos vinte e cinco anos. Mas não, perdera a quantia dos anos e como castigo estava ali, verdadeira sucata que até o tempo corrosivo acabara por esquecer. Não tinha mais com quem conversar, todos morreram. Até seus netos se foram. Seus bisnetos estavam velhinhos e não o reconheciam mais como gente e sim como um dejeto do diabo, uma excrescência divina. Naquele pé de serra, os pássaros eram outros. Rolinhas, canários, azulões, todos desapareceram. Agora só havia pardais nas árvores, num barulho infernal, e em vez de urubus, carcarás e gaviões, os céus estavam cheios de aviões, verdadeiros demônios ensurdecedores sobre sua cabeça e perturbadores do seu sono naquele fim de mundo. Mas fim para ele, era coisa que não existia. Era um esquecido de Deus. Se ia pescar no açude, não havia mais traíras, nem piaus, nem corrós, tudo era tilápia, o diabo de um peixe feio que não era de seu tempo.&lt;br /&gt;               Se ia tirar mel para saciar sua fome, não havia mais jati, mandassaia, jandaíra, cupira, capuxu, cafimfim, tudo era abelha italiana, com seus ferrões dourados.&lt;br /&gt;               Era um mundo novo e ele ali, velho, ficando para semente. Mas o que mais doía era não ter com quem conversar. As pessoas não falavam mais. Apenas ouviam rádios, televisões, aparelhos de nomes estrangeiros. E ele só, resto imortal, pronto para morrer e a morte se escondendo dele de forma tão absurda.&lt;br /&gt;               Até as jararacas e os cascavéis corriam com medo dele quando deveriam picá-lo para ver a queda. Isso era sofrimento demais. Ter que aturar a vida todas as manhãs. Levantar-se e sentir-se um esquecido da natureza, um postergado do cão, uma peça de museu para Deus e seus anjos. De tanto durar, resolveu arranjar novos amigos ali mesmo entre as pedras, as árvores mais velhas e uma ponta de serra escravada. Descobriu que podia conversar com aqueles entes mudos e repartir com eles a sua angústia.&lt;br /&gt;               Foi conversando com esses seus companheiros que constatou serem todos marcados pelo sofrimento. Todos esquecidos e condenados em sobreviver, todos com dramas iguais aos seus. Aí Gerôncio foi muito feliz. De tanto ouvir histórias e principalmente de contar histórias foi emagrecendo até não precisar mais comer e ficar se alimentando só das histórias que contava e das que ouvia. Tanto emagreceu que ficou transparente, que ficou só sua voz impressa nas pedras e suas histórias soltas pelo mundo a fora.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aíla Sampaio*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Leste da Morte: veredas diversas e apurado trabalho de linguagem&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;               Quando se fala na ficção cearense contemporânea, o nome de Nilto Maciel desponta como um dos mais prodigiosos. Não à toa. Sua estréia, em 1974, com Itinerário (livro de contos) já marcou a chegada de um escritor maduro no cenário literário, cujas fronteiras alargaram-se com sua mudança para Brasília. Mesmo longe da terra natal, ele se manteve ligado às raízes, embora sua produção nada tenha de regionalista. Sua visão de mundo é sempre universal. Inquieto, ele exercitou outros gêneros, como o romance, a novela, a poesia e o ensaio, confirmando seu domínio das palavras, nas obras que se seguiram: Tempos de mula preta (contos, 1981), A guerra da donzela (novela, 1982), Punhalzinho cravado de ódio (contos, 1986), Estaca zero (romance, 1987), Os guerreiros de Monte-Mor (romance, 1988), O cabra que virou bode (romance, 1991), As insolentes patas do cão (contos, 1991), Os varões de Palma (romance, 1974), Navegador (poemas, 1996), Babel (contos, 1997), A rosa gótica (romance, 1997), Vasto abismo (novelas, 1998), Pescoço de girafa na poeira (contos, 1999), A última noite de Helena (romance, 2003), Os Luzeiros do mundo (romance, 2005), Panorama do conto cearense (ensaio, 2005) e A leste da morte (contos, 2006). Senhor das técnicas das narrativas curta ou longa, em todas as obras ele mostrou fôlego e talento, e afirmou-se como um dos mais produtivos ficcionistas brasileiros da nossa época.&lt;br /&gt;               A leste da morte (Porto Alegre: ed. Bestiário), sua última publicação, é um livro volumoso, composto por 47 contos. Às vezes leves, às vezes mais densas, suas histórias percorrem um universo temático bastante amplo. Seu processo criador, visivelmente consciente, foge do experimentalismo, mas não se enreda na tradição. As frases curtas e o discurso sutilmente fragmentado são visíveis em praticamente todos os contos, especialmente em “O livro infinito”, conto com vários blocos narrativos intercalados, nos quais um mesmo narrador, em discurso indireto, mostra o pensamento dos três personagens que formam o triângulo amoroso: dois escritores e uma moça apaixonada por livros. Eles vivem uma história sem fim, entre livros, visitas a livrarias e inúmeras indagações sobre os sentimentos e atitudes do outro.&lt;br /&gt;               Também a forma como tempo e espaço se delineiam em alguns enredos não é tradicional. Em “Trem fantasma”, por exemplo, os planos temporais e espaciais são bem escamoteados e o leitor que, no princípio, vê o maquinista tentando deter o trem, descobre o homem/menino só brincando... aparentemente tão simples, mas tão bem construído que o leitor se enreda na brincadeira. A confusão temporal e espacial também se dá em “Paisagem celeste”, cujo protagonista, um homem cansado da rotina adversa, foge para a serra e acorda em seu quarto. A realidade ficcional se funde à atmosfera onírica (pesada) que se revela no final.&lt;br /&gt;               O mundo alucinatório do homem contemporâneo se delineia em vários momentos. “A fila”, narrativa que ironiza o excesso de filas para todos os serviços procurados, traz à cena o atordoamento ante o tumulto que se forma quando para todos os lados que o personagem se volta encontra a impossibilidade de resolver o que pretende, inclusive de dialogar com as pessoas (que parecem estar concorrendo com ele). Em “Sombra não identificada”, o protagonista, perturbado com a avalanche de más notícias dadas pela TV, escuta o anúncio de sua própria morte. Já no enredo de “Restos de feijoada”, a morte do folião é a impossibilidade de aceitação dos limites: ele prefere morrer brincando na festa de carnaval a padecer doente entre os lençóis. A ironia está no vômito final: o expurgo do inaceitável é escatologicamente metaforizado na (indigesta) feijoada. E assim vão desfilando situações comuns, casos sobretudo urbanos (Fortaleza, Brasília, Palmas... o mundo) em que se sobressaem injustiça, pressa em arranjar culpados (“A Leste da morte”, “O último troiano”), malandragem (“O descanso do criador”, “Mundoca e Mundico”), crianças perdidas dentro de sua própria casa, sem a atenção dos pais (“O invisível Isaías”), loucura ("Aníbal e os livros”),  falta de memória do povo para reverenciar ‘heróis’ do passado (“Maneco, futebol e cerveja”), opressão (“Mancha na parede”), enfim, um universo de problemas banais transplantados do mundo real.&lt;br /&gt;               Há uma ironia velada na voz de cada narrador; em “Livre-Arbítrio”, ao associar-se a punição de um assassino aos ensinamentos bíblicos, são os preceitos religiosos o alvo de alfinetadas. A religião volta a ser ‘moral da história’ em “Caça e caçador”, na mesma perspectiva de questionamento quanto aos valores pregados. Em “Mancha na parede”, a decisão da reclusão no mosteiro simboliza opressão e sofrimento; em “Caim e Abel”, os pólos se invertem: o bom vira assassino e o mal transforma-se em vítima, como a representar a inversão de valores que hoje se presencia.&lt;br /&gt;               O discurso literário muitas vezes cede espaço ao relato jornalístico, imprimindo ao texto um estilo-reportagem, a exemplo de “Maneco, futebol e cerveja”: (morreu ontem Maneco, ou Manuel dos Santos Pereira. Há anos fora dos gramados e da mídia, desde a fratura de uma perna) e “Para que esses olhos arregalados?”, conto que intertextualiza, de passagem, o clássico Chapeuzinho Vermelho e tem um final inesperado, como, aliás, a maioria dos que compõem a coletânea.&lt;br /&gt;               Já “O perdão” e “Águas de Badu” investem nos diálogos com textos consagrados na literatura brasileira. O primeiro retoma “Os anões” do Moreira Campos, redimindo a pequena Lourdinha do trauma do assédio nojento dos assaltantes que invadem o armazém em que ela mora com seu parceiro. A influência de Campos é assumida neste enredo e se mostra no estilo hiper-realista de “Os urubus e Deus”, narrativa cruel, que lembra os relatos naturalistas do romance A fome, de Rodolfo Teófilo. É também moreiriano o início de “Águas de Badu” – “Moscas voejavam ao redor do cadáver” – recriação da história de “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa. O narrador, um cronista grato pelas histórias sertanejas que Badu lhe passava, conta a saga do velho vaqueiro de Sagarana, após deixar Minas até chegar ao Ceará com as lembranças da travessia do rio, quando ele, bêbado, foi salvo pelo burrinho. Entre as reminiscências do passado mineiro de Badu e sua morte, dormindo em casa, dá-se o velório e, no final, vê-se o carinho do cachorro Chué que, na imaginação de um menino, lambe o cadáver, em despedida, metamorfoseado no burrinho herói do conto épico de Rosa.&lt;br /&gt;               Há a mão do ensaísta em “Lilith segundo Paspa Tordre” e “Para escrever A caminho do nada”. A literatura está toda no processo criador; Nilto cria, acho que até sem perceber, personagens que são leitores, escritores, amantes dos livros, da poesia, como a velha Bartira (“Hora de despertar”), paralítica que sobrevive, ouvindo poemas de Anacreonte, Bilac, Camões, Francisco Carvalho e Florbela Espanca. Morre sozinha quando as leituras param e seu filho, ainda na farra, esquece-a aos cuidados de um ‘gravador’.&lt;br /&gt;               O gênero Fantástico se configura em “O menino e o lobo”, “A música”, “Sombra não identificada” e “O sétimo aniversário de Branca de Neve”. Nos três primeiros, o fantástico parece naturalizado, sem a inserção do mal; no último, a atmosfera é mais pesada e o que poderia ser simplesmente uma história do Maravilhoso degenera-se na inexplicabilidade do evento final: a brincadeira do teatro vira ‘verdade’ e a bruxa se corporifica, arrancando medo de crianças e adultos, à meia-noite.&lt;br /&gt;               O Surrealismo se faz presente em “Os dez dias de Raimundo”, cujo personagem, um homem criado em laboratório, tem seu ciclo de vida iniciado e concluído em apenas dez dias; na mesma linha está “Palmas e tochas”, história em que o pianista é, estranhamente, aos olhos de um expectador, um Lobo. Nada de automatismo na linguagem, apenas os motivos das narrativas transpõem a lógica natural, sem, entretanto, encenarem mistérios inexplicáveis.&lt;br /&gt;               Assim, fundindo observação, memória e imaginação, vários enredos dão ao leitor a ilusão de verdade; em “Apontamentos para um ensaio” e “Meu filho Matias Beck”, especialmente, ouve-se a voz do autor nos relatos, e chega-se a crer que são reais. O equilíbrio está no talento de Nilto Maciel para amalgamar realidade e ficção. Munido de vasta bagagem de leituras e domínio das técnicas de construção do texto literário, ele percorre veredas diversas e, com seu apurado trabalho de linguagem, dá unidade ao que é diverso, puxa o leitor por caminhos inusitados e consegue, sem exauri-lo no longo percurso que se impõe da primeira à última página, prendê-lo espontaneamente ao universo de seres alucinados e fatigados de sua aventura existencial. Sem falseamento da realidade, mas sem exatamente copiá-la, ele fala, na maioria das vezes ironicamente, das feridas abertas de todos os seres extraviados que, de alguma forma, encontraram-se, encontram-se ou encontrar-se-ão a leste da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Aíla Sampaio, professora de Português e Literatura da Unifor e da SEDUC. Poeta, contista e ensaísta com dois livros de poemas: Desesperadamente Nua e Amálgama.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nelson Hoffmann&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;R A N C O R&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Cego e&lt;br /&gt;surdo&lt;br /&gt;corrói&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surdo e&lt;br /&gt;mudo&lt;br /&gt;remói&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudo e&lt;br /&gt;cego&lt;br /&gt;destrói&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vida&lt;br /&gt;por dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EPITÁFIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveu&lt;br /&gt;só&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreu&lt;br /&gt;só&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virou&lt;br /&gt;pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sonhou&lt;br /&gt;E acreditou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Nelson Hoffmann nasceu em Roque Gonzales, RS, onde reside. Publicou A Bofetada (romance), O Homem e o Bar (romance), Onde Está Maria? (romance), Quando a Bola Faz a História (crônica histórica) e Eu Vivo Só Ternuras (novela), Este Mundo é Pequeno (crônicas), Terra de Nheçu (crônicas-ensaios) e Uma Outra Face do Poeta (crônicas). E-mail: nelson.hoffmann@yahoo.com.br&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Herculano Moraes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTOLOGIA - POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR*&lt;br /&gt;                                                                                         &lt;br /&gt;               Ouçam o que disse, em 1978, a professora de Literatura Brasileira Rejane Machado, no texto a que deu o título “Para entender Francisco”:&lt;br /&gt;               “Pedra em Sobressalto é um salto sobre a pedra. Alguns dos seus belíssimos poemas nos semelham modernos cromos, apesar de sua forma contida, lixada, das imagens depuradas”.&lt;br /&gt;               “O que nos transmite em seus versos é a realidade ambiental, particular, subjetiva. Os sentimentos do poeta gravitam em seu redor, emprestando-lhe seiva; e dela surgem e saltam lembranças que transcendem o objeto inerte e bruto”.&lt;br /&gt;               Mais ou menos na mesma época o romancista O.G. Rego de Carvalho expôs a seguinte opinião:&lt;br /&gt;               “Francisco Miguel de Moura cresceu na minha admiração e hoje o posso citar como um dos maiores poetas do Piauí, ao lado de Da Costa e Silva e H. Dobal.”&lt;br /&gt;               Pedra em Sobressalto, na segura análise de Hardi Filho, projeta Chico Miguel para além de nossas fronteiras.&lt;br /&gt;               Homem simples, é estreitamente ligado à sua terra e ao seu povo e por isto mantendo com este uma identidade fundamental na construção de sua rica poesia.&lt;br /&gt;               Água, pedra, areia, terra e ternura são alguns elementos que compõem o universo poético de Francisco Miguel de Moura.&lt;br /&gt;               Dos três principais nomes do Circulo Literário Piauiense – CLIP, que comemora 40 anos de sua existência, Francisco Miguel de Moura sempre esteve no centro das vertentes poéticas geradas por nós.&lt;br /&gt;               Hardi Filho sempre foi o poeta amoroso, sentimental, ardente. De poesia ao mesmo tempo espiritual e temporal, buscando respostas para as indagações que lhe incomodam e tendo a mulher, a sua mulher, Adélia, como motivo de suas mais ingênuas confissões. Nítidas influências de Cruz e Sousa e Celso Pinheiro, mas íntegro e livre na lavratura do verso.&lt;br /&gt;               Minha poesia atravessou alguns estágios. Era, no princípio, arrebatamento, revolta contra as injustiças sociais, a paixão pela terra, o amor pelas mulheres, raízes telúricas expondo as feridas do tempo. Na essência da criação poética, os sonhos de Castro Alves e Vinícius de Moraes guiavam meus passos.&lt;br /&gt;               Francisco Miguel de Moura, desde Areias, já revelava essa dimensão singular. Poesia enxuta, sem artifícios, modelada como se fosse um artesão talhando a pedra. Escoimada dos excessos encontrados na poesia adolescente que escrevemos há quatro décadas.&lt;br /&gt;               O crítico literário Campomizzi Filho, em artigo ilustrativo na “Folha de Ubá” – Minas Gerais, identificou a crença e o amor como elementos substanciais na poesia de Francisco Miguel – “O caminho da redenção do poeta”.&lt;br /&gt;               Esta Antologia, cujo lançamento faz parte das comemorações dos 40 anos do CLIP, revela a grandeza de um poeta que consegue construir sua obra tendo, como obstáculo, o isolamento de um Estado invisível aos olhos do mundo, cujas autoridades não conseguem romper os preconceitos claros e injustificados contra a arte, a cultura, a história do nosso povo.&lt;br /&gt;               De tudo o que produzimos pouco ou nada chega ao conhecimento da sociedade brasileira. Aqui mesmo entre nós o esforço de poucos que se concentram em demonstrar a grandeza de nossas manifestações não recebe o necessário apoio.&lt;br /&gt;               Esta casa (a Academia) tem promovido excelentes eventos – desde posses magníficas, com orações memoráveis, a lançamentos literários de porte, sem que a imprensa e a TV dêem qualquer importância.    &lt;br /&gt;               Mas existem os que não se conformam e mantêm com intelectuais e editoras do país o necessário diálogo. Francisco Miguel de Moura tem conquistado bons espaços na imprensa de Portugal e de países latinos, em jornais e revistas de circulação nacional, colocando-se entre os autores piauienses mais conhecidos nacionalmente.&lt;br /&gt;               Esta coletânea é “uma antologia sem arestas, ampla em seu universo de alumbramentos, é o que é no justo espaço em que se concretiza como palavra-arte, aquela que se faz necessária sem ceder ao receituário das facilidades mercantis do verso ruim, que em má hora propaga-se como peste, ceifando os derradeiros ecos de beleza.” Quem diz isto é R. Leontino Filho, cuja análise mergulha na essência da palavra vinculando o criador ao elemento de sua criação.&lt;br /&gt;               Na pg. 13 da Antologia, um passeio na epígrafe de tantos quantos leram e compreenderam a sua poesia: Henriqueta Lisboa, Lygia Fagundes Telles, Fábio Lucas, Stella Leonardos, Fernando Py, Homero Silveira, João Felício dos Santos, Leila Míccolis, Joanyr de Oliveira, Nelly Novaes Coelho, Nilto Maciel, Dalila Teles Veras, Antônio Carlos Vilaça, Rosa Kapila, Assis Brasil e outros mais, críticos inumeráveis, jornalistas, simples leitores, todos encantados com a poesia de Chico Miguel.       &lt;br /&gt;                                                  ***      &lt;br /&gt;               Somos três a abrir as cortinas da história cultural do Piauí quatro décadas atrás. Logo depois éramos quatro, com a chegada de Tarciso Prado; e logo mais cinco com Osvaldo Lemos, seis, dez, centenas. Muitos se engajaram nesse sonho. Tantos outros caminharam conosco nesta jornada nebulosa, enfrentando os riscos de um regime autoritário, a censura... O fantasma do comunismo na cabeça dos generais, o arbítrio, a perseguição, a tortura moral, a violência contra as idéias, a proibição do direito de dizer e pensar.&lt;br /&gt;               Mas fomos pensando e formos dizendo, às vezes no silêncio dos quartos iluminados a lamparinas; às vezes nos debates clandestinos no quintal de nossas casas, onde líamos o que havíamos produzido.&lt;br /&gt;               Depois levamos para as salas de aula, inúmeras vezes expulsos pelos diretores de escolas que não queriam problemas com a “redentora”. Logo depois estávamos promovendo a literatura nas emissoras de rádio, nos auditórios e nos livros. A Polícia Federal proibiu a circulação de Meus Poemas Teus, mas a vingança veio através do Hardi Filho, que criou um pseudônimo denominado Pipinela. O sobrenome era uma metáfora. Era preciso fazer pipi sobre o regime. Mas os militares não conseguiram decifrar este enigma.&lt;br /&gt;               Somos uma família. Sempre fomos uma enorme família. Une-nos o ideal de construir. Tragédias pessoais, acontecimentos infaustos, desvios, nada disto interfere em nossos sonhos, pois somos uma família que se alegra com as vitórias de cada um. Não nos move a inveja, nem o ressentimento, nem a tristeza. Se eu pudesse dizer que tipo de sentimento resume a existência do CLIP, diria que todo esse complexo desprendimento tem a alma de uma mulher de nome Adélia, que conhece as entranhas deste movimento.&lt;br /&gt;               Se fosse possível demonstrar numa só pessoa as explosões de indignação, de descontentamento contra a censura, de revolta contra as injustiças, de força contra o arbítrio, instrumento desse enorme complexo de vivências do CLIP, diria que esses sentimentos estão vivos na figura emblemática de Tarciso Prado.&lt;br /&gt;               Esta Antologia contém os poemas que o Autor mais gosta.  Aqueles que marcam e definem suas doutrinas, que espelham sua alma, projetam seus sonhos, que renovam suas células, que demarcam limites, que vicejam esperanças. São poemas reveladores do seu caráter de poeta afeito aos temas universais, mas sem perder a raiz de suas nascentes, a primeira água de sua correnteza, ele que é rio, mar, terra, sargaços e infinito, anjo e demônio, prosador e poeta, cronista, romancista, articulista, biógrafo, semente espiritual da arte literária.&lt;br /&gt;______________________________&lt;br /&gt;*Discurso de Herculano Moraes, membro da Academia Piauiense de Letras, apresentando o poeta Chico Miguel, no lançamento da Antologia com que comemora seus 40 anos de fazer literário (Auditório da APL, em 12.05.2007).&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Jair Humberto Rosa*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A mulher invisível&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela entrou no consultório foi logo dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Doutor, eu sou invisível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico não a tinha sequer cumprimentado, e era seu costume cumprimentar todos os seus pacientes, apertando a mão e convidando para sentarem—se. Era um homem educado, apesar de ser um médico bem sucedido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assustou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu não disse que sou invisível?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda perplexo, ele não respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Viu? Ninguém me vê. Nem o senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico acalmou-se. Não parecia estar correndo perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não é verdade; eu estou a vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela colocou as duas mãos no rosto, abaixou a cabeça, e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Continuo vendo a senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não acredito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Porque ninguém me vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ninguém me vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas eu a estou vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Fala isso só para me agradar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico ficou pensativo. Em mais de vinte anos de consultório, jamais tivera um caso parecido: uma senhora de sessenta anos brincando de ser criança. Já tivera inúmeros casos tanto de adultos quanto de crianças, com características e quadros os mais diversos possíveis, casos de surto mesmo, mas nada que se parecesse com uma mulher madura fingindo ser criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher repetiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ninguém me vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Por que as pessoas não vêem a senhora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Porque eu sou invisível&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não é verdade. A senhora está muito visível, aqui na minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Como eu sou, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico passou a descrevê-la detalhadamente, falando dos cabelos, do nariz, da boca, do batom, da blusa, cuidando—se para não fazer nenhuma observação negativa. Ele sabia que as pessoas não gostam de ouvir nada que não seja agradável, mesmo que perguntem e exijam sinceridade. Sinceridade é dizer que está tudo bem, mesmo que seja mentira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo estava bonito. Era um médico educado e experiente, e a cliente estava pagando, sem convênio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Então só o senhor me vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— As pessoas de sua família não a vêem? Seu marido, seus filhos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não. Todos chegam em casa, passam por mim sem me ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É sempre assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sempre. Todos entram, não importa que eu esteja na sala, no sofá, em pé, no piano. Não importa onde eu esteja ou o que esteja fazendo, ninguém me vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não conversam com a senhora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Se eu sou invisível...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ah, havia me esquecido. Se não a vêem, não podem falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pois é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas foi sempre assim? Quer dizer, a senhora sempre foi invisível&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não. Eu fiquei invisível depois que comecei a envelhecer. Antes todo mundo me via, conversava comigo, abraçava, beijava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E foi de uma vez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não. De uns tempos para cá, talvez uns quatro ou cinco anos, aos poucos eu fui ficando assim. Meu marido foi deixando de me ver, não falava mais comigo, não percebia que eu estava na casa. Aos poucos também meus filhos, foram me ignorando; hoje eles nem vão mais à minha casa. Não me viam mesmo, para que irem lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O experiente profissional começou a entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por ser um homem de princípios, sugeriu à senhora que aconselhasse o marido a comparecer ao consultório, porque o problema era com ele. Depois, poderia chamar também os filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher ficou contente, até porque ele disse que ela era mulher bonita, era uma pena que o marido estivesse com problemas de vista.&lt;br /&gt;Saiu animada do consultório, despediu-se da recepcionista, que respondeu sorridente, e levava na cabeça a sugestão do médico: o marido haveria de comparecer para uma consulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico ficou sozinho na sala por alguns minutos, pensativo, sem chamar o próximo paciente. Esforçou-se para lembrar da fisionomia de sua esposa, tantos anos suas companheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez um enorme esforço, apelou para recursos que sempre utilizava para se recordar de nomes, de números, mas não obteve sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que se esforçasse, não conseguiu se lembrar; parece que não a via há muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Jair Humberto Rosa, mineiro de Ituiutaba, reside em São Caetano do Sul e trabalha em São Paulo. Professor universitário, bancário, escritor com sete livros publicados, mestre em Psicologia Educacional.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antonia Torreão Herrera*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A poética de José Inácio Vieira de Melo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               A Infância do Centauro é o quarto livro de poesias de José Inácio Vieira de Melo que constrói seu lugar na lírica de língua portuguesa. José Inácio é um poeta que oferece ao público os momentos poéticos nas diversas fragmentações do eu lírico e nas imagens do mundo construídas no poema. Numa dicção própria, vem se afirmando mais uma voz lírica da contemporaneidade. Na lírica moderna aparentemente não há modelo a seguir, o que leva a se buscar referenciais nas poéticas consagradas para situar o novo poeta ou para avançar na realização artística. Todavia, há pontos de convergências que marcam as conquistas e as estratégias da lírica no mundo moderno, desde Baudelaire, que funcionam como diretrizes para a liberdade criadora da poesia. O que à primeira vista aparece como facilidade não se dá, contudo, como fácil, pois que, para se conseguir um ritmo próprio, no meio das dissonâncias e versos livres já tão explorados, o poeta tem que apurar o ouvido e caçar as palavras, pois há sempre um outro ouvido a perceber o eco de um ou de outro poeta. E é natural que assim seja. Não procuro, portanto, outras vozes, mas o timbre em que eu possa identificar a poética de José Inácio Vieira de Melo.&lt;br /&gt;               Percorrendo seus poemas, em seus livros éditos, até esses de A Infância do Centauro, recém-editado, posso ler a trajetória dos registros de um eu lírico que se produz nas escolhas lingüísticas, nas construções de imagens, nos motivos recorrentes, no modo como se apropria dos temas de sempre da lírica: o homem, a terra, a natureza, o outro, a vida e a morte.&lt;br /&gt;               O poeta lírico é aquele que canta – e digo canta porque esse lugar comum da fala é muito significativo de como as palavras soam dentro do poeta – canta um tempo, um espaço ou a convergência dessas duas dimensões: o momento, seja pessoal ou não, vivido ou imaginado, inventado, despertado por uma leitura, por uma contemplação, por uma dor ou por uma alegria, enfim pela sua interlocução com a vida, no modo como ele a sente. É também lugar comum falar do sentimento poético, do modo de ver, sentir, perceber esses momentos.&lt;br /&gt;               O halo poético está nas coisas, no mundo, nos momentos ou são acrescidos a eles pela forma poética construída que permite ao leitor perceber aquilo que, sem esse intermédio, não era visível? A poesia está nas coisas e o poeta a traduz em imagens poéticas, está na percepção do poeta que percebe o dado comum como extraordinário e lhe confere poeticidade, ao transformá-lo em signos artísticos, ou está no leitor que lê na fatura artística, mediante conexões e percepções de sentidos, a poesia das imagens? E ainda, quando se diz momento poético, é o momento vivido no ato, no fato ou o vivido no processo, no ato de criar?&lt;br /&gt;               O leitor entra no reino poético mediante a leitura de poemas que fazem vibrar em seu corpo o momento poético apreendido. O poeta vive no universo da poesia ou nele penetra no ato de construção?&lt;br /&gt;               O que faz José Inácio em sua poesia, o que constitui sua poética e como ele vive sua poesia? Primeiramente, o que já foi dito. Sua poesia está umbilicalmente ligada ao povoado de seu nascimento: Olho d’Água do Pai Mané. Seu universo poético torna presente as algarobeiras, os mandacarus, o vaqueiro, o gado, o cavalo, os elementos telúricos de sua vivência, do homem e sua terra, o campo, a tradição popular. Depois a necessidade intrínseca do indivíduo José Inácio de fazer poesia para se situar no mundo, para dar sentido à sua vida. O filão existencial, a angústia do homem urbano, sem fé, sem finalidade, arranhando as palavras em busca de si: “Vivo a buscar o signo que me presentifique, / que, uma vez enunciado, seja por si. / Estou exausto de ser uma representação” (Encruzilhada). Nesse entrecruzamento, tentarei delinear os dois filões subterrâneos que alimentam suas construções poéticas e dão o tom de sua dicção: o da materialidade sensual, carnal e da transcendência mística, numa confluência de valores que não se conflituam, mas que se unem harmoniosamente em imagens. Exemplo dessa convergência é: “Tem um bicho dentro de mim que quer / pular para fora de tudo e ser aurora”. (Encruzilhada)&lt;br /&gt;               Assim, poesia para José Inácio é como o ar que ele respira. Seu olhar é um olhar interessado. Do que se vive, pode-se recortar a poesia. Trata-se também de um homem de livros, sempre pronto a ler, ouvir e dizer os versos do outro. É um ser empenhado nos trânsitos da lírica, em sua veiculação. O poeta põe sua poesia em marcha e torna viável o seu circuito. Do campo para a cidade, da cidade para o campo: os dois pólos de seu poetar.&lt;br /&gt;               Poesia é feita com palavras e nos situamos no mundo por intermédio dessa simbolização ímpar que nos constitui como ser humano: a linguagem, nossa ponte com o fora, com o real, com a natureza. As palavras, todavia, arrastam com ela uma história, uma cultura, configurações e condicionamentos, falam em nós mais do que as falamos. A utopia poética é nos apoderarmos das palavras para representar os momentos e consagrá-los em formas que os perenize. E é no paradoxo de torná-los impessoais que o poeta os faz tão intensamente sentidos nas imagens que os evocam.&lt;br /&gt;               Duas palavras retiradas da poesia de José Inácio podem ser suficientes para definir o que articulei acima. Estou focalizando o livro A infância do Centauro, no entanto elas já percorrem os livros anteriores. A primeira é centauro e as imagens decorrentes dessa palavra-símbolo e a segunda escarlate, adjetivo que se torna substantivo, no sentido de substancial quando cria em torno dela uma esfera reverberativa de significações relacionadas à primeira. Os fragmentos do mundo são organizados liricamente em torno das reverberações dessas duas palavras. O centauro escarlate remete de imediato para o sujeito lírico que simboliza com essa imagem seu estatuto poético. De imagem-símbolo ela passa a objeto emblemático, que circunscreve a natureza do eu lírico que se delineia ao longo da produção poética de José Inácio. Há todavia seu contraponto que se manifesta nas inflexões contemplativas e transcendentais. O sujeito lírico representado pelo centauro escarlate canta euforicamente a vida e suas manifestações de modo laudatório, num ritmo de descoberta dos mistérios das coisas nas palavras e vice versa das palavras nas coisas. É o movimento poético de recuperar a corporalidade da linguagem, criando palavra para um objeto inexistente.&lt;br /&gt;               O centauro como emblemático do sujeito poético reúne os traços míticos, clássico, anacrônico, que estabelece liame entre o sujeito biográfico proveniente do sertão de Alagoas com o sujeito construído pelo leitor-escritor que se institui como poeta e como tal com referências mitológicas, literárias, citadinas. A identificação com o cavalo, suporte de uma caracterização local, forte elemento temático da poesia de José Inácio, dá concretude espacial e temporal ao universo poético construído pelo poeta e remete para as origens que dão consistência à sua experiência de vida, seus recortes, suas vivências, sua infância. Esse eu poético será, pois, atravessado por imagens de cavalos e éguas, vacas e pastos, os seres moventes que caracterizam o espaço-tempo de sua infância, de seu presente. A simbiose que faz com o ser mítico do poeta e com o ser humano que nele se incorpora dinamiza a palavra-imagem centauro para um espaço-tempo atual, resgatando-o da referencialidade apenas literária, mitológica, aprisionada a uma cultura clássica e ao reino da fantasia. Humanizando o centauro na metade homem que lhe cabe como correlato do poeta e tornando viável sua metade cavalo, pondo-o em contato com cavalos e éguas de uma referencialidade concreta, conquanto que poética, mas sempre delineada numa zona de experiência vivida, o centauro ganha uma dimensão particular, pessoal e dá feição singularizada ao poeta.&lt;br /&gt;               O título do poema que abre o livro, Centauro Escarlate, define, pois, de imediato um perfil desse sujeito poético que quer “galopar, galopar, galopar”. Diz, mediante a metáfora do centauro do ser incerto do poeta: humano, de instinto animal, metafísico, mítico, homem desejante e criança fantasiosa. Escarlate remete à sinonímia vermelho que por associação sugere fogo, presente na palavra ígneo e conseqüentemente no nome Inácio. O sujeito biográfico se reescreve no sujeito poético, fazendo convergirem nessas duas palavras os motivos recorrentes de sua poética. A idéia de estrela vinculada à constelação austral, cuja estrela mais brilhante é Alfa do Centauro, consolida a imagem emblemática do sujeito poético na figura do centauro. Do mais concreto ao mais abstrato, do físico ao metafísico, o sujeito lírico percorre, ao longo de seus poemas, a zona das sensações, do erotismo, dos desejos de um ser inquieto por viver com o ímpeto e o vigor de um cavalo, arrefecido pelo verniz literário que o transforma em centauro, cavalo humanizado, domado, a refrear seus ímpetos e sensualidade e a viagem pelo espaço-tempo do universo, da existência, na imaginação presente na infância e mantida no homem pela mágica da poesia. Assim como esta expresso no poema Oração de um grávido do livro Decifração de Abismos: “Que o meu filho / quando olhar para uma / estrela / não veja apenas uma / estrela”.&lt;br /&gt;               O centauro que equivale a cavalo e a montaria que o conduz em suas buscas e em seu ato de decifrar o mundo faz parte também do enigma que é o próprio poeta, responde por sua materialidade e transcendência: “E quando for noite alta / e os acordes de uma aquarela / luzirem dentro de teu espírito, / deixa o centauro que habita em ti / galopar, galopar, galopar / e transcender a ti e as tuas explicações.” (Centauro Escarlate). A imagem da estrela está sugerida nos verbos luzir e transcender e no substantivo noite. O centauro que habita equivale à imagem do verso: “dos cavalos que trago dentro de mim.” do poema dedicado a uma égua que morreu, Epitáfio para Guinevere, migrado do livro Decifração de Abismos. No poema que dá nome ao livro: A infância do Centauro, o poeta se auto-define, definindo assim a sua poética: “Sou um centauro escarlate / e galopar na infância / é a minha metafísica.”, reunindo nessa estrofe os motivos de seu fazer poético: infância relacionada à retorno às origens e a valores ancestrais arraigados no campo, nos códigos do sertão com signos materiais da lide dos homem com a terra e os animais, e centauro, como já visto, liame para os dois, contendo em si o imaginário infantil e a força erótica, no sentido de força vital do homem-cavalo.&lt;br /&gt;               O poema Harém representa uma formatação mais significativa das imagens que identificam esse sujeito lírico às forças provenientes do lado animal do centauro: “Vinde, minhas éguas, vosso faraó vos espera! / Puxem meu carro de fogo pelos céus dos êxtases, / harmonizem vossas forças e me conduzam, / em galope soberano, pelos reinos dos encantos.  Vinde, minhas éguas, luzindo na imensidão! / No ritmo de vossas ancas é que se inaugura / a saga do meu império e os nomes do meu nome: / Cavaleiro de Fogo, Centauro Escarlate.” Atente-se para a mistura de elementos sensuais, carnais, e espirituais, transcendentes, tais como harém, éguas, meu carro de fogo, galope, ancas com céus dos êxtases, reinos dos encantos, luzindo. O poema finaliza atribuindo os nomes que definem o sujeito poético, nomes-títulos de poemas, sujeito assim configurado também como ser de palavras. Em Ladrona de cavalo surge a mesma temática dos desejos remetidos para a esfera do animal, associado, a desejo sensual e à perda do objeto de desejo. Em Cavaleiro de Fogo, poema trazido de A Terceira Romaria, as imagens do eu lírico são construídas em torno do elemento fogo, semanticamente presente em: escarlate, filho do sol, verbo incandescente, fogueira encarnada, rubi no coração, labaredas do sertão, ígneo, Inácio, motivando as metáforas disseminadas em seus poemas. A idéia de boneco de barro que remete à Origem, “cozido nas labaredas do sertão” contrapõe a materialidade à espiritualidade, no contraponto: “recebo o batismo da estrela rainha”. Ao final do poema, ‘um pássaro de prata, / prenhe de encantos e de signos,” vem saudar o auto-nomeado; “cavaleiro, corcel e dragão.” Esse o ser mitológico, múltiplo que recolhe signos para encontrar sua identidade. No poema Encruzilhada, há um verso significativo dentro dessa esfera semântica: “Ah se eu fosse o sol não arderia tanto!”&lt;br /&gt;               É interessante notar em Cavaleiro de Fogo e em outros poemas de José Inácio Vieira de Melo que há sempre um elemento arrefecedor que freia os impulsos instintivos desse sujeito cavalo-fogo-dragão-macho, freio simbolizado aqui pela água, pelo pássaro prateado, uma cor fria, e pela estrela. À ação de cavalgar, levado pelo vento, justapõe-se à contemplação das estrelas. Não há em sua poesia um elemento transgressor ou uma revolta da criatura contra o criador. Trata-se de uma poesia solar, não disfórica que ganha dimensão de consagração e conclama à vida, à força da vida. O poema Marcação delineia, pois, a esfera desse sujeito que se insere de modo relativamente harmonioso no universo, tocado, certamente pela angústia de dizer ante a insuficiência da linguagem e o sentimento do mundo: “Um matuto sem eira nem beira, / labutando com palavras, / vaquejando boiadas de signos / por caatingas labirínticas / numa peleja sem fim.  Invoca o gado invisível / numa toada aflita, / e grafa com pena e tinta / aquilo que a poesia marca, / a ferro e fogo, em sua alma.”. A linguagem do poema organiza os elementos sonoros, rítmicos e imagéticos circunscrevendo a figura do poeta e do seu fazer poético.&lt;br /&gt;               Um outro motivo primacial associado à esfera semântica da infância são os poemas dedicados aos filhos, de onde emerge a figura do pai, amoroso, e que louva a vida que viceja em seus descendentes e os conduz ao reino da poesia, da imaginação. Pai que sustenta, com responsabilidade, os valores de sentimento paterno e filial oriundos do sertão de Alagoas. Nessa perspectiva, a poesia de José Inácio é uma poesia de resgate desse universo vivenciado na infância e consagrado na lírica.&lt;br /&gt;               O poeta vive, pois, duplamente a poesia: vivencia no seu modo de sentir e perceber a vida e na sua lide com as palavras, no ato de fazer, no qual inventa, falseia, aproxima coisas e momentos díspares para, num esforço de artista, obter o efeito que nos encanta. O efeito, o artefato, a fatura artística é produto do trabalho e da inspiração, das palavras que cada um tem como seu tesouro pessoal, lidas, ouvidas, e que estabeleceram consigo próprio um liame, uma ressonância e que o definem, o constituem: como homem, no território do falante ou do escrevente, do ser poético no território da poesia, da escrita. E com elas um ritmo, um tom, um som, a presença afetiva do eu lírico.  No conjunto de poemas de A infância do Centauro há uma busca incessante de si, de se reconhecer como enigma, de se estabelecer como poeta e fundamentalmente de construir seu imaginário poético, ligando o céu e a terra, o lá e o cá, o sertão e a cidade, a infância e a idade adulta nos signos poéticos, ao modo como está dito, simplesmente, em Cerca de pedra, presente nesse novo livro, todavia poema do livro A Terceira Romaria: “Aqui, na Cerca de Pedra, / nesta noite caatingueira, / estou em silêncio, ouvindo / o silêncio das estrelas.”&lt;br /&gt;               Quero concluir este breve ensaio, retomando o aspecto solar da poesia de José Inácio, citando um excelente poema-homenagem que sendo um epitáfio traz, todavia, a cor da vida, a cor local do sertão, a vitalidade e o movimento do seu duplo, o vaqueiro: “Os vaqueiros de todos os tempos / te recebem e te consagram / do outro lado do Grande Sertão.  Os vaqueiros de todos os ventos, / montados no Relâmpago e no Trovão, / marcam tua saga no couro do Tempo.  E a chuva também quer falar de ti / e abóia teu nome nas telhas da noite / e inscreve tua alegria na paisagem.” (Epitáfio para um vaqueiro).&lt;br /&gt;               A interlocução com o Grande Sertão: veredas de João Guimarães Rosa abre uma clareira no poema que expande os signos na vastidão do sertão. A imagem couro do tempo é de um achado primoroso porque consegue realizar o princípio mesmo da linguagem do poema em seu arranjo lírico, poético, operando a superposição da seleção na combinação, nas duas vertentes estruturantes da língua, a similaridade e a contigüidade, conforme já nos ensinou Jakobson. Trata-se do discurso alógico e inventivo da poesia que aponta para uma lógica própria na dimensão paradoxal das imagens. O tempo, no qual se registra a saga do vaqueiro, ganha na horizontalidade sintática um elemento de natureza similar ao cotidiano do vaqueiro, couro, que confere intimidade e teto, materialidade, a um elemento abstrato e absoluto perante a contingencialidade humana, o tempo.&lt;br /&gt;               O poeta, ele mesmo, é primeiro que tudo um leitor, um bom leitor, que pode ler a poesia que está nos poemas ou fora deles e dar forma à sua leitura. Esse dar forma significa também nomear o momento, o sentimento, o observado, recorrendo à esfera do imagético, à riqueza inusitada das metáforas, aparentemente desorganizando a estrutura da língua para reorganizá-la em uma estrutura mais coesa, que comunique o mais que se lhe oferece poeticamente. Desse modo, o poema é um suplemento que se oferece ao real ao representá-lo e também um suplemento de nomeação que se oferta à língua. Ambos um acréscimo, um mais que dignifica a busca do homem na decifração dos signos da vida, da linguagem, do mundo e de si. A infância do Centauro é, pois, um mais que se acresce à nossa lírica, nos possibilitando ler os signos do sertão e do ser poético que nele se constrói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Os livros anteriores de José Inácio Vieira de Melo são: Códigos do Silêncio (2000), Decifração de Abismos (2002) e A terceira Romaria (2005)).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Antonia Torreão Herrera é Professora de Teoria da Literatura, Criação Literária e Literatura Dramática do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clauder Arcanjo*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Herança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos rios, herdei a fímbria das vazantes.&lt;br /&gt;Areias límpidas de ódio, ribeirão tacanho,&lt;br /&gt;em cheias indefinidas, porém tenebrosas.&lt;br /&gt;Das caatingas, herdei a memória esquelética,&lt;br /&gt;o cantar penoso, e sincopado, de algumas aves,&lt;br /&gt;o ressurgir por detrás do manto da aurora,&lt;br /&gt;um pouco de espinho na sombra de outrora.&lt;br /&gt;Dos casarões antigos, herdei o telhado alto,&lt;br /&gt;colchão de vento fresco entre os braços miúdos,&lt;br /&gt;retratos do ontem nas paredes brancas e mudas,&lt;br /&gt;miríade de sombras, remexido de fantasmas.&lt;br /&gt;Das gavetas, herdei o rangido nas palavras sobrepostas,&lt;br /&gt;a tentativa de manchar de perfume o bolor dos guardados,&lt;br /&gt;a mania de prender o tempo nas antigas fotografias,&lt;br /&gt;o sabonete de lembranças nos pijamas de despojos.&lt;br /&gt;Da vida, herdei a morte, presente e infalível morte.&lt;br /&gt;Limpa e solar certeza de quem só não sabemos a hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de defesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansado de atirar-me nos braços da folga,&lt;br /&gt;ouso rir da dentadura postiça da minha calma.&lt;br /&gt;Ultrajado pelos falsos profetas, futuro impuro,&lt;br /&gt;entabulo fábulas falando de becos e fossos escuros.&lt;br /&gt;Hoje cansei de ser otimista.&lt;br /&gt;O mundo soa-me atabalhoado.&lt;br /&gt;E a minha crendice e fé inesgotáveis&lt;br /&gt;parecem alimentar o monstro dos guetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de defesa.&lt;br /&gt;O que me atrai é a raiva&lt;br /&gt;dos malditos,&lt;br /&gt;dos loucos,&lt;br /&gt;dos ingratos,&lt;br /&gt;dos tortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de defesa.&lt;br /&gt;Quero em mim a pulsação&lt;br /&gt;dos homicidas,&lt;br /&gt;dos trogloditas,&lt;br /&gt;dos camicases,&lt;br /&gt;dos hereges.&lt;br /&gt;A paz do meu mundo&lt;br /&gt;recende a naftalina&lt;br /&gt;vencida pela omissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Macaé-RJ, 28/7/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Clauder Arcanjo, nascido em Santana do Acaraú-CE, 1963, é cronista semanal, resenhista literário e colaborador de sites, revistas e jornais de várias partes do País. A reunião de contos, intitulada Licânia, marca a sua estréia em livro em 2007. &lt;a href="mailto:clauder@pedagogiadagestao.com.br" target="_blank"&gt;clauder@pedagogiadagestao.com.br&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Astrid Cabral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnavalha, algumas impressões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Por sua complexidade estética, o último livro publicado de Nilto Maciel requereria um alentado estudo. Restrinjo-me, entretanto, às impressões de uma rápida primeira leitura. Quem conhece outros livros do autor não se surpreende pelo alto grau de consciência literária que orienta esta nova produção ficcional.&lt;br /&gt;    Em Carnavalha, o projeto literário logo se impõe. Ninguém se iluda com as frases curtas e desataviadas, o ritmo apressado. Assim como os arquitetos trabalham seus edifícios de tijolo e argamassa obedecendo à planta baixa inicial, os criadores de mundos verbais estruturam suas narrativas buscando equilíbrio e harmonia a partir de planos definidos de antemão. Afinal, ficcionistas da categoria de NM não se comportam com o descompromisso ingênuo dos contadores de história embalados pelo simples desenrolar anedótico. Escritores operam se pautando sempre pela construção de um sistema integrado e coeso, a palavra a serviço de um conjunto racionalmente previsto.&lt;br /&gt;   O tema do carnaval, tão caro e freqüente em nossa literatura, é desenvolvido neste romance a partir de uma seqüência de painéis, que guardam entre si obsessivo parentesco. A festa do carnaval na pequena cidade Palma vai avançando das tradicionais manifestações lúdicas do Brasil popular para uma carnavalização delirante, culminando com o desenlace de falso assassinato numa delegacia de polícia, a tragicômica morte e ressurreição do bêbado Zuza.&lt;br /&gt;   Os múltiplos e breves segmentos componentes do romance mantêm relativa autonomia e representam etapas mais reiterativas que progressivas. Isso imbrica na abolição do tempo narrativo direcionado para um fim, porque o que aí se enfatiza é a duração de um momento especial, o enredo feito à base de modificações bastante sutis. Embora a narrativa seja intensamente dinâmica, seu processo se repete de modo uniforme, sem encadeamento evidente de causa/efeito. Para isso também contribui o quase absoluto espaço público da ação. Note-se que tudo decorre praticamente na rua ou em praças, natural exigência do tema. Os personagens, que permanecem em casa debruçam-se às janelas ou trazem cadeiras para as calçadas, atraídos pelo eletro magnetismo do evento a céu aberto. (Disso se excluem as duas partes centrais do livro, as batalhas que se passam em outros locais e a série elaborada na perspectiva da visão da coruja/estrige, em que ocorre a substituição do espaço exterior pelo interior doméstico, ambos se sobressaindo de modo mais nítido a partir do contraste.)&lt;br /&gt;   Observa-se que no desenvolvimento do romance, o autor, arrebatado pela contemporânea hegemonia do visual, faz parcimonioso e conciso uso das palavras. Assim é que nos apresenta uma perspectiva cinematográfica, relatando ocorrências de caráter inteiramente exterior: aquelas que olhos captam, ou que ouvidos testemunham através de diálogos e monólogos. Os personagens surgem, portanto, privados da dimensão introspectiva fornecida pelos pensamentos, e são totalmente arrastados pela euforia carnavalesca, que não deixa disponibilidade à contemplação ou reflexão, tamanha a orgia dos sentidos convocados.&lt;br /&gt;   O não aprofundamento dos personagens os torna, em conseqüência, esquemáticos.  E uma vez que estamos diante de uma infinidade deles, o enfoque do autor concentra-se no coletivo. Pode-se dizer que não existe hierarquia entre eles, e a habitual distinção entre protagonistas, antagonistas e secundários resulta praticamente imperceptível. Com mão de mestre, NM apresenta-nos um painel social bem desenhado, em que se pode inclusive detectar o conflito estabelecido pelos habitantes locais e o grupo de turistas vindo de Brasília, comunidades timbradas por seus diferentes centros urbanos.&lt;br /&gt;   A manipulação dos personagens em Carnavalha traz-me à lembrança outro importante romance brasileiro focalizando o carnaval. Refiro-me à Cidade calabouço, do mineiro Rui Mourão. Há nesse item alguns pontos de semelhança entre eles, pois a grande festa popular contribui para o sufoco das individualidades, dissolvidas que são na presença compacta da massa.&lt;br /&gt;    A meu ver, a grande jogada de Nilto Maciel é a introdução dos animais na categoria personagens. Palma, local geográfico da ação, por se constituir num mundo urbano ainda rústico, propicia, em viés realista, a presença e o convívio desses seres da natureza. Estes, porém, comparecem embrulhados pela magia das lendas populares e emblematizam com vigor o lado instintivo e primário do carnaval. A presença dos animais frisa o limiar entre o natural e o urbano e tal ambigüidade impulsiona o fluxo das fantasias pessoais do autor. Vejam-se as sete admiráveis batalhas travadas (com Boi da Cara Preta, Megalinha Choca, Cães Danados, Gato Borralheiro, Cabrão Pretinho, Pangaré Branco e Barrão das Lajes)&lt;br /&gt;   É deveras apreciável o intenso intercâmbio promovido pelo escritor entre o plausível e o implausível, o racional e o irracional. Nas partes centrais do livro (quarta e quinta), que poderiam até ser interpretadas como um parêntese de carnavalização na trama fundamental do carnaval propriamente dito, é onde  mais se adensam as incríveis ousadias da imaginação emancipada do realismo. Beirando o non-sense, dá-se uma espécie de dança delirante nos fatos aí narrados. (Ressalta-se no meio destes a impressionante questão dos dentes). É como se o leitor tivesse nas mãos um caleidoscópio de cenas originais, eróticas e hilariantes. Cada uma delas introduzida pelo olhar da coruja, a sábia ave noturna, cuja função é revelar o que jaz obscuro e escondido em nossa absurda humanidade.&lt;br /&gt;   Antes de finalizar, comento de relance a intencional mestiçagem lingüística à que NM procede na fatura de Carnavalha, em total consangüinidade com o tema escolhido. Se o autor adota de preferência o registro coloquial com vocábulos e expressões populares, lugares-comuns, gírias etc., valorizando a presença do povão personagem, nem por isso abre mão da cultura de elite que lhe pertence como criador urbano. O livro é rico de rastros literários, não só os explícitos nas numerosas epígrafes, mas os que surgem camuflados testemunhando a forte presença bíblica, bem como as heranças cervantina e kafkiana.&lt;br /&gt;   Carnavalha é obra que condensa tanto realidade social quanto fantasia pessoal, assim expressando Carnapalma e carnavalma, significativos neologismos do autor. &lt;br /&gt;          10/11/07&lt;br /&gt;**********************************************************  &lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;Wilson Gorj*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PISTA&lt;br /&gt;               Pisou fundo no acelerador. Queria deixar tudo para trás: a cidade, a casa, o quarto, a cama, o corpo, o pu – ah, o punhal!!&lt;br /&gt;               Como pudera esquecê-lo?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;CALHAMBAQUE&lt;br /&gt;               O carro era vermelho e as curvas, de Santos. &lt;br /&gt;               “Por favor, pare agora!”, gritou a jovem guarda, tentando alertá-lo para a cratera na pista.&lt;br /&gt;               O motorista não escutou.&lt;br /&gt;               Dentro do carro, a canção do Roberto tocava mais alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FÍGARO!&lt;br /&gt;               Ignorava que a amante era casada com um barbeiro.&lt;br /&gt;               Por ironia do destino, um dia foi barbear-se, justamente, no salão do marido traído.&lt;br /&gt;               O destino não é só irônico. Às vezes, é também cruel.&lt;br /&gt;               A par de tudo, o barbeiro lavou a honra com sua melhor navalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LANÇADO&lt;br /&gt;               Ninguém foi ao lançamento do seu primeiro livro.&lt;br /&gt;               Tamanha frustração o levou a um gesto de loucura. Do alto da passarela, lançou ao vento os mil exemplares publicados.&lt;br /&gt;               Num relampejo de consciência, ainda pode ver o último livro tombar próximo ao seu – também lançado! – corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EM BUSCA DO AMOR PERDIDO&lt;br /&gt;               Construiu uma Máquina do Tempo. Contudo, nem lhe passou pela cabeça conhecer Jesus ou ficar milionário com a loteria. Seu propósito era bem simples. Queria apenas regressar trinta anos no tempo e lá, no passado, entrar no seu quarto de adolescente e deixar no bolso do seu jeans o seguinte recado: Hoje à noite, ela vai sugerir namoro.  Não seja burro.  Aceite!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JESUS NA TERRA DOS HIPÓCRITAS&lt;br /&gt;               Cercado pela multidão, sentenciou: “Quem não tiver pecado que atire a primeira...”&lt;br /&gt;               E a segunda. A terceira, a quarta. Dezenas, centenas de pedras caíram sobre ele.&lt;br /&gt;               Uma vez dissera que a fé movia montanhas.&lt;br /&gt;               Que removesse, então, aquela que o cobria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Autor do livro de micronarrativas Sem Contos Longos - 100 histórias breves, entre micros e minicontos. Saiba mais sobre o livro e o autor acessando o blog -http://omuroeoutraspgs.blogspot.com/&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manoel Hygino*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mistério no oceano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               Desde tempos imemoriais, o homem inventa coisas e descobre novidades, muitas vezes novidades antiquíssimas. Pergaminhos em regiões desérticas da África ou do Oriente Próximo acontecem com muito maior freqüência do que imaginado.&lt;br /&gt;               Os achados interpretados por Champolion são preciosos. Mas há muito mais a se computar depois dele, peças extraordinárias e localizadas nas montanhas e no profundo das areias daquele meio mundo de Ásia e África, que ainda esperam o interesse dos pesquisadores. Baseados nesses achados fantásticos, não poucos escreveram romances e novelas, produziram livros e descreveram em revistas o que depois chegaria ao cinema e ao teatro. E televisão, de que ninguém escapa. Há mistérios deliciosos à espera dos ficcionistas, dos buscadores de preciosidades, dos autores de escritos policiais. Não se perderá de vista que Agatha Christie era casada com um arqueólogo, a quem acompanhou em distantes excursões além do Mediterrâneo. O que aconteceu há meses com uma embarcação australiana, cujos passageiros simplesmente desapareceram, aparentemente sem deixar pistas, é exemplar.&lt;br /&gt;               Encontrou-se barco ainda com motor ligado e os pertences de todos os tripulantes lá se encontravam intatos. Bens de valor fundamental a quem se aventura pelo mar também: computadores, telefones celulares, GPS. Agatha Christie daria ênfase ao achado e provocaria suspense ao conterrâneo do cinema, Alfred Hitchcock. No interior, a mesa de jantar estava posta, com panelas de comida, pratos e talheres. Nenhum sinal de acidente ou qualquer tipo de problema foi notado, a não ser uma vela rasgada. Nada denunciava uma tragédia.&lt;br /&gt;               Os caçadores de pistas e de crimes levantaram hipóteses: a tripulação inteira caiu ao mar após forte tempestade; um dos tripulantes caíra na água, os demais tentaram resgatá-lo e todos pereceram; os três navegadores aproveitaram a calma do mar antes do jantar, quando foram mortos por tubarões; uma embarcação pirata se aproximou repentinamente, seqüestrou os tripulantes do Kaz II e subverteram. Idéias e teses dignas de respeito e merecedoras da atenção dos que devem ter-se incumbido das investigações. Ao mesmo tempo, também idéias e teses vulneráveis a argumentos mais consistentes de buscas cuidadosas. Os cidadãos da embarcação eram Peter Tunstead, Des Batten e James Tunstead, todos de grande probidade e que não se meteriam numa aventura desonesta, pois em idade que não mais permitiria apelos ao fantasioso. A polícia ainda descobriu registros de contato de rádio horas depois daquela que se imaginava que a tripulação já se encontrava desaparecida.&lt;br /&gt;               O cenário e os personagens estão oferecidos aos apreciadores do gênero fantasmagórico ou aos seus autores. Não tenho subsídios a acrescentar, nem necessário seriam, pois ao gênio criador do ficcionista caberá trabalhar o material, pondo a invectiva a funcionar. Se Madame Agatha fosse ainda viva, possivelmente engendraria algo notável. Poderia servir também ser aproveitado o tema por Georges Simenon, o criador do célebre comissário Maigret, e que o autor de Santa Catarina Enéas Athanázio considera o maior escritor policial de todos os tempos, além de autor sofisticado no estilo e na técnica narrativa. Se ambos os europeus falhassem, o nome que se sugeriria seria de Nélson Hoffmann, da fronteira Brasil-Argentina, a que se deve "Onde está Maria?", e agora "O Homem e o Bar". Outro cenário, outros os personagens, mas o conteúdo está disponível e, talvez, adicionais informações da Internet sugiram novas idéias. A Nelson não faltam condições: escreve bem, domina a técnica dos diálogos e tem uma fértil imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Jornalista e escritor e-mail:colunaMH@hojeemdia.com.br&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Homem e o Bar – 3ª ed. da Cultuarte/Ediuri/Ledix – 310 pp – R$ 48,40.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inês Hoffmann&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BRINCAR DE VIVER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem&lt;br /&gt;tomei banho de chuva&lt;br /&gt;sujei de lama os pés&lt;br /&gt;comi amoras&lt;br /&gt;roubei flores&lt;br /&gt;e brinquei&lt;br /&gt;de bem-me-quer.&lt;br /&gt;Hoje&lt;br /&gt;voltei a ser mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RESIGNATIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos&lt;br /&gt;a fera se acalma&lt;br /&gt;me resigno&lt;br /&gt;com&lt;br /&gt;a situação.&lt;br /&gt;Chegamos a um acordo&lt;br /&gt;de convivência:&lt;br /&gt;eu a aceito&lt;br /&gt;ela me poupa.&lt;br /&gt;Continuamos&lt;br /&gt;a nos pertencer&lt;br /&gt;pacificamente.&lt;br /&gt;A fera se acalma...&lt;br /&gt;Recomeço a viver.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiz Otávio Oliani*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RESGATE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como posso resgatar&lt;br /&gt;o que não existe em mim?&lt;br /&gt;ao beijar a solidão&lt;br /&gt;eu me dispo por inteiro&lt;br /&gt;da escória que é o homem&lt;br /&gt;na inútil tentativa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERRITÓRIO        &lt;br /&gt;“&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O que não sei fazer desmancho em frases”            &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Manoel de Barros&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;brota em mim o verbo&lt;br /&gt;com suas pessoas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;desconjugá-las não posso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em mim&lt;br /&gt;a palavra&lt;br /&gt;se faz morada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HERANÇA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não deixo bens&lt;br /&gt;aos que ficam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de mim&lt;br /&gt;restará a palavra&lt;br /&gt;(antes cinzel)&lt;br /&gt;agora verso&lt;br /&gt;a burilar os homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARTILHA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a mão estendida&lt;br /&gt;abençoa o trigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à procura do ponto&lt;br /&gt;ágeis dedos&lt;br /&gt;manipulam a massa&lt;br /&gt;do mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas a vida só faz sentido&lt;br /&gt;quando se reparte o pão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LABUTA        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A João de Abreu Borges&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em sua própria vida&lt;br /&gt;o homem finca raízes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;atravessa árvores&lt;br /&gt;mata fungos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem olhar para trás&lt;br /&gt;e perceber: os frutos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não mera conseqüência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Luiz Otávio Oliani é natural do Rio de Janeiro, graduado em Letras e Direito. Participou de diversas antologias, recebeu diversos prêmios literários. Publicou Fora de órbita, Editora da Palavra, poesia, 2007.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Izacyl Guimarães Ferreira*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÓRBITAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   No Rio de Janeiro, no âmbito da poesia, Helena Ortiz põe em órbita livros de poesia da ep editora da palavra, e no portal panorama da palavra, que durante anos foi impresso, divulga poesia de hoje, de ontem e de amanhã. Empreendimentos escritos assim em caixa baixa, mas de alta qualidade.&lt;br /&gt;Creio que o livro “Fora de órbita”, o primeiro de Luiz Otávio Oliani, estará orbitando por um bom tempo, graças à incomum capacidade do autor em conciliar silêncio e palavra, risco a que estão sujeitos os poetas que temendo ou rejeitando o excesso podem deixar inconcluso ou dificultado o seu dizer. Não é o seu caso.&lt;br /&gt;Como em boa parte da poesia mais recente, vejo aí um eco ou vereda do que freqüentemente compõe Gullar, do que pretendeu Cassiano Ricardo: importaria a tal poética, formalmente, os elementos de ritmo e silêncio em estrofes apenas “alinhavadas” – para usar uma palavra de Oliani – e não estrofes “costuradas”, silêncio esse que dá pausa também espacial à leitura, que libera o verso de qualquer medida imposta ou externa. “Linosigno” é o nome que Cassiano dá ao procedimento.&lt;br /&gt;Nada contra essa poética, que ao comentar livro de Helena Ortiz utilizei como título a frase “Quando o menos é mais”. Assim seu editado Oliani. Aqui, também, o menos é mais. Importa mais a essa poética (usemos termo quase em desuso:) a mensagem, à qual a forma deve ajustar-se.&lt;br /&gt;“Fora de órbita” tem momentos em tom de oração, ainda que só sussurrada ou insinuando protesto “na inútil tentativa / de ser Deus por um minuto.” Como mergulha em reflexões filosóficas, que o prefaciador Igor Fagundes, também poeta e professor (mas de poética distinta, senão diametralmente oposta), lucidamente aponta apoiando-se em Sócrates e Platão.&lt;br /&gt;Poesia, filosofia e religião, sabemos,têm em comum a procura do todo, do ser, do mundo, da vida e da morte. Procura sem achamento, ousando dizer que a poesia é que mais se aproxima, por prescindir de sistema ou de fé, nem buscar, como a ciência, comprovação, por provisória que seja. À poesia basta a crença na realidade da palavra, no poder da palavra para tentar expor o “claro enigma”.&lt;br /&gt;“Em mim a palavra se faz morada” diz este poeta num decassílabo desfeito em três linhas. Quando quer, escande redondilhas, como neste “Rascunho”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na engenharia do verso&lt;br /&gt;os andaimes permanecem&lt;br /&gt;escancarados na folha&lt;br /&gt;de papel jamais escrita&lt;br /&gt;- o que não veio sucumbe&lt;br /&gt;ao esboço do poema&lt;br /&gt;em construção silenciosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro todo é um questionar sobre a finitude certa diante da eternidade que seria alcançável somente pelo verso, pelo passaporte da poesia, como revela no poema “Despedida”. Ciente da escassa dimensão do tempo que nos é dado, Oliani se entrega a explorar o entorno com os sinais verbais e as pausas que a reflexão lhe concede, mais descrente que esperançoso, mas à sombra e até à espera da divindade, na mão um “Castiçal” de que quer ser “vela e luz”.&lt;br /&gt;Epígrafes são mais que homenagens. São motes, faróis, sinalizações. Oliani abre o livro com Paulo Henriques Britto e o fecha com Ezra Pound:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a semente espera. Ela é insistente e acerta / mesmo sem saber que erra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nos prepara no início, e pontua assim no fim: sou um poeta /e bebo a vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, se assim queremos ler: viver é tentativa e erro, é destino e fruição, pois “nada detém a vida” que “só faz sentido / quando se reparte o pão”, mesmo sabendo que “ninguém escapa da cruz”.&lt;br /&gt;A dor geral, a consciência do sofrimento alheio, a caça à palavra e a sempre companhia do silêncio na luta constante com as medidas do tempo, a areia da ampulheta, os ponteiros dos relógios, a morte à espreita, eis marcas de uma poesia que não esconde o medo, a cal sobre o túmulo, o ponto final. Por confiar, mesmo “fora de órbita”, na morada do ser, a palavra.&lt;br /&gt;Nas abas do livro Teresa Drummond fala do “confinamento” que envolve os poemas de um autor que estréia maduro, embora amplamente premiado em, suponho, concursos de peças esparsas. “Confinamento” é palavra de uso do poeta, e nele é a um tempo traço existencial, formatação poética, habituação ao constante silêncio que atravessa como vocábulo e conceito seu livro que conscientemente diz ser “fora de órbita”, título também de poema em que se pergunta “como escapar / ao confinamento?” Finalmente escapou e fez bem a seus textos a espera para apresentar-se com a segurança desta “Inquietação”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na guerra das palavras&lt;br /&gt;- fogo cruzado -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vitória do verso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Izacyl Guimarães Ferreira escreve, traduz e comenta poesia. É autor de 15 livros, alguns deles distinguidos em premiações. É presidente do Conselho da União Brasileira de Escritores e editor da revista O Escritor e do portal &lt;a href="http://www.ube.org.br/" target="_blank"&gt;www.ube.org.br&lt;/a&gt; .&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GLAUCO MATTOSO*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUICHUTE DO QUÍCHUA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SONETO 926&lt;br /&gt;Em cada artelho um calo seu formato&lt;br /&gt;altera. Unha encravada causa inchaço&lt;br /&gt;no mínimo e no médio. Manca o passo&lt;br /&gt;de dor, que aumenta o aperto no sapato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizer que aquele pé seria chato&lt;br /&gt;é pouco: se na sola os olhos passo,&lt;br /&gt;tão reta me parece, que não faço&lt;br /&gt;nenhuma distinção dum pé de pato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande artelho dos demais se aparta&lt;br /&gt;e tem no comprimento só a metade&lt;br /&gt;do dedo "indicador". Catinga é farta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nos vãos, onde a frieira está à vontade.&lt;br /&gt;Tal pé serve-me à língua e, se a descarta,&lt;br /&gt;podólatra não acha que lhe agrade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;               O soneto acima me veio depois que peguei o Nelo de veneta e cobrei dele o caso que me pisa no calo desde criança: saber se mais alguém sente atração por um pé chato igual àquele do moleque que abusara de mim quando eu tinha meus nove anos e a turminha dele uns onze. Não um mero pé chato, claro, mas um daquele tipo espalhado, cujo dedão é bem separado do segundo artelho, e bem mais curto. Já vi tal formato sendo chamado de "grego" ou de "egípcio", mas o rótulo se refere ao menor comprimento do dedão, não necessariamente ao arco caído. Os podólogos, podiatras e ortopedistas ainda me devem uma nomenclatura que enquadre especificamente a chatura combinada com o dedão anão e o largo vão. Mas se venho procurando um pé desses desde que fui seviciado por aquele pivete, mais curioso fico em descobrir se outros podólatras tiveram mais chance que eu de cruzar com algo tão raro na anatomia do brasileiro. Dizem que os anglo-saxões são mais propensos a ter pés assim, mas meu contato é com os podólatras daqui, dos quais Nelo é sem dúvida o mais experiente e – por que não dizer? – calejado.&lt;br /&gt;               – Ah, Glauco, você sabe muito bem que pé chato não é "my cup of tea", como diriam lá na Inglaterra. Mas já pensei no seu caso. Não é a primeira vez que você me pergunta. Eu já não lhe contei a respeito daquele peruano?&lt;br /&gt;               – Peruano? Você me disse uma vez que tinha "feito" um pé como eu quero, mas só falou por alto, ficou devendo a história. Não falou de peruano nenhum, mas agora não me escapa.&lt;br /&gt;               – Deixe eu ver... São tantos casos... Ah, é verdade, foi um lance bem do seu gosto, Glauco. Enquanto for contando vou me lembrando... Isso já tem uns oito anos, foi quando eu morava no Bixiga. Bem atrás do meu prédio ficava um cortição que dava pra rua de baixo. Meu apê era no segundo andar e da janela dava pra ver e ouvir tudo que rolasse no quintal do cortiço. Toda hora tinha marmanjo aproveitando o sol pra se esticar, mostrando a solona descalça. Muitas punhetas matinais eu toquei assim, lambendo de longe aqueles pezões desocupados e desperdiçados...&lt;br /&gt;               – Tinha muito pé chato?&lt;br /&gt;               – Você tem razão, Glauco, de dizer que brasileiro não costuma ter pé chato. Meu olho é clínico e de longe pego os detalhes. Quase sempre o pé da rapaziada era arqueado e o dedão mais comprido que os outros dedos, mais "batatudo". Já os pés grandões, do jeito que eu gosto, sempre apareciam, ainda que pé grande também não seja o forte do brasileiro.&lt;br /&gt;               – Tamanho também é documento, bem lembrado. Gilberto Freyre que o diga. Ele foi quem mais estudou nosso pé pequeno...&lt;br /&gt;               – Mas não fez a pesquisa de campo que nem nós, né Glauco? Por falar em sociologia, é aqui que entra o peruano. Ele me chamou a atenção, antes que eu visse seu pé, por causa do papo que levava com outro malaco, bem na hora em que cheguei na janela. Estavam os dois sentados no pátio, de frente pra mim, de modo que tive que me esconder atrás da cortina. Mesmo assim deu pra escutar tudo direitinho. Ou eles se achavam impunes ou eram muito desligados, já que deviam ter mais cuidado pra comentar aquelas coisas...&lt;br /&gt;               – Que coisas?&lt;br /&gt;               – Roubo de carro. Ele e o outro eram dum bando especializado em arrombar qualquer coisa estacionada e repassar pros desmanches. Pois não é que o peruano me viu espiando?&lt;br /&gt;               – Mas você não tinha se protegido?&lt;br /&gt;               – Sim, mas quando eles se calaram pensei que tinham ido pra dentro e apareci na janela. Dei com ele me olhando direto, enquanto o outro já ia saindo. Nunca esqueço aquela cara de índio me secando, aquele cabelo preto escorrido, a pele morenona, a boca de sapo e o olho meio puxado. A franja até dava um ar de moleque, mas o rosto maltratado e raivoso mostrava que o cara tinha perdido a meninice antes do tempo. Sorrir pra ele só fez que me encarasse com mais desconfiança. Vi que não ia dar aproximação e saí da janela. Mais tarde, quando voltei a me debruçar pra regar as plantas, o quintal tava ocupado pela molecada mais descontraída. Esqueci do índio, passaram uns dias, e de repente cruzo com ele na calçada. O cara vinha na minha direção, meio mancando, parou, como quem estivesse na dúvida se me reconhecia, mas me traí quando sorri de novo, automaticamente. Aí ele chegou perto e fez que me conhecia.&lt;br /&gt;               "Olá! 'Todo' bem?" (Ainda tinha um pouco de sotaque.)&lt;br /&gt;               "Tudo bem, vizinho, meu nome é Nelo, e o seu?" (Estendi a mão e ele apertou, sempre na defensiva.)&lt;br /&gt;               "Pablo. Você mora nesse edifício aí?"&lt;br /&gt;               "Isso mesmo. Vi você da janela, lembra?"&lt;br /&gt;               "Sim. Me 'escuchó' também, não?"&lt;br /&gt;               "Escutei, mas nem prestei atenção. O que eu queria era olhar..." (Ele percebeu que eu não tirava o olho do seu pé. Calçava botina de elástico, já deformada de tanto bater. Parece que tinha o pé largo demais, porque o couro tava torto pros lados, ainda que o tamanho fosse bastante pra caber um quarenta e quatro folgado no comprimento.)&lt;br /&gt;               "Melhor pra você não ter 'escuchado'. Mas... que é que olhava?"&lt;br /&gt;               "Agora estou vendo mais de perto. Acho que você tá precisando de sapato novo. Quer ganhar um par de tênis?"&lt;br /&gt;               "Por quê? Você tem sobrando? Mas não calça meu número..." (Pelo jeito ele também reparava no detalhe, apesar de que qualquer um perceberia que meu pé era bem menor.)&lt;br /&gt;               "Não, eu compro um novinho pra você, que tal? Em troca só quero uma coisa."&lt;br /&gt;               "Já sei, você gosta dum 'carajo', não gosta?" (A boca de sapo se abriu num riso sacana, mostrando a dentuça falhada e manchada de fumo.)&lt;br /&gt;               "Se for na boca, gosto. Mas o que mais quero é sua botina. Troca por uma nova, ou prefere tênis?"&lt;br /&gt;               – Ele fez cara de quem começava a entender. Pra ter certeza provocou:&lt;br /&gt;               "Vai ter que tirar você mesmo. Tem coragem?"&lt;br /&gt;               "Tenho até pra agüentar as conseqüências, no nariz e na boca. E você, já experimentou essa coceguinha?"&lt;br /&gt;               "No pé nunca. Mas você faz aqui também, senão nada feito." (Deu uma coçada na braguilha da calça de jeans.)&lt;br /&gt;               "Fechado. Garanto que você não vai esquecer da minha boca, Pablo."&lt;br /&gt;               – Toda a conversa rolou ali, quase na entrada do meu prédio. Marcamos a hora e no fim da tarde ele tocava o interfone. Era daqueles prédios sem porteiro, bastava comandar de dentro e a porta da rua destrancava sozinha.&lt;br /&gt;               – Você não achou arriscado abrir sua porta prum ladrão?&lt;br /&gt;               – Claro. Mas era um risco calculado. Só questão de cumplicidade, Glauco. Ele chegou trazendo alguma coisa numa sacola de supermercado e foi logo perguntando o que é que eu tinha escutado, e fui logo respondendo:&lt;br /&gt;               "Olha, Pablo, eu sei que você é puxador, mas não tenho nada com isso. Se você não estranha meu vício, eu não estranho seu negócio, e tamos conversados."&lt;br /&gt;               – Ele repuxou a boca de sapo e, vendo que eu reparava na sacola, tirou de dentro um par de chuteiras e explicou que, sem a botina, só sobrava aquilo pra calçar até que ganhasse o pisante novo. Aproveitou pra dizer que preferia levar a grana e comprar ele mesmo, no que concordei. A partir daí foi só hora do recreio. Acomodei o mestiço naquela poltrona capitonada que faz conjunto com a banqueta, uma que você já experimentou lá em casa, e avisei que o ritual levava um tempo, até que eu tivesse curtido todo o cheiro e saboreado todo o gosto. Ele não dizia nada, só entortava o beiço pra mostrar a dentuça banguela. Escarrapachou as pernas na banqueta, cada pé numa beirada, e comecei pelo esquerdo. A botina custou a sair, porque a meia tava grudada pelo suor. Glauco, você ia delirar com o chulezinho! Parecia uma lata de lixo destampada. Pablo usava meia de futebol, toda furada, que lembrava um trapo de chão. Descolei aquilo com a língua, depois de puxar com a mão, bem devagar, da canela até o calcanhar. Só então percebi por que ele mancava: o pezão era largo demais pra fôrma da bota, o calo e a unha encravada tinham virado parte da anatomia. Ah, precisava ver a cara de deleite dele enquanto eu dava um trato naqueles pontos doloridos! A sola também tava cheia de malacas, mas nunca vi uma tábua de bater carne tão plana como aquilo... Minha língua parecia uma esponja, esfregando pra lá e pra cá, até remover a camada toda de umidade e a crosta de sujeira. Banho é o termo certo pro que dei naquele pé, principalmente no meio dos dedos. Acho que o dedão tinha uns dois centímetros a menos que o "fura-bolo", era do jeito que você fantasia, Glauco. Claro que deixei aquele "mata-piolho" pra ser chupado por último, assim que a frieira do mindinho e as geléias de cada vão estivessem bem "higienizadas"... e quando meti na boca até achei que o dedão não era tão grande pro tamanho do pé. A explicação era aquela mesma: curto demais, diferente das batatonas que estou acostumado a mamar. E por falar em mamada, será que preciso entrar no departamento dos cheiros e queijos de pica?&lt;br /&gt;               – Não, Nelo, nem faço questão. Só quero ficar viajando nessa lancha, me mordendo de inveja...&lt;br /&gt;               – Então só falta falar um pouco da chuteira que Pablo tinha trazido. Era bem detonada, também, já que ele usava desde quando chegou no Brasil, sonhando ser jogador. Com aquele pé de pato, logo viu que a carreira esportiva tava fora de cogitação, mas a chuteira ficou guardada. Toda preta, lembrava aquelas de sola de borracha que a gente conhecia como "quichute", lembra?&lt;br /&gt;               – E como? Eu vivia lambendo com os olhos as dos moleques que brincavam no campinho perto de casa... Mas essa é outra história. E as botinas doPablo? Foram bem aproveitadas?&lt;br /&gt;               – Renderam pra mais de mês de punheta, daquele jeito que mais curto:uma no pau e outra na boca. Depois perderam o cheiro, o sinal de vida, e também a graça. Foram direto pro lixo, onde já deviam estar faz tempo. As meias também. Dei ao Pablo um par das minhas, fiquei com aquele meião pra ir cafungando nele durante as punhetas, mas a essência logo se evaporou, que nem alegria de pobre...&lt;br /&gt;               – Nelo, se você encontrar de novo com o Pablo, tem que me fazer umfavor...&lt;br /&gt;               – Nem precisa dizer. Claro que eu recomendaria seus préstimos. Mas vaiser difícil, tanto tempo depois que me mudei. Nem imagino se o cara ainda tá no Brasil, nem se tá vivo. Calcule, Glauco, essa malandragem é muito nômade, só tem endereço fixo quando passa uma temporada na cadeia...&lt;br /&gt;               – Eu sei, só estou devaneando. Não é proibido torcer, né?&lt;br /&gt;               – Só não dá pra torcer pelo Pablo vestindo camisa dalgum time.&lt;br /&gt;               – Dá sim, desde que eu fosse o massagista...&lt;br /&gt;               Nelo fez bilu-tetéia na minha bochecha e recomendou que eu chupasse meu próprio polegar. Da mão, bem entendido.&lt;br /&gt;///&lt;br /&gt;*Glauco Mattoso (São Paulo, 1951) tem diversos livros publicados, entre eles O Que É Poesia Marginal, Manual do Pedólatra Amador, Centopéia, Paulicéia Ilhada, Geléia de Rococó. Dedica-se também ao conto, tendo organizado com Nilto Maciel, em 1977, Queda de Braço – Uma Antologia do Conto Marginal.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caio Porfírio Carneiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTRIAS DA ALMA               &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carnavalha (Ed. Bestiário, Porto Alegre, 2007), de Nilto Maciel, é uma desnorteante rosa-dos-ventos literária. Pouco vimos, na literatura brasileira atual, ou fora dela, criação ficcional assim. Não porque haja aqui uma originalidade, formal ou de conteúdo, até hoje despercebida e não excursionada por outros. Falta apenas, sem falsa ironia, aparecer um romance de ponta-cabeça. Mas chegaremos lá.&lt;br /&gt;O que se dá de inusitado, neste escritor, e avulta no livro, é a notável amostragem ou montagem, impressionista e impressionante, de todo um universo, meio submerso e doído, de vidas, em particular ao nível da baixa classe média, em contraponto às alegorias emblemáticas das diversões carnavalescas. São os espelhos das pantomimas e os contra-espelhos das criaturas sem horizontes na mesmice do dia-a-dia.&lt;br /&gt;O que sobressai e sensibiliza são as tomadas de cenas continuadas. Os grupos carnavalescos passam e das cadeiras nas calçadas e das cabeças nas janelas exsurgem um mundo de criaturas do povo que comentam o que vêem e quem vêem. O grotesco está nos foliões, mas o chapliniano está mais dentro das referidas criaturas, pela vida que levam sem maiores horizontes a alcançar e ambicionar.Tudo sem denúncia social; tudo exatamente como os corsos dos “sujos” que perambulam pela cidade; tudo em meios-tons, esse diapasão literário que vai à alma de qualquer um; tudo aparentemente – sempre o aparente da boa ficção – corriqueiro e banal.&lt;br /&gt;Aí onde o carro pega, com toda a sua força de impulsão, cadenciada de achados literários surpreendentes, nos simples comentários e fuxicos, tão comuns nos bairros diversos onde todos mais ou menos se conhecem. E o impacto mostra-se surpreendente nas simples descrições elípticas dessa gente que assiste ao desfile, comenta pouco, o essencial, e vemos, em lampejo cinematográfico, até a alma de cada uma das criaturas. E vem o mais pungente, no seu todo envolvente: a precariedade de tudo, no vendaval que entra pelos meandros das veredas sociais.O autor insere, ao longo dos capítulos nominados, como num crescendo sinfônico, curtos minicontos ou crônicas ficcionadas, onde a alegoria e o fantástico atingem pontos inesperados de criações paralelas dentro do todo romanceado. São girândolas belamente visualizadas que marcam os contrapontos vívidos da criação. É que a vida caminha assim, com picos ilusórios de fantasias irrealizáveis. E o autor costura isto muito bem, aprofundando as raízes das vidas incolores.Como Nilto Maciel capta bem esse mundo... Como traz a relevo, disfarçadamente, esse esmerilhar de vidas... Como se vale da riqueza dos detalhes... Como a linguagem é notavelmente apropriada e personalíssima... Como...&lt;br /&gt;Outros comos poderiam se somar a estes, mas fiquemos em mais um: o livro é para ser lido continuadamente, de fio a pavio, eis que as sete partes que o compõem são faces de luz e sombra de um todo, porque ele desperta a curiosidade do leitor, como um filme em preto e branco, logo de saída. Mas como tudo gira tal uma roldana, abra o leitor o livro onde abri-lo que não o soltará, porque a empatia é imediata e se vê logo metido nessa onda que vai e que não pára.A Carnavalha segue e voleia em envolvência ampla quando alcança patamar social melhor na capital federal e os jovens, nela e através dela, espelham bem como se comportam e vêem a vida nos dias de hoje, onde muitos valores estabelecidos ruem, perdem o fôlego e se exaurem.&lt;br /&gt;O autor, numa aparente dispersão, faz jogo inverso e tudo vai na ciranda, sem apelação, até mesmo o sentido das frases e das palavras, na oitava parte do livro, que encerra, e o próprio fecho corre em brisa nas fragmentações de sílabas, de sons... É o carnaval da Vida, observado em vários ângulos, onde, no último suspiro, tudo vai perecendo no “fim fino finos fins finis.”&lt;br /&gt;Carnavalha são as estrias da alma neste mundo sem apelo.&lt;br /&gt;São Paulo, 22/9/2007&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Miguel de Moura*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RIO DA VIDA&lt;br /&gt;   ao amigo/poeta Hardi Filho                  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é mais do que caminho ou via,&lt;br /&gt;no seu vaivém de encruzilhada ou feira.&lt;br /&gt;A vida é um rio onde o caudal se esgueira&lt;br /&gt;sem saber quanto d’água lhe sacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pode transformar-se em cachoeira&lt;br /&gt;o mesmo dorso de água que escorria,&lt;br /&gt;depois, curar o transe da agonia&lt;br /&gt;pra quem da pesca vive a vida inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vida e água, cabeça e cabeceira,&lt;br /&gt;beijam-se em nuvens... Como a trama cheira,&lt;br /&gt;e é chuva e cai no mar!...Quanta ventura! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Força é mudar, transcende e nos dá brio,&lt;br /&gt;pois onde há vida há de correr um rio&lt;br /&gt;de sonhos, de bondade e de ternura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VELHAS PRAIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Paulo Nunes Batista, agradecendo&lt;br /&gt;seu soneto do mesmo nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                         &lt;br /&gt;As velhas praias... Que saudade delas,&lt;br /&gt;Do nosso idílio em dias juvenis:&lt;br /&gt;– Uma moça e um rapaz banhando nelas,&lt;br /&gt;Sem roupas, sem segredos, sem ardis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almas voando... Ai, como o tempo voa&lt;br /&gt;Nas palmeiras cantando... Porque o vento&lt;br /&gt;Entre arrepios no horizonte ecoa&lt;br /&gt;Atento ao som, à luz, ao movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almas e corpos que amam tudo aquece,&lt;br /&gt;São a chama, a pureza, são a prece&lt;br /&gt;Que se eleva do mundo ao Criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sul, no norte, as praias são lembranças&lt;br /&gt;Do tempo em que conosco as esperanças&lt;br /&gt;Eram certezas como o nosso Amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teresina, 2/9/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTRA A TEORIA&lt;br /&gt;(Para a mestra/amiga Teresinka Pereira)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus mestres do fazer por sentimento&lt;br /&gt;me põem guardas contra as teorias,&lt;br /&gt;de religiões, partidos, guerras frias,&lt;br /&gt;quentes, mornas, e deuses... Que tormento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lendo o verbo, seus versos em poemas,&lt;br /&gt;vindos de longe mas chegados cedo,&lt;br /&gt;sem ter medo de ser, para que medo?&lt;br /&gt;Humanidade, amor são nossos temas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo velho, o tudo é o tecer novo,&lt;br /&gt;o melhor vem de nós e vem do povo,&lt;br /&gt;porque, dizendo assim é que não minto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, sem acreditar em tanto aleijo,&lt;br /&gt;descreio nas verdades que não vejo,&lt;br /&gt;confio ao coração o que amo e sinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;___________________&lt;br /&gt;*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro mora em Teresina – PI. franciscomigueldemoura@superig.com.br&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:trovares@yahoo.com.br"&gt;Henrique Marques Samyn&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS CORVOS DE ALUMÍNIO DE FRANCISCO CARVALHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A precariedade da distribuição de livros no Brasil é um problema que, embora muito conhecido e denunciado, aparentemente permanecerá como tal por longo tempo. A internet, é verdade, representou uma solução para uma parte mínima desse problema: ao menos as grandes livrarias tornaram-se acessíveis para moradores de regiões nas quais elas não se encontram fisicamente presentes, o que assegura que, pelo menos, os lançamentos das maiores editoras estejam disponíveis para boa parte dos leitores brasileiros. Entretanto, a lógica que rege as grandes editoras é mais econômica do que propriamente literária, algo que atinge fatalmente a poesia, gênero literário cujo parco potencial lucrativo é conhecido – de modo que, se inúmeros bons autores estão fora das principais cadeias de distribuição literária, é possível afirmar categoricamente que, em sua maioria, são poetas. Quem perde com isso, é claro, é a literatura brasileira, que sofre com o esquecimento de obras de qualidade incontestável.Toda essa discussão não pode deixar de ser evocada quando se fala sobre um poeta como Francisco Carvalho. Aos oitenta anos, publicou mais de vinte obras, todas inencontráveis nos catálogos das grandes livrarias, a despeito dos dois prêmios de expressão nacional que constam de seu currículo – prêmios Nestlé (1982) e Biblioteca Nacional (1997). Fiel à sua certeza de que prêmios literários são apenas estímulos eventuais, Francisco Carvalho continua escrevendo e publicando uma obra em que transparece um apurado domínio técnico, capaz de transitar pelas mais diversas formas poéticas com resultados, não raro, assombrosos. Leia-se, por exemplo, este:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SONETO DA CONTEMPLAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na vida andei por solitária estrada,&lt;br /&gt;meus caminhos não foram de veludo.&lt;br /&gt;Os deuses nunca me ensinaram tudo&lt;br /&gt;nem que do amor nunca se sabe nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tua ausência pus os meus cuidados,&lt;br /&gt;todas as horas, todos os minutos.&lt;br /&gt;O mais alto dos galhos onde os frutos&lt;br /&gt;dificilmente podem ser tocados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde pus esperança e pus empenho,&lt;br /&gt;meu sonho ardeu como se ardesse um lenho&lt;br /&gt;entre as chamas do cedro perfumado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada espero do augúrio do adivinho.&lt;br /&gt;Não beberei da espuma do teu vinho&lt;br /&gt;nem serei por teus olhos contemplado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse poema faz parte de Corvos de alumínio (Fortaleza: LCR, 2007), volume que reúne a poesia inédita de Francisco Carvalho, em que se pode atestar a riqueza de seu estro. Trata-se, afinal, de um poeta capaz de tematizar as mais díspares dimensões da experiência humana por meio de versos que vão do temário mais concreto, político e telúrico, ao mais abstrato e existencial. Seu sentimento lírico caracteriza-se pela cristalina lucidez com que retrata a condição humana, precária e efêmera, mas, ainda assim, plena de dignidade; é uma poesia que, em outras palavras, trata do Homem em seu mais universal sentido, de suas obras e de sua perene luta pela sobrevivência material e espiritual.Há momentos em que seu lirismo é francamente político:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MENINOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meninos ficaram sem arroz&lt;br /&gt;(os meninos esmagados pelos mísseis).&lt;br /&gt;Os meninos chamaram pelas mães&lt;br /&gt;e lhes pedem brinquedos e carícias.&lt;br /&gt;Os meninos fugiram das granadas&lt;br /&gt;dos campos semeados de explosivos.&lt;br /&gt;Desenterraram bombas do tamanho&lt;br /&gt;dos ovos dos maiores crocodilos.&lt;br /&gt;Os meninos chegaram muito tarde&lt;br /&gt;os meninos tiveram muita sede&lt;br /&gt;os meninos sentiram muito frio.&lt;br /&gt;Os meninos são filhos de leopardo&lt;br /&gt;abrem fendas e escrevem na parede&lt;br /&gt;odes de insônia para um deus sombrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras vezes, o poeta faz de seus versos diálogos com autores basilares da literatura universal: Camões, &lt;a href="http://www.speculum.art.br/module.php?a_id=395"&gt;Cervantes&lt;/a&gt;, Borges. Não obstante, sob essa miríade temática, Francisco Carvalho resguarda seu compromisso essencial com o poético, que parece, na verdade, constituir sua própria forma de ler a história e estar no mundo. Se maior é a poesia que emerge da vida, cabe reiterar que, a despeito das contingências geográficas e mercadológicas, Francisco Carvalho está entre os nossos poetas maiores.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ary Albuquerque*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A DAMA DE PRETO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sexta-feira tinha sido um dia de cão. Nada dera certo. A multiplicidade de problemas tirara-lhe o bom humor. Precisava espairecer. Quem sabe um jantar no Ritz? Bom serviço, música e comida excelentes. Roberto naquela noite não queria companhia, nem feminina, nem masculina. Nem mesmo a de Karla, sua melhor amiga. Os amigos só sabem conversar sobre negócio e mulheres. Estava farto daquilo. Preferiria ficar a sós, ouvir sonatas de Chopin ao piano de Calmon. Degustaria um bom vinho e aliviaria a alma. Sua mesa cativa no Ritz lhe parecia bem localizada e o maître Valentino dispensava-lhe atenção especial. A solidão, o vinho e a música combinavam muito bem com quem desejava refletir sobre a vida. A mesa em frente, desocupada. O relógio marcava 22h30 quando apareceu uma dama vestida de preto. Extremamente bela e elegante. Cabelos lisos, puxados para trás, formando um coque preto, preso por um broche em formato de borboleta cravejado de brilhantes. Anéis e pulseiras faiscavam no salão. Alta, tez clara, corpo longilíneo, aparentando não mais que quarenta anos. Feições fidalgas. O leve ar de superioridade emprestava- lhe um quê de encanto e admiração.&lt;br /&gt;O maître acompanhou-a à mesa vaga e fez sentar-se numa cadeira em posição fronteiriça à de Roberto. Bastava levantar a cabeça e olhar em frente para que seus olhares se cruzassem.&lt;br /&gt;Valentino continuou a atendê-la.  Então Roberto entendeu que estava sozinha. De soslaio, olhou e sentiu reciprocidade. Teve ímpetos de levantar-se e dirigir-se à mesa dela. Conteve-se. Veio-lhe um receio de não ser bem acolhido.&lt;br /&gt;Às 23h30 em ponto a dama chamou o garçom, pagou a conta e dirigiu-se à saída. Antes, cumprimentou Roberto com um leve sorriso. O maître acompanhou-a até a porta.  Uma limusine preta a aguardava.&lt;br /&gt;Roberto chamou Valentino. “É cliente recente?” “É a primeira vez que vem aqui. Ao sair, pediu-me reserva da mesma mesa para sexta-feira próxima, às 22 horas. Parece ser gente de fora”.&lt;br /&gt;Até o final da noite, Roberto ficou a fazer conjecturas a respeito da enigmática dama. Ao se despedir, deixou sua mesa reservada para sexta-feira, no mesmo horário.&lt;br /&gt;Durante a semana quase não trabalhou, preocupado em desvendar a identidade da mulher misteriosa. E se valeu de Karla, que mantinha relacionamento com toda a sociedade local. Certamente a única pessoa do seu convívio capaz de descobrir a origem da moça de vestido negro. Marcou encontro no Drinks Bar. Procuraram um lugar sossegado onde pudessem conversar sem ser incomodados. “Estou ansiosa para saber das novidades. Você sumiu. Que houve?” Roberto falou do trabalho exaustivo, dos contratempos da vida solteirona e satisfez a curiosidade da amiga. Ajeitou a gravata e sorveu um gole de chope. “Karla, encontrei uma personagem encantadora e misteriosa. Preciso de sua ajuda para descobrir quem é. Nunca me apaixonei por ninguém, você sabe, mas por ela acho que me rendi, apesar de só ter visto uma vez”. “Descreva-me com a maior riqueza de detalhes a figura. Talvez possa ajudá-lo”. Roberto traçou um perfil mais que completo da dama de preto. Karla mexeu-se na cadeira, acendeu um cigarro, tomou um gole de vermute, apoiou a cabeça na mão esquerda e se pôs a meditar. Súbito quase deu um grito: “Eureka! Pelos detalhes só pode ser Clarice Dicksen, filha de um excêntrico milionário inglês. Há mais de quinze anos casou e foi residir em Londres. Soube depois que regressou ao Brasil e não mais freqüentou a sociedade. Parece-me que adoeceu seriamente e sumiu. Talvez tenha se restabelecido. Ou o marido morreu e ela agora voltou a circular.&lt;br /&gt; O relato intrigou Roberto e provocou nele uma série de dúvidas. Se realmente ainda fosse casada, por que ir só ao restaurante, e de preto? Muito estranhas também a chegada e a saída dela. Horas marcadas com precisão britânica.&lt;br /&gt;Ao se despedirem, Roberto agradeceu a Karla as informações. O restante da semana foi de expectativa. Sobretudo na sexta-feira . As horas não passavam.&lt;br /&gt;Com meia hora de antecedência, Roberto chegou ao Ritz. Não esquecera de levar um ramalhete de flores. Na hora marcada, a moça entrou no restaurante, mais bela que nunca. O vestido preto retilíneo ajustava-se ao corpo esguio, como se fora uma luva. Desfilava com garbo e elegância ímpar. Girou levemente a cabeça em direção a Roberto e sorriu, dando-lhe boa-noite. Sentou-se à mesa reservada. Roberto levantou-se, apanhou o ramalhete de flores e a ela se dirigiu. “Estas flores são para você; posso sentar ao seu lado nesta noite linda?” “O prazer será todo meu”.&lt;br /&gt;Conversaram amenidades, beberam o melhor vinho da casa e quase esqueceram de comer. Às 23h25 ela avisou que partiria dali a cinco minutos. Roberto, muito aflito, perguntou se poderiam se encontrar na próxima semana. Não às 22 horas, mas uma hora antes, pois assim aproveitariam mais o tempo. Ela concordou. Fez um gesto de quem quer pagar a conta. Ele não deixou. Cinco minutos após, a dama de preto levantou-se e, acompanhada por Roberto, chegou à limusine que a esperava de porta aberta. “Desculpe. A conversa foi tão fascinante que esquecemos de nos apresentar. Meu nome é Roberto Machado. E o seu?” “Clarice Dicksen. Até a próxima sexta, às 21 horas”.&lt;br /&gt;Enquanto a limusine partia, Roberto tremia dos pés à cabeça. O coração parecia querer sair pela boca. Karla era demais! Acertara em cheio. No dia seguinte, nada falou aos amigos, nem mesmo a Karla. Só iria contar tudo depois do próximo encontro. Assim teria muitas novidades para falar. Enumerou nos dedos as horas e minutos para o novo jantar. Não esqueceu de ir ao barbeiro. Comprou roupa e sapatos novos. Perfumou-se com a melhor colônia e partiu cheio de curiosidade. Antes, passou numa loja de jóias e adquiriu um anel de brilhante. Minutos antes da hora aprazada estava sentado à espera de Clarice. Sem faltar um minuto, 21 em ponto, apareceu na porta a dama de preto, elegantíssima. Dirigiu-se à mesa de Roberto, que, num gesto de elegância, beijou-lhe a mão e a fez sentar. “Clarice, passei a semana toda só pensando nesse encontro. Sua imagem não saiu da minha mente dia e noite. Estou realmente encantado com você”. “Obrigada, Roberto. O mesmo digo eu. Pena que seja nosso último encontro. Vou viajar e não voltarei mais”.&lt;br /&gt;A última frase gelou as mãos de Roberto. Quase perdeu a fala. Respirou fundo e discretamente reiniciou a conversação. “Se não for muita indiscrição e curiosidade, posso saber para onde vai?” “Vou regressar para um lugar distante que você não pode imaginar. Prefiro não falar nesse assunto. Não pretendo estragar nossa última noite”. “Trouxe um presente para você e faço questão que use agora”. Clarice abriu a caixinha preta e encontrou o anel. Colocou no dedo, agradeceu e pôs a embalagem dentro da bolsa. Depois apertou as mãos de Roberto e beijou-lhe a face.&lt;br /&gt;Após o choque inicial, Roberto e Clarice trocaram impressões sobre assuntos variados. A cada instante ele se entusiasmava mais e se mostrava triste pela notícia da partida dela. Ele, solteirão inveterado, sentia-se apaixonado por aquela mulher inteligente e sensual. Como iria perder a oportunidade de a conhecer mais? Não acreditava em azar. Mas achava que o destino se voltava contra ele.&lt;br /&gt;Com o passar das horas, o diálogo se manteve ininterrupto e repleto de frases lisonjeadoras. Pareciam apaixonados. Do corpo de Clarice fluía um perfume de rosas que o deixava extasiado. Quando aproximou-se a hora da partida, Roberto não se conteve: “Posso vê-la antes da partida, amanhã?” “Pode, às 10 horas da manhã em ponto, no endereço deste cartão”.&lt;br /&gt;Na despedida, Roberto não se conteve e beijou as mãos e a face de Clarice. A limusine saiu mais rápido que de costume.&lt;br /&gt;Passou a noite em claro, a pensar no encontro do dia seguinte. Levantou-se cedo. Vestiu-se com esmero. Pegou o cartão e leu o endereço: Rua das Flores, 200, quadra 28 T-8, Alto Pinheiros. Achou esquisito, embora o bairro fosse de ricos. Talvez ela morasse numa mansão. Por isso a indicação de quadra e T-8. Não quis ir no seu carro. Preferiu pegar um táxi. “Conhece bem o Alto dos Pinheiros?” “Conheço, sim, senhor”. “Então vamos para lá. O endereço é Rua das Flores, 200”.&lt;br /&gt;O taxista nada comentou e partiu. Para passar o nervosismo, Roberto comprou jornal e durante o trajeto leu algumas notícias. “Chegamos”. Roberto, aflito, tirou o cartão do bolso e conferiu o endereço. “Mas aqui é a Rua das Flores, 200?” “É, sim, senhor”. Lívido, Roberto desceu do carro e pediu para o taxista esperar. “Não vou demorar muito”. Com as pernas trêmulas, entrou no Campo Santo e caminhou pela alameda principal, à procura da quadra 28. Só podia ser brincadeira de Clarice. Mas isso não combinava nem de longe com a fidalguia da moça que conhecera no Ritz. Continuou andando. Ao chegar à quadra 28, procurou o T-8,  que significava túmulo número 8. Um, dois, três... e assim foi identificando os túmulos, até chegar ao local procurado. Esverdeado, quase a desmaiar, chegou à frente de um rico jazigo de granito preto, rodeado por um jardim plantado de rosas que exalavam um perfume igual ao usado por Clarice na última noite no Ritz. Uma moldura dourada ornava a foto de Clarice afixada no mausoléu, contendo a seguinte inscrição: Clarice Dicksen – 1940-1980. “Um dia ressuscitarei, assim disse o Senhor”.  No parapeito do túmulo, uma pequena caixinha preta permanecia intacta.&lt;br /&gt;Não acreditando no que presenciava, Roberto desmaiou. Quando acordou, meia dúzia de pessoas, entre elas o taxista, tratava do ferimento na cabeça recebido na queda abrupta.&lt;br /&gt;                                              &lt;br /&gt;*Poeta e empresário. Autor dos livros Dizem que poeta fui um dia, Tríade Poética e Momentos Divididos.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodolfo Alonso&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;          SOMBRAS FRIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite fria alberga amantes cálidos&lt;br /&gt;a arder de frescura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite fria deixa ouvir&lt;br /&gt;um silêncio de luzes&lt;br /&gt;uma cidade a dormir na espessura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite fria passará&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          CONTRA A MORTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que me vá eu vou ficar&lt;br /&gt;sempre de alguma forma deste lado.&lt;br /&gt;Porque a cada morte há que se deixar&lt;br /&gt;uma lembrança lhe riscando a face,&lt;br /&gt;um humano ruído de algum modo,&lt;br /&gt;com cheiro de soalheira e suor bruto,&lt;br /&gt;um manotaço, um risco, um estampido,&lt;br /&gt;uma margem de luz como ferida,&lt;br /&gt;vazio iluminado, uma candente ausência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          O JOVEM FREIXO DIZ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não acumulo&lt;br /&gt;eu prossigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não seduzo&lt;br /&gt;eu me dou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não me exibo&lt;br /&gt;cresço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tomo forma&lt;br /&gt;sou minha forma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não persigo&lt;br /&gt;Não promovo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou&lt;br /&gt;e vou ser&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Rodolfo Alonso nasceu em Buenos Aires, em 1934. É uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana contemporânea. Publicou mais de 20 livros de poemas, ensaios e narrativas. Primeiro tradutor de Fernando Pessoa na América Latina. Traduziu grandes poetas brasileiros ao castelhano: Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Olavo Bilac e outros. No Brasil, publicou Antologia Pessoal (Thesaurus Editora), da qual se extraíram os poemas aqui publicados. A Academia Brasileira de Letras outorgou-lhe o prêmio Palmas Acadêmicas.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RESENHAS&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA DE DIMAS MACEDO&lt;br /&gt;            O poeta e crítico literário Dimas Macedo publicou mais dois livros em 2007: Bibliografia: Roteiro para Pesquisadores (Fortaleza, Edições Poetaria) e Ressonâncias e Alteridades: Fortuna Crítica Selecionada (Fortaleza, Ed. OMNI). No prefácio do primeiro o próprio Dimas informa: nele “estão documentadas as fontes dos livros que escrevi e publiquei e dos livros de que participei, dos prefácios que escrevi, dos poemas e artigos que publiquei, dos projetos de pesquisa que orientei, das teses de mestrados e livros nos quais meu nome e a minha obra estão referidos ou analisados e, bem assim, parte significativa da minha bibliografia passiva e das opiniões sobre a minha obra, com indicações das fontes de onde provieram” (...). O segundo livro apresenta o melhor da crítica literária da obra poética e crítica de Dimas Macedo, em 77 artigos, ensaios, entrevistas, etc, publicados em jornais e revistas a partir de 1981. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS CORES DO TEMPO&lt;br /&gt;            O poeta Majela Colares reuniu num só volume uma seleção de seus cinco primeiros livros de poemas e o intitulou As Cores do Tempo (Rio de Janeiro, Ed. Calibán, 2007). O primeiro é Confissão de Dívida e Outros Poemas (1993-2001), seguido de Outono de Pedra (1994), O Soldador de Palavras (1997), A Linha Extrema (1999) e Quadrante Lunar (2005). No final do volume estão reunidas algumas opiniões sobre a sua obra poética. Como a de Francisco Carvalho, no artigo “Dívidas e Dúvidas de um Poeta”, do qual extraímos este trecho: “O discurso do poeta parece mais aberto, mais explícito, mais direto, mais contundente. O que ele tem a dizer, não o faz sob a proteção de certos biombos da retórica. Ele o diz às claras, num estilo direto e sem inflexões barrocas, à maneira de um profeta que veio do deserto para falar ao povo sobre as armadilhas e imprevistos que o futuro nos reserva”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INIMIGOS&lt;br /&gt;            Pedro Salgueiro publicou recentemente o volume de contos Inimigos (Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 2007). Miguel Sanches Neto assina um “Posfácio”, assim iniciado: “Ao ambientar suas narrativas no sertão nordestino, o cearense Pedro Salgueiro enfrenta um grande desafio. Território fixado na literatura brasileira, o sertão guarda uma identidade galvanizada por mestres que foram do recorte naturalista ao experimentalismo de linguagem, retratando ou reinventando uma paisagem humana e social.” E mais: “Mas nada se repete quando se tem uma vivência profunda da realidade ficcionalizada, por isso o sertão vai continuar tendo infinitas possibilidades para os dotados de sensibilidade artística aguçada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CRUZ E A FORCA&lt;br /&gt;            O cearense Daniel Mazza estreou em 2004 com Fim de Tarde. Também de poemas é este A Cruz e a Forca (Fortaleza, Book Editora, 2007), ganhador do Prêmio Ideal Clube de Literatura. O livro é dividido em três partes: “A Morte”, “A Culpa” e “A Cruz e a Forca”. Anderson Braga Horta assina o prefácio: “Neste volume, breve, mas poeticamente significativo, Mazza enfrenta com galhardia, no plano formal, os desafios do verso medido que não se quer rígido, do soneto que se recusa ao bafio das gavetas esquecidas, e, finalmente, do verso livre que se quer genuinamente novo, sem ingenuidades anárquicas.” E conclui assim: “É um livro, pois, este A Cruz e a Forca, de temática sombria e imagética tenebrosa. Felizmente, porém, não se contamina das trevas que revolve, porque iluminado pela força da poesia”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE SOBRAL E DE OUTROS SÍTIOS&lt;br /&gt;Lustosa da Costa é autor de vasta obra literária desde 1971. Contos de Sobral e de outros sítios (Fortaleza, ed. do autor, 2007) é sua incursão no gênero conto, embora haja histórias curtas no volume Foi na Seca do 19. O autor assim se justifica na apresentação: “Alguns são contos de aprendiz, o que não significa serem os outros de mestre, porque são apenas resultado de maior experiência no ramo da escrita. Mia jornalística que literária. Quase todos são ambientados na diocese de Sobral, cidade de minha afeição, com a pesada presença do clero católico e de sua influência na sociedade.” E adiante: “Alguns deles talvez não tenham maior mérito, como o do piquenique realizado do outro lado do rio Acaraú, senão o objetivo, para mim caro, de imortalizar o que penso ser um momento de lazer dos sobralenses naquela área, à época distante, de difícil acesso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A DOR DE AMAR DEMÔNIOS&lt;br /&gt;            Delermando Vieira é de Caldas Novas, Goiás, estreou em 1982 com os poemas de Corpungido. A Dor de Amar Demônios (Goiânia, Fundação Cultural Pedro Ludovido Teixeira, 1997) é seu nono livro, o segundo de contos. Brasigóis Felício, nas abas, observou: (...) “tudo o que este autor vem revelando (e impondo, com o ferrete de seu talento), está presente nestas fábulas cosmodemoníacas, em que treze demônios, disfarçados de personagens, estão presentes”. E mais: “Ninguém será o mesmo, depois de viajar pela noite tenebrosa destas estórias quase macabras, em que o horror, o neobarroco e o gótico se imbricam a gritar, à sociedade dos mortos-vivos, o quanto lateja e vibra, em sua alma de poeta, o obsceno esplendor do Ser”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CERRADO DESTERRO&lt;br /&gt;             Este é o título do volume 1 das memórias de Emanuel Medeiros Vieira (Brasília, Ed. Thesaurus, 2008), 382 páginas. O editor Victor Alegria assina as orelhas: “A mergulhar décadas atrás num vulcão incandescente de idéias, propósitos, intenções e buscas, leva o autor a determinar quais os fundamentos que regeram sua vida, suas atitudes, seus descaminhos e suas estradas para o futuro, onde ele se encontra hoje.” Na quarta capa se lê: “Memórias divididas em três partes. Emanuel relembra aqui os amigos, vivências e poesias. Abre o peito e a verve, revelando ao leitor o grande valor que possui, como afirma Lourenço Cazarré: ‘um dos mais destacados autores de Santa Catarina, Emanuel Medeiros Vieira honra sua terra com uma literatura visceral, incisiva. Nos séculos próximos, quem quiser saber como sentia, amava e sonhava um ilhéus desde o mais cosmopolita até o mais humilde pescador), terá necessariamente que ler os contos de Emanuel’”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERROVIA&lt;br /&gt;         O poeta Demétrio Vieira Diniz, nascido em 1946, publicou em 2007 o volume intitulado Ferrovia (Recife, edição do autor), 98 páginas. Nas abas, o poeta cearense, radicado em Mossoró, RN, R. Leontino Filho informa: Demétrio é autor de Passarás (1999) e Haveres (2004). E nada mais se diz, no livro, a respeito do poeta. Por outro lado, a apresentação assinada por Anchella Monte é um estudo longo e profundo de sua obra: “O poeta Demétrio Vieira Diniz é um contador de histórias”; “Nos poemas de Demétrio há tempos e espaços, há personagens e dramas, há um narrador lúcido que se faz presente com muita intensidade. Os elementos da narrativa estão em seus poemas, cobertos de metáforas e ritmos e da intensa sedução dos textos que se condensam”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PLENITUDE VISIONÁRIA&lt;br /&gt;            O novo livro de Márcio Catunda Gomes – Plenitude Visionária – traz o subtítulo Poemas Selecionados. A edição é portuguesa: Companhia das Musas, Lisboa, 2007. Os poemas foram extraídos dos livros Água Lustral, Engenho Urbano, Estância Cearense, O Evangelho da Iluminação, Rosa de Fogo, No chão do Destino, Sintaxe do Tempo, Incendiário de Mitos, A Quintessência do Enigma, Purificações, Sortilégio Marítimo, O Encantador de Estrelas, Navio Espacial e Sermões ao Vento. Nas páginas finais do livro se estampam opiniões de diversos críticos sobre essas obras. Como ilustração desta notícia, leia-se um dos poemas mais curtos da antologia:&lt;br /&gt;ASPIRAÇÃO&lt;br /&gt;A matéria se dissolve em poeira,&lt;br /&gt;a vida renasce em novos corpos.&lt;br /&gt;– Eu quero o imutável.&lt;br /&gt;A folha tomba crestada de outonos,&lt;br /&gt;os animais envelhecemos.&lt;br /&gt;– Eu quero o imperecível.&lt;br /&gt;Até o vento se altera na fúria das tempestades.&lt;br /&gt;Até o mar se rebela em hórridas convulsões.&lt;br /&gt;– Eu quero o imperturbável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PASSAGENS DA MINHA ALDEIA&lt;br /&gt;            Com este título, Napoleão Valadares apresenta suas crônicas escolhidas (Goiânia, GO, Ed. Kelps, 2007). O também cronista mineiro (há muitos anos em Brasília) Danilo Gomes faz a apresentação do livro (abas): "Romancista, contista, poeta, pesquisador, Napoleão Valadares exercita também a crônica com perícia artesanal e refinada linguagem coloquial. Tempera sua prosa com graça, humor, poesia e um perfeito senso do cotidiano, infenso a verborrágicas metafísicas. A mão desse tarimbado escritor é incisiva, certeira, cirúrgica, no tratamento da crônica. É mão de mestre." No parágrafo seguinte Danilo analisa mais as crônicas de seu conterrâneo: "Narrando passagens de sua aldeia – e de outras aldeias e burgos –, o autor reuniu neste precioso volume 60 das numerosas crônicas que vem escrevendo e publicando em jornais, ao longo da vida. Muitas delas se encaixam na classificação, digamos, escolástica, de minicontos ou cronicontos. Em geral, as histórias se passam em Arinos, Unaí, Urucuia. São mineiríssimas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE ALGIBEIRA&lt;br /&gt;Laís Chaffe organizou e publicou pela editora Casa Verde, Porto Alegre, RS, 2007, a coletânea Contos de Algibeira. São minicontos de portugueses e brasileiros. Alguns são estreantes ou novatos. Outros, porém, participam da cena literária brasileira há algum tempo, como Altair Martins, Cíntia Moscovich, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Jaime Cimenti, José Eduardo Degrazia, Lourenço Cazarré, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Paulo Bentancur, Pedro Salgueiro, Rinaldo de Fernandes, Silvio Fiorani e Wilson Bueno. São cem autores, além dos sete construtores da Casa Verde: a própria Laís, Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Luciana Veiga, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENCONTOS E DESENCONTOS&lt;br /&gt;Em Fortaleza, Ceará, se publicou a coletânea Encontos e desencontos, organizada por Nuno Gonçalves, Manoel Carlos e André Dias. A obra recebeu o aval da Prefeitura Municipal de Fortaleza, via FUNCET (Fundação de Cultura, Esporte e Turismo), após ser aprovada no Edital de Incentivo à Literatura. A maioria dos autores é oriunda das revistas “marginais” Corsário e Pindaíba. Alguns são “por demais conhecidos na urbe”, como informa, nas abas, o professor Sander Cruz Castelo. O principal deles é mestre José Alcides Pinto. Os demais são Nilto Maciel, Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro e Carlos Emílio C. Lima. O livro traz um ensaio crítico – “Narrativas multifaces: o sentido ritmado da palavra” –, a título de prefácio, do poeta João de Moraes Filho.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15 CUENTOS BRASILEROS&lt;br /&gt;O brasileiro Nelson de Oliveira organizou e o argentino Federico Lavezzo traduziu para o espanhol a antologia 15 Cuentos Brasileiros/15 Contos Brasileiros (Córdoba, Comunic-arte Editorial, 2007). Na apresentação, Nelson afirma: “Os quinze autores reunidos nesta antologia representam várias regiões e várias realidades do vasto Brasil. A bem-vinda diversidade criativa aqui presente – diversidade de cosmovisões, estilos e temas – se deve a isso. (...) Durante a organização desta antologia o organizador evitou o máximo possível privilegiar os temas pitorescos e folclóricos muito apreciados principalmente na Europa: o carnaval, o futebol, a favela carioca, o sertão nordestino e o misticismo ecológico.” Os quinze contistas são Paulo Bentancur, Ronaldo Cagiano, Suênio Campos de Lucena, Marcelino Freire, Arlindo Gonçalves, Állex Leilla, Carlos Herculano Lopes, Nilto Maciel, Tiago Novaes, Nelson de Oliveira, Miguel Sanches Neto, Paulo Sandrini, Cida Sepulveda, Soares Feitosa e Teresa Yamashita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ENGRAXATE E OUTROS SUICIDAS&lt;br /&gt;Mendes Júnior se inicia nas letras impressas com O Engraxate e Outros Suicidas (Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora, 2007). Nas abas, Vianney Mesquita afirma: “(...) diviso nos textos de Mendes Júnior a propriedade em relação ao gênero e a inventividade do escritor maturado no treino lítero-artístico.” Na apresentação do livro, José Alcides Pinto comenta: “Não é Mendes Júnior um autor de inspiração fácil e momentânea. É um artesão consciente de seu trabalho literário. Sabe construir uma estória. O improviso não é a menina de seus olhos, nem a sofreguidão o acompanhamento dialético do enredo. (...) Como a maioria dos estreantes, Mendes Júnior segue a trilha dos escritores tradicionais. (...) Mendes Júnior escreve bem. Estilo definido (e definitivo). Tem idéias próprias para legitimar o que escreve. As imagens que povoam seu mundo ficcional pecam, ainda, por falta de audácia e amadurecimento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DA PENA AO VENTO – VII&lt;br /&gt;Dias da Silva é um dos mais abnegados estudiosos da Literatura Cearense. Da Pena ao Vento – VII (Livros de volta à lembrança) é o seu mais recente (2007) conjunto de estudos. Nele são mostrados alguns escritores cearenses, com fotos de capas, resenhas, biografias resumidas, relação de obras publicadas, trechos de artigos, etc. Em ordem alfabética, Dias da Silva reapresenta obras dos seguintes nomes: Artur Eduardo Benevides, Adriano Espínola, Airton Monte, Dimas Macedo, Dias da Silva, Eduardo Fontes, Erancilda Costa, Horácio Dídimo, Linhares Filho, Luciano Barreira, Nilto Maciel, Pedro Lyra, Rejane Monteiro e Sânzio de Azevedo. Generoso, Dias da Silva tem se dedicado a divulgar livros, quer no jornal Binóculo, que sucedeu O Catolé, quer nas coleções de artigos que reúne quase todo ano em forma de livro. E até nos volumes de reminiscências, diários e crônicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CINEMA BRASILEIRO NOS ANOS 70&lt;br /&gt;O poeta, contista, crítico literário Guido Bilharinho é também crítico de cinema. Em belíssima publicação do Instituto Triangulino de Cultura, Uberaba, Minas Gerais, 2007, apresentou mais um volume de artigos, em 278 páginas, ilustrado com fotos, sob o título O Cinema Brasileiro nos Anos 70. Analisa diversos filmes brasileiros realizados de 1970 a 1979. Na apresentação, Guido ressalta que “a qualidade da filmografia então efetivada não fica a dever e, em certos casos, suplanta a de muitos outros períodos anteriores e posteriores.” Mais adiante argumenta: “A seriedade, a pertinente e atilada seleção temática, a propriedade do enfoque, a independência intelectual e profissional e a segurança direcional caracterizam muitos dos cineastas brasileiros do período (...)”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FOLHAS DA SELVA&lt;br /&gt;De Anibal Beça vem Folhas da Selva (Manaus, Ed. Valer, 2006), em 358 folhas de haicais. Dobras de Jorge Tufic, apresentação de Zemaria Pinto. Colhemos dois trechos dela: “Reunindo a produção de haicais, presentes em sua obra publicada em livro desde Filhos da Várzea, de 1984, Folhas da Selva é um livro novo, mesmo quando nos deparamos com poemas familiares, uma vez que a disposição é outra, sendo conseqüente abstrair uma nova sensação dessa nova leitura.” “Com Folhas da Selva, Anibal Beça encerra um ciclo que prenuncia outro, pois a selva, assim como a relva, faz parte da condição geral do poema, do eterno que se renova porque se repete, folha a folha, poema a poema, até o infinito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOITE DESMEDIDA &amp;amp; TERNA COLHEITA&lt;br /&gt;Dedicado à poesia e à composição musical, o amazonense Anibal Beça publicou em 2006 Noite Desmedida &amp;amp; Terna Colheita (Manaus, Ed. Valer). Elson Farias, na apresentação, faz uma radiografia sucinta do livro: “(...) em Itinerário Poético, momento em que revela, a título de introdução, sob cadenciadas redondilhas maiores, isto é, versos de sete sílabas, o que alimenta o poeta/ as mentiras e verdades/ conquistas e desamores/ escaramuças boêmias/ réstias de face lunar (...).” (...) Na segunda parte, “traz um prólogo e onze coplas.” Em Mínima fratura “o poeta lembra alguns amigos seus, em versos de cadência popular”. Na última parte, Terna colheita, traz “poemas de metros multíplices, da redondilha ao decassílabo”. De Aníbal Beça é também 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor (Rio de Janeiro, Edições Galo Branco, 2007).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FILHOS DA VÁRZEA&lt;br /&gt;A 2ª edição de Filhos da Várzea e outros poemas (Manaus, Ed. Valer, 2002), de Aníbal Beça, tem formato quadrangular, capa dura e sobrecapa solta, 156 páginas e ilustrações de Van Pereira.  As abas são de Tenório Telles: “A poesia de Aníbal é cheia de ressonâncias. Para desvelar-lhe o sentido, é preciso minerar-lhe a superfície, fender-lhe a crosta pétrea, acompanhar as imagens, os cenários que vão sendo descritos. Sua poética tem no aspecto visual um traço marcante.” A apresentação é de Zemaria Pinto: “Entre o místico, o mítico e o poético, Aníbal arquiteta uma delicada peça de câmara, aparentada àquele Severino lá dos mangues do Recife.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARTO&lt;br /&gt;A brasileira Inês Hoffmann apresenta, em edição bilíngüe (português-italiano), os poemas de Parto (Castel de Judica, Itália, Samperi Editore, 2007). A versão em italiano coube a Marco Scalabrino. Há duas apresentações: uma de Licia Cardillo Di Prima, em italiano, e outra de Alba Olmi, em português. Segundo esta, “o tradutor valeu-se de recursos da língua italiana que configuram uma re-escritura dos poemas na qual é evidente a fidelidade ao original, entretanto, a “personalidade” poética e lingüística de Marco Scalabrino também está muito presente.” Ao final se lê: “Os leitores italianos têm agora, com essa tradução primorosa, o privilégio do acesso à extraordinária poesia intimista de Inês Hoffmann que desponta como um nome novo e promissor na poesia brasileira contemporânea (...)”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A PONTINHA DAS PÁGINAS&lt;br /&gt;Obra premiada em concurso literário nacional patrocinado pela Prefeitura de Manaus (Prêmios Literários Cidade de Manaus 2007), A Pontinha das Páginas (Edições Muiraquitã, 2007), de Cissa de Oliveira (cearense residente em Campinas, SP), se constitui de 41 crônicas leves ou nem tanto: cenas domésticas, momentos em casa, passeios ao parque, lembranças de Cora Coralina, leituras, o caso do juiz que matou o vigilante em Sobral (nada leve), etc. Cissa sabe escrever, alinhavar as frases, narrar. É seu primeiro livro, embora há algum tempo venha se mostrando na Internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEUS, O SOL DA MEIA-NOITE&lt;br /&gt;Trazendo em sua capa o Hexágono, símbolo da Divindade, que traz a luminosidade dos Cílios do Olhar de Deus Onividente sobre os mundos de sua divina criação, Adelaide Petters Lessa deixa bem claro o teor das mensagens enviadas por sua poesia na obra Deus, o Sol da Meia-Noite (São Paulo, Ed. Scortecci, 2007). Em mais de 100 poemas, a autora, que é professora de Psicologia nas Faculdades Metropolitanas Unidas em São Paulo e doutora em ciências humanas pela Universidade de São Paulo, faz uma profunda reflexão sobre Deus e suas aplicações. Adelaide é autora de diversos livros, como Quase poética do meu próximo. Para ela, “No século vinte, homens e mulheres responsáveis tiveram de administrar enormes convulsões econômicas e sociais, doenças e pestes indebeladas apesar dos admiráveis avanços da ciência, o tremor gigantesco da psicanálise e da guerra atômica, a comunicação instantânea pela internet com os aborígenes mais remotos do planeta, os telescópios da astrofísica e as sondas da Astronáutica para além do sistema solar.” Para ela, “o difícil convívio humano ainda é um problema irresolvido pela psicologia e pela ética”. E mais: "a solidariedade, a compaixão, o altruísmo são valores que precisam ganhar expressão paradigmática se o projeto for o de uma sociedade menos brutal e covarde, o de uma organização ecumênica de respeito e refinamento espiritual". Acredita que o ser humano pode escolher “a escada para o tombo ou a ascensão, assim como, na mesma época e lugar, o maníaco Hitler e a vidente Tereza Neumann em seu catre de luz”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOMENTOS DIVIDIDOS&lt;br /&gt;Ary Albuquerque teve publicado Momentos Divididos (Rio de Janeiro, Topbooks Editora, 2007). Caio Porfírio Carneiro assim se manifesta a respeito do livro: (...) “os poemas, quase sempre curtos, e as crônicas poéticas, também sucintas, trazem ao vivo uma enganosa despretensão que se transmuda em poesia da melhor qualidade no corpo inteiro de cada poema.” E mais: “É um poeta de lirismo ameno, suave, ricamente impressionista, e transfere, muitas vezes, as visões e sentimentos poéticos para o campo filosófico. Essa filosofia que amplia as inquietações interiores e pinta, com nitidez, o mundo exterior.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5083977141388149462#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Carmélia Aragão faz mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC) e é autora do livro de contos Eu vou esquecer você em Paris, ganhador do III Edital de Incentivo às Artes (Secult).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5083977141388149462-7970548816943976493?l=literaturarevistadoescritor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://literaturarevistadoescritor.blogspot.com/feeds/7970548816943976493/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5083977141388149462&amp;postID=7970548816943976493&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5083977141388149462/posts/default/7970548816943976493'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5083977141388149462/posts/default/7970548816943976493'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://literaturarevistadoescritor.blogspot.com/2008/10/nmero-34.html' title='Número 34'/><author><name>Literatura sem fronteiras – niltomaciel@uol.com.br</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02139040655064684179</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='29' src='http://2.bp.blogspot.com/_-DY4fAQtLiM/TOMWPRdzNeI/AAAAAAAABBU/IGhhAX5kHbU/S220/Apresentando%2Ba%2Bcolet%25C3%25A2nea%2BContos%2BCru%25C3%25A9is%252C%2Bem%2BFortaleza.bmp'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5083977141388149462.post-4271105216281648490</id><published>2008-10-15T14:31:00.000-07:00</published><updated>2008-10-16T09:00:39.001-07:00</updated><title type='text'>Número 33</title><content type='html'>LITERATURA - REVISTA DO ESCRITOR BRASILEIRO N.º 33&lt;br /&gt;Ano XVI, novembro de 2006 a abril de 2007&lt;br /&gt;Iniciada em janeiro de 1992, em Brasília&lt;br /&gt;ISSN 1518-5109&lt;br /&gt;Editor/fundador: Nilto Maciel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE&lt;br /&gt;Editorial&lt;br /&gt;Ensaios e artigos:&lt;br /&gt;Nilto Maciel – Carmélia Aragão: literatura como paixão&lt;br /&gt;Dimas Carvalho – Terras do Brasil: Henrique Moreira&lt;br /&gt;André Seffrin – Regresso à pátria provisória da poesia&lt;br /&gt;Jorge Tufic – Ainda em busca de Jonas da Silva&lt;br /&gt;Fábio Lucas – Dimensões poéticas&lt;br /&gt;Francisco Miguel de Moura – Poesia, o que é, você sabe?&lt;br /&gt;Clauder Arcanjo – Lanternas cor de aurora&lt;br /&gt;Eduardo Luz – O que é teoria da literatura e por que estudá-la&lt;br /&gt;Enéas Athanázio – Ninguém conhece um país assim&lt;br /&gt;Chico Lopes – Nilto Maciel: A dor e o humor das almas penadas&lt;br /&gt;Manoel Onofre Jr. – Licânia&lt;br /&gt;Sylvia Martins – Rita Moutinho escreve uma obra-prima poética que é um tratado sobre o amor&lt;br /&gt;Washington Benavides – Un poeta joven brasileño: Daniel Mazza Matos&lt;br /&gt;Adelaide Petters Lessa – Sobre o irmão amazônico, Alcides Werk&lt;br /&gt;Nicodemos Sena – A função da literatura em face da ética e as novas tecnologias&lt;br /&gt;Francisco Carvalho – Zôo de papel e palavras&lt;br /&gt;Deolinda Marques – D. Xicote: O desvendar do fazer literário&lt;br /&gt;Calmon, sua história e suas lutas – Reportagem de Enéas Athanázio&lt;br /&gt;Ana Miranda – Fortaleza voadora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poemas:&lt;br /&gt;Edson Guedes de Morais – Passante&lt;br /&gt;Batista de Lima – Maré baixa&lt;br /&gt;Clodomir Monteiro – Pazlavra&lt;br /&gt;David de Medeiros Leite – Mulheres do Rio do Fogo&lt;br /&gt;Adelaide Petters Lessa – Aflição do jovem poeta; Cidadã; Velório; Altar; deus-Mãe&lt;br /&gt;Francisco Miguel de Moura – Sonetos brancos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contos:&lt;br /&gt;Batista de Lima – E o boi não lambe&lt;br /&gt;Ary Albuquerque – O monge&lt;br /&gt;Nilto Maciel – A arca&lt;br /&gt;Hiirís Lassorian – Nenhum bocejo&lt;br /&gt;Liana Aragão – Francisco&lt;br /&gt;Glauco Mattoso – As sandálias da humildade&lt;br /&gt;Cláudio Eugenio Luz – Dom; solitude; Depois do shopping, a minha menina chora...; Faixa de pedestre&lt;br /&gt;Ana Cristina Souto – A parede – O portal&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EDITORIAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Idealizada em 1991, na capital federal, Literatura – Revista do Escritor Brasileiro passou por diversas fases. Na primeira, sob a coordenação de Nilto Maciel, atuaram como editores o catarinense Emanuel Medeiros Vieira (do número dois ao nove) e o mineiro João Carlos Taveira (do cinco ao 22).&lt;br /&gt;A segunda fase se iniciou no nº 16, com a publicação de foto do entrevistado na capa. Houve muitas críticas: por que dar destaque a um escritor? Mas alguns críticos logo mudavam de opinião: bastava serem convidados a conceder entrevista e ter o rosto na capa da revista.&lt;br /&gt;A terceira fase principiou com a mudança de domicílio do editor para Fortaleza e a edição do nº 24, que trouxe na capa o enigmático José Alcides Pinto.&lt;br /&gt;Neste número começa a quarta fase: a de redução do número de páginas e, em conseqüência, dos custos financeiros. Assim, o compromisso de publicar entrevistas se encerra aqui e, se acontecerem, não serão mais estampadas as fotos dos entrevistados na capa. A nova capa é criação de Liana Aragão.&lt;br /&gt;Além disso, o número de colaboradores será menor. Apenas os que têm mantido a revista: Ary Albuquerque, Batista de Lima, Clauder Arcanjo, Enéas Athanázio, Francisco Miguel de Moura, Jorge Tufic, Leontino Filho, Nelson Hoffmann e Soares Feitosa. Os convidados também serão poucos. Também não serão publicadas pequenas notícias de livros.&lt;br /&gt;Poderá parecer que se está formando uma igrejinha, um grupo. Na verdade, toda revista precisa de colaboradores permanentes. A nossa, que não tem patrocinadores, sejam empresários ou o erário público; não publica anúncios; não é vendida em bancas ou livrarias; não tem assinantes, a nossa revista é financiada pelos colaboradores. Aqueles escritores que enviam (sem convite) contos, poemas, crônicas, artigos, ensaios e livros a serem resenhados ou noticiados, e se acham “colaboradores”, e querem pagamento de direitos autorais (mesmo na forma de um exemplar), não passam de colaboradores de si mesmos, como diz Soares Feitosa.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NILTO MACIEL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carmélia Aragão: literatura como paixão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As quinze peças ficcionais que compõem Eu vou esquecer você em Paris (Fortaleza: Imprece, Edição do Caos, 2006), de Carmélia Aragão, mostram uma escritora madura. E isso se deve a dois fatores: muita leitura e talento. O primeiro se pode constatar pelas epígrafes (Neruda, Salman Rushidie, Cortazar), pela menção a nomes fundamentais da literatura (Dostoievski, Flaubert, Emily Brontë, Virgínia Woolf, Goethe, George Orwell e outros), sem falar na composição “Página 12224”, de feição policial e ao mesmo tempo fantástica, a nos lembrar “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto.&lt;br /&gt;Como ser madura, aos vinte anos de idade? Ou antes? Pois não se sabe quando as composições de Carmélia (1983) foram escritas. Ora, os exemplos de jovens escritores são muitos. Assim como de escritores idosos que nunca conseguiram atingir a maturidade literária, e morreram inacabados, incompletos, depois de dez, vinte, trinta livros publicados.&lt;br /&gt;Claro, nem tudo é ótimo em Eu vou esquecer você em Paris. Mas o que não é ótimo para uns é aceitável para outros. Como a linguagem das narrativas, ora mais coloquial, ora próxima do rigor literário. O próprio título do livro é frase de uso comum no falar. Isso, porém, já nem se discute no Brasil, desde o início do século XX, desde os modernistas. Ignácio de Loyola Brandão escreveu a obra “Pega ele, Silêncio” (parece poético, mas Silêncio é o nome de um personagem), que deu título a um livro.&lt;br /&gt;As narrativas de Carmélia são densas, mesmo quando os diálogos se estendem. Quase sempre ela se vale da narração e faz uso da economia de detalhes. Não se perde em descrições desnecessárias. Muitas vezes nem enredo há. E, se há, não obedece aos ditames do tradicional “descritivo narrativo linear”. Veja-se a construção de “Seja feliz (fragmentos da felicidade)”, disposta em quatro “fragmentos” independentes, como se fossem quatro histórias. No último, intitulado “O contista”, o narrador se refere aos três primeiros fragmentos: “Sim, um conto novo. Três crônicas que se unem em um conto.”&lt;br /&gt;Apesar da modernidade das narrativas, Carmélia ainda usa o tradicional travessão nos diálogos, assim como os verbos introdutores do relato do discurso, como “dizer”, “afirmar”, “responder”, etc., há muito abolidos na prosa de ficção. O “ainda usa” acima pode ser substituído por “também usa”, pois a contista sabe disso e sabe se livrar dos tais pobres “verbos introdutores”, como se vê em “Quase” e “Felis catus”.&lt;br /&gt;Mas isso é de pouca importância.&lt;br /&gt;E onde vivem os seres fictícios de Carmélia? São quase todos suburbanos, vivem em grandes cidades, embora oriundos de pequenos burgos, como o contista de “Seja feliz” (“Sempre fôramos vizinhos de frente, mas separados pela praça da Matriz. Cidadezinha pequena: ‘Eita vida besta, meu Deus!’”). Andam de ônibus, moram em prédios de apartamentos, caminham por ruas longas, repletas de carros. Vejam esta descrição em “Pulsos intactos”: “Os olhos dele eram azuis refletidos no vidro da sorveteria. Eram azuis sob as janelas dos edifícios, das repartições, das barbearias, dos cafés, das vitrines, das lojas.” Seres perdidos, isolados, solitários. Mesmo quando o ambiente é “uma cidadezinha que vivia em torno de uma biblioteca”, cidade sem nome explícito, a não ser pela letra inicial “C”, do insólito conto “Página 12224”, cujos personagens parecem inspirados em alfarrábios medievais.&lt;br /&gt;Curioso ainda é o grande número de escritores fictícios na obra da contista. Em “Seja feliz” há um contista. Em “2003 (Carmina)” uma professora conhece Marco Santiago, professor de literatura, autor do romance “linear e trágico” Carmina. Em “Página 12224” os personagens “vivem” numa biblioteca, na qual há uma sessão exclusiva de Literatura Baltusanesa, “da tribo Kaywa da extinta Baltúsia”. Em “Meu reino por uma fivela” a narradora participa de um curso intitulado “Mulheres escritoras”, lê O morro dos ventos uivantes, em composição de características policiais. Em “Escrevia e apagava” (título sugestivo para uma história de personagem escritor) a protagonista escrevia contos para uma revista feminina. Em “Quase” a narradora se iniciara como leitora de romances policiais, passara aos “grandes mestres da literatura local, depois da nacional e, por fim, da universal”, estudara “línguas exóticas”, como baltusanês. Em “Filis catus” a mulher que narra se refere a um contista que conhecera e transcreve trechos de um de seus livros. Também os títulos de algumas peças remetem à literatura: “Romance russo”, “Página 12224”, “Escrevia e apagava”, “Crônica do 2º andar”.&lt;br /&gt;Pois essa paixão pela literatura é fundamental para o escritor: para viver, aprender e escrever cada vez melhor. Sem ela, teremos bons médicos, advogados, funcionários públicos, etc, que namoram a literatura nos fins de semana e escrevem de vez em quando algumas memórias ou uns versos capengas. Carmélia Aragão é do primeiro grupo e, sem dúvida, escreverá mais e cada vez melhor.&lt;br /&gt;Fortaleza, março de 2007.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIMAS CARVALHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERRAS DO BRASIL: HENRIQUE MOREIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um romance indígena escrito no século XXI? Diante do possível assombro do leitor perante um fenômeno tão improvável, vale a pena adiantar que não apenas o tema é de rigorosa extração alencarina, como também o estilo reflete em tudo a maneira e os maneirismos do ilustre filho de Messejana. Portanto, trata-se de um livro romântico, com laivos de arcaísmo tanto no léxico como no torneio frásico. Abundam expressões, topônimos e antropônimos de origem tupi, a ponto de o autor achar de bom alvitre colocar, sob forma de apêndice, um glossário no final do volume. Como exemplo do que falamos, atente-se para as seguintes passagens: “Retumba a pocema na ourela infinda do horizonte.” (Cap. XVI) “Ressoa a inúbia...” (Cap. XX) “Encanto nitescente de indômitos e belígeros filhos de Tupã”. (Cap. I)&lt;br /&gt;A história se passa na Serra da Ibiapaba, de onde, aliás, o autor é oriundo. É um livro no mínimo curioso, no sentido em que se contrapõe à ficção realista e urbana que se pratica hoje de forma hegemônica no país. E que por isso mesmo demonstra que os caminhos da literatura são sempre abertos, plurais e conflitantes, ou, em outras palavras, democrático.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANDRÉ SEFFRIN&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regresso à pátria provisória da poesia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após passar uma década sem publicar novos poemas, Espínola retoma lírica amorosa de sutilíssimo toque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde Beira-sol (1997), ou seja, há dez anos, Adriano Espínola não publicava nova reunião de poemas. Nesse tempo, ou melhor, a partir de 1996, an&amp;shy;dou republicando livros antigos, revistos e/ou reformulados, e lançou As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregório de Mattos (2000). Beira-sol é, sem nenhum favor, dos livros mais belos de nossa lírica moderna em língua portuguesa, e acabou por conduzir o autor ao extremo de suas indagações poético-existenciais. Pergunta que me fiz desde aquela época: que caminhos o poeta vai percorrer depois desse livro?&lt;br /&gt;Adriano Espínola aí amargou longas esperas, dis&amp;shy;simuladas em reedições de livros antigos, a exemplo de O lote clandestino (2002). E agora, ei-lo de novo, a compor suas dú&amp;shy;vidas de animal humano e de poeta, com a força que se espera dele, em mais uma de suas viagens de regresso à praia (ou pátria) provisória da poesia.&lt;br /&gt;Formalmente, ele costuma trabalhar com a mesma naturalidade o poema curto, à maneira de Drummond, e o poema longo, de extração whitmania&amp;shy;na. Mas optou, nos dois últimos livros, pelos poemas mais sintéticos, com in&amp;shy;tensidade lírica e por vezes alimentados por um ludismo epigramático. Parece estar em seu grande momento, uma vez que, no ir e vir dos poemas longos – vide Táxi e Metrô, reunidos no volume Em trânsito (1996) –, não consegue evi&amp;shy;tar certos artifícios verbais ao valorizar visualmente, de passagem, palavras que não exprimem o esperado sentimento poético nem alcançam o efeito desejado no interior do poema. Ao contrário, nas pequenas cápsulas verbais de Beira-sol e Praia provisória não andará distante dos melhores poetas do seu tempo, dentro dessa família inquieta e febril que é a sua, ou seja, a dos líricos de hoje e de sempre. É verdade que parte da crítica discorda deste meu ponto de vista.&lt;br /&gt;Ora, nos primeiros livros – princi&amp;shy;palmente em Fala, favela (1998) e O lote clandestino – Adriano Espínola ainda se deixava encantar pelo poema figurativo, dando peso e valor excessivo a determinados versos ou palavras, à sombra dos ventos uivantes da poesia de ânimo social e/ou concretista. Praia provisória o redi&amp;shy;me desta e de outras incursões pouco fe&amp;shy;lizes – não apenas no aspecto formal, mas de fidelidade à sua pegada mais genuína, isto é, a lírica amorosa de sutilíssimo to&amp;shy;que, de pequenas iluminações verbais no branco da página. Assim, os poemas curtos e parte dos poemas longos que escreveu antes de Beira-sol poderão, no futuro, ser encarados como experimentos circunstanciais frente ao que se configu&amp;shy;rou em sua obra posterior.&lt;br /&gt;De fato, ao tomar precavida distância das "marés montantes dos minutos" que o impulsionaram em Táxi e Metrô, Adriano Espínola passou a catalisar o que possui de melhor. E o que seria esse melhor? Ora, a plasticidade orgânica que imprime à matéria de cada poema, o cuidado que demonstra ter com a concavi&amp;shy;dade do silêncio entre uma palavra e ou&amp;shy;tra e com a modulação de voz que cada poema exige de modo diferente, tudo isso aliado ao domínio extraordinário das formas fixas, entre as quais o soneto, para o qual se preparou como poucos de sua geração.&lt;br /&gt;Também como poucos de sua geração, em Praia provisória ele se revela ainda um autor mentalmente afinado com as refe&amp;shy;rências à poesia universal. Como quem estivesse a passar a limpo seus cadernos, e não apenas os seus – também os cadernos dos poetas que devemos homenagear, assim como os daqueles que devemos apenas lembrar para não repetir. Com a necessária visão retrospectiva, procuran&amp;shy;do reduzir (se é que cabe o raciocínio) de maneira amplificada esse passado que o acompanha na realização de cada poema, Adriano Espínola encarou frontalmente o seu drama. Drama que é afinal o de todo grande poeta: exorcismar obsessiva&amp;shy;mente velhos fantasmas – que o digam os poemas da seção ''Os hóspedes" –, seus e de outrem, para compor enfim os poemas que a todo instante podem reinaugurar o mundo e a poesia. Com essa alta consciência do oficio, ele escreve poemas como "Verão", que, na abertura do livro, converte-se em uma iluminura que tangencia a criação de mestres do ní&amp;shy;vel de Joaquim Cardozo e Mário Quin&amp;shy;tana: "O sol é grande e breve./ A praia e as aves, livres./ A tua carne, alegre. / Sim, sobre ela eu lerei todos os livros."&lt;br /&gt;Destacaria muitos outros poemas que se fixam na memória com suas gemas ir&amp;shy;repetíveis – "Culinária", “A cebola", "Quí&amp;shy;ron", "Dante", "Os mortos", "Pacto" – sem abdicar, é claro, de nenhum outro ao lon&amp;shy;go do livro. Parodiando Vieira, podemos dizer que Adriano Espínola prefere ver as palavras não como palavras, mas como estrelas. E é com elas que ele prepara si&amp;shy;lenciosamente, todos os dias, a sua lição de coisas: "Sou todo ali:/ a outra coisa e a coisa-em-si,/ neste agora múltiplo e uno,/ luz concentrada/ entre o mito e o minuto,/ o cálculo e a loucura,/ a flor e o fruto,/ juntos:/ amorosamente. / Aqui./ no presente./ Mais nada." Sem dúvida, uma iniludível profissão de fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Resenha publicada na revista Entrelivros, março 2007, do livro Praia Provisória, de Adriano Espínola, Topbooks, 116 págs)&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge Tufic&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda em busca de Jonas da Silva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de conhecermos o modernismo, vanguardas, retaguardas, tendências, rumos, entre outros caminhos ou prescrições para a leitura de poesia, as reverências da turma de 1950 a 52 (a Caravana dos Monges era formada por Alencar e Silva, Farias de Carvalho, Antisthenes Pinto e o redator destas linhas) voltavam-se indistintamente para simbolistas e parnasianos, pré-modernistas e modernistas da primeira hora, neoparnasianos e modernistas independentes dos anos trinta, como Jorge de Lima, Tasso da Silveira e Murilo Mendes.&lt;br /&gt;É claro, pois, que nossa formação literária bebia nos clássicos e românticos.&lt;br /&gt;Daí a recusa da plêiade em seguir o verso livre, mas tendo por critério estes princípios de Fausto Cunha: "Se é poesia não é oposta nem contrária à outra; se não é poesia, então pouco interessa de que lado está.” (“Os homens não estão calados”, Correio da manhã, 16.06.1963, Rio de Janeiro). Nosso interesse maior educava-se, portanto, na valorização da mensagem poética que se impunha acima dos “atritos de técnicas, de processos de comunicação, etc” (idem). Não é que fôssemos dogmáticos, senão quando estivéssemos diante de certas extravagâncias cometidas pelo Grupo Anta, o Verde Amarelo, entre vários rebentos estéticos de 22. Depois, sim, entenderíamos melhor.&lt;br /&gt;Foi, exatamente, neste período (1953 a 54, ano da fundação do Clube da Madrugada), que os sonetos de Jonas da Silva passaram a dominar as tertúlias noturnas da junta, ora reunida em bares e cafés da época, ora no "porão" do Anísio Mello, encontros esses evocados por Guimarães de Paula num depoimento que nos dera para o livro de memórias A Casa do Tempo (1987).&lt;br /&gt;Jonas da Silva viria a ser nosso patrono na Academia Amazonense de Letras, Cadeira nº 18, vaga pelo trespasse de Aristófano Antony, e onde fomos recebido pelo atual presidente do Sodalício, poeta Elson Farias, em 20 de agosto de 1969. Os dados críticos e biográficos do autor de Uhlanos projetavam-se além das fronteiras amazônicas, restando-nos, apenas, naquela embaraçosa ocasião, o arrojado esforço de construir um discurso de posse ao aconchego unicamente de poucas (e já conhecidas) referências de seus raros contemporâneos. E pensar que viajáramos com a viúva do poeta, em 1953, a bordo do transatlântico Santos, da Booth Line, de Manaus ao Rio de Janeiro!&lt;br /&gt;É Sânzio de Azevedo, professor da UFC, quem, no centenário de Uhlanos, segundo livro de Jonas da Silva, traz-nos revelações inéditas acerca de sua "bizarrice decadentista". “Quase esquecido” é o título do artigo de Sânzio, publicado na revista Singular, nº 9, de setembro de 2002. Dele, vale a pena transcrever alguns trechos: "Andrade Muricy, que informa haver o poeta participado do Simbolismo na Bahia, fala do brilho de sua poesia e conclui ter sido ele ‘um simbolista de transição’ (Panorama do movimento simbolista brasileiro, v. 2, 1952). De transição porque, nas Czardas, o poeta apresenta vários poemas de caráter parnasiano. Como se sabe, não era raro um autor passar de uma a outra tendência, dada a contemporaneidade das duas no Brasil. (...) Mas o que está em causa nesta nota é o livro centenário de Jonas da Silva, Ulanos (na grafia da época Uhlanos, ou seja, lanceiros do antigo exército alemão). (...) Não conhecemos o primeiro livro do autor, mas Péricles Eugênio da Silva Ramos observa: ‘Ânforas não é um livro simbolista, mas Ulanos (...) já é paroxisticamente do novo credo’. (Poesia simbolista, 1965). (...) A bizarrice decadentista de Ulanos começa pelo retrato do poeta, cuja cabeça aparece desenhada, de olhos fechados, sobre uma bandeja, lembrando a degolação do Batista, um tema caro aos da corrente, desde Oscar Wilde."&lt;br /&gt;Sânzio de Azevedo, tanto quanto nós, só tivera acesso aos livros Uhlanos e Czardas, mas deve ter lido ou ouvido recitar sonetos de sua obra estreante, Amphoras, de 1900, alguns destes incluídos em seu volume póstumo de 1923. Seria, portanto, Amphoras, e não Uhlanos, a obra mais representativa de Jonas da Silva, seja ela parnasiana ou simbolista, cujo centenário ocorrera em 2000. Em vez de Amphoras, porém, foi Czardas o escolhido para uma reedição da Valer, a qual, se não estou enganado, faz parte da Coleção intitulada valores da terra.&lt;br /&gt;Foi deste mal, finalmente, que padecera meu discurso de posse na AAL, e padece, também com isso, o poeta Jonas da Silva, ceifado pela raiz por obra e graça da usura balzaqueana de certos bibliófilos estéreis. Que nunca emprestam livros, porque foram roubados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aristófano Antony&lt;br /&gt;Estatura baixa, calvo, gordo. Tinha a voz poderosa, máscula. E um sorriso que nunca se completava. O olhar oblíquo, penetrante, passava-nos força, modéstia, cortesia, vivacidade e método na arte da palavra, na estética do sonho realizado, na feitura preconcebida daqueles três dedos saborosos de crônica, de artigo ou de ensaio que nos oferecia, diariamente, nas horas vespertinas, nas páginas densas do seu, também vespertino, jornal A Tarde. Referimo-nos ao jornalista Aristófano Antony, que tivemos a honra de suceder na Cadeira iluminada de Jonas da Silva. E a quem devíamos encontrar, rapidamente, em seu trajeto freqüente, todos os dias, entre as ruas de Rui Barbosa e Lobo d’almada, esquina com a Henrique Martins, pelas quais transitou, durante longos anos, a pé, naquela Manaus de janelas sorridentes, calçadas amplas, sonolentos lampiões pendentes ainda dos postes de ferro.&lt;br /&gt;Mestre de gerações, contemporâneo de verdadeiros azes da notícia e do editorial que elucida os pontos duvidosos da coisa pública, do artigo do fundo e da matéria a que muito depois se dera o nome de “jornalismo cultural” ou jornalismo fenomenológico, Aristófano Antony admitia em seu jornal, isento, tanto quanto possível, da massa bruta dos incompetentes, plumitivos da cepa de Ramayana de Chevalier e Ubiratan de Lemos, e amigos, igualmente talentosos, como Jovino Lemos e Caio Góes.&lt;br /&gt;O Aristófano Antony que conhecemos, a bem dizer, mais parecia uma entidade doméstica capaz de, ao mesmo tempo, cuidar dos interesses do povo, do Estado e da Nação, frondejar-se nas letras de fino cultivo literário, e – fato admirável! – assumir o comando de associações de classe e clubes esportivos como foi o Rio Negro, entre diversos outros de sua mocidade. Teria que ser ele, neste caso, a chave mestra que nos levara a descobrir, mesmo veladamente, o Jonas da Silva que, embora tivéssemos a Biblioteca Pública e os arquivos da AAL, pouco se desvelara por conta, falavam, de sutis cleptomanias livrescas, em nome, quase sempre, da falta de segurança do prédio que nos abriga, inclusive, das chuvas ácidas e do apocalipse das Cidades de Deus.&lt;br /&gt;Contornos, ora vagos, ora nítidos ou enfáticos da estréia promissora de Jonas da Silva, a começar pela exata grafia do titulo de Amphoras, conforme era costume em 1900, harmonizam-se, em seu discurso de posse, ao exame ou à correta sintonia que se estabelece entre aquele que parte, de acordo com as normas acadêmicas de nossa imortalidade, e o que fora escolhido para sucedê-lo, cabendo a este e aos futuros imortais a tarefa de alimentar, com a palavra, a palavra do outro. (É a centelha mágica que fomos encontrar no livro de memórias de Antonio Vilaça: a palavra que exuma; o sopro que modela).&lt;br /&gt;Sobre Jonas da Silva nos confia Aristófano Antony: “O lirismo de Jonas da Silva, nas Âmphoras, não possuía nada de frívolo ou de choramingas, atestando, porém, nas imagens e nos conceitos, um elevado cunho de sensibilidade e um nítido sentido de arte, no desenhar das paisagens e nas puras manifestações da alma," etc.&lt;br /&gt;Sobre Uhlanos, escreve: "Uhlanos projetou mais ainda o jovem poeta, porque, nas suas páginas havia não apenas o lirismo sadio, mas o romântico e o místico aperfeiçoados por uma estesia mais sazonada. A musicalidade dos versos, as concepções arrojadas, as nuanças da natureza, davam à sua obra uma fisionomia nova, mais atraente talvez. E os seus sonetos passaram a ser recitados", etc.&lt;br /&gt;Sobre o seu último livro, resume: “Czardas não teve, portanto, a repercussão dos dois primeiros livros do vate. Era, isto sim, o crepúsculo de Jonas da Silva, o seu doloroso declínio.”&lt;br /&gt;Traduzindo o viés naturalista da crítica de então para o catatau uspiano da modernidade, chega-se aos mesmos resultados, ou seja, Jonas da Silva partilhou, com talento, das duas correntes então em voga no princípio do século XX: o simbolismo e o parnasianismo. Em qual foi melhor? Como simbolista, uns o julgam superior ao B. Lopes. E como grande poeta que ele foi, alguns o colocam como precursor ou fonte de inspiração do nosso singularíssimo Augusto dos Anjos. Modelos semânticos de época? Coincidência em certos pontos de encontro? Quién lo sabe?&lt;br /&gt;Diante do que se vê, Jonas da Silva nos lembra um velho apólogo sufi dos cegos e o elefante. Para cada um deles (os cegos), a parte que suas mãos podiam tocar, estas, sim, é que eram o verdadeiro elefante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Este artigo ou ensaio foi publicado num outro lugar, mas eivado de graves incorreções).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fábio Lucas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIMENSÕES POÉTICAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flávio Moreira da Costa, narrador e ensaísta, atira-se no grande mar da poesia e, evocando Livramento, vai além das espumas flutuantes. Brinca de esconder-se atrás das palavras.&lt;br /&gt;Nauro Machado, um dos mais prolíficos poetas brasileiros, explora a solidão sob o ângulo do exílio na pátria em que nasceu. O roteiro de sua fantasia cinzenta é São Luís-Lisboa.&lt;br /&gt;Ronaldo Werneck explora as florações noturnas da vida boêmia, ao mesclar jogos verbais trilíngues e emoções triangulares do tipo Paris-USA-Cataguases. Ampara-se nos signos lítero-visuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FLÁVIO MOREIRA DA COSTA: O ESPETÁCULO DA POESIA ESCONDIDA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flávio Moreira da Costa nos apresenta, agora, surpreenden&amp;shy;temente, Livramento, a poesia escondida de João do Silêncio – Trilogia de Andara (Rio, Agir, 2006). Reunião de poemas que foi compondo ao longo da vida. Restos de gaveta? Ainda que sejam, comprem função diferente daquilo que o autor vinha construindo em prosa corrente. Outorgam uma voz nova à polifonia do escritor.&lt;br /&gt;Sabemos que poema no fundo da gaveta, sem segundo leitor, sem público, é coisa de grafômano. FMC batizou esse maníaco de João do Silêncio. A análise do criptônimo é simples: o poema, sem o olhar do outro, sem leitura que ultrapasse a do autor, é silêncio. Silêncio de um joão qualquer, emudecido. O poema guardado é potencial de leitura, não é leitura. Não atinge o outro, quando apenas se dá ao olhar complacente do criador. Garrafa atirada ao mar da aventura, refém absoluto do acaso.&lt;br /&gt;Como salvar os vários poemas do naufrágio ou do silêncio? FMC adotou a costumeira estratégia: 1) organizar o conjunto em grupos temáticos; 2) dar publicidade à coletânea, após conferir-lhe título. Daí Livramento. No ato da publicação, portanto, de entrega ao público, a poesia deixa de ser "escondida". Começa aí o capricho do grafômano. É e não é poeta propriamente dito. Optou por conferir visibilidade ao outro "eu", entremostrado. Saindo das sombras, aos leitores diz: fartem-se.&lt;br /&gt;Os truques se sucedem na oficina do autor. Vejamos a trilogia. Poeta que se quer, tem arte poética, remissão a co-autores influentes, pratica a metalinguagem. Daí o poema inicial: "Pequeno manual do mágico amador". Aí tem coisa. O poema pede passagem e vai em frente. O tapete mágico é a auto-ironia, o riso antecipado. De&amp;shy;pois de uma série de versos anafóricos, puxados pelo verbo "tiro" como expressão da busca das origens, vem a chave-de-ouro: "tiro/e/queda." O jogo da ambigüidade a entreabrir as faces do possível. "Tiro”, de verbo, de verbo, passa a substantivo. Ou vice-versa.&lt;br /&gt;Mas o primeiro poema não termina aí. Calca-se no segundo, "Eu e o poeta". O "eu" receia de si, confessa-se e: "ai de mim".&lt;br /&gt;Vem, a seguir, a cláusula declaratória: "Poemas perdidos". Nova metalinguagem. O poema se declara perdido, mas vai em frente, com fogos de artifício, magias. O ornato que é essência, arte do barroquismo. Uso, abuso de jogos verbais.&lt;br /&gt;Chega-se à possível finalidade: a origem, Livramento! Ambigüidade do nascimento: Livramento-onomástico, Livramento-cidade, com letra maiúscula, de onde proveio o poeta. Livramento como expressão do corpo materno. DeIe, poeta se livra a mãe. Dela se livra o filho, no grito primal, condenado a caminhar com as próprias pernas. Nasce o poeta-andarilho, cuja primeira matriz literária já fora denunciada na dedicatória: Mário Quintana. O repetido poema, de João do Silêncio, agora falante: “A palavra Vento,/ a palavra Liberdade/cabem nesta palavra:/ Livramento." São cinco poemas &amp;shy;confissão: gaúcho, nascido em Santana do Livramento. Depois o poeta começa a viajar pelo mapa-múndi, pelo real-geográfico e pelo real-idealizado, memória de leituras. Tudo à revelia dos tempos, pois os poemas se sucedem sem ordem cronológica, pois a lógica é a da construção da obra Livramento.&lt;br /&gt;Chega-se a seguir a “O lado de dentro, de fora”, palmilhando a trilha aberta por Fernando Pessoa, já posta de antemão em epígrafe no livro. Lida-se com as experiências artísticas do poeta, Mozart, Pound, Manuel Bandeira, Sá-Carneiro, etc. De qualquer forma, canto dolorido, “de qualquer forma, serei o perdedor”, dirá no poema “O silêncio é uma música de Mozart”.&lt;br /&gt;Não cessa aí a celebração ao rito iniciático. Tem "o sol dos sonhos" buscado em palavras de Miguel Torga: “O sol dos sonhos derreteu-lhe as asas", a sugerir o desafio heróico de Ícaro. A cordilheira da arte poética vai-se a desdobrar em plurais indagações. Agrega-se a tudo o "Poesia Clandestina", as paródias, as paráfrases. Até de Allen Ginsberg, da geração “beat”, tão do agrado do prosador Flávio Moreira da Costa, que também teve os seus momentos de Walt Whitman, de Augusto dos Anjos, de João Cabral, de Salvatore Quasimodo, Cernuda, Joyce, Mário de Andrade, Vinicius, Borges, Donne, et caterva.&lt;br /&gt;Tudo em altas nuvens de fantasia, em alto arranjo poético, em feliz realização literária. FMC passou pelo teste da poesia. Não estará mais escondido nem calado. Livrou-se do silêncio, exposto às palmas e apupos do espetáculo a que se deu. Para culminar, Livramento apresenta um posfácio de Carlos Felipe Moisés, datado de Berkeley, fevereiro, 1978, quando o poeta FMC ensaiava seus primeiros vôos. Ícaro indeciso. Mas Carlos Felipe Moisés viu bem que o alto poder comunicativo dos poemas de FMC advém de suas contradições e de sua multiplicidade, pois o poeta é arrojado e, ao mesmo tempo, retraído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NAURO MACHADO E A PÁTRIA DO EXÍLIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que faz o poeta Nauro Machado na derradeira coleção de versos reunidos sob o título Pátria do Exílio (S. Luís, Lume Edições, 2007)? Cadenciado pelo ritmo da redondilha maior, o mais popular da língua portuguesa, converte os heptassílabos no suporte de uma inquietação espiritual que se tem denunciado desde os primórdios da elocução poética do autor.&lt;br /&gt;O formato circular, repetitivo, dos segmentos expressivos delega ao leitor o encargo de elucidar os traumas que cercam a consciência criadora do poeta. Questiona, o autor, a origem do próprio nome, como se fosse um Demiurgo desesperado que hesitasse entre variações onomásticas: Nauro? Mauro? Maura? Mouro?&lt;br /&gt;O retorno obsessivo dos mesmos temas opera simultaneamente o efeito mnemônico e a abertura ao intérprete da preocupação com o drama humano que assedia a expressão.&lt;br /&gt;A reconstrução catársica do passado oferece ao poeta o leit-motiv do tópico ubi sun, para espanto do ser lírico que reconhece o inexorável da ausência das pessoas queridas, mitigado pela construção textual. A palavra re-presentifica as perdas, traz do vazio ou do esquecimento a iluminação que se perdia nas brumas do pretérito ou nos arcanos do inconsciente. O poeta, assim, restaura o discurso-reparador. Como ele próprio diz: “Ó memória como um mar/Saindo eterno de água escura”. E passa a enumerar o que se perdeu.&lt;br /&gt;As variações se revelam múltiplas. A cidade de São Luís, por exemplo: “São Luís, lepra de um sapo” (p. 60), já se mostrara: “Vivo velho em São Luís/Como outrora a amei e quis” (p. 34).&lt;br /&gt;O aspecto elegíaco expõe-se a cada momento. Espaços (o eixo São Luís/Lisboa) e tempos se conjugam para acinzentar o canto: espaços, tempos e também experiências emocionais, de que a literária é a mais pungente (vg. Fernando Pessoa). Em síntese, no dizer do poeta: “Todo passado é o presente/De um futuro em mim já morto” (p. 82).&lt;br /&gt;Para melhor entendimento, reproduzamos toda a sextilha:&lt;br /&gt;“Se Lisboa está à minha frente&lt;br /&gt;E São Luís é o meu porto,&lt;br /&gt;Se eu só viajo na mente&lt;br /&gt;Que é o meu real aeroporto,&lt;br /&gt;Todo passado é o presente&lt;br /&gt;De um futuro em mim já morto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cerne da tudo é a solidão. A mais profunda e radical, aquela que conduz o poeta a clamar-se em exílio no próprio berço natal. O futuro? Tema recorrente da espera fatal: “Deixem-me sonhar meu sonho/Antes do sono final!” (p. 44).&lt;br /&gt;Pois, na concepção deceptiva de Nauro Machado, o ser não se realiza no período de espera, na travessia, como postulou Guimarães Rosa, mas estará sempre incompleto até a hora final: “Ninguém dirá quem eu fui/Se eu próprio não sei quem sou.” (p. 51). Parece dizer: perante o juízo interior e a razão externa, o poeta não se salva. Mas, na história humana, o discurso que transporta a mensagem negativa, constrói igualmente a reputação do poeta, uma vez que a enunciação consagrada do exílio no âmbito da pátria equivale à conquista da glória artística. É o desafio à morte pelo esquecimento. Trata-se, para o escritor, do exílio para onde a morte não chegará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “NOITE AMERICANA” DE RONALDO WERNECK&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como arbitrar o sentido de Noite americana/Doris:day by night (Rio/Cataguases, Íbis Libris/Poemação, 2006) de Ronaldo Werneck ? Forte pressão nostálgica inunda o conjunto de poemas, numa reminiscência signo-existencial que remonta de Dante e chega às vanguardas. Lida com as memórias, conscientes ou inconscientes, do berço natal até a embriaguez da vida noturna. Tudo em busca de algo que não existe e testemunha os limites da espécie humana.&lt;br /&gt;Das belas epígrafes que presidem alguns textos, talvez a mais legítima seja aquela de Antônio Maria, que bate “na eterna procura/de alguma coisa/que não deve haver.” (p. 159).&lt;br /&gt;A nova obra de Ronaldo Werneck refaz a conjunção de imagens visuais (foto-montagens) e literárias (lirismo poético-metafórico). Tudo com o vigor e o acerto do entusiasmo e do poder criativo.&lt;br /&gt;Tudo é falso e verdadeiro naquela versão do erotismo day by night. Nunca o poeta se encontrou tão bem nos seus elementos de composição. Noite americana não passa de uma ressurreição. O tríduo musical (jazz), verbal (experimentalismo morfo-sintático) e sensorial (lírico-erótico) se recompõe. O poeta em alta velocidade. Além disso, a ilusão cinematográfica da noite americana (Truffaut) se faz presente.&lt;br /&gt;Que se pode encontrar no subsolo da obra de Ronaldo Werneck? O poeta redime o trocadilho, usado sem pobreza de espírito. Em “dark/drunk”, por exemplo, temos um caminho/descaminho que vai da bela imagem do motor-de-arranque até o desprezível “motor de araque” (pp. 26-29).&lt;br /&gt;O palavrão assumido é geralmente bem colocado, sem intenção de chocar. A rima por vezes aponta com verve circense, saudável, mais para rir e alegrar. As aliterações se encadeiam de modo funcional. O espaço gráfico é utilizado sem exibicionismo sectário. O poeta se vale da tentação do olhar-cinema (movimento) e do olhar-retrato (repouso-investigação) para atrair o leitor. De tudo resulta um lirismo de fina tessitura, de quem se apóia em Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa.&lt;br /&gt;O percurso imaginário dos poemas faz a viagem Paris-N.Y. Daí, os idiomas afluentes: Francês e Inglês. Chega-se ao Rio de Janeiro via New Orleans (Paris-Texas?). Os saltos mais ousados dos espetáculos, do cabaret ou da buate, são os vôos Cataguases/Montmartre.&lt;br /&gt;Necessariamente os cicerones serão Virgílio, Jean-Paul Sartre e Rosário Fusco. Ora um, ora outro, conforme a circunstância. Para o itinerário da “noite americana” (Doris:Day-by-Night) aconselha-se Hollywood-Truffaut.&lt;br /&gt;O livro de Ronaldo Werneck é, portanto, para ver, sentir, co-participar. Evoca um tempo que se despede. Quem diz que a poesia morreu na grande aldeia global, fria, pragmática e cruel, é porque só lê notícias de jornal. No Brasil, até os mestres da prosa, Millôr Fernandes, Luis Fernando Veríssimo e Flávio Moreira da Costa não resistiram à expressão poética. Ronaldo Werneck já é poeta reincidente.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Miguel de Moura*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POESIA, O QUE É, VOCÊ SABE?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia é a primeira e principal forma (ou fôrma) literária. Antes, todos os grandes livros da humanidade (dos Vedas à Bíblia) foram escritos em poesia, a sobrevivência está nos versículos bíblicos e nos poemas da Ilíada e da Odisséia, de Homero. Ao contrário da prosa, a poesia não anda em linha reta até o fim. Verso é quando a linha muda, vai para a seguinte, começando do lado esquerdo. Verso é o outro lado da moeda. Figurad&lt;a name="_Hlk160374220"&gt;a&lt;/a&gt;mente é também a outra maneira de expressão do homem, outro modo de se ver o mundo.&lt;br /&gt;A poesia faz bem à alma, ao espírito e, assim, também ao corpo. Têm-me perguntado constantemente o seu significado e para que serve. E eu explico que, do ponto de vista prático, a poesia não serve pra nada, daí por que os poetas são tidos como pessoas anormais, quando não loucos. Eles sentem mais, preocupam-se com o que o homem comum não se preocupa, têm o sexto sentido muito aguçado, daí a inspiração. Entretanto, aqui vai um pequeno aviso: A inspiração é apenas um flash, um segundo do espírito criador; o resto é transpiração, trabalho, determinação. O homem comum admira a natureza, um jardim florido, artes como a dança e a música, gosta do céu, do sol, da lua e das estrelas, sem saber o que significam nem para que servem. São apenas atitudes poéticas, ele pára por aí mesmo. Nós, os poetas, vamos à língua e procuramos como expressar melhor esses e outros sentimentos mais fundos, transmiti-los no seu mais alto grau e com o menor número de palavras, dentro da língua padrão e até extrapolando-a gramaticalmente pelas chamadas licenças poéticas; falo, essencialmente, daquelas do reino da Retórica (hoje Estilística): metáforas, metonímias, símbolos, antíteses, apóstrofes, hipérboles, paradoxos, prosopopéias e tantas outras imagens novas ou já em desuso, desconcertantes, que apenas os escritores mais criativos, em algum momento, captam para a sua escrita. São as figuras de linguagem. Há também as figuras de gramática como as elipses, metaplasmos, hiatos, diéreses, epíteses, apócopes, aliterações, onomatopéias, assonâncias, anástrofes, pleonasmos e muito mais.&lt;br /&gt;Entrementes, com o conhecimento que os estudos lingüísticos nos proporcionaram, fala-se hoje também em intertextualidade e intratextualidade. Esta última se apresenta no conteúdo, nada mais é do que a paráfrase, ou provém de perigosas influências de leituras mal digeridas reescritas; maldosamente, podem dar até no detestável plágio; nosso excelente poeta Raimundo Correia sofreu muito pela confusão que lhe arrumaram os críticos, mas só fizeram aumentar sua fama, como se verificou pelo soneto “Mal Secreto”, talvez um dos dez mais conhecidos da literatura brasileira. Porém, a intertextualidade se mostra na forma e é tão comum hoje, que se usam palavras, frases expressões de outro escritor mais conhecido sem usar aspas e nem ao menos citar o nome do autor. Pelo visto o plágio é um vício hoje abandonado. É uma pena. E essa prática já foi validada pela nova ciência que se chama Lingüística, mais festejada do que ontem a Retórica, de onde vem a maior parte da nomenclatura de termos usados na crítica e na estilística, nas análises de textos e nos seus desdobramentos.&lt;br /&gt;É assim que o poeta vai renovando a língua, criando novos termos e novas expressões, ressuscitando o que ficou no esquecimento, tudo isto para uma linguagem que enriqueça a comunicação da arte, que pode parecer ilógica e não objetiva, tanto quanto mais se eleva em emoção e sentimento. No fundo, o poeta consagra aquele adágio de que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.&lt;br /&gt;“Ah, mas como poesia é difícil de ser entendida! Se fosse como a música popular, ainda bem” – alguns arriscarão a objetar-nos.&lt;br /&gt;Sim, certamente, na poesia e na música populares (falo nas letras apenas) encontram-se imagens que são poéticas, líricas, e só. Se essas letras são feitas por um Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto, tudo bem. Isto só aconteceu no Tropicalismo, momento artístico que já passou, embora tenha deixado sua marca na música e na poesia. Mas nem se pense que todas as composições da música popular sejam poesia. A poesia está ali por exceção. Outra coisa: por melhores que sejam os versos de um compositor, quando passados para a música já não são mais poesia, são música, evidentemente. E se se baseiam em poema de poeta-escritor, esses versos são adaptados ao ritmo da música. O ritmo, a sonoridade, o acento tônico, as imagens do escritor são diferentes e muito mais bem criadas e recriadas.&lt;br /&gt;Ao candidato a poeta, recomenda-se que esqueça a música popular, digo suas letras, pois todo poeta gosta de música, a despeito da declaração de João Cabral de Melo Neto: “não gosto de música”. Enquanto escreve, esqueça os contemporâneos e que vai escrever o que sente, só o que sente. “Tenha apenas duas mãos e o sentimento do mundo.” O poeta sente por si e pelo mundo. São de bom alvitre, para quem quer começar, os versos de Carlos Drummond de Andrade, tanto os citados acima quanto o “não faças versos sobre acontecimentos.” Também os de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente.”&lt;br /&gt;Poeta, não creia na objetividade, naturalidade, verdade da poesia. Creia na emoção que possa despertar, através da boa escrita, da música das palavras ressoando na alma. Poesia não é lugar para política, dogma, teoria, religião ou conceitos filosóficos que não sejam surpreendentes e novos dentro do contexto. Poesia é lugar de emoção pela palavra.&lt;br /&gt;Agora, falando da poesia como poema, como um objeto, para uma visão didática, sua classificação geral compreende três ramos: épica, lírica e satírica. Dentro dessa classificação, aparecem, atualmente com freqüência, as seguintes formas fixas líricas: o soneto, a trova, o haicai, as sextilhas, sextinas e décimas, as odes e os epigramas, os epitalâmios e vilancetes, os rondós, as baladas e os madrigais etc. todos da ordem lírica. No terreno da épica, resta o poema épico, já francamente em extinção. Em nossa língua, são citáveis o Camões de Garret, O Caçador de Esmeraldas de Olavo Bilac e Navio Negreiro de Castro Alves. Há outros, porém de menor importância, na minha opinião. No terreno da sátira, sobram o poema-piada, os epigramas, as paródias e o poema herói-cômico.&lt;br /&gt;Se o poema é livre na estrofação, nas rimas e na métrica chama-se moderno. Mas nós, os poetas clássicos (em oposição aos populares), só admitimos como prova de que o candidato a poeta já o é, se for capaz de fazer um soneto razoavelmente bom. No entanto, a poesia não se detém apenas na forma. Sem conteúdo, simbologia e imagens, não haverá poesia. Todo poema, mesmo o moderníssimo, possui uma chave de ouro, termina fortemente como começa e como se desenvolve, ou mais. Provaremos isto lendo os grandes poetas: Camões, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Mário Quintana, Guilherme da Almeida, Olavo Bilac, Raimundo Correia, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Gonçalves e tantos outros cujo elenco não caberia neste ensaio.&lt;br /&gt;Poesia é a linguagem da emoção e do sentimento, feita para ser, sobretudo, lida e fruída em silêncio. Poesia é também, no entender de Schiller, “uma força que atua além e acima da consciência, uma ponte entre o subconsciente do poeta e o subconsciente do leitor.” Se o poema for recitado em voz alta, passa a ser meio-teatro, se for cantado é meio-música/meio-poesia, se for exposto como fizeram os poetas concretistas e visuais é meio-quadro/tela/aquarela/Cartum etc. Além do livro, a revista e o jornal são meios de divulgação da poesia para a sua integral fruição. Com a modernidade, o cartaz (outdoor), os painéis, as exposições, inclusive através de devedês, televisão e internete (saites) fazem um bom trabalho, na maioria das vezes, na busca de divulgação dos poetas e da poesia. Porém uma coisa é divulgar, outra é fazer. Quem escreve ao computador, pela facilidade, pode crer que encontrou o céu para a poesia. Não precisa mais sofrer, amar, ser gente, ir pra rua; basta ficar-se comunicando virtualmente. Ledo engano! E o ledo de Camões está muito bem colocado aqui. Também, depois da internete, dizem que o livro vai acabar. Não acredito. A internete é um meio descartável como todo produto ultra-moderno, Os livros continuarão nas bibliotecas pelos séculos, não importa se em papel ou micro-filmados. E a literatura continuará existindo, tanto em poesia quanto em prosa de ficção. Noutro lugar já expliquei que os dois gêneros se reúnem num só: o instituto da literatura, com sua linguagem, a literariedade. A poesia de hoje é menos rica de personagens e o principal não é o outro, eis tudo o que a separa da prosa. Não há literatura nenhuma sem poesia. No princípio era a poesia, atestam os livros acima mencionados e também outros que os perseguiram ou já existiam: chineses, gregos, troianos, etc. Enquanto houver alguém que queira comunicar-se com alguém de forma bela, agradável, ritmada e por imagens e figuras metafóricas, com a palavra integral, a poesia resistirá. Resistirá até o fim dos tempos. Se “no princípio era o verbo”, no fim também será o verbo e não a verba como hoje, a mercadoria sem alma – apenas pra nos encher o saco sob a forma de presente de natal e de outras datas que o mercado inventa. Não me venham dizer que a poesia é uma mercadoria inferior, destinada a acabar antes do homem. Frei Beto, na sua sabedoria, disse: “Não há desvario maior do que dizer que o machado é inferior ao computador. Tente cortar lenha com um computador!”&lt;br /&gt;No mundo capitalista, neoliberal, a poesia pode ser uma mercadoria, quando está no livro ou nos seus melhores meios de comunicação, mas é uma mercadoria altamente espiritualizada como o homem. E livre.&lt;br /&gt;____________________&lt;br /&gt;*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, mora em Teresina. franciscomigueldemoura@superig.com.br&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clauder Arcanjo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lanternas Cor de Aurora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Balançam palmeiras&lt;br /&gt;as palmas. Nas tardes calmas&lt;br /&gt;cantam lavadeiras.&lt;br /&gt;(Paisagem, de Sânzio de Azevedo)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sânzio de Azevedo e seu livro de haicais. Lanternas Cor de Aurora. Um poeta em pleno domínio do seu ofício. Maduro, sério, não afeito a arroubos e invencionices, os quais, muitas vezes, mais do que chocar a desavisada platéia, cometem o leviano desatino de macular o puro tecido lírico.&lt;br /&gt;Nesse volume, encontro-me com o mestre da versificação, a me demonstrar, de forma cabal e simples, que a arte poética, além de seu inquestionável conteúdo, merece o envelope galante da boa forma. Ao se estar frente a ela, toda e qualquer mácula de desrespeito será (ou deverá) ser castigada, a despeito da arrogância reinante no mundo dos pseudo-poetas.&lt;br /&gt;E como é bom saber que ainda há quem labute com a boa métrica! Com mais de vinte livros publicados, na sua grande maioria de ensaios, Sânzio de Azevedo, até bem pouco tempo, se intitulava um poeta bissexto, mesmo com três belos livros de poemas já publicados: Cantos da Longa Ausência (1966), Canto Efêmero (1986) e Cantos da Antevéspera (1999). Seus versos figuram em diversas antologias, bem como em periódicos de vários Estados do Brasil e até do exterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NUVENS&lt;br /&gt;Dói-nos contemplar&lt;br /&gt;castelos altos e belos&lt;br /&gt;desfeitos em ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O haicai nasceu no Japão, em princípios do século XIII, e foi imortalizado por Matsuo Bashô (1644-1694)... Um poema sintético... dezessete sílabas em três versos (5-7-5), teve razão Eiko Suzuki, quando afirmou que este... ‘pode ser definido com a síntese da síntese’”; avisa-nos no texto de abertura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VELHICE&lt;br /&gt;Um ríctus contracto&lt;br /&gt;agora. O riso de outrora&lt;br /&gt;ficou no retrato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O maior nome do haicai nacional foi Guilherme de Almeida (1890-1969). Em 1936, o poeta paulista introduz nele a rima, “sendo do primeiro verso com o terceiro, e rima interna (leonina) no segundo”. Um mosquito que se apanha no ar, coloquialmente era como Guilherme gostava de definir um haicai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NORDESTE&lt;br /&gt;Sol-pôr. Vento brando.&lt;br /&gt;Na praia a espuma desmaia:&lt;br /&gt;jangadas voltando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os haicais de Sânzio seguem em sua maioria o padrão rimático do autor de Messidor, que defendia, nos final dos anos 30: haicai “é a poesia reduzida à expressão mais simples. Um mero enunciado: lógico, mas inexplicado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMANTISMO&lt;br /&gt;Sozinho na rua,&lt;br /&gt;um bardo, moço e galhardo,&lt;br /&gt;faz canções à lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São haicais plenos de leveza e significância. Sânzio faz deste laborar métrico um rico jogo de possibilidades. Em muitos deles, a presença elíptica do poder sugestivo, a flagrância branda do acento filosófico, travestido em diferentes feições, o aparente simples a encobrir o complexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TITANIC&lt;br /&gt;No fundo do oceano,&lt;br /&gt;só resta a sobra da festa&lt;br /&gt;e do orgulho humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano de 2006 foi o do quadragésimo aniversário do lançamento do primeiro livro de poesias de Sânzio de Azevedo, e ele resolveu nos presentear com um buquê de esmerados haicais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VELHA IGREJA&lt;br /&gt;Tange ao longe o sino.&lt;br /&gt;O templo resiste ao tempo&lt;br /&gt;no alto da colina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a leitura de Lanternas Cor de Aurora, uma certeza: apesar de todo o barulho da dita modernidade literária, sem cor, sem gosto e sem brilho, há um poeta que tange o belo sino da lírica, resistindo ao tempo no alto da colina, no templo da poesia. E que poeta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CEARÁ&lt;br /&gt;Declama um poema&lt;br /&gt;a onda que sobe, estronda&lt;br /&gt;e ecoa: Iracema!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clauder Arcanjo – Professor&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:clauder@pedagogiadagestao.com.br"&gt;clauder@pedagogiadagestao.com.br&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EDUARDO LUZ*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUE É TEORIA DA LITERATURA E POR QUE ESTUDÁ-LA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“A teoria é uma escola de ironia.” (Antoine Compagnon)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Desde a virada do século XXI, todo professor de Teoria da Literatura já teve de enfrentar esta angustiada pergunta: “Por que se estuda Teoria da Literatura?”. Tendo espírito, o mestre inclina-se a responder à Sócrates, que, condenado à morte, aprendia a tocar lira. Interrogado da razão de estudar o instrumento naquela circunstância, Sócrates teria respondido algo assim: “Para saber”. Machado de Assis, já desenganado pelos médicos, começou a aprender grego. Possivelmente, o Bruxo responderia como Sócrates àquele que estranhasse sua curiosidade intelectual, estando à beira da morte. Nosso professor de Teoria, no entanto, sabe que dificilmente deixaria satisfeito seu aluno, ao mostrar-lhe que é interessante conhecer o que não se sabe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente – ou não – essa pergunta seguramente não se articularia com freqüência em 1962, no Brasil, quando a Teoria da Literatura foi introduzida no currículo do Curso de Letras. O termo “Teoria da Literatura” parece ter sido motivado pelo título do livro homônimo do austríaco René Wellek e do norte-americano Austin Warren, publicado em 1949. Embora o termo, em si, já houvesse sido usado em obras anteriores, credita-se o nome da disciplina ao nome do livro pela enorme repercussão que ele obteve, devida essencialmente a seu mérito em articular as contribuições mais distintas de que era alvo a literatura e em apresentá-la como passível de apreciação intelectual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Teoria da Literatura conforma-se, como disciplina, tendo por objeto o fato literário em toda a sua pluralidade e buscando um sistema de teorias a partir das constantes que há nesses fatos, com o fim de que o fenômeno literário pudesse ser analisado de forma rigorosa, conceitual (estruturas, critérios, categorias...) sem dogmatismos, por princípio – a Teoria da Literatura é, em essência, receptiva à reflexão... e à auto-reflexão. Nasce, portanto, com essa dupla aspiração: objeto delimitado e método científico, com valorização, sobretudo, da lingüística. Wellek e Warren chamaram-na “um órganon de métodos”. Tomada como indispensável à formação literária da época, encantava os jovens estudantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vítor Manuel de Aguiar e Silva, no seu clássico Teoria da Literatura, cuja primeira edição é de 1967, ao inserir a disciplina entre as ciências do espírito, já registrava, no entanto, que não se deveriam esperar dela a objetividade, o rigor e a exatidão característicos das ciências da natureza. Sendo problematizadora da literatura, a Teoria haveria de problematizar-se. Aos poucos, dobrando-se sobre ela mesma, fez manifestar sua natureza questionadora das verdades preconcebidas que habitam o ambiente literário... e as ilusões confortáveis começaram a não instalar-se mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos anos 60 e 70, havia convicções que permitiam caracterizar a literatura e seus métodos de estudo; elas respondiam pelo prestígio que a disciplina detinha. Foi gradual a revelação dos desdobramentos que estas duas características centrais da Teoria gerariam: interdisciplinaridade e auto-reflexividade. Já em 1969, sugeria-se aos estudantes de Harvard que substituíssem seu Theory of Literature, de Wellek e Warren, por títulos de Freud, Marx e Nietzche, e os departamentos de Letras, nos Estados Unidos, trocaram os estudos intrínsecos da literatura por investigações mais contextualizadas pela história e pela cultura. Nasce daí uma superabundância de ofertas analíticas que dificultarão (ou mesmo impossibilitarão) qualquer tipo de mapeamento. Transformações mais incisivas manifestaram-se nos anos 80 e 90, quando ganham corpo, no ambiente acadêmico, os chamados Estudos Culturais. Eles refletirão o avanço das idéias pós-modernas, que têm alargado o corpus dos estudos literários, ao pluralizar possibilidades inter e transdisciplinares e ao abordar temas bloqueados, no rumo da desconstrução das verdades absolutas. Toda essa movimentação favoreceu a emergência de estudos sobre a literatura das minorias, nos quais se revelam os traços da identidade cultural desses grupos. A Teoria encaminha-se para tornar-se reflexão de práticas culturais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim dos anos 1990, lia-se e ouvia-se, cada vez mais freqüentemente, o termo “teoria”, em detrimento do “teoria da literatura”. Questões não-literárias haviam invadido o campo dos estudos literários, desafiando a tradição. Jonathan Culler, um dos mais brilhantes críticos literários da atualidade, abona a institucionalização do nome “teoria”, em razão de – no ambiente da matriz literária de origem – já estar estabelecida a prática acadêmica de explorar incontáveis disciplinas: Antropologia, História da Arte, Cinema, Estudos de Gênero, Teoria Política, História Cultural, Psicanálise... Isso levou a Teoria a um ponto em que sua apreensão plena tornou-se inimaginável. “A teoria é intimidadora”, afirma Culler, porque manobra um conjunto de discursos que cresce assombrosamente, de tal modo que a idéia de dominar esse corpus tende a causar um efeito paralisador naqueles que lidam com ela. Se esses textos, hoje, ainda estão ligados a uma teoria “literária” é porque o estudo deles oferece novas explicações para problemas de natureza textual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jonathan Culler apresenta-nos quatro pontos que estão reorientando a disciplina:&lt;br /&gt;“1. A teoria é interdisciplinar – um discurso com efeitos fora de uma disciplina original.&lt;br /&gt;2. A teoria é analítica e especulativa – uma tentativa de entender o que está envolvido naquilo que chamamos de sexo ou linguagem escrita ou sentido ou sujeito.&lt;br /&gt;3. A teoria é uma crítica do senso comum, de conceitos considerados como naturais.&lt;br /&gt;4. A teoria é reflexiva, é reflexão sobre reflexão, investigação das categorias que utilizamos ao fazer sentido das coisas, na literatura e em outras práticas discursivas.” (CULLER, 1999, p. 23)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expliquemos mais detalhadamente: 1. A teoria, hoje, contribui para a geração de sentidos e a construção de identidades, num ambiente de globalização dos bens culturais; 2. A teoria é analítica porque promove análise de conceitos que o discurso literário ajudou a conformar como naturais; e é especulativa porque essa análise não pressupõe hipóteses definitivas, absolutas, quando se analisam aqueles conceitos; 3. A teoria questiona noções de senso comum, ou seja, aceitas como senso comum, tomadas como naturais – quando, em verdade, resultam de circunstâncias históricas, culturais; 4. Reflexiva, a teoria acaba por fazer-nos pensar sobre as categorias que usamos costumeiramente para refletir (inclusive sobre literatura); o antropólogo Clifford Geertz diria assim: “Algo está sucedendo com a maneira como achamos que pensamos.” (GEERTZ, 1997, p.34-35)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, podemos voltar àquela pergunta que está lá no início, formulada pelo estudante a seu mestre: “Por que se estuda Teoria da Literatura?”. Tentemos encontrar uma boa resposta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendemos que o valor da Teoria reside no processo de repensar categorias que comumente usamos para estudar a literatura; e entendemos, também, que a função da Teoria é redesenhar continuamente o campo dos objetos de sua reflexão. A Teoria é, enfim, uma forma de aprender criticamente, o que implica, de modo inevitável, perda de ingenuidade. Isso gera dois sentimentos opostos: um de desencanto, pela percepção da impossibilidade de um saber sólido, linear; mas também um outro, de êxtase, ante as infinitas reflexões que se disponibilizam. Estudar Teoria é como tudo na vida pode ser: bom ou ruim. O professor deverá encaminhar sua resposta para o campo do prazer que a especulação intelectual gera... mesmo num mundo tão pragmático. Se o estudante souber acolher a resposta do mestre, estará acolhendo também o convite que Culler lhe faz, ao fim do prefácio de seu Teoria Literária: “Divirta-se!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: UFMG, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EAGLETON, Terry. Depois da teoria: um olhar sobre os Estudos Culturais e o pós-modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GEERTZ, Clifford. O saber local. Petrópolis: Vozes, 1997.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. 9.ed. São Paulo: Ática, 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;WELLEK, René, WARREN, Austin. Teoria da Literatura. Mira-Sintra: Europa-América, s.d.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Eduardo Luz é professor da Universidade Federal do Ceará, na área de Teoria da Literatura. Também ensina Literatura Cearense. Tem quatro romances publicados.&lt;br /&gt;**********************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enéas Athanázio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NINGUÉM CONHECE UM PAÍS ASSIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é sabido, a França fascinou gerações de intelectuais brasileiros e para muitos foi a segunda pátria ou a pátria intelectual. Mas, em sentido oposto, o Brasil também tem exercido forte fascínio sobre intelectuais de língua e formação francesas, como foi o caso do franco-suíço Frédéric Sauser, que adotou o nome de Blaise Cendrars (1887/1961), apaixonado pelo nosso país, sobre o qual muito influiu e, em contrapartida, foi influenciado pelo resto de seus dias. Misto de escritor, poeta, aventureiro e andarilho, ele se ligou ao Brasil de forma definitiva e foi um de seus grandes divulgadores na Europa. Só não realizou mais porque as cir
